sexta-feira, 19 de junho de 2015

Pataquadas no estrangeiro

Por Fenando Castilho


Aroeira
Antes de tudo, convém esclarecer alguns fatos aos mais apressados, que poderão alegar que existe uma ditadura na Venezuela.

1 - Nicolás Maduro venceu seu opositor Henrique Capriles em uma eleição apertada (50,61% a 49,12% ), mas venceu.

2 - Capriles exigiu ao CNE "que se abram todas as urnas e que cada voto seja contado um por um. O povo venezuelano merece respeito. A voz do povo é sagrada para mim".
Diante das queixas da oposição de que teria havido irregularidades durante a votação, que se ouviram todo o dia, o próprio Maduro pediu às autoridades que realizassem uma auditoria. "Estejam certos de que se o CNE anunciasse que tinha perdido por um voto, eu teria aceite com coragem. Não duvidem que o teria feito", acrescentou, apelando a que a oposição reconheça o resultado. A auditoria confirmou o resultado.

3 – O ex-presidente norte-americano não bolivariano Jimmy Carter atestou que o processo eleitoral na Venezuela é considerado o melhor do mundo. Carter coordena uma instituição de monitoramento de eleições ao redor do mundo há mais de uma década.

4 – Há liberdade de impresa na Venezuela, atestada por inúmeros jornais, revistas e televisões que todos os dias fazem dura oposição a Maduro.

5 – Os Estados Unidos empreendem uma guerra midiática contra a Venezuela, na intenção de enfraquecer o governo e fortalecer os golpistas por causa de seu interesse no petróleo, uma vez que foi na gestão de Hugo Chavez que os preços dos barris, que eram baixíssimos para os americanos, foram majorados ao ponto de corresponderem aos atuais valores de mercado da OPEP.

Dito isto, é hora de tentar explicar o inexplicável: como um grupo de senadores brasileiros vai a Venezuela se entrevistar Antonio Ledezma e Leopoldo López e "pressionar" o governo do presidente Nicolás Maduro a favor da libertação dos dois? Ledezma, prefeito da grande Caracas, está em prisão domiciliar acusado de participar de uma tentativa de golpe contra o governo e Leopoldo López, líder dos protestos de 2014 em Caracas, preso sob as acusações de terrorismo, e homicídio de 43 pessoas.

O que senadores brasileiros têm a ver com o que acontece em outro país?

Por acaso agora viraram defensores dos direitos humanos?

Se este é o caso, por que não foram antes à Guantánamo onde estão centenas de presos há anos pelos Estados Unidos, sem acusação formal, julgamento, e sem direito a defesa?
Por que não foram à Rússia se solidarizar com Edward Snowden, guardado com toda segurança por Putin?

Por que não foram se entrevistar com Julian Assange, asilado há anos na embaixada do Equador na Inglaterra, impedido de sair, pois seria assassinado na porta?

Estes e outros casos não sensibilizam esses neo-humanistas?

Todos os integrantes do grupo, desde Aécio até Caiado, respondem atualmente a processos na Justiça. Caiado tem seu nome citado em vários escândalos de trabalho escravo em suas fazendas. Aécio, além do aeroporto de Claúdio, responde a processo de desvio de bilhões da Saúde em Minas e é conhecido por perseguir jornalistas que lhe fazem críticas. Todos já foram citados como cerceadores da liberdade de imprensa.

A empreitada já deu ares de falcatrua ou factoide desde que O Globo publicou que o governo da Venezuela estaria negando autorização para pouso da comitiva.

O grupo pediu autorização para pouso de uma aeronave Legacy da FAB!

Cabe aqui uma crítica a esse republicanismo trouxa de Dilma Rousseff. Onde já se viu, para que não fosse criticada pelos senadores e pela mídia, ceder um avião da FAB? Não somos nós que, através de nossos impostos custeamos esses aparelhos? Como podem senadores, não a presidenta, viajarem de FAB para outro país, para se encontrarem com terroristas?

Mas era apenas o primeiro factoide. O governo da Venezuela estava apenas estudando o caso, uma vez que se tratava de entrada em solo de uma aeronave do exército de outro país.

Ao ler tudo isso, antes do restante dos fatos, este blogueiro já imaginava que o grupo iria, de qualquer forma produzir um factoide. Aprontar alguma. Talvez engessar um braço e no dia seguinte aparecer com o outro braço engessado, como fez o revoltadão. Que interessava visitar um golpista? Nada. O interesse era no factoide.

O governo da Venezuela, também suspeitando da criação do factoide, convidou algumas pessoas de esquerda, entre elas o escritor Fernando Morais, para também pousarem em Maiquetia, para que pudessem ser testemunhas do que viesse a acontecer. Cabe lembrar que este grupo não foi com avião da FAB.

E conseguiram o factoide.
O aeroporto de Maiquetia dista 40 km de Caracas. Ao desembarcar, o grupo entrou em uma van em direção a Caracas. Havia um congestionamento que impediu a van de se deslocar. Isso acontece no mundo todo, mas para os oposicionistas era ordem de Maduro. Era preciso aguardar.

Um grupo de manifestantes pró Maduro se aproximou da van e começou a xingar os senadores e a bater com as mãos no veículo.

Aécio e seus colegas se amedrontaram e fugiram de volta para o Brasil. Relataram a mídia seu veemente repúdio. Esqueceram-se das manifestações contra Dilma ocorridas no começo do ano, das quais foram apoiadores. Esperavam que milhões de manifestantes, segundo a Polícia Militar, os apoiaram.

É preciso lembrar que o deputado federal João Daniel (PT/SE) chegou a Caracas em vôo particular, tendo que pacientemente aguardar 4 horas para chegar a Caracas.

Ou seja, Aécio poderia ter aguardado. Conseguiria sua entrevista com Lopez. Mas seu objetivo já havia sido alcançado.

A mídia não falou em outra coisa durante todo o dia. Colunistas escreveram textos indignados, fieis a seus patrões. Reacionários irados comentaram nos jornais sobre a ditadura sangrenta da Venezuela. A Veja deverá dedicar toda a sua edição de domingo ao caso.

Se havia um segundo objetivo, o de atingir Dilma, este não foi alcançado pois não dá para ligar uma coisa a outra. Mas cobram uma atitude de Dilma! Como?

Resta saber qual seria a intenção da Venezuela, que quer demonstrar ao mundo que não é aquele bicho-papão que os americanos pregam, em se caracterizar como intolerante, anti-democrática, censora, sem papel higiênico, etc.. Nenhuma, convenhamos. Muito pelo contrário, pois a propaganda é a alma do negócio. Isso vale também muito em política.

Como explicar que um homem que acaba de perder uma eleição presidencial, lidera um grupo que vai a um outro país fazer política?

Bem que o PSDB, já percebendo o estrago que o homem faz nas suas fileiras, já tratou de isolá-lo. Uma senadora já saiu do partido indignada com Aécio. Até o Alckmin já foi escolhido como próximo candidato à presidência.

Como agora livrar o Brasil de ser chacota internacional?

O que Aécio e seu grupo de fichas sujas fizeram foi somente se colocar como uma das maiores piadas brasileiras de todos os tempos.

Não percebe o quanto isso, ao invés de fortalecer a oposição no Brasil, apenas a enfraquecem.

Ficarão na história.








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