segunda-feira, 29 de maio de 2017

Sr. Doria, São Paulo não é uma padaria!

Por Fernando Castilho

Foto: Nilton Fukuda



Serão os dependentes internados num estabelecimento, à semelhança dos antigos manicômios, destinados somente a retirar de circulação e da vista de todos pessoas, feias, sujas e miseráveis?

João Doria Jr. foi eleito prefeito da cidade de São Paulo com a promessa de, ao invés de fazer política, ser um gestor.

Obviamente, Doria, como todo empreendedor de visão, captou que o mercado de eleitores estava cansado de seus governantes metidos em negócios escusos com denúncias e delações surgindo a todo instante e que havia um nicho importante que não devia ser desprezado. Bingo! Foi eleito.

Uma vez na prefeitura, Doria começou a fazer exatamente aquilo que alguém faz quando compra uma padaria, um açougue ou qualquer outro negócio: coloca uma faixa de “SOB NOVA DIREÇÃO”, simbolizada nos adesivos de “CIDADE LINDA” e tratou de pintar a fachada do estabelecimento, cheia de pichações, varrer e lavar tudo.

Isso deu muita visibilidade ao estabelecimento e ao seu novo gerente. Ações de marketing que impactaram.

Porém, Doria se deparou com aquilo que ele considerou tralhas e que estavam num setor pouco utilizado do estabelecimento só para atrapalhar e enfeiar: os dependentes químicos. E ele queria muito passar a ganhar mais dinheiro com esse setor.

Então o gestor resolveu começar uma reforma mesmo sem antes ter tirado a tralha e jogado fora.

A tralha então foi espalhada pelas calçadas e chamou a atenção dos vizinhos que começaram a reclamar.

A metáfora pode ser meio esquisita mas não é muito forçada.

A cidade de São Paulo não é uma padaria e não pode ser administrada como se fora.

A difícil questão dos dependentes químicos da Cracolândia já teve várias abordagens pelo poder público. Devemos lembrar que Gilberto Kassab criou a denominada Operação Sufoco, descrita pelo coordenador de políticas de drogas da cidade como uma tentativa de cortar o fornecimento de drogas aos usuários. O objetivo seria "causar "dor e sofrimento" o suficiente para forçá-los a procurar tratamento.

Antes dele, José Serra em sua curta passagem pela prefeitura, também tratou o problema como uma simples questão de polícia com resultados pífios.

Após tantos anos de falta de vontade política, chegamos ao Programa Braços Abertos de Fernando Haddad que, se não chegou a resolver o problema, conseguiu o feito de recuperar uma parte dos dependentes, tratando-os com a dignidade que precisavam para começar a mudar de vida.

Inspirado pelo sucesso de programas similares na Holanda e Canadá, os cerca de 400 participantes da Braços Abertos recebiam US $ 6,50 por dia em troca de quatro horas de trabalho na limpeza de parques e outros locais públicos. Todos recebiam ainda refeições regulares e habitação em hotéis locais.

Quem teve forças conseguiu sair da Cracolândia. Quem não teve voltou ou nem saiu.

Mas o programa foi encerrado por Doria que achou que demolindo hotéis na Cracolândia, mesmo com pessoas dentro, fechando bares que não tinham autorização de funcionamento sem aviso prévio e expulsando os dependentes com força policial, resolveria o problema.

Ledo engano. E ele, se fosse um homem preparado, não deveria errar.
Agora o gestor decide internar, usando um eufemismo, compulsoriamente os dependentes.

Para surpresa do alcaide, não há estabelecimentos com vagas suficientes para internação, o que só demonstra que ele trabalha sem planejamento algum.

Além disso, o que esperar de uma internação compulsória?

Serão os dependentes internados num estabelecimento, à semelhança dos antigos manicômios, destinados somente a retirar de circulação e da vista de todos pessoas, feias, sujas e miseráveis?

A isso chamamos higienização social e até mesmo eugenia.

Já vimos isso acontecer antes e os resultados não foram nada bons.

O pior de tudo é que Doria jamais mudará sua maneira de pensar e agir. Não nasceu pra coisa pública.

Doria é um estranho no ninho na prefeitura. Achou que administraria a cidade como se fosse uma de suas empresas. Não teve nem tato para demitir sua Secretária Soninha Francini. Sua vocação mesmo é ser empresário. Em suas empresas ele pode mandar e desmandar à vontade.

Mas na cidade de São Paulo, não.




segunda-feira, 8 de maio de 2017

Sobre o espetáculo de 10 de maio

Por Fernando Castilho



Moro não hesitará em apelar para o vale tudo, já que nas encaradas preliminares já desrespeitou inúmeras regras consubstanciadas na nossa Constituição Federal, no Código Penal e no Código de Ética da Magistratura, tudo sob os olhares complacentes do Supremo, aquele Supremo que Lula qualificou eufemisticamente como acovardado mas que se revela na verdade cúmplice do golpe, desde sempre.

Dia 10 próximo deve ocorrer o depoimento de Lula ao juiz Moro.

O que todo mundo sabe ficou revelado nas capas das revistas de final de semana que mostram Moro em contenda com Lula, o que é incompatível com o cargo de juiz. Pior é que ele ostenta as cores do PSDB, que sempre lhe caíram bem.

O que essas capas não revelam é que só o contendor Moro tem poder institucional para vencer a luta. Portanto, a luta é desigual, afinal Moro é Lutador e juiz ao mesmo tempo.

E Moro não hesitará em apelar para o vale tudo, já que nas encaradas preliminares já desrespeitou inúmeras regras consubstanciadas na nossa Constituição Federal, no Código Penal e no Código de Ética da Magistratura, tudo sob os olhares complacentes do Supremo, aquele Supremo que Lula qualificou eufemisticamente como acovardado mas que se revela na verdade cúmplice do golpe, desde sempre.

Há torcida dos dois lados.

A da direita quer a condenação de Lula mesmo sem provas. São, via de regra, pessoas desinteressadas do Estado de Direito, afeitas a pré julgamentos apressados, que subornam o guarda e são, por isso, hipócritas. E mais, não percebem que é ele, justamente Lula, disparado nas pesquisas para 2018, o único nome capaz de tirar o país dessa crise econômica e política, pelo seu poder de negociação com todos os setores. E que é Lula o único capaz de repor os direitos sociais que estão sendo subtraídos dos pobres de direita, inclusive.

A da esquerda, embora sempre haja um Psol a fazer o jogo da direita e uma Rede oportunista preocupada somente em eleger a fadinha, defende a Democracia e o Estado de Direito, conquistados a duras penas e exigem provas para que Lula seja condenado.

E tudo por causa de um apartamento tríplex que não é dele e que se fosse, teria condições de compra.

Tivemos que, com vergonha alheia, ler numa entrevista o decano ainda vivo da corrupção, Paulo Maluf, eterno ícone dos coxinhas, fazer chacota ao afirmar que o tríplex é apenas três Minha Casa Minha Vida em cima do outro!

Dia 10 de maio o país entra num Fla-Flu em que o juiz entra em campo para anular todas as faltas contra Lula, anular todos os pênaltis e ainda fazer gols.

Como se não bastasse, o juiz-boxeador ainda se dirige à torcida antes da luta para pedir que não compareçam ao ringue, certamente porque nessas ocasiões a torcida é sempre pelo mais prejudicado pelo juiz e pode fazer a diferença, até virando o jogo.

Além disso, sabemos do poder de articulação de palavras de Lula, como ficou demonstrado inúmeras vezes, embora saibamos que o depoimento vazará para a Globo que o editará da maneira que mais lhe convier para o Jornal Nacional.

Então, como vejo o próximo dia 10?

Não é somente o bom depoimento de Lula que está em jogo, mas muito mais do que isso, é parte do contra-golpe que iniciou no dia 28 passado.

É o início do fim do governo golpista e de suas tramoias para acabar com os direitos sociais dos brasileiros, conquistados a duras penas.

É o início da retomada da Democracia que nos foi suprimida.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

Do risco de sermos injustos

Por Fernando Castilho



Neste momento, mais que julgar sem ter atribuição para isso e o devido conhecimento acerca do que está sendo divulgado, devemos ter equilíbrio, sensatez e paciência sob pena de cometermos injustiças e assassinatos de reputações.

Sobre o tsunami que devastou a classe política esta semana.

1 – A lista de Fachin, oriunda de delações de executivos da Odebrecht em que cita um grande número de políticos, pode estar misturando os culpados de sempre com gente que até outro dia possuía uma biografia sem reparos. Temos que ter cuidado para não destruirmos reputações injustamente.

2 – As delações precisam ser provadas para que possam se constituir em elementos hábeis a condenar. Portanto, até que se prove o contrário, todos, de direita e de esquerda.

3 – Marcelo Odebrecht, um homem milionário, habituado a viver como um príncipe, está preso preventivamente há 2 anos em uma cela com privada turca e banho frio. Normalmente, um homem desses, cuja ética não é um de seus maiores valores, submetido a uma provação dessas, não hesitaria em delatar qualquer um para livrar seu pescoço. Portanto, cuidado para não pré julgar.

4 – Todas essas delações que tomaram vários dias de Jornal Nacional, foram vazadas em pleno arrepio da lei, o que normalmente as tornariam ilegais. Ainda por cima, uma delação foi vazada em tempo real para o site Antagonista, sob olhares do juiz Moro que não fez caso da denúncia.

5 – Emílio Odebrecht denunciou a hipocrisia da imprensa que há 30 anos pelo menos, como todos nós, aliás, sabe que caixa 2 para candidaturas existe. A Rede Globo tenta parecer antisséptica no meio de uma sujeira da qual ela própria participa desde que conseguiu seu enorme upgrade ao apoiar a ditadura. Além disso, deve uma fortuna à Receita Federal.

6 – Fica fácil à primeira vista responsabilizar o candidato pelo caixa 2. Porém, quem já acompanhou campanhas eleitorais sabe que a captação de recursos, sejam eles caixa 1 ou 2, cabe aos tesoureiros dos partidos que viabilizam essas campanhas. Portanto, devagar com o andor ao culpar os políticos.
É preciso que se investigue a participação direta deles.

7 – O Jornal Nacional, principal órgão de imprensa que se apropria de corações e mentes de todas as classes sociais, ocupa mais da metade de seu tempo tentando incriminar Lula, omitindo que Marcelo Odebrecht afirmou que o ex-presidente nunca lhe pediu dinheiro. Sobre Dilma, o JN afirma que ela foi citada mas esconde que Marcelo disse que a empresa tinha enorme dificuldade em se aproximar dela. Portanto, não há nada contra Dilma.

8 – Enquanto o JN incrimina Lula sem provas, Temer, Aécio e Serra que já têm inúmeras provas contra eles, continuam sendo poupados pelos jornais.

9 – Percebe-se que o ataque a Lula vem muito mais da imprensa que, sem cessar, rumina trechos editados, do que das delações.

10 – A intenção desse enorme teatro montado é dar fundamento a Moro para que este mande prender Lula preventivamente antes de seu depoimento em 3 de maio, esfriando assim a caravana que a esquerda prepara para esse dia.

Portanto, caso isso aconteça, estejamos preparados.

domingo, 2 de abril de 2017

Por que 3 de maio é o dia D?

Por Fernando Castilho


Foto: Ricardo Stuckert


Moro quer e TEM que condenar Lula em primeira instância. A ele foi dada essa missão pelo imperialismo americano e ele haverá de cumpri-la até porque é o que grande parte da população brasileira de direita anseia.


Em tempos de modernidade líquida na política brasileira, fica extremamente difícil fazer uma análise de conjuntura sem que já na próxima semana ou mesmo nos próximos dias ela caia por terra devido a fatos novos que aparecem.

Ficou escancarado para a direita que, segundo pesquisas recentes, Lula é disparado o nome favorito para a presidência em 2018.

Mas vejamos, o presidente golpista Temer, apesar de correr o risco de ser cassado pelo TSE, dará um jeito de prorrogar sua saída para depois das eleições em 2018. Portanto, somente sua renúncia poderia tirá-lo do poder agora.

Apesar de não ter aprovação quase que nenhuma do povo brasileiro, parece que ele, incumbido pelo imperialismo, da missão de rapidamente destruir todos os programas sociais, resistirá bravamente.

Se não resistir, haverá eleição indireta e ele poderá se candidatar com a certeza de vencer já que nosso congresso faz o mesmo jogo. A menos que o TSE o declare inelegível. Daí as eleições deverão ser diretas e Lula não deverá ser candidato a um mandato tampão curto.

Moro quer e TEM que condenar Lula em primeira instância. A ele foi dada essa missão pelo imperialismo americano e ele haverá de cumpri-la até porque é o que grande parte da população brasileira de direita anseia.

Se condenado for, Lula apelará para a segunda instância, na qual, claro, o circo já estará armado para, em rito sumário, prendê-lo.

Pelo menos é o que me garantiu um juiz federal que conhece Moro e os demais juizes de segunda instância. Não duvido dele.

Alguém perguntará, como eu perguntei: e as provas?

Não, não haverá necessidade disso, já que estamos num estado de exceção e desta forma, a decisão de um juiz será o que valerá.

Mas caso Moro não consiga seu intento, Lula disparará na campanha, pelo menos até a direita passar a bola para outra grande força política do Brasil.

A grande mídia tornará a vida de Lula um inferno. Se sempre foi difícil para Lula, imagine o quanto ficará.

Ilações e mentiras se transformarão em grandes escândalos diariamente no Jornal Nacional para que sua imagem seja estraçalhada perante o eleitor.

Mas a falta de adversários beneficiará Lula.

A principal força política concorrente do PT, o PSDB, está em guerra e não tem mais nomes que a população possa apoiar.

Aécio, Serra e Alckmin estão sem nenhuma credibilidade segundo as pesquisas de opinião.

Nesse vácuo surgem nomes de aventureiros como João Doria, o prefeito de São Paulo que até agora, três meses depois de assumir o poder, só fez marketing e não administrou a cidade.

Assistimos outros, como Huck e Justus se apresentarem sem nenhum pudor, como se qualquer um pudesse de repente se arvorar na condição de governar um país tão grande e desigual como o Brasil.

Muitos podem temer uma vitória de Bolsonaro mas é preciso lembrar que ele não tem tantos votos entre as mulheres, os gays e negros como entre os homens brancos, héteros e incultos.

Portanto, depende de Moro a vitória de Lula em 2018.

Por que Moro ainda não condenou Lula?

Por que 73 testemunhas o inocentaram no caso do tríplex?

Ingenuidade.

Ele está observando as manifestações e monitorando a mobilização da população como um termômetro. Quando o momento for favorável, ele condena.

Dia 3 de maio Lula irá a Curitiba para ficar frente a frente com Moro para depor.
Caso tudo transcorra normalmente, podem escrever, Lula já era.

Caso haja realmente a mobilização que está sendo convocada para defender o ex-presidente e esta for de peso, Moro recua.

Portanto, depende de todos nós que pudermos estar em Curitiba dia 3 maio influir sobre a sorte de um homem que tirou 30 milhões de pessoas da miséria e que não cometeu crime algum.

Depende de nós inocentar Lula para que ele, uma vez investido de maneira legítima novamente ao poder, possa ter a chance de anular todo esse estrago cometido pelo governo golpista e conduzir o país de volta ao crescimento.

3 de maio é o Dia D para Lula e para o povo brasileiro.


terça-feira, 28 de março de 2017

Precisamos reagir impávidos como Muhammad Ali

Por Fernando Castilho




Temer tem muita pressa. Por isso, as medidas contra o povo brasileiro vêm numa sequência de golpes como naquela luta.

Acusamos o golpe, fomos a lona e agora ensaiamos levantar enquanto o juiz conta 6, 7, 8...


Lembro-me de uma luta de Muhammad Ali, semelhante a muitas cenas de filmes de lutas. O adversário consegue pegar o herói desprevenido e aplica-lhe vários golpes até que este cai na lona. O juiz então conta até dez. No nove, nosso herói se levanta e dá o troco derrotando o adversário.

Após Dilma Rousseff ter sido apeada do poder por um golpe parlamentar, seu vice, Michel Temer assumiu o governo com a missão de nocautear a esquerda, os programas sociais e devolver o país aos seus antigos donos, a elite que sempre mandou por aqui desde o descobrimento.

E Michel, como aquele adversário do filme, veio com todo seu ímpeto.

Michel congelou o salário mínimo e os investimentos em Saúde e Educação por 20 anos, o que beneficia os planos de saúde e as empresas de educação privada.

O golpista quer a reforma da Previdência cujos maiores interessados são os bancos que passarão a lucrar ainda mais com seus planos de previdência privada.

Temer sanciona a nova lei que implantará a terceirização total, enriquecendo as empresas que terceirizam mão de obra.

Particularmente, esta terceirização atingirá o estômago dos sindicatos que, perdendo sua razão de existir, se desmantelarão.

O trabalhador terceirizado não terá mais um sindicato a lhe dar apoio. Portanto, não terá mais a quem recorrer em caso de desrespeito aos direitos trabalhistas que se multiplicarão. Não poderá mais também se organizar nem participar de graves.

Em seguida, a CUT, a maior central de trabalhadores do Brasil que congrega 3500 sindicatos, perderá sua força e sua importância.

Quebrada a CUT, o PT, partido que tem enorme penetração junto à classe trabalhadora, deixará de ser o maior partido da esquerda brasileira e se diluirá entre os menores.
Ficaremos sem a esquerda.

A direita, então, reinará e implantará seu projeto de um Estado fascista, sem que haja oposição a isso.

Sem a esquerda, o imperialismo americano ficará livre para transformar o Brasil numa republiqueta a seu serviço.

Este é o grande projeto deste governo.

Ocorre que Temer tem muita pressa. Por isso, as medidas contra o povo brasileiro vêm numa sequência de golpes como naquela luta.

Acusamos o golpe, fomos a lona e agora ensaiamos levantar enquanto o juiz conta 6, 7, 8...

A pressa de Temer tem razão de ser. Ele sabe que tem pouco tempo. Sabe que vai cair pois não tem mais forças. Tem que derrubar a esquerda por nocaute.

Só com o povo maciçamente nas ruas, com as greves paralisando tudo e com a desobediência civil, conseguiremos nos reerguer e desferir um contra-golpe certeiro para derrubar esse regime espúrio e corrupto que se instalou no Brasil.

Pode esperar, Temer.

Estamos só começando a nos reerguer.

Impávidos que nem Muhammad Ali.



terça-feira, 7 de março de 2017

Tomei um choque de gestão

Por Fernando Castilho


Foto: autoria desconhecida


Tudo deteriorado, lixo pelas rampas. Os salões vazios e SEM as pranchetas. Infiltrações de água. Parece que houve uma guerra ali.

Ontem precisei ir à USP. Fazia décadas que não ia lá.

Fui de metrô desde a estação Campo Limpo e depois tomei o trem da CPTM até a estação Cidade Universitária.

Constatei o óbvio. E o óbvio ao vivo e em cores é particularmente cruel.

Saí às 9:30, justamente para não pegar o horário de entrada das pessoas no trabalho.

Mas não adiantou. Os trens saiam lotados. Imaginem às 7:00.

Nas estações o fluxo de pessoas a qualquer tempo era intenso. Um verdadeiro formigueiro humano.

Ao chegar à estação Cidade Universitária, cadê ela?

Ao pedir informações, me explicaram que teria que atravessar uma ponte e andar ainda um bocado para entrar no campus. A estação que deveria atender milhares de estudantes NÃO ENTRA no campus. Um absurdo de falta de planejamento.

Após finalmente chegar, outra surpresa: acabaram-se os ônibus circulares gratuitos que eu tanto utilizei no passado. Agora eles são de empresas comuns e são pagos.

Ao chegar à FAU, quase chorei de tanta tristeza com o cenário.

Tudo deteriorado, lixo pelas rampas. Os salões vazios e SEM as pranchetas. Infiltrações de água. Parece que houve uma guerra ali.

O barulho ensurdecedor de escola de samba ecoava nos corredores. Eram estudantes fantasiados e pintados como se fosse carnaval.

Estranhei, mas fui informado de que era preparação para os atos de protesto de hoje contra a PEC do fim da USP, que eu desconhecia. Palavras de ordem ecoavam.

A reitoria, no afã de cortar custos, vai demitir inúmeros funcionários e professores, além de reduzir drasticamente os recursos da universidade.

Trata-se do projeto de sucateamento levado adiante pelo eterno governo do PSDB, visando a privatização do campus.

Saí de lá sem ter cumprido o objetivo de minha visita e profundamente abalado.

Concluí, com enorme tristeza e revolta, que a população do Estado de São Paulo escolheu manter um governador que, se não odeia, sente enorme desprezo pelo povo paulista, uma vez que o submete a crueldade diária de ter que utilizar um meio de transporte projetado precisa e cirurgicamente para ele sofra e se mantenha colocado no seu devido lugar, que é o de pertencer eternamente à senzala e nunca sonhe sequer com sua ascensão social.

Concluí também, que esse governador odeia a Educação gratuita e não medirá esforços, não só para fechar escolas estaduais de ensino médio, mas também acabar com a universidade pública, projeto neoliberal por excelência.

Enfim, tendo voltado recentemente ao Brasil, sofro logo de cara na pele o choque de gestão dos tucanos, do qual havia me esquecido ao viver no exterior.

Pobre povo paulista e brasileiro.


domingo, 5 de março de 2017

LULA 2018! Será?

Por Fernando Castilho





Não posso negar que a grande habilidade política de Lula faz realmente a diferença, mas já está mais que provado que não é possível neste momento enfrentar a direita através do voto.

Lula 2018. Já tem mais de um milhão de assinaturas.
Mas o que isso significa realmente?

1 - Lula é um fenômeno de popularidade, querido por muita gente.

2 – A esquerda, principalmente o PT, já assimilou e aceitou o golpe. Não tem disposição de lutar pela recondução de Dilma ao poder, mesmo já tendo sido provada sua inocência e mesmo que o governo golpista esteja por um fio.

3 – Lula hoje lidera em todas as pesquisas e em todos os cenários. Ótimo! Porém, estamos há um ano e sete meses das eleições.

A cada subida de Lula, mais o juiz Moro ousa em sua obsessão para prendê-lo.

E a prisão de Lula não se daria por provas coletadas, mas sim pelo desrespeito à Constituição, marca registrada de Moro.

Quanto ao STF, este está metido até o pescoço no golpe e na Lava Jato. Não moverá uma palha.

4 – Caso Lula não seja preso, haverá tempo suficiente para que um ou mais escândalos sejam plantados, sabem, naquele estilo dos PM's que colocam algo dentro de uma mochila de um negro para prendê-lo ou matá-lo. A mídia se encarregará de dar ampla divulgação ao “fato”.

Lula pode não ser eleito e sua reputação, ainda por cima, destruída.

5 – Caso Lula seja eleito, não terá maioria no Congresso, portanto, não conseguirá governar. Além disso, todo aquele pacote de maldades como congelamento do reajuste do salário mínimo e dos investimentos em saúde e educação por 20 anos, bem como a reforma da previdência e do ensino médio, além da terceirização, não poderá ser revertido, uma vez que depende de aprovação do Congresso, cuja maioria Lula não terá.

Portanto, meus amigos, acho muito lindo desejar a volta de Lula em 2018, mas também acho de um romantismo e de uma ingenuidade muito grandes.

Não querem lutar, preferem institucionalizar o golpe.

Preferem passar uma borracha em tudo e sonhar que tudo vai se resolver com a volta de Lula, pura e simplesmente.

Não posso negar que a grande habilidade política de Lula faz realmente a diferença, mas já está mais que provado que não é possível neste momento enfrentar a direita através do voto.

Já não há nenhum pudor nos poderes executivo, legislativo e judiciário. Já perderam, devido à falta de resistência ao golpe, toda a vergonha em explicitar diariamente sua cafajestagem.

Não estamos mais no Estado Democrático de Direito.

E esperar que as leis se cumpram é acreditar em Papai Noel.

É preciso, meus amigos, infelizmente, que a população pobre deste país sofra e sinta na pele os malefícios que a direita lhe impõe para que venha do seio desse povo a necessidade de luta. Isso ainda vai levar algum tempo. Há uma anestesia geral, eu sinto
.
Aí sim, havemos de aglutinar forças que podem colocar Lula, ou quem ele venha a apoiar, no poder.


sábado, 4 de fevereiro de 2017

FHC, um último ato de decência

Por Fernando Castilho


Foto: Ricardo Stuckert


Lula o recebeu com um abraço fraternal, daqueles velhos tempos, esquecendo-se de toda injustiça e maldade que o senhor tem praticado contra ele. Todos vimos as fotos.


Caro Fernando Henrique Cardoso.

O senhor foi, ao lado de Lula e de outros, importantíssima voz na luta pela volta da Democracia ao participar das Diretas Já.

Apareceu em várias fotos ao lado de Lula. A esquerda com um intelectual e um operário unidos, enfim estava bem representada.

Mais tarde, ao assumir a presidência do Brasil, o senhor nos orientou a esquecer tudo aquilo que escrevera (alguma coisa era plágio mesmo e deveria ser esquecido).

O recado estaria mais completo se o senhor pedisse também que esquecêssemos seu posicionamento à esquerda dos tempos da USP, pois o senhor se tornou neoliberalista, passando para o lado escuro...

Tudo bem, Fernando Henrique, as pessoas mudam mesmo com o tempo.
Mas, com quantos anos o senhor está mesmo? Ah, 85 anos. Bem vividos, decerto.

Fernando, o senhor conhece muito bem Lula, não?

O senhor sabe que ele não é culpado das acusações que Moro lhe impinge, não sabe?

O senhor, como Lula, também foi obrigado a ser fiel depositário dos presentes que ganhou durante seu mandato, mas nem por isso foi a Moro para explicar ao juiz os trâmites burocráticos próprios dessa situação.

O senhor, assim como Lula, criou seu instituto após terminar o mandato e dá palestras recebendo pagamento justo por elas, mas nem por isso se dispôs a ir a Moro dizer que esse procedimento é normal.

Não, o senhor preferiu, num artigo escrito para a Folha de São Paulo, afirmar que as acusações que pairam sobre Lula são gravíssimas e que ele teria que provar sua inocência diante de Moro.

O senhor não é amigo dele. Amigos socorrem amigos.

O senhor sabe que ele é inocente, não sabe?

Afinal, o senhor também foi presidente, lidou com o Legislativo e o Judiciário, conhece todo mundo que divide o poder no Brasil. Sabe quem são os verdadeiros corruptos, inclusive, de seu partido.

O senhor sabe que a esposa de Lula, Marisa Letícia, pode ter sofrido o AVC devido à insuportável pressão que Lula, ela e seus filhos vêm sofrendo há 3 anos, pela perseguição implacável de Moro, não sabe?

Pois o senhor foi ao hospital em que Marisa jazia já morta, para oferecer suas condolências a Lula.

Lula o recebeu com um abraço fraternal, daqueles velhos tempos, esquecendo-se de toda injustiça e maldade que o senhor tem praticado contra ele. Todos vimos as fotos.

85 anos o senhor tem, não Fernando Henrique Cardoso?

Marisa Letícia se foi aos 66 anos, vítima de um AVC.

A expectativa de vida do homem brasileiro gira em torno dos 73 anos, portanto, Fernando, o senhor já está no lucro.

Nem sempre é verdadeira a crença que diz que o homem se torna sábio com o tempo.
Não está acontecendo com o senhor.

Fernando, creia, não somos eternos neste mundo, como o senhor talvez confie.
E o que o senhor deixará, além da presidência que exerceu? Esta imagem?

É tão difícil para o senhor protagonizar um ato de grandeza agora, já?

Por que não fazer um pronunciamento à mídia e à Nação, em defesa de Lula?

Os tucanos iriam execrá-lo?

O senhor perderia sua condição de oráculo no ninho?

Às favas, presidente! Eles não merecem nada, o senhor sabe.

Um último ato de grandeza para passar à sua biografia, presidente. Posso ser um tolo, mas ainda acredito nas pessoas.

A decência lhe cairia bem, creia.



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Marisa Letícia Lula da Silva

Por Fernando Castilho




Morte cerebral. Marisa Letícia se foi.

Neste momento em perdemos uma pessoa que, embora tenha sido alçada à posição de primeira-dama, nunca deixou de ser aquela Marisa simples dos tempos da luta contra a ditadura. Pelo contrário, sempre foi avessa aos luxos que a posição lhe propiciava.

Somente por isso, Marisa deveria ser admirada por todos os brasileiros, quer gostem de Lula ou não.

Mas Marisa teve origem pobre, foi operária como seu marido e jamais poderia ser admitida como primeira-dama, afinal, primeiras-damas têm aspecto jovem, são bem maquiadas e bem vestidas, algumas muito jovens até.

Marisa tinha as rugas a que sua idade e sofrimento faziam jus.

Marisa não cometeu crime algum, foi senhora decente até o fim. Mas depois que ela e seu marido passaram a ser perseguidos implacavelmente por acusações sem provas, que seus filhos tiveram suas reputações destruídas após suas inocências terem sido provadas mas nunca divulgadas por nossa mídia, sua vida entrou num torvelinho.

Admoestada em todos os lugares em que não havia o povo, este sim, afável a ela, mas só aquela classe média que acha que é elite, Marisa, que, embora forte, não tem a mesma resistência de Lula, sucumbiu.

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, afirma que o brasileiro é um homem cordial.

Por muito tempo se interpretou “cordial” como afável, generoso, até bom.

O tempo mostrou que Sérgio Buarque quis dizer na verdade que o brasileiro é um homem que coloca o coração (que tem raiz na palavra “cordial”) à frente da razão. Para o bem ou para o mal.

O brasileiro de classe média, leitor assíduo dos jornais, frequentador das redes sociais, cristão e amante dos pets, que coloca o coração (desta vez para o mal), à frente da razão, afirmou que a doença de Marisa era fingimento para que Lula se vitimasse na Lava Jato.

Pior, esse brasileiro, fascista, desejou que Marisa fosse para o inferno, eu li isso e coisas piores nos comentários nos jornais.

Milhões de brasileiros, muito mais dignos, certamente ficarão consternados ao tomar conhecimento da notícia.

Mas os fascistas nunca passarão.

Que os átomos que compõem o corpo de Marisa se rearranjem um dia em flores e tragam alegria, prazer e felicidade, significado de Letícia em latim.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

E chamaram a isso de direito divino à propriedade

Por Fernando Castilho



Foto: @MídiaNINJA




Leis foram criadas para defendê-los.
E eles passaram a ter esse Direito. 
E chamaram a isso de direito divino à propriedade.


Ano 10000 a.C. Um dia de sol.

Um Homo Sapiens saiu rotineiramente para coletar e caçar quando se deparou com uma área de vegetação abundante, fértil. Lá havia tubérculos, verduras, frutas e até trigo.

Resolveu dar um tempo em seu nomadismo e ficar por ali mesmo.

Logo percebeu que naquele solo bastava jogar algumas sementes ou cavar alguns buracos e enfiar umas mudinhas que em pouco tempo tudo se multiplicava.

Estava inventada a agricultura. E com ela, a propriedade.

Logo em seguida forasteiros iriam querer comer daquilo que ele plantara. Era natural para eles, afinal, a terra nunca tivera dono.

Mas o Sapiens que cercou a área reagiu com violência.

Começava aí um período difícil para a Humanidade.

Se antes não havia porquê brigar, afinal, não havia posses, agora era uma guerra de todos contra todos.

Foi preciso que um terceiro elemento fosse criado para intervir nos conflitos: o Estado. O leviatã.

Ao longo do tempo, até os dias de hoje, o Estado ficou do lado daqueles que, como o primeiro Sapiens, cercou um pedaço de terra e se afirmou como proprietário.

Leis foram criadas para defendê-los.

E eles passaram a ter algo que foi chamado de Direito. Direito à propriedade. Direito divino à propriedade.

Não há dúvida de que, quem nasce hoje, praticamente já tem em seu DNA esse conceito pronto.

Ensinamos isso aos nosso filhos.

O sistema ensina isso aos nossos filhos.

E eles também lutarão por esse direito.

E defenderão esse direito. Afinal, ser contrário a esse direito é ser comunista, lhes ensinamos.

E ficarão do lado de quem tem esse direito.

Mesmo que essa pessoa não plante nada na terra.

Mesmo que essa pessoa não crie nenhum animal nesse terreno.

Mesmo que essa pessoa não construa nada que possa de alguma forma contribuir para a Humanidade nessa propriedade.

Mesmo que a terra permaneça vazia por 30 anos. Sem uso.

E quando aqueles que, como o antigo Sapiens, não conseguiram cercar nenhum pedacinho de terra para plantio, constroem um barraquinho nesses terrenos são expulsos violentamente pelas forças da Lei.

E quando outros que haviam há décadas construído suas moradias em terrenos que um dia cercaram nos rincões distantes do Brasil, acabaram expulsos de lá por gente poderosa e tiveram como única opção construir seus barracos em um terreno não ocupado durante 30 anos, foram desalojados de lá pela polícia que defende o direito de propriedade.

Homens, mulheres, crianças, bebês de colo, idosos, doentes, deficientes, mais de 3000 pessoas, todos jogados nas ruas de São Paulo como lixo humano, escória de uma sociedade que se julga eugênica, mas ela própria, a verdadeira escória cheirosa.


domingo, 18 de dezembro de 2016

Troquem o juiz!

Por Fernando Castilho







Ah, mas então quer dizer que você é contra a Lava Jato???

- Claro que não! Sou contra:

  1. Afundar as empreiteiras envolvidas, acabando com a capacidade do Brasil em construir obras de grande porte e extinguindo milhares de postos de trabalho. Sou a favor de condenar e prender os empreiteiros.

  1. Prender os empreiteiros por mais de um ano para forçá-los a delatar até suas mães, quando a Lei prevê no máximo 10 dias para prisões preventivas.

  1. Conduzir pessoas coercitivamente com ampla divulgação midiática para destruir suas reputações perante a opinião pública.

  1. Fazer vazar escutas telefônicas e depoimentos à imprensa, segundo o desejo de pré-condenar aqueles que convém ao juiz.

  1. Fazer escutas telefônicas não autorizadas pelo Supremo, de forma ilegal.

  1. Um juiz que conduz uma operação de tanta importância NÃO PODE ter conversinhas de pé de ouvido, acompanhadas de risadinhas cúmplices com políticos citados inúmeras vezes e muito menos deixar-se fotografar fazendo isso.

  1. Um juiz comandante da operação NÃO PODE proibir a defesa de se manifestar durante os depoimentos de testemunhas.

  1. Um juiz da Lava Jato NÃO PODE perguntar a opinião de uma testemunha durante um depoimento.

  1. É inconcebível que um juiz tenha que, todos os meses, viajar para os Estados Unidos para prestar contas à CIA de processo que está comandando em seu país.

  1. Um juiz NÃO PODE defender um projeto de lei para lhe conferir o direito de cometer abuso de autoridade.

Ou seja,o problema da Lava Jato é só o juiz que a comanda.

Troquem o juiz por outro que se guie estritamente pelo cumprimento do que consta na Constituição e no Código Penal, que passo a ser totalmente favorável à Lava Jato.