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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Cuidado com esse moleque

Por Fernando Castilho



No dia seguinte à chegada de Nikolas a Brasília, coincidindo com aquele episódio do raio que atingiu 89 pessoas, felizmente sem mortes, surgiram, em sites e perfis da esquerda, comentários apressados de que a caminhada teria “flopado”, de que Nikolas saíra derrotado e de que Alexandre de Moraes jamais cederia à pressão, frustrando o objetivo da empreitada.

Essa leitura, a meu ver, é equivocada.

Nikolas conseguiu exatamente o que queria. Em nenhum momento seu objetivo real foi convencer Alexandre de Moraes a soltar Bolsonaro. Pelo contrário: Bolsonaro preso e inelegível é funcional aos seus planos. Nikolas precisa de um bolsonarismo sem Bolsonaro. Sobretudo, sem o peso político e simbólico da família Bolsonaro.

A caminhada serviu, antes de tudo, como uma grande operação de autopromoção. Ele precisava desviar o foco das notícias sobre seu nome constar na lista de endereços ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. E conseguiu.

Precisava também produzir uma sequência interminável de vídeos, atualizações e registros da caminhada, alimentando algoritmos, acumulando curtidas impulsionadas pela Meta e convertendo engajamento em novos seguidores. E conseguiu.

Outro objetivo central era manter distância calculada dos filhos de Bolsonaro (à exceção de Carlos, que saiu rapidinho após uma possível reprimenda de Flávio), de Michelle Bolsonaro e de Silas Malafaia. A ausência dessas figuras não foi um acaso, mas parte da estratégia: desvincular sua imagem do clã e se apresentar como algo “novo”, ainda que herdeiro direto do bolsonarismo. E, novamente, conseguiu.

O resultado é evidente. Nikolas se consolida como sucessor natural de Jair Bolsonaro, logo atrás apenas de Flávio “Rachadinha” na linha de herança política. Mais do que isso: ele já ultrapassou Tarcísio de Freitas, que até então era visto como o único nome capaz de suceder Bolsonaro sem carregar o sangue da família.

Hoje, com 29 anos, Nikolas não pode disputar a Presidência em 2026 nem em 2030. Mas 2034 está logo ali. Se continuar crescendo nesse ritmo e não for politicamente freado, o cenário é claro: Nikolas Ferreira será presidente do Brasil.

E quem acha que a caminhada fracassou ainda está discutindo o meio do caminho, enquanto ele já pensa na linha de chegada.

Cuidado com o moleque.

domingo, 25 de janeiro de 2026

O golpe que Nikolas deu em Bolsonaro

Por Fernando Castilho



Quando Nikolas Ferreira iniciou sua épica caminhada de Paracatu a Brasília, nada modestos 240 quilômetros, tinha em mente apenas um objetivo: promover-se ao máximo. A missão incluía, naturalmente, ofuscar Flávio Rachadinha, os outros filhos e até o próprio Bolsonaro, ainda que o discurso oficial jurasse tratar-se de uma manifestação em defesa da “justiça e da liberdade” do capitão.

Evidentemente, ninguém em sã consciência imaginou que Nikolas caminharia dia e noite por longos 240 quilômetros. A ideia sempre foi outra: andar cerca de um quilômetro, entrar em um carro confortável, com ar-condicionado (havia vários carros de apoio, diga-se), e dormir em hotéis previamente reservados ao longo do trajeto. Fé, patriotismo e colchão de molas ensacadas.

O que ele não esperava era a adesão relativamente grande. Centenas de pessoas apareceram, a maioria deputados bolsonaristas, assessores convocados que interromperam suas férias e aspirantes a parlamentares nas próximas eleições. Afinal, se a imprensa estava noticiando a caminhada, nada mais estratégico do que surgir sorridente ao lado de Nikolas, como figurante de um marketing eleitoral ambulante.

Agora, com tanta gente filmando tudo, parte considerável do percurso precisou ser feita a pé de verdade. Afinal, vídeos são traiçoeiros: hoje estão no celular de um aliado, amanhã viralizam desmontando toda a encenação.

Após vários dias, Nikolas e sua comitiva aproximaram-se de Brasília. Foi então que receberam a notícia de que Alexandre de Moraes havia proibido acampamentos nas proximidades da Penitenciária da Papuda e da Papudinha. Nikolas percebeu rapidamente que aquelas cerca de 500 pessoas poderiam causar tumulto. Tumulto gera visualizações. Visualizações geram capital político. Capital político ajuda em 2026. E isso era tudo que candidatos queriam. Mas o tumulto também poderia gerar algo menos instagramável: responsabilização criminal.

Como idealizador e líder do movimento, Nikolas poderia ser acusado de incentivar desordem ou até tentativa de golpe. Poderia entrar na mira de Alexandre de Moraes. Melhor recuar. Prudência é tudo quando uma prisão aparece no horizonte.

Reuniu, então, seus seguidores e fez um discurso desmobilizando o grupo logo após a chegada a Brasília. O movimento terminava ali, todos deveriam voltar para casa. Para completar a performance, elogiou a decisão de Moraes, afirmando que a Papuda é área de segurança nacional. Curioso: os quartéis também eram, em 2022 e no início de 2023, mas isso parece ter sido esquecido no caminho.

E pronto. Estratégia concluída com sucesso. Nikolas teve a exposição que desejava e saiu do episódio fortalecido, ainda que a esquerda tenha desmentido a farsa e o ridicularizado. Mas, como dizia Paulo Maluf, “falem mal de mim, mas falem”. Missão cumprida.

O detalhe inconveniente é que, ao desistir de um ato em Brasília “pela liberdade de Bolsonaro”, ou mesmo de um quebra-quebra que pudesse crescer e virar uma tentativa de golpe, e usar a caminhada exclusivamente para autopromoção, Nikolas acabou traindo Bolsonaro. E isso não passou despercebido pelos filhos, com exceção de Carlos, que apareceu por alguns instantes na caminhada e depois sumiu. Provavelmente foi alertado pelos irmãos para parar de dar holofote a Nikolas..

Flávio, Eduardo e Jair Renan ignoraram solenemente o evento porque perceberam desde o início as verdadeiras intenções de Nikolas: usar o slogan “Justiça e Liberdade” não para soltar Bolsonaro, pois ele sabia perfeitamente que uma caminhada jamais anularia decisão do STF, mas para se projetar politicamente.

Além disso, Nikolas deve ter enxergado um pouco mais adiante. Os contatos recentes de Michelle Bolsonaro com Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes indicavam uma possível articulação em direção à prisão domiciliar de Bolsonaro, algo que, de fato, já poderia até estar sendo cogitado. Mas Nikolas não deseja isso. Para ele, é estratégico que seu Jair esteja preso e inelegível, pois ele próprio deseja ser presidente quando atingir a idade mínima para isso. A caminhada, com potencial de tumulto no final, só daria a Moraes mais motivos para manter Bolsonaro na Papudinha.

No fim das contas, Nikolas caminhou bastante, mas sempre com os olhos fixos no espelho.

sábado, 21 de outubro de 2023

Deveríamos prestar mais atenção em Nikolas Ferreira

Por Fernando Castilho



“A gente só tá começando.”

“A gente precisa ter paciência. Já ocupamos os conselhos tutelares e as CPIs.”

Nikolas Ferreira, a nova voz da ultradireita.


Quando setores da esquerda começaram a ridicularizar o deputado Nikolas Ferreira, principalmente depois que ele protagonizou o espetáculo criminoso de ocupar a tribuna da Câmara dos Deputados vestindo uma peruca para expor sua transfobia, alguma coisa me incomodou. O parlamentar já era apelidado de chupetinha e outros adjetivos pejorativos, principalmente após falas que taxávamos como engraçadas. Bolsonaro sempre fez o mesmo e acabou chegando à presidência da República.

Escrevo este texto movido pelo discurso de Nikolas no dia da votação do relatório da CPMI dos atos golpistas de 8 de janeiro. O deputado iniciou fazendo várias ironias contra a relatora Eliziane Gama para desqualificá-la e a seu relatório revelando sua essência puramente fascista. Mas alguns trechos do discurso merecem aguda atenção por parte das forças progressistas do país e não devem ser desprezados.

“Não considero os que pensam diferente como adversários, mas sim como inimigos.”

Uma das principais características do fascismo é justamente a intolerância com quem pensa diferente e a anulação do outro. Da parte dele, que pode ser o único parlamentar genuinamente bolsonarista a admitir isso sinceramente, não há debate de ideias, mas sim, uma guerra com inimigos a serem aniquilados.

Nikolas Ferreira afirmou com muita segurança que Jair Bolsonaro volta em 2026. Essa fala pode ser encarada como blefe, mas, com nossa justiça que às vezes é capenga, ela não deve ser desprezada. Ainda mais com a presidência do TSE sendo entregue em breve ao ministro Raul Araújo, bolsonarista de carteirinha. Espera-se dele uma anulação da sentença que tornou Bolsonaro inelegível por oito anos?

“O desespero da esquerda é que só tem dez meses que estamos no Congresso.”

Sim, com tão pouco tempo, apesar de terem dado um tiro no pé com a instalação da CPMI, já fizeram muito barulho e tentam o tempo todo inviabilizar o governo Lula, convocando ministros o tempo todo para darem explicações.

“A gente só tá começando.”

Realmente. E já se organizam como um bloco sólido.

“A gente pode andar livremente pelas ruas.”

Óbvio. Excetuando um outro que pode admoestá-lo, a esquerda não usa os mesmos métodos de intimidação e ameaças, a que, por exemplo, a senadora Eliziane Gama tem sido exposta.

“A gente precisa ter paciência. Já ocupamos os conselhos tutelares e as CPIs.”

A esquerda dormiu no ponto e deixou a extrema-direita tomar conta dos conselhos. Ela também propôs a CPI do MST que ficou perto de condenar o movimento.

“O presente é seu (da esquerda), mas o futuro é nosso.”

Pode servir de alerta para que se organizem os movimentos populares e se fortaleçam a comunicação do governo, até porque a extrema-direita, apesar de só compartilhar mentiras, tem dado de dez a zero nas redes sociais.

Enfim, é difícil admitir, mas Nikolas Ferreira fez um discurso articulado e digno de alguém que pretende ocupar um espaço muito maior do que ocupa agora.

Além disso, é preciso lembrar que ele possui milhões de seguidores nas redes sociais, principalmente jovens, e aspira à Prefeitura de Belo Horizonte, de onde poderá sair, teoricamente, como governador de Minas Gerais ou presidente do Brasil.

É preciso rir menos dele e tratá-lo com um adversário perigosíssimo para um futuro próximo.

Olho nele, portanto.