Por Fernando Castilho
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| Arquivo nacional |
Continuando a fugir da guerra que se instaurara, decidimos
pular a catraca do Cine Ipiranga e entrar no meio de uma sessão em uma sala
quase vazia para nos escondermos agachados no escuro atrás da última fileira.
Mas não demora muito tempo para sentir um cano frio me pressionando a nuca.
Estamos saindo em grande número em passeata desde a Cidade
Universitária até a Praça Fernando Costa onde haverá uma concentração e um ato
público contra a ditadura. Uma das razões para o protesto é a morte do
jornalista Vladimir Herzog, assassinado nas dependências do DOI-Codi em 1975.
Simularam um suicídio por enforcamento.
Meu pai já tinha me informado que a repressão estaria na
praça aguardando os estudantes e que seria violenta. Que eu tomasse muito
cuidado.
Ao chegarmos, vejo que ele tinha razão. Há um grande
contingente de policiais militares e soldados tomando toda a praça. Começam os
lançamentos de bombas de gás lacrimogêneo, tiros e cavalaria perseguindo todos
que se encontram no local. Há muita fumaça, barulho e palavras de ordem que não
consigo entender. O lugar vira um inferno.
Preciso correr. Atrás de mim, um soldado tenta me alcançar
com um chicote e cada vez que a ponta bate no chão, faíscas saem dela. Será um
chicote elétrico? Mas nesta época não existem ainda baterias para isso.
Provavelmente a ponta é metálica, mas não há tempo para verificar isso.
Logo uma colega da faculdade, a Anne Marie, se junta a mim.
Após uns cem metros. o soldado desiste de nós e prefere perseguir outra
estudante.
Continuando a fugir da guerra que se instaurara, decidimos
pular a catraca do Cine Ipiranga e entrar no meio de uma sessão em uma sala
quase vazia para nos escondermos agachados no escuro atrás da última fileira.
Mas não demora muito tempo para sentir um cano frio me pressionando a nuca.
Agora levados, Anne Marie e eu, pelo soldado com arma na mão
para o camburão, sentamo-nos junto com mais quatro homens que reclamam por
terem sido presos. Os bancos inteiriços são dispostos lateralmente na viatura,
de forma que três dos homens se sentam à nossa frente e um ao nosso lado. Se
dizem operários que passavam pelo local e não sabem o que está acontecendo.
À minha frente o quarto homem, um rapaz com cara de
estudante me faz sinais estranhos com os olhos que se dirigem a direção dos que
estão ao seu lado. Demoro um pouco a perceber que ele está querendo me dizer
para desconfiar e ficar quieto. Os “operários” dizem que não sabem o que está
acontecendo, que estavam voltando do trabalho e que os militares safados estão
abusando de todo mundo. Percebo agora que eles querem obter informações e me
calo.
A viatura roda conosco durante mais de uma hora correndo
muito com a sirena ligada e fazendo curvas fechadas que assustam e nos desequilibram.
Os pneus “cantam” o tempo todo. O ar começa a ficar rarefeito e o calor se
torna insuportável, mas, enquanto Anne Marie e eu estamos apavorados, os dois
homens à frente parecem familiarizados com o procedimento.
Permanecemos eu e minha colega o tempo todo calados enquanto
os três tentam puxar conversa e fazer com que falemos alguma coisa.
O suor escorre a cântaros, não só pelo calor infernal, mas
também pelo medo do que podem fazer conosco quando a corrida terminar.
Enfim o camburão para.
Soldados do lado de fora abrem a porta traseira e formam
duas fileiras de homens voltadas de frente uma para a outra. Em seguida nos
mandam descer.
Os três “operários” descem primeiro, percorrem o corredor
sem serem molestados e desaparecem. Em seguida, eu, Anne Marie e o outro
estudante, descemos. Teremos que passar pelo meio das fileiras de soldados. É o
chamado “corredor polonês”. Passamos correndo, mas apanhando muito daqueles
cassetetes.
Quando, enfim, paramos, vemos que ninguém parece nos seguir.
Ao olhar em volta reconheço o prédio da Faculdade de Direito
do Largo São Francisco.
Achamos melhor nos separarmos e nos despedirmos.
Em seguida tomo um ônibus para casa.
Este relato, extraído de meu livro Um Humano Num Pálido
Ponto Azul, editora Mondrongo, de forma alguma, tem a pretensão de se equivaler
a outros muito mais dolorosos, como o recente de Paulo Coelho que sofreu
bárbara tortura e escapou por pouco da morte.
Também não se equivale em gravidade à tortura que a
jornalista Míriam Leitão, então com 19 anos e grávida, sofreu nas dependências
do Doi-Codi. Logo ao chegar, ela apanhou com socos e chutes e foi colocada nua
numa sala escura, a sós com uma cobra jiboia.
Na verdade, meu relato pessoal, muito mais brando do que os
de Paulo Coelho e Míriam Leitão, tem o intuito de apenas ser mais um a
contribuir para ilustrar que a ditadura militar no Brasil, fruto de um golpe de
estado, nunca foi um movimento, nem foi fruto de anseio popular como o general
Braga Netto afirmou em sua última ordem do dia de 31 de março de 2022.
Não, general, João Goulart, à época do golpe, tinha, segundo
pesquisa Ibope da época, cerca de 70% de aprovação da população, portanto não
foi anseio do povo brasileiro, mas sim, do Departamento de Estado
norte-americano. E o senhor sabe disso.
Aliás, se a democracia não fosse restaurada, quem garante
que o senhor seria hoje membro de um governo eleito - mesmo que de
maneira fraudulenta - e estaria à vontade para falar asneiras e ameaçar mais um
golpe, caso seu chefe não vença as eleições de 2022?
A história está registrada e não vai ser a fala de um
general saudoso da ditadura que vai modificá-la.
O dia 31 de março de 2022 ficou lá pra trás e quase já
estávamos nos esquecendo dele com tanta notícia nova acontecendo todos os dias,
quando o deputado Eduardo Bolsonaro, o 03, ou zero nada, se insurgiu no twitter
justamente contra uma nota de Míriam Leitão.
A jornalista estava comentando as declarações recentes do
presidente que atacavam as instituições democráticas.
Eduardo não se conteve e expôs toda a sua crueldade e falta
de empatia ao debochar de Míriam respondendo: “ainda com pena de cobra”.
Vários partidos afirmaram que vão representar contra o zero
no conselho de ética da Câmara, o mínimo a ser feito.
A verdade é que se conseguirmos defenestrar Bolsonaro do
poder após as eleições, há que se fazer uma faxina geral nessa turba
autoritária, obscurantista e louca por dinheiro que se instalou no poder.
É uma pena que tipos como o filhão zero ainda conseguirão se
reeleger.
Editado em 04/04/2022
Também publicado em Construir Resistência:
https://construirresistencia.com.br/mentira-de-um-general-que-ofende-a-todos-que-lutaram-contra-a-ditadura/
Também publicado em Medium Brasil:
https://medium.com/@fernandocastilho/a-mentira-de-um-general-que-ofende-a-todos-que-lutaram-contra-a-ditadura-553605150fe2