Por Fernando Castilho
Arthur
Schopenhauer dizia que a maioria das pessoas prefere se acomodar em dogmas e
“verdades” pré-estabelecidas a raciocinar e buscar a verdade dos fatos. É
exatamente isso que vemos em manifestações bolsonaristas: quando perguntados
sobre o que Flávio fez de bom para o povo, muitos se perdem e respondem apenas
com slogans como “Deus, Pátria e Família” ou recorrem a xingamentos, chamando o
entrevistador de “comunista”.
A
imprensa brasileira compreendeu esse comportamento melhor do que ninguém. Ao
estampar nas manchetes que “Lulinha movimentou 16,5 milhões”, entregou uma
“verdade” incompleta a quem se contenta apenas com títulos e não se aprofunda
no assunto. O que não se explica na manchete é essencial: movimentação
significa entradas e saídas; ocorreu ao longo de quatro anos; trata-se de um
empresário, não de alguém que vive às custas do governo; e, sobretudo, não há
dinheiro do “careca do INSS”. Ainda assim, a imprensa alcançou seu objetivo:
milhões de pessoas passaram a repetir que Lula é corrupto.
O
propósito é evidente: impedir sua reeleição. Não há como provar, mas é
plausível imaginar que emissários de Folha, Estadão e Rede Globo tenham se
reunido com Flávio para oferecer apoio maciço à sua campanha contra Lula, em
troca de compromissos claros. Entre eles: evitar comportamentos ridículos como
os que seu pai protagonizou em público (espalhar farofa pelo chão enquanto
come, imitar pessoas se asfixiando...), defender o aumento da jornada de
trabalho para 12 horas, privatizar tudo o que for possível, inclusive a
Petrobras, promover uma nova reforma da previdência que desvincule
aposentadorias e benefícios do salário mínimo, e barrar novos programas
sociais. Se possível, extinguir ou reduzir os já existentes. É esse o sonho da
Faria Lima.
Hoje,
a imprensa depende muito mais de investimentos e aplicações financeiras do que
da venda de jornais. Por isso, sua prioridade é influenciar os rumos do país,
não informar. Para quem conecta os pontos, fica evidente o apoio já explícito
em conluio com a Faria Lima, na tentativa de associar Lula a Daniel Vorcaro e
ao Banco Master.
Nesse
esforço, não hesitam em tentar ligar o ministro Alexandre de Moraes a Lula,
como se fosse parte do governo ou militante petista. Cada vez que atacam
Moraes, reforçam no imaginário popular a ideia de que Lula estaria por trás de
conversas não republicanas entre Moraes e Vorcaro e que, por isso, seria o
“chefão corrupto”.
Talvez
uma contrapartida que Flávio tenha exigido para participar desse consórcio seja
um antigo sonho: enfraquecer o Supremo Tribunal Federal até que seja possível
anistiar o pai, permitindo que ele se torne ministro e governe (ou desgoverne)
de fato. Daí a bateria de ataques contra Moraes.
Para
esse enfraquecimento, a Globo já recrutou seu soldado obediente: o jornalista
Fernando Gabeira, ex-opositor da ditadura, afirmou no GloboNews que é preciso
fechar o STF. Alguém deveria fazer uma representação contra ele por estar
pregando, diante de milhões de brasileiros, um dos instrumentos clássicos de
golpe.
Sempre
fui um defensor das pesquisas eleitorais sérias, mesmo quando mostravam meu
candidato em desvantagem. Mas, desta vez, algo parece realmente fora de lugar.
Como pode um candidato que passou quatro anos no Senado apresentando apenas um
projeto, o de privatizar as praias, e nenhum que beneficiasse o povo, estar
empatado com Lula, que tantas entregas já fez em três anos de mandato?
Até
uma semana atrás, parecia que a única responsável era a comunicação deficiente.
Ela é, mas não está sozinha. A força da mídia está falseando as pesquisas,
fazendo com que Flávio apareça artificialmente empatado com Lula no segundo
turno. Ele não está. E, próximo ao final da campanha, veremos uma acomodação
dos números, com Lula subindo cada vez mais e seu oponente caindo.
A
menos que criem algum factoide capaz de desmontar Lula.
E
aqui entra um ponto crucial: as redes sociais e os grupos de mensagens
funcionam como multiplicadores dessa desinformação. Uma manchete distorcida ou
uma pesquisa manipulada ganha proporções gigantescas quando replicada por
milhares de perfis, muitas vezes automatizados, que espalham fake news em
escala industrial. O que antes era apenas uma narrativa da imprensa, hoje se
transforma em verdade “viral” para milhões de pessoas que não questionam,
apenas compartilham. Esse ecossistema de desinformação é o que sustenta a
ilusão de que Flávio está em pé de igualdade com Lula.
O
Brasil já viveu momentos em que factóides, manchetes enviesadas e campanhas de
desinformação moldaram o destino político da nação. Hoje, vemos a repetição
desse roteiro, agora potencializado pelas redes sociais e pela força dos
conglomerados financeiros que controlam a mídia. Mas há uma diferença crucial:
o povo brasileiro já provou, em diversas ocasiões, que sabe distinguir entre
propaganda e realidade quando chega a hora decisiva.
É
por isso que, apesar da avalanche de ataques, manipulações e pesquisas
artificiais, a verdade tende a prevalecer. A história mostra que nenhum
factoide resiste ao confronto com a vida concreta das pessoas, com as políticas
que melhoram o dia a dia e com a memória coletiva de quem já experimentou
avanços sociais.
No
fim, o que está em jogo não é apenas uma eleição, mas a capacidade de o Brasil
escolher entre a manipulação e a razão, entre o retrocesso e a continuidade de
conquistas e entre a democracia e a ditadura. A imprensa pode tentar fabricar
narrativas, mas não pode apagar a realidade. E é essa realidade que, cedo ou
tarde, se impõe.