segunda-feira, 9 de março de 2026

Grande mídia e Faria Lima juntas: cabeça de Lula a prêmio

Por Fernando Castilho



Arthur Schopenhauer dizia que a maioria das pessoas prefere se acomodar em dogmas e “verdades” pré-estabelecidas a raciocinar e buscar a verdade dos fatos. É exatamente isso que vemos em manifestações bolsonaristas: quando perguntados sobre o que Flávio fez de bom para o povo, muitos se perdem e respondem apenas com slogans como “Deus, Pátria e Família” ou recorrem a xingamentos, chamando o entrevistador de “comunista”.

A imprensa brasileira compreendeu esse comportamento melhor do que ninguém. Ao estampar nas manchetes que “Lulinha movimentou 16,5 milhões”, entregou uma “verdade” incompleta a quem se contenta apenas com títulos e não se aprofunda no assunto. O que não se explica na manchete é essencial: movimentação significa entradas e saídas; ocorreu ao longo de quatro anos; trata-se de um empresário, não de alguém que vive às custas do governo; e, sobretudo, não há dinheiro do “careca do INSS”. Ainda assim, a imprensa alcançou seu objetivo: milhões de pessoas passaram a repetir que Lula é corrupto.

O propósito é evidente: impedir sua reeleição. Não há como provar, mas é plausível imaginar que emissários de Folha, Estadão e Rede Globo tenham se reunido com Flávio para oferecer apoio maciço à sua campanha contra Lula, em troca de compromissos claros. Entre eles: evitar comportamentos ridículos como os que seu pai protagonizou em público (espalhar farofa pelo chão enquanto come, imitar pessoas se asfixiando...), defender o aumento da jornada de trabalho para 12 horas, privatizar tudo o que for possível, inclusive a Petrobras, promover uma nova reforma da previdência que desvincule aposentadorias e benefícios do salário mínimo, e barrar novos programas sociais. Se possível, extinguir ou reduzir os já existentes. É esse o sonho da Faria Lima.

Hoje, a imprensa depende muito mais de investimentos e aplicações financeiras do que da venda de jornais. Por isso, sua prioridade é influenciar os rumos do país, não informar. Para quem conecta os pontos, fica evidente o apoio já explícito em conluio com a Faria Lima, na tentativa de associar Lula a Daniel Vorcaro e ao Banco Master.

Nesse esforço, não hesitam em tentar ligar o ministro Alexandre de Moraes a Lula, como se fosse parte do governo ou militante petista. Cada vez que atacam Moraes, reforçam no imaginário popular a ideia de que Lula estaria por trás de conversas não republicanas entre Moraes e Vorcaro e que, por isso, seria o “chefão corrupto”.

Talvez uma contrapartida que Flávio tenha exigido para participar desse consórcio seja um antigo sonho: enfraquecer o Supremo Tribunal Federal até que seja possível anistiar o pai, permitindo que ele se torne ministro e governe (ou desgoverne) de fato. Daí a bateria de ataques contra Moraes.

Para esse enfraquecimento, a Globo já recrutou seu soldado obediente: o jornalista Fernando Gabeira, ex-opositor da ditadura, afirmou no GloboNews que é preciso fechar o STF. Alguém deveria fazer uma representação contra ele por estar pregando, diante de milhões de brasileiros, um dos instrumentos clássicos de golpe.

Sempre fui um defensor das pesquisas eleitorais sérias, mesmo quando mostravam meu candidato em desvantagem. Mas, desta vez, algo parece realmente fora de lugar. Como pode um candidato que passou quatro anos no Senado apresentando apenas um projeto, o de privatizar as praias, e nenhum que beneficiasse o povo, estar empatado com Lula, que tantas entregas já fez em três anos de mandato?

Até uma semana atrás, parecia que a única responsável era a comunicação deficiente. Ela é, mas não está sozinha. A força da mídia está falseando as pesquisas, fazendo com que Flávio apareça artificialmente empatado com Lula no segundo turno. Ele não está. E, próximo ao final da campanha, veremos uma acomodação dos números, com Lula subindo cada vez mais e seu oponente caindo.

A menos que criem algum factoide capaz de desmontar Lula.

E aqui entra um ponto crucial: as redes sociais e os grupos de mensagens funcionam como multiplicadores dessa desinformação. Uma manchete distorcida ou uma pesquisa manipulada ganha proporções gigantescas quando replicada por milhares de perfis, muitas vezes automatizados, que espalham fake news em escala industrial. O que antes era apenas uma narrativa da imprensa, hoje se transforma em verdade “viral” para milhões de pessoas que não questionam, apenas compartilham. Esse ecossistema de desinformação é o que sustenta a ilusão de que Flávio está em pé de igualdade com Lula.

O Brasil já viveu momentos em que factóides, manchetes enviesadas e campanhas de desinformação moldaram o destino político da nação. Hoje, vemos a repetição desse roteiro, agora potencializado pelas redes sociais e pela força dos conglomerados financeiros que controlam a mídia. Mas há uma diferença crucial: o povo brasileiro já provou, em diversas ocasiões, que sabe distinguir entre propaganda e realidade quando chega a hora decisiva.

É por isso que, apesar da avalanche de ataques, manipulações e pesquisas artificiais, a verdade tende a prevalecer. A história mostra que nenhum factoide resiste ao confronto com a vida concreta das pessoas, com as políticas que melhoram o dia a dia e com a memória coletiva de quem já experimentou avanços sociais.

No fim, o que está em jogo não é apenas uma eleição, mas a capacidade de o Brasil escolher entre a manipulação e a razão, entre o retrocesso e a continuidade de conquistas e entre a democracia e a ditadura. A imprensa pode tentar fabricar narrativas, mas não pode apagar a realidade. E é essa realidade que, cedo ou tarde, se impõe.

sexta-feira, 6 de março de 2026

A árvore que nasce do ar

Por Fernando Castilho



Ultimamente tenho me aprofundado no pensamento de dois gigantes muito diferentes entre si, mas igualmente capazes de iluminar o mundo: Arthur Schopenhauer, o filósofo que investigou com brutal franqueza as engrenagens da alma humana, e Richard Feynman, o físico que tinha o raro dom de transformar ciência em narrativa quase poética.

Ontem encontrei uma das explicações mais elegantes de Feynman para um fenômeno cotidiano que raramente questionamos: de onde vem a matéria que faz uma árvore crescer?

A pergunta parece trivial. Quase todos respondem automaticamente: do solo. Afinal, a árvore está plantada na terra; é natural imaginar que sua madeira seja, de algum modo, solo transformado.

Mas basta pensar um pouco para perceber que algo não fecha. Se a massa de uma árvore viesse principalmente da terra, cada árvore adulta teria escavado ao seu redor um buraco aproximadamente do tamanho de seu próprio tronco e de seus galhos. Florestas inteiras estariam assentadas sobre cavidades profundas. No entanto, quando observamos o chão ao redor de árvores centenárias, ele permanece praticamente no mesmo nível de sempre.

A conclusão, quando finalmente surge, causa um certo espanto: a maior parte da matéria de uma árvore não vem do solo, mas sim, do ar.

Essa afirmação soa quase mágica. Como algo invisível e impalpável pode transformar-se em madeira densa, capaz de sustentar toneladas?

A chave está no gás carbônico da atmosfera, o CO₂. Cada molécula desse gás contém um átomo de carbono, o mesmo elemento que constitui o carvão, o grafite do lápis e grande parte das moléculas da vida. Quando o gás carbônico entra na folha pelos pequenos poros chamados estômatos, esse carbono torna-se matéria-prima para a construção da planta.

Mas capturar carbono não basta. É preciso energia para quebrar moléculas e reorganizar átomos. É aí que entra a estrela da nossa história: o Sol.

A cerca de 150 milhões de quilômetros da Terra, o Sol lança continuamente pacotes de energia chamados fótons. Em apenas oito minutos, alguns desses fótons atravessam o espaço e atingem a superfície das folhas. Ali encontram moléculas especiais chamadas de clorofila, capazes de absorver essa luz. Quando um fóton é capturado, sua energia desloca elétrons dentro dessas moléculas, iniciando uma cadeia de reações microscópicas.

É o primeiro passo da fotossíntese.

Dentro dos cloroplastos, pequenas “fábricas químicas” das células vegetais,  a energia luminosa é convertida em energia química. Moléculas de água são quebradas; elétrons e prótons são reorganizados; e finalmente o carbono do gás carbônico é incorporado a novas moléculas orgânicas. O produto central desse processo é a glicose, um açúcar simples que funciona como combustível e como bloco de construção da planta.

A partir dessa glicose, a árvore fabrica celulose, lignina e inúmeras outras substâncias que formam o tronco, os galhos e as raízes. Assim, aquilo que antes era apenas um gás disperso no ar transforma-se lentamente em madeira sólida.

Ao mesmo tempo, um subproduto é liberado: oxigênio.

Aqui aparece uma das simetrias mais bonitas da natureza. Animais respiram oxigênio e devolvem gás carbônico. Plantas fazem o caminho inverso: absorvem gás carbônico e liberam oxigênio. É um ciclo silencioso que liga florestas, oceanos e respiração animal numa única engrenagem planetária.

Durante décadas ou séculos, uma árvore acumula carbono em sua estrutura. Seu tronco nada mais é do que ar antigo solidificado pela energia do Sol. Cada anel de crescimento registra anos de luz capturada e transformada em matéria.

Nesse ponto, surge naturalmente a lembrança da grande lei formulada por Antoine Lavoisier: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”

Imagine uma noite fria. Alguém coloca toras de madeira numa lareira. O fogo começa a crepitar. O que realmente está acontecendo ali?

O calor da chama está desfazendo, em minutos, a obra química que a árvore levou décadas para construir. As moléculas de madeira reagem com o oxigênio do ar, liberando energia, exatamente a energia solar que havia sido armazenada durante anos de fotossíntese. A luz da chama e o calor que aquecem o ambiente são, em certo sentido, luz do Sol libertada de sua prisão vegetal.

Ao final da combustão, o carbono volta ao ar na forma de gás carbônico. O ciclo se fecha. A química da fogueira é, em essência, a fotossíntese ao contrário.

Há, porém, uma lição inquietante escondida nesse processo. Ao queimar madeira ou combustíveis fósseis em grande escala, liberamos rapidamente carbono que levou décadas, séculos ou milhões de anos para ser armazenado. O delicado equilíbrio entre gás carbônico e oxigênio na atmosfera começa então a se deslocar.

Quando compreendi essa explicação de Feynman em toda a sua profundidade, senti algo curioso: primeiro admiração pela beleza da física e da química trabalhando juntas; depois uma espécie de melancolia. A natureza construiu um sistema extraordinariamente elegante, no qual luz, ar, água e vida se entrelaçam num ciclo de equilíbrio.

E, ainda assim, movidos pela pressa e pelo lucro imediato, os seres humanos frequentemente devastam florestas inteiras, como se estivéssemos desmontando, peça por peça, a própria máquina que torna possível a nossa existência neste pequeno planeta azul. 

domingo, 1 de março de 2026

O que é o passado?

Por Fernando Castilho



De uns tempos para cá, venho me inquietando com a questão do tempo. Desculpem o trocadilho inevitável. Essa inquietação se intensificou após meu contato com o pensamento do físico teórico norte-americano Richard Feynman.

Uma ideia dele permaneceu ressoando em minha mente por semanas: o passado não desaparece, mas persiste como uma estrutura invisível que sustenta o presente. O agora só existe porque há um ontem que o molda e o determina.

À primeira vista, essa concepção parece lógica. Contudo, ao tentar imaginá-la, percebemos o limite da nossa mente: ela não alcança plenamente o que significa um passado que não se dissolve, mas se acumula como fundamento. Eu mesmo me vi por dias tentando visualizar essa arquitetura oculta.

Até que uma imagem se formou. Dentro de uma caverna, uma estalagmite ergue-se lentamente, gota após gota, ao longo de milênios. Cada gota de água misturada ao calcário é o presente que, no instante em que toca o chão, já se converte em passado. A estrutura, sólida e silenciosa, é o acúmulo do tempo, o ontem que sustenta o hoje.

As metáforas, sei bem, são simplificações de realidades complexas. Mas essa imagem me ajudou a compreender, ainda que de modo imperfeito, o que Feynman sugeria: o passado não é apenas lembrança, mas matéria, corpo, sustentação. O presente é apenas o instante da gota; o passado, a rocha que se ergue, paciente, no interior da caverna da existência.

sábado, 28 de fevereiro de 2026

A fraude dentro da fraude do INSS

Por Fernando Castilho



O que ocorreu na quinta-feira, 26, na CPMI do INSS na Câmara dos Deputados foi, sem rodeios, um crime.

Primeiro, vamos esclarecer: Lulinha já havia quebrado seus sigilos por conta própria. E a Polícia Federal já tem os resultados. Portanto, votar a quebra de sigilo só tem dois objetivos: lacrar nas redes sociais e tentar atingir Lula em uma campanha que nem começou. É puro espetáculo de gente desonesta.

Mas sigamos. O presidente da CPMI, senador Carlos Viana, bolsonarista raiz, decidiu colocar em votação o requerimento da quebra de sigilo. Cumprindo o regimento, fez a clássica votação simbólica: quem fosse a favor permanecia sentado, quem fosse contra se levantava. Até aí, tudo certo. Também acertou ao afirmar que suplentes não poderiam votar.

O problema veio na contagem. Havia 14 parlamentares em pé. Viana, num passe de mágica, contou apenas 7. Golpe explícito. Naturalmente, os governistas se insurgiram, gerando tumulto. Não vou aqui medir quem foi mais agressivo, mas a cena foi digna de circo.

Depois, os governistas apresentaram fotos comprovando que havia mesmo 14 votos contrários, não 7. Levaram o caso a Davi Alcolumbre, presidente do Congresso, para que ele atuasse como um “VAR” e anulasse a votação. Mas, como é comum nas instituições da República, decisões não são tomadas de bate-pronto. Pode ser que Alcolumbre determine uma investigação para um fato que, convenhamos, é simples e autoexplicativo. É pegar a foto e decidir.

Viana, tentando colar a vidraça quebrada com fita crepe, deu entrevistas afirmando que seriam necessários 16 votos. Uma pegadinha: esses 16 votos seriam para anular a votação fraudulenta anterior. Desonesto e criminoso. O que vale são os 14 votos na hora da votação. Ponto.

E o crime não parou aí. O mesmo Viana que foi zeloso em proibir votos de suplentes, permitiu que eles votassem a favor do requerimento. Resultado: havia apenas 7 parlamentares da oposição sentados e 3 suplentes. Ele somou 10 votos a favor, contra 7 contrários. Pronto, fabricou a “maioria”.

Se Alcolumbre não decidir a favor dos governistas, a questão será judicializada. A depender de onde cair, plenário ou turmas, o resultado muda. Se cair na Segunda Turma, pode ser que a fraude se oficialize.

Mas, independentemente da decisão, fica a pergunta: como fica a situação de Carlos Viana? Ele poderá continuar à frente da CPMI? E o relator, outro bolsonarista raiz, que comemorou o resultado fraudulento? Os nomes dos dois constam no documento escrito à mão por Flávio Bolsonaro, divulgado pela Folha. Ambos pleiteiam posições dentro do PL para se juntar à campanha de Flávio. Não deveriam ser declarados suspeitos ou impedidos? E, se isso acontecer, será que, no afã de agradar o mito, deram um tiro no pé?

De qualquer forma, o que vimos foi uma máscara cair. Por trás da imagem de impolutos deputados e senadores da oposição empenhados em descobrir quem foram os responsáveis pela fraude no INSS, há, pura e simplesmente, uma turba de gente buscando desesperadamente alguma forma de atingir Lula para que ele não vença as eleições. Vale, para isso, ressuscitar a velha Geni, o Lulinha que já foi acusado de ser dono da Friboi e de possui propriedades incompatíveis com seus rendimentos. Enquanto isso, a imprensa se cala diante do fato de Flávio Bolsonaro ser dono de uma mansão em Brasília que vale seguramente mais de 15 milhões de reais, valor totalmente incompatível com seu salário de senador.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

As doenças oportunistas que atacam um STF debilitado

Por Fernando Castilho



Quando surgiram os indícios da ligação de Dias Toffoli com o Banco Master, escrevi: “a única saída é a renúncia”. Mas, claro, muitos correram para defendê-lo, como se fosse um santo injustiçado. O problema é que Toffoli não é santo, é reincidente. Ao não largar a relatoria logo no início, deixou o STF tão vulnerável que virou praticamente um paciente imunossuprimido, pronto para ser atacado por qualquer “doença oportunista” que queira controlá-lo.

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro, ainda sem a faixa de candidato oficial, já dava spoiler do roteiro: quem concorrer terá que prometer anistiar o pai. E se o Supremo ousar dizer que não pode? Ora, simples: chama-se o Exército. Democracia, para eles, é como guarda-chuva: só serve quando não atrapalha.

A imprensa, por sua vez, tentou vender Tarcísio de Freitas como “bolsonarista moderado” — uma espécie de Bolsonaro que não faz sujeira quando come. Mas Tarcísio preferiu o conforto do governo estadual. Resultado: sobrou Flávio, o herdeiro das rachadinhas, das condecorações a milicianos e da genial ideia de privatizar praias, que o deixaria ainda mais rico do que já é.

Agora, como candidato, Flávio promete continuar o governo do pai e desmontar programas sociais. Se vier outra pandemia, já sabemos: cloroquina, rezas e “cada um por si”. Afinal, ele também não é coveiro. E se eleito, vai usar a força para tirar Jair da cadeia e colocá-lo como chefe de gabinete. Traduzindo: teremos Jair governando de novo, só que com ainda mais rancor acumulado.

O risco para a imprensa é gigantesco. Mas por que correr esse risco? Talvez porque o celular de Daniel Vorcaro esconda segredos que atingem caciques da mídia e políticos do centrão à extrema-direita. Um strike no STF poderia evitar que tudo isso viesse à tona. E flertar com Flávio, neste momento, faz parte do combo.

Importante destacar também como Alexandre de Moraes, antes celebrado como defensor da democracia, virou vilão corrupto da pior espécie. Tudo porque sua esposa teria fechado um contrato milionário com o Banco Master — ainda sem provas. E mesmo se provado, não havia escândalo: Moraes não tinha conflito de interesses com Vorcaro. Mas se conseguirem o impeachment, o caminho para a volta de Jair Bolsonaro estará escancarado.

O combo inclui ainda a cruzada da imprensa contra Lula. As armadilhas já começaram: na Índia, tentaram fazê-lo escorregar em perguntas sobre carnaval e sobre supostos acordos com Trump. Lula, irritado, respondeu com firmeza, mostrando que as cascas de banana precisam ser mais bem elaboradas. O jogo é claro: atacar Lula e atacar o STF, em duas frentes simultâneas.

E não pense que só a mídia hegemônica joga esse jogo. Parte da imprensa de esquerda também se presta ao papel de desestabilizar o Supremo, seja por vaidade, seja por conveniência. Como juristas renomados não embarcam na narrativa de “crime eleitoral” de Lula, recorrem a advogados de ocasião, ávidos por aparecer na tela.

Até outubro, a guerra será brutal. O que está em jogo é simples: ou a continuidade dos avanços sociais e da recuperação econômica, ou um golpe travestido de eleição. A grande arma de Lula é a comunicação — que ainda não achou o tom certo. Se conseguir, poderá expor a ausência de projetos do adversário, cujo telhado de vidro é tão fino que talvez nem aguente até o fim da campanha.

E aí, o consórcio grande imprensa–extrema-direita–Faria Lima–crime organizado poderá sofrer um revés que não estava nos planos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Areia movediça no sambódromo

Por Fernando Castilho




“É um terreno de areia movediça”, advertiu a presidente do TSE, Carmen Lúcia, sobre o desfile da escola de samba que pretende homenagear Lula no carnaval. Tradução livre: cuidado, porque basta um passista levantar o braço errado e pronto: crime eleitoral na avenida.

O ministro André Mendonça já anunciou seu papel: espectador de sofá, lupa em punho, pronto para transformar qualquer gesto em infração.

Até a quinta-feira, eu achava a homenagem inofensiva. Mas, convenhamos, Lula não pode nada. Não pode tomar uma cachaça, não pode viajar, não pode se hospedar em hotéis, não podia trocar avião presidencial (mesmo que o antigo fosse praticamente um caixão voador), não pôde comparecer ao velório do irmão. E, claro, não pode ser homenageado. No Brasil, Lula respirar já é ato político.

Se a oposição correu ao TSE antes do desfile para tentar criminalizá-lo, imaginem depois. A escola promete cuidados extremos: nada de “L” com as mãos, nada de número 13, nada de camiseta vermelha. Mas quem garante? Basta um passista afoito ou um infiltrado bolsonarista para transformar o carnaval em processo de inelegibilidade. Afinal, quem disse que todos os integrantes da escola são lulistas?

Lula lidera as pesquisas. Com o portfólio de feitos em três anos, comunicar bem o que já fez é praticamente sua única tarefa para se reeleger. Ninguém o alcança. Nem Flávio “Rachadinha”, que jura que seu programa de governo é dar continuidade à obra do pai. Sabemos bem qual foi a obra. A extrema-direita sabe que tem pouquíssimas chances. Por isso, só existem duas formas de derrotá-lo: ou ele morre, ou é declarado inelegível. E alguém duvida que vão investir pesado nessa segunda opção? Sem prejuízo da primeira, se o desespero falar mais alto?

E não esqueçamos: Janja. Muitos dizem que ela não tem cargo no governo, logo poderia desfilar livremente. Ingenuidade. Ela é o maior símbolo de Lula, justamente por ser sua esposa. E isso, claro, será judicializado. Afinal, estamos falando de uma corte que absolveu por unanimidade o senador Jorge Seif, mesmo diante de fotos, vídeos e e-mails trocados com Luciano Hang. O ministro Nunes Marques chegou a dizer que, mesmo com essas provas, não via “indícios de abuso econômico”. Que o digam os demais candidatos que não obtiveram a mesma ajuda. Pois é, indícios demais podem atrapalhar.

Alguns sugerem que Lula não compareça ao desfile. Ótimo, mas isso não resolve nada: a escola desfilará de qualquer forma. O correto seria cancelar o desfile. Mas já é tarde. Ele vai acontecer.

E acontecerá no contexto em que Lula, num discurso recente, afirmou que essa eleição será uma guerra. Pois bem, talvez ele devesse levar suas próprias palavras mais a sério.

Resta torcer para que o carnaval não vire tribunal. Porque, convenhamos, seria um tropeço tão previsível quanto evitável. E se acontecer, não será samba-enredo. Será marcha fúnebre da democracia, com direito a tamborim, mas sem alegria.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Golpista tentando golpe em golpista

Por Fernando Castilho



Flávio Rachadinha até que tentou.
O plano era simples, quase ingênuo: empurrar Nikolas Ferreira para uma candidatura ao governo de Minas Gerais. De quebra, todos já sabiam que ele não daria conta do recado, o que enterraria qualquer pretensão presidencial em 2030, abrindo espaço para alguém do clã. Provavelmente o próprio autor da ideia.

Nikolas, porém, não caiu no golpe. Não por sagacidade política ou visão estratégica. Declarou-se apenas “ainda inexperiente” para um cargo dessa envergadura. Prudente, sem dúvida. Afinal, assumir um estado falido, atolado em dívidas deixadas por Romeu Zema, um gestor tão brilhante que não conseguiria administrar nem um galinheiro, não é tarefa para principiantes. Minas tem obras paradas à espera de recursos, hospitais e escolas em crise, serviços públicos em frangalhos. Literalmente, os buracos são fundos. E, desta vez, não é metáfora.

Nada disso, claro, impede Nikolas de repetir, com convicção quase religiosa, que o governo Zema é um “modelo para o Brasil”. A mentira é grande, mas o espírito é esse mesmo.

Quando Lula assumiu a Presidência, encontrou um país igualmente devastado. Ministérios haviam sido entregues por Bolsonaro a figuras escolhidas não para governar, mas para sabotar. Educação, Saúde, Economia, Direitos Humanos, Meio Ambiente: nada escapou. A Cultura, então, foi tratada como inimiga de Estado.

Ainda assim, Lula encarou o desafio. Em pouco mais de três anos, o país é outro: inflação sob controle, desemprego no menor patamar da história, programas sociais retomados e funcionando e promessa de campanha cumprida: isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais. Coisas chatas, técnicas, que exigem trabalho. Muito trabalho, sobretudo quando se tem uma oposição desse nível.

Nikolas, por sua vez, nunca trabalhou nem administrou absolutamente nada. Ele sabe que não tem condições de enfrentar um desafio real. Sua atuação na Câmara resume-se a não trabalhar, não votar nada que beneficie o povo brasileiro e gravar vídeos aos montes para seus milhões de seguidores, atividade, diga-se, muito mais lucrativa do que governar.

É bem mais confortável permanecer onde está: espalhando fake news diariamente e monetizando a indignação alheia. Dá menos dor de cabeça e rende mais no fim do mês.

O plano, ao que tudo indica, é outro. Esperar completar 35 anos, idade mínima para disputar a Presidência, torcer para que um eventual segundo mandato de Lula eleve o Brasil a um novo patamar de desenvolvimento econômico e bem-estar social e, então, aparecer para “colher os frutos”.

Porque governar um país destruído exige trabalho.
Já governar um país arrumado permite outra coisa: aproveitar as oportunidades.
Especialmente quando se tem os amigos certos, os discursos certos
e um apetite já bem conhecido por transformar política em negócio.

Se é que me entendem.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O farol da democracia em chamas

Por Fernando Castilho



Por décadas, os Estados Unidos venderam ao mundo a imagem do “farol da liberdade e da democracia”. O mundo inteiro comprou: constituições foram moldadas à sua semelhança, adolescentes copiaram o rock, e Hollywood ensinou que, no fim, os heróis truculentos sempre vencem contra árabes, russos e, agora, o "perigo amarelo" chinês. Hoje, porém, os EUA preparam um novo produto de exportação. Não vem em disco de platina nem em tela de cinema. Preparem-se: em breve veremos polícias políticas violentas pipocando pelo globo, ostentando o selo de qualidade da maior democracia do mundo: MADE IN USA.

É fascinante, para não dizer patológico, observar um Estado que, para distrair o público de seu próprio declínio, decide caçar imigrantes como forma de sobrevivência política no mundo. Mas o espetáculo evoluiu. Por que parar nos imigrantes, se é possível estender os tentáculos da repressão aos próprios cidadãos? Em Minneapolis, o palco foi montado: prefeitos e governadores democratas assistem, atônitos, enquanto o governo federal transforma suas ruas em um laboratório de tiro e em um campo de testes para sistemas de vigilância preditiva e reconhecimento facial.

O recrutamento do ICE é um exemplo cruel de eficiência: basta encontrar jovens cujos cérebros foram moldados pela estética de guerra dos videogames e cujos bolsos foram esvaziados por dívidas reais. Para eles, o cartaz diz: “Seu país precisa de você!”. Traduzindo do politiquês: “Precisamos que você esqueça seus boletos e canalize seu ódio contra qualquer um que te olhe torto”. É a gamificação da brutalidade: o distintivo torna-se o upgrade definitivo em um jogo onde a vida do "inimigo interno" não tem reinício. A história já viu coreografia semelhante na Alemanha de Hitler, mas agora ela conta com algoritmos.

O resultado desse treinamento relâmpago é uma performance de gala da barbárie. Dois americanos já foram executados em Minneapolis. O último recebeu dez tiros no rosto, mesmo após estar dominado. Reconfortante, talvez, para o agente que se sentiu com “carta branca” para matar. Afinal, o que é um rosto desfigurado diante do dever patriótico de manter a ordem? E não vai parar por aí. A resistência precisa ser testada, como uma criança que desafia os limites dos pais para ver até onde começa o castigo.

Enquanto isso, as instituições que deveriam servir de freio, o Judiciário e o Partido Democrata, parecem sofrer de uma paralisia assistida. O famoso sistema de pesos e contrapesos, orgulho da exportação jurídica americana, transformou-se em um carimbo burocrático para o inevitável. O Partido Democrata faz vistas grossas, talvez investindo no caos para depois surgir como o "salvador" da democracia, ou talvez esteja apenas em choque por descobrir que país está se tornando um regime ditatorial.

Toda essa "Estratégia da Tensão" serve a um plano quase poético em seu autoritarismo. Trump não está apenas governando; ele está ensaiando. Quer medir até onde a corda estica antes de se romper em uma quase guerra civil. Ele espera o confronto, anseia por um agente morto para ter o pretexto perfeito de “endurecer” e decretar medidas de exceção. É uma tática tão velha quanto o fascismo clássico, mas que sempre encontra uma plateia fiel e sedenta por um "homem forte".

À medida que as eleições de meio de mandato, e a obsessão pela permanência em 2028 se aproximam, o exército doméstico vai sendo alimentado. E cresce. Trump poderá se sentir forte o suficiente para tentar repetir o que fez em 2021 e o que seu aprendiz, Bolsonaro, tentou em 2022: ignorar a Constituição e eternizar-se no poder. Em ambos os casos, não deu certo. Poderá dar desta vez?

Se o “farol do mundo” decidir apagar as luzes para instalar uma ditadura de grife, o resto do planeta que se prepare: a escuridão é contagiosa, altamente tecnológica e, infelizmente, costuma ser copiada.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Cuidado com esse moleque

Por Fernando Castilho



No dia seguinte à chegada de Nikolas a Brasília, coincidindo com aquele episódio do raio que atingiu 89 pessoas, felizmente sem mortes, surgiram, em sites e perfis da esquerda, comentários apressados de que a caminhada teria “flopado”, de que Nikolas saíra derrotado e de que Alexandre de Moraes jamais cederia à pressão, frustrando o objetivo da empreitada.

Essa leitura, a meu ver, é equivocada.

Nikolas conseguiu exatamente o que queria. Em nenhum momento seu objetivo real foi convencer Alexandre de Moraes a soltar Bolsonaro. Pelo contrário: Bolsonaro preso e inelegível é funcional aos seus planos. Nikolas precisa de um bolsonarismo sem Bolsonaro. Sobretudo, sem o peso político e simbólico da família Bolsonaro.

A caminhada serviu, antes de tudo, como uma grande operação de autopromoção. Ele precisava desviar o foco das notícias sobre seu nome constar na lista de endereços ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. E conseguiu.

Precisava também produzir uma sequência interminável de vídeos, atualizações e registros da caminhada, alimentando algoritmos, acumulando curtidas impulsionadas pela Meta e convertendo engajamento em novos seguidores. E conseguiu.

Outro objetivo central era manter distância calculada dos filhos de Bolsonaro (à exceção de Carlos, que saiu rapidinho após uma possível reprimenda de Flávio), de Michelle Bolsonaro e de Silas Malafaia. A ausência dessas figuras não foi um acaso, mas parte da estratégia: desvincular sua imagem do clã e se apresentar como algo “novo”, ainda que herdeiro direto do bolsonarismo. E, novamente, conseguiu.

O resultado é evidente. Nikolas se consolida como sucessor natural de Jair Bolsonaro, logo atrás apenas de Flávio “Rachadinha” na linha de herança política. Mais do que isso: ele já ultrapassou Tarcísio de Freitas, que até então era visto como o único nome capaz de suceder Bolsonaro sem carregar o sangue da família.

Hoje, com 29 anos, Nikolas não pode disputar a Presidência em 2026 nem em 2030. Mas 2034 está logo ali. Se continuar crescendo nesse ritmo e não for politicamente freado, o cenário é claro: Nikolas Ferreira será presidente do Brasil.

E quem acha que a caminhada fracassou ainda está discutindo o meio do caminho, enquanto ele já pensa na linha de chegada.

Cuidado com o moleque.

domingo, 25 de janeiro de 2026

O golpe que Nikolas deu em Bolsonaro

Por Fernando Castilho



Quando Nikolas Ferreira iniciou sua épica caminhada de Paracatu a Brasília, nada modestos 240 quilômetros, tinha em mente apenas um objetivo: promover-se ao máximo. A missão incluía, naturalmente, ofuscar Flávio Rachadinha, os outros filhos e até o próprio Bolsonaro, ainda que o discurso oficial jurasse tratar-se de uma manifestação em defesa da “justiça e da liberdade” do capitão.

Evidentemente, ninguém em sã consciência imaginou que Nikolas caminharia dia e noite por longos 240 quilômetros. A ideia sempre foi outra: andar cerca de um quilômetro, entrar em um carro confortável, com ar-condicionado (havia vários carros de apoio, diga-se), e dormir em hotéis previamente reservados ao longo do trajeto. Fé, patriotismo e colchão de molas ensacadas.

O que ele não esperava era a adesão relativamente grande. Centenas de pessoas apareceram, a maioria deputados bolsonaristas, assessores convocados que interromperam suas férias e aspirantes a parlamentares nas próximas eleições. Afinal, se a imprensa estava noticiando a caminhada, nada mais estratégico do que surgir sorridente ao lado de Nikolas, como figurante de um marketing eleitoral ambulante.

Agora, com tanta gente filmando tudo, parte considerável do percurso precisou ser feita a pé de verdade. Afinal, vídeos são traiçoeiros: hoje estão no celular de um aliado, amanhã viralizam desmontando toda a encenação.

Após vários dias, Nikolas e sua comitiva aproximaram-se de Brasília. Foi então que receberam a notícia de que Alexandre de Moraes havia proibido acampamentos nas proximidades da Penitenciária da Papuda e da Papudinha. Nikolas percebeu rapidamente que aquelas cerca de 500 pessoas poderiam causar tumulto. Tumulto gera visualizações. Visualizações geram capital político. Capital político ajuda em 2026. E isso era tudo que candidatos queriam. Mas o tumulto também poderia gerar algo menos instagramável: responsabilização criminal.

Como idealizador e líder do movimento, Nikolas poderia ser acusado de incentivar desordem ou até tentativa de golpe. Poderia entrar na mira de Alexandre de Moraes. Melhor recuar. Prudência é tudo quando uma prisão aparece no horizonte.

Reuniu, então, seus seguidores e fez um discurso desmobilizando o grupo logo após a chegada a Brasília. O movimento terminava ali, todos deveriam voltar para casa. Para completar a performance, elogiou a decisão de Moraes, afirmando que a Papuda é área de segurança nacional. Curioso: os quartéis também eram, em 2022 e no início de 2023, mas isso parece ter sido esquecido no caminho.

E pronto. Estratégia concluída com sucesso. Nikolas teve a exposição que desejava e saiu do episódio fortalecido, ainda que a esquerda tenha desmentido a farsa e o ridicularizado. Mas, como dizia Paulo Maluf, “falem mal de mim, mas falem”. Missão cumprida.

O detalhe inconveniente é que, ao desistir de um ato em Brasília “pela liberdade de Bolsonaro”, ou mesmo de um quebra-quebra que pudesse crescer e virar uma tentativa de golpe, e usar a caminhada exclusivamente para autopromoção, Nikolas acabou traindo Bolsonaro. E isso não passou despercebido pelos filhos, com exceção de Carlos, que apareceu por alguns instantes na caminhada e depois sumiu. Provavelmente foi alertado pelos irmãos para parar de dar holofote a Nikolas..

Flávio, Eduardo e Jair Renan ignoraram solenemente o evento porque perceberam desde o início as verdadeiras intenções de Nikolas: usar o slogan “Justiça e Liberdade” não para soltar Bolsonaro, pois ele sabia perfeitamente que uma caminhada jamais anularia decisão do STF, mas para se projetar politicamente.

Além disso, Nikolas deve ter enxergado um pouco mais adiante. Os contatos recentes de Michelle Bolsonaro com Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes indicavam uma possível articulação em direção à prisão domiciliar de Bolsonaro, algo que, de fato, já poderia até estar sendo cogitado. Mas Nikolas não deseja isso. Para ele, é estratégico que seu Jair esteja preso e inelegível, pois ele próprio deseja ser presidente quando atingir a idade mínima para isso. A caminhada, com potencial de tumulto no final, só daria a Moraes mais motivos para manter Bolsonaro na Papudinha.

No fim das contas, Nikolas caminhou bastante, mas sempre com os olhos fixos no espelho.