terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Caro Michel, sua carta subestimou a inteligência dos brasileiros

Por Fernando Castilho


Charge: Aroeira


A ideia deste texto não é absolutamente sugerir uma forma de resposta por parte da presidente. É apenas uma carta.


Caro vice- presidente, Michel Temer,

O senhor reclamou em sua carta endereçada à presidente Dilma, de sua perda de protagonismo.

Sr. Michel, primeiramente, o senhor não é protagonista no governo, o senhor é vice, vamos lembrar.

Vossa Excelência se disse indignada por sua missiva, de teor pessoal ter sido vazada para a mídia.

Ora, está na cara, percebe-se, está nas entrelinhas, na composição do texto, na forma de linguagem, que ela foi dirigida à imprensa. Se não o fosse, a Globonews teria revelado que a obteve de uma fonte do Planalto, já que o interesse da emissora é grande em jogar mais gasolina nessa fogueira, estejamos certos.

Portanto, foi o senhor que divulgou a carta à imprensa, certo?

E mais, ela se destina também ao PMDB e à oposição como quem grita num megafone: ''ei, estou aqui e quero ser o presidente! Vamos com tudo ao golpe, que eu assumo e faço o jogo que todos nós queremos!''

Desde que teve início o ''apoio'' do PMDB ao governo, o senhor não fez outra coisa senão atuar com dubiedade, trocando esse apoio por cargos e mais cargos, não é?

Nunca poderia passar pela cabeça de quem raciocina um pouco e acompanha política, que o PMDB participaria de um governo preocupado com causas sociais. Nunca.

O senhor agora sai usando como pretexto um difuso desdém com que Dilma teria lhe tratado ao logo destes anos. Quer sair fazendo-se de vítima: ''olha aí, minha gente, o que tenho sofrido nas mãos dessa mulher diabólica que todos querem ver pelas costas!'', é como traduzo o sentido da missiva.

Poderia ter saído com discrição e talvez com certa honradez, mas preferiu outro caminho.
Sei que o senhor e outros precisam que Dilma seja impedida de governar. Dizem que seu nome e os de outros podem ser citados a qualquer momento em delação premiada.
Delcído poderá falar. E Delcídio vem de governo anterior ao de Lula, certo?

Leia também este outro artigo sobre Temer

O senhor se lembra de quando, em 1998, como Presidente da Câmara, conseguia junto à Fernando Henrique Cardoso, verbas para prefeituras do PSDB?

O senhor visitava prefeitos, era recebido com pompa e depois enviava o chefão de empreiteira envolvida na Lava Jato para oferecer projetos habitacionais, de urbanização de favelas e de modificações no sistema viário a prefeituras tucanas. O homem afirmava que o senhor já havia garantido recursos enormes para os municípios. E que isso iria ser bom para todos.

FHC-Michel-empreiteira-tucanos-lava jato. Olha a conexão.

O juiz Moro até deu uma sumida nos últimos tempos, talvez aguardando o impeachment que teria o poder de fazer todo o restante da operação Lava Jato cair no esquecimento, uma vez que os petistas que poderiam ser presos já foram.

Convenhamos, Dilma não foi citada nem será, não é? Agora só sobram os outros e queremos saber quem são.

O senhor reclamou que Dilma se aproximou do deputado Picciani. O tom é de ciúmes, mas sabemos que não foi por isso, não é? Reclamou, na verdade, porque Picciani é contra o impeachment e está propondo para a Comissão que estudará o processo, nomes favoráveis à presidente. Isso destrói seus planos futuros imediatos, não?

Qual são eles?

Já sem Dilma, defenestrada por um julgamento espúrio e ilegítimo, porque as pedaladas fiscais não configuram crime de responsabilidade, como o senhor que é advogado bem sabe, o caminho estaria aberto para que o vice (e nessas horas é que os vices tem valor), assumisse a tão sonhada e até então longínqua presidência da República. Sim, longínqua porque Dilma nunca o faria seu sucessor, não é?

Além disso, o senhor sabe que a reportagem do Estadão publicou um artigo afirmando que Vossa Excelência assinou sete decretos de pedaladas fiscais, não sabe? 

Acomodado na cadeira presidencial, após o atentado à democracia ter sido deflagrado, as primeiras medidas a serem tomadas seriam:

1) Tranquilizar o povo, pois o mal foi afastado e agora o país entrará no rumo certo.

Como se o senhor nunca tivesse feito parte do governo. Neste item em particular, a mídia teria um papel de destaque, mas isso o senhor já deve ter negociado. Grana do BNDES para socorrer a velha imprensa é muito bem-vinda. A crise econômica sairia do noticiário, as pessoas ficariam felizes e confiantes e o país voltaria a crescer.

2) Suprimir a independência de atuação da Procuradoria Geral da República e da Polícia Federal e passar a controlar a Lava Jato até que ela caia no esquecimento. Todos se livrariam, até seu amigo, Eduardo Cunha.

3) Colocar em ação o Plano Temer, elaborado por seu comparsa, Moreira Franco, que acaba com os programas sociais, o reajuste automático do salário mínimo, o sistema de partilha do pré-sal e inaugura um novo período de privatizações. Ou seja, o senhor poria pra funcionar o programa de governo do Aécio Neves. Mais sobre o Plano Temer, aqui

Possivelmente ele próprio e José Serra, que já se ofereceu para ser seu colaborador em eventual governo, seriam convocados para ser seus ministros.

Mas faltou combinar com os russos.

Não pense que não haverá reação ao seu golpe.

A consciência de 54,5 milhões de votos não se compra tão facilmente com essa jogada.

Pode ser que esta seja sua grande oportunidade na vida, mas não se iluda, vai ser muito difícil governar em meio à convulsão social que se seguiria logo após o golpe.

Em tempo: o senhor não engana a ninguém com sua cartinha.



Leia abaixo a íntegra da carta obtida pela GloboNews:

São Paulo, 07 de Dezembro de 2.015.
Senhora Presidente,
"Verba volant, scripta manent" (As palavras voam, os escritos permanecem)
Por isso lhe escrevo. Muito a propósito do intenso noticiário destes últimos dias e de tudo que me chega aos ouvidos das conversas no Palácio.
Esta é uma carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo.
Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo destes cinco anos.
Lealdade institucional pautada pelo art. 79 da Constituição Federal. Sei quais são as funções do Vice. À minha natural discrição conectei aquela derivada daquele dispositivo constitucional.
Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo.
Basta ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança. E só o fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice.
Tenho mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo usando o prestígio político que tenho advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no partido. Isso tudo não gerou confiança em mim, Gera desconfiança e menosprezo do governo.
Vamos aos fatos. Exemplifico alguns deles.
1. Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas.
2. Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios, secundários, subsidiários.
3. A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a registrar este fato no dia seguinte, ao telefone.
4. No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o Ministério em razão de muitas "desfeitas", culminando com o que o governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a ANAC. Alardeou-se a) que fora retaliação a mim; b) que ele saiu porque faz parte de uma suposta "conspiração".
5. Quando a senhora fez um apelo para que eu assumisse a coordenação política, no momento em que o governo estava muito desprestigiado, atendi e fizemos, eu e o Padilha, aprovar o ajuste fiscal. Tema difícil porque dizia respeito aos trabalhadores e aos empresários. Não titubeamos. Estava em jogo o país. Quando se aprovou o ajuste, nada mais do que fazíamos tinha sequência no governo. Os acordos assumidos no Parlamento não foram cumpridos. Realizamos mais de 60 reuniões de lideres e bancadas ao longo do tempo solicitando apoio com a nossa credibilidade. Fomos obrigados a deixar aquela coordenação.
6. De qualquer forma, sou Presidente do PMDB e a senhora resolveu ignorar-me chamando o líder Picciani e seu pai para fazer um acordo sem nenhuma comunicação ao seu Vice e Presidente do Partido. Os dois ministros, sabe a senhora, foram nomeados por ele. E a senhora não teve a menor preocupação em eliminar do governo o Deputado Edinho Araújo, deputado de São Paulo e a mim ligado.
7. Democrata que sou, converso, sim, senhora Presidente, com a oposição. Sempre o fiz, pelos 24 anos que passei no Parlamento. Aliás, a primeira medida provisória do ajuste foi aprovada graças aos 8 (oito) votos do DEM, 6 (seis) do PSB e 3 do PV, recordando que foi aprovado por apenas 22 votos. Sou criticado por isso, numa visão equivocada do nosso sistema. E não foi sem razão que em duas oportunidades ressaltei que deveríamos reunificar o país. O Palácio resolveu difundir e criticar.
8. Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião de duas horas com o Vice Presidente Joe Biden - com quem construí boa amizade - sem convidar-me o que gerou em seus assessores a pergunta: o que é que houve que numa reunião com o Vice Presidente dos Estados Unidos, o do Brasil não se faz presente? Antes, no episódio da "espionagem" americana, quando as conversar começaram a ser retomadas, a senhora mandava o Ministro da Justiça, para conversar com o Vice Presidente dos Estados Unidos. Tudo isso tem significado absoluta falta de confiança;
9. Mais recentemente, conversa nossa (das duas maiores autoridades do país) foi divulgada e de maneira inverídica sem nenhuma conexão com o teor da conversa.
10. Até o programa "Uma Ponte para o Futuro", aplaudido pela sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para recuperar a economia e resgatar a confiança foi tido como manobra desleal.
11. PMDB tem ciência de que o governo busca promover a sua divisão, o que já tentou no passado, sem sucesso. A senhora sabe que, como Presidente do PMDB, devo manter cauteloso silencio com o objetivo de procurar o que sempre fiz: a unidade partidária.
Passados estes momentos críticos, tenho certeza de que o País terá tranquilidade para crescer e consolidar as conquistas sociais.
Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção.
Respeitosamente,
\ L TEMER
A Sua Excelência a Senhora
Doutora DILMA ROUSSEFF
DO. Presidente da República do Brasil
Palácio do Planalto



9 comentários:

  1. Eu sou russa e disposta a defender meu voto. Golpe,não!

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  2. MEU DEUS! A INVEJA DESSE HOMEM,ELE É CUNHA,CHANTAGEARAM DILMA...MINISTÉRIOS EM TROCA DE APOIO...ELE TEVE QUE TIRAR GENTE NOSSA E DE CONFIANÇA PARA POR PESSOAS INDICADAS PELO VICE E CUNHA? ISSO É TRAIÇÃO DAS GRANDES.

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  3. DIVINOOOOOOOOOOOOOOOOOO !!! Parabéns meu amigo e grande persona FERNANDO CASTILHO, pela sua iniciativa de desmascará esse seboso homem ,se é que se pode chamar de homem a um golpista disfarçado !!!!!!!!!!

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  4. ...eu sou 'russo' desde a maternidade ...pergunte a mamãe...!!!! ...'IMPÍTIMA' é meu 'ZOVOSCOS' ...!!!

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  5. Era o que se poderia esperar 'bote de cobra'...RUSSO desde a maternidade ....'Impítima' é meus 'ZOVOSCOS' ...!!!

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  6. Parabéns Fernando Castilho pela sua iniciativa de responder com categoria a esse covarde homem chamado Michel Temer que sempre viveu como 'mosca varejeira' se aninhando a quem estiver por por cima , é um golpista disfarçado ,assim como é ,uma grande parte do seu partido... Não sei se a gente pode chamar de homem a um tipo destes ... Parabéns mais uma vez F. Castilho por responder a esta 'pulga' ...GOLPE NUNCA MAIS !!!!!!!!

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  7. É uma mistura mal acabada de Charles-Maurice de Talleyrand-Périgord com o general chinês Wang Jingwei, quer devolver o poder as dinastias que assacaram o país durante 500 anos e lutar ao lado das forças internacionais que querem se apoderar do pré-sal, ele detém a a principal caracteristica que marca os dois personagens históricos e é assim que passará para a história, Michel Temer ex vice presidente que se uniu a um psicopata para derrubar uma democracia, perdeu,

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  8. ESTA CONVERSA DE MICHEL TEMER ASSEMELHA AS DECLARAÇÕES DE MARIDO QUE CONSTITUIU NOVO CASAMENTO E PROCURA JUSTIFICAR O AFASTAMENTO DA ESPOSA, IMPUTANDO-LHE TODAS AS CULPAS POSSÍVEIS QUE NÃO FORAM DISCUTIDAS ANOS E ANOS DA VIGÊNCIA DO CASAMENTO. DEPOIS DE CINCO ANOS, NO MOMENTO CRÍTICO DA HISTÓRIA É QUE MICHEL TEMER VEM COM ESSA CONVERSA FIADA QUANDO SERIA O MOMENTO EM QUE TODOS NO GOVERNO DEVERIAM ESTAR COESOS PARA OS ENFRENTAMENTOS PELA MANUTENÇÃO DA ORDEM DEMOCRÁTICA. FOI ESTE O MOMENTO OPORTUNO, O MELHOR MOMENTO, PARA JOGAR PARA FORA O QUE ELE REPRIMIA O TEMPO TODO, PENSANDO EM TIRAR O MELHOR PROVEITO

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  9. Essa carta deveria ser lida nas tribunas do Senado e da Câmara dos Deputados.
    Será que ainda resta um parlamentar digno de confiança para executar essa tarefa?

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