quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O próximo slogan de Trump: Faça a America uma autocracia trumpiana

Por Fernando Castilho



Donald Trump encerrou o primeiro ano de seu segundo mandato com um saldo simplesmente tenebroso, para os Estados Unidos e para o resto do mundo.

Impôs tarifas de forma unilateral, ajudando a empurrar a inflação para níveis perigosos; perseguiu trabalhadores estrangeiros, deportando-os ou enviando-os para a prisão de Bukele, em El Salvador, o que resultou em escassez de mão de obra e no fechamento de restaurantes e serviços; sequestrou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e agora ameaça tomar a Groenlândia, num roteiro que lembra perigosamente certos delírios expansionistas da Alemanha nazista.

Há muito mais, mas podemos parar por aqui. O excesso já cumpre sua função.

Trump não blefou ao criar o slogan Make America Great Again. Está cumprindo a promessa; Só que à sua maneira. Em nome de um patriotismo ruidoso e performático, trabalha incansavelmente para tornar o próprio país mais frágil, dividido e irreconhecível. A bandeira é exaltada enquanto a ideia de nação é esvaziada.

O descontentamento interno cresce a olhos vistos, impulsionado pela truculência do ICE, a “polícia migratória” que começa a parecer uma releitura moderna da Gestapo. Paralelamente, avança um processo silencioso, porém decisivo, de corrosão institucional: ataques sistemáticos à imprensa, deslegitimação do Judiciário, enfraquecimento dos órgãos de controle e a transformação do Estado em extensão da vontade pessoal do presidente. O mais preocupante é que tudo isso vai sendo naturalizado, tratado como ruído político, como se não estivesse em curso um desmonte deliberado das bases democráticas.

Um agente do ICE matou uma mulher americana somente porque ela ficou assustada e se afastou com seu carro. A versão oficial naturaliza o crime ao afirmar que o agente apenas reagiu à investida do carro da mulher que quase o atropelou. Mas o vídeo é conclusivo e desmente essa versão

No plano externo, a União Europeia finalmente parece despertar, observando com apreensão os desejos nada modestos do presidente norte-americano.

Como se não bastasse, Trump “aceitou” um Prêmio Nobel da Paz das mãos de Maria Corina, como se isso tivesse qualquer validade. E ainda escreveu uma carta ao primeiro-ministro da Noruega reclamando por não ter recebido o prêmio oficial, ignorando o detalhe irrelevante de que o Nobel não é concedido pelo governo norueguês.

Pode parecer somente loucura, mas também é ego em estado inflamado agudo.

Com as eleições de meio de mandato se aproximando, tudo indica que, diante do descontentamento generalizado, inclusive entre republicanos, Trump perderá a maioria no Congresso. Isso deve dificultar sua governabilidade e reacender o fantasma do impeachment.

O problema é que, a julgar por seu comportamento, o mais coerente é que ele não aceite limites institucionais, mas que os ignore. Em outras palavras: que tente se manter no poder à força, como quase fez Jair Bolsonaro.

Se isso ocorrer, o autoritarismo estará oficialmente decretado nos Estados Unidos, dando a Trump carta branca para seus devaneios. Virá repressão, muita repressão. A pergunta já não é mais o que ele é capaz de fazer, mas até onde os outros permitirão que ele vá. A América já viveu uma guerra civil. A história não costuma dar muitos avisos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Por que ainda precisamos falar de ditadura e Bolsonaro

Por Fernando Castilho



O filme O Agente Secreto e a vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro foram celebrados não apenas pela esquerda, mas por todos que ainda veem no cinema um instrumento de reflexão. Em contrapartida, a ala bolsonarista, fiel ao hábito de rejeitar o que não consome, condenou a obra apenas por ser ambientada na época da ditadura militar. Para esse grupo, qualquer resgate dos "anos de chumbo" é encarado como uma afronta pessoal, postura reforçada por opiniões como a de uma colunista da Folha de S. Paulo, que sugeriu que "já basta de filmes sobre o tema". É o equivalente a propor um apagamento deliberado da história para evitar o desconforto do real.

Essa resistência ao passado tem um reflexo geracional preocupante. Como a ditadura terminou em 1985, brasileiros com menos de 45 anos não possuem memória direta do período. Somado a isso, o ensino escolar muitas vezes resume esse capítulo em páginas superficiais, impedindo que os jovens compreendam a dimensão daquele pesadelo. Essa lacuna educacional e histórica ajuda a explicar por que tantos não entenderam a gravidade da tentativa de golpe em 8 de janeiro, nem o peso de suas consequências.

O desejo de silenciar o debate sobre os anos de chumbo nasce da conveniência: é mais fácil apagar a memória coletiva do que encarar fantasmas. Esse mesmo mecanismo de negação surge quando denunciamos nas redes sociais as ações de Jair Bolsonaro. Diante das críticas à sua tentativa de golpe ou ao comportamento de sua família nas redes sociais, surge o apelo: “Parem de falar sobre ele, deixem-no cair no esquecimento”.

No entanto, ignorar o presente seria repetir o erro de quem varreu a ditadura para debaixo do tapete. Bolsonaro precisa ser lembrado, não por culto, mas por vigilância. É preciso manter vivo o registro de sua responsabilidade na gestão da pandemia, quando foi responsável direto pela morte de mais de 400 mil pessoas, e o fato de que, sob sua liderança, o Brasil flertou com o retorno ao autoritarismo, às prisões políticas, à tortura e aos assassinatos.

Falar sobre esses temas não é obsessão; é um exercício de autodefesa democrática. Recordar o passado e expor o presente é a única forma de garantir que as novas gerações não caiam na armadilha de eleger, novamente, figuras que transformam a política em um projeto de opressão.

Portanto, falemos sim sobre ele. Para que nunca nos esqueçamos.

sábado, 10 de janeiro de 2026

A roleta russa de Washington: o mundo na era da brutalidade

Por Fernando Castilho



O mundo que conhecíamos, aquele erguido sobre os escombros fumegantes de 1945, cimentado por tratados multilaterais e pela previsibilidade diplomática, foi oficialmente enterrado em 2025. Ao iniciarmos 2026, a “aventura” de Donald Trump na Casa Branca deixou de ser um slogan de campanha e se transformou em um terremoto geopolítico. Não estamos diante de uma simples troca de governo, mas da substituição da ordem jurídica internacional pela “Lei do Mais Forte”, uma doutrina que brinca perigosamente com fósforos em um barril de pólvora global.

Assistimos, assim, ao fim da “Polícia do Mundo” e ao início do “Dono do Bairro”.
Washington não mais se apresenta como xerife, mas como síndico autoritário de um condomínio hemisférico. A captura de Nicolás Maduro no início do ano, somada à disposição de anexar a Groenlândia e invadir o México por terra, desenha um mapa mental digno de um CEO delirante que confunde geopolítica com fusões e aquisições. A nova Estratégia de Segurança Nacional é cristalina: os EUA não vão mais bancar a segurança da Europa ou a estabilidade da Ásia sem receber dividendos imediatos. E não vão tentar enganar mais ninguém com o velho discurso de levar democracia a quem não tem.

Para os aliados da OTAN, o recado foi um banho de água gelada: “Paguem ou protejam-se sozinhos”. Ao esvaziar sua presença militar no Leste Europeu e concentrar forças no Hemisfério Ocidental, Trump abre um vácuo que Putin e Xi Jinping podem interpretar como um convite para redesenhar fronteiras. Nesse cenário, o estopim de uma Terceira Guerra Mundial não viria de uma invasão americana, mas da ausência da dissuasão americana.

E como se fosse um trailer antecipado do caos, em 8–9 de janeiro de 2026, as Forças Armadas russas lançaram um ataque de grande escala contra a Ucrânia, com drones, mísseis convencionais e o hipersônico Oreshnik. Foi apenas a segunda vez que esse míssil foi usado, depois de um teste com ogivas inertes em 2024. A mensagem é clara: Moscou quer encerrar de vez a novela ucraniana e guardar munição para o próximo ato, possivelmente um conflito mundial.

O perigo iminente reside na natureza errática do atual governo americano. A diplomacia foi substituída por grosseria institucionalizada. Quando o presidente usa tarifas de 60% como se fossem cupons de desconto e autoriza operações militares unilaterais contra alvos iranianos ou sul-americanos, ele arranca as válvulas de escape do motor diplomático. Resultado: qualquer faísca, um drone abatido no Estreito de Ormuz, uma disputa sobre semicondutores ou o sequestro de um submarino russo, pode virar incêndio em questão de horas.

Vivemos numa era de “geopolítica do compliance”: países e empresas não seguem a lei, apenas tentam adivinhar quem terá força para ditá-la amanhã. É como jogar xadrez em um tabuleiro onde as peças mudam de regra a cada rodada.

Para o Brasil e o Sul Global, o dilema é pragmatismo ou isolamento. O retorno da Doutrina Monroe transforma Brasília em refém de um jogo duplo: de um lado, a chance de ocupar espaços deixados por uma China acuada; de outro, o risco de sanções caso não se alinhe ao script de Washington em temas como migração e segurança. E, claro, esse risco se estende às eleições de 2026, quando a imprensa hegemônica já afia suas penas para pressionar o governo Lula. Afinal, nada como um empurrãozinho midiático para acelerar o fim de um mandato incômodo.

A aventura trumpista é uma aposta de alto risco: o prêmio seria a hegemonia americana renovada, mas o preço pode ser o caos sistêmico. O risco de uma Terceira Guerra Mundial não é mais uma abstração ideológica; é a consequência lógica de um mundo sem árbitros, onde cada potência joga sua própria roleta russa.

Se 2026 já nos ensinou algo, é que a estabilidade global era um luxo que tratávamos como banal, mas que era necessário. Agora, resta saber se as outras potências terão a sobriedade que falta ao Salão Oval, ou se todos aceitarão o convite para essa roleta russa geopolítica. E não, não é trocadilho: é diagnóstico.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A simbiose do caos: Trump, o Deep State e a nova ordem pós-democrática

Por Fernando Castilho



Há uma leitura persistente, quase folclórica, de que Donald Trump e o Deep State, a burocracia permanente de inteligência e defesa dos EUA, habitam universos paralelos, mas em rota de colisão. No entanto, uma observação mais aguda da realidade geopolítica sugere o contrário: eles não estão em guerra, mas em uma simbiose de conveniência. Trump é o martelo ruidoso; o Deep State é a mão que direciona o golpe. Um casamento improvável, mas funcional, que se aproveita mutuamente para transpor o que ambos consideram um obstáculo obsoleto: a liturgia da democracia liberal.

 

As diatribes de Trump contra as instituições não são apenas retórica eleitoral; são testes de estresse. Por enquanto, ele ainda precisa driblar as engrenagens democráticas que atrasam decisões de força. Mas esse “por enquanto” tem data de validade. O americano médio, fustigado por crises de custo de vida, salários congelados desde 2008 e uma sensação de declínio nacional, começa a ver a democracia não como um direito inalienável, mas como um entrave burocrático que impede a “resolução de problemas”. Afinal, quem precisa de direitos quando se pode ter soluções rápidas, não é mesmo?

Quando o cidadão comum manda a democracia às favas, o líder ganha o salvo-conduto para agir como soberano. É nesse vácuo de controle institucional que o Deep State opera com maior liberdade, utilizando a figura disruptiva de Trump para executar manobras que nenhum político tradicional ousaria, até porque nenhum político tradicional teria coragem de fazer tanto barulho sem se importar com o ridículo.

 

O recente sequestro de Nicolás Maduro e a postura “pela metade” de Washington na Venezuela ilustram perfeitamente esse jogo. Por que não uma invasão total? Por que manter a estrutura do regime sob pressão em vez de derrubá-lo de uma vez? Talvez porque o espetáculo rende mais quando se prolonga.

 

A resposta pode residir no equilíbrio de forças globais. Ao manter um discurso “meio aliche, meio muçarela” na ONU, Trump segura as reações de Pequim e Moscou. Ele oferece um pragmatismo cínico: permite que a China e a Rússia mantenham seus interesses econômicos e minerais (como o acesso a terras raras, ouro e petróleo pesado) em troca de não interferirem na “limpeza” ideológica da região. É o famoso “cada um cuida do seu quintal, mas não reclame da bagunça do vizinho”.

 

O alvo real não é apenas o chavismo, mas seus tentáculos externos. A estratégia pode estar diante de nossos olhos, mas custamos a compreendê-la:

  1. Isolamento de Células Ideológicas: Desmantelar radicalmente a influência de Cuba e do Irã no hemisfério, removendo o suporte logístico e de inteligência que sustenta regimes autocráticos.
  2. Aposta na Implosão: Em vez de gastar bilhões em uma ocupação militar, os EUA fomentam as condições para uma guerra civil. Ao estrangular a economia e remover a cabeça do regime (Maduro), cria-se um vácuo onde as elites militares e as facções internas lutarão entre si. Isso já se tornou visível na noite de 5 de janeiro, quando drones sobrevoaram Caracas e ninguém entendeu absolutamente nada. Estratégia nova? Nem de longe.
  3.  

O objetivo é uma vitória por W.O.: derrubar o sistema venezuelano sem que o governo americano precise dar mais um tiro sequer após as operações iniciais. Se a Venezuela se tornar um campo de batalha interno, o Deep State americano poderá “gerenciar” o resultado através de procuradores, garantindo que o novo governo seja alinhado aos interesses de Washington, mas mantendo as mãos americanas formalmente limpas. Afinal, nada como parecer neutro enquanto se dita as regras do jogo. É por isso que Trump não empossou Maria Corina no governo venezuelano.

 

Estamos diante de uma nova doutrina de poder: menos diplomacia, mais erosão institucional; menos guerra direta, mais caos induzido. Trump e o aparato estatal descobriram que, no século XXI, o controle não vem da ocupação, mas da capacidade de ditar quem sobrevive ao colapso. E, convenhamos, é muito mais barato, e rende manchetes mais emocionantes.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

De Varsóvia a Caracas: O retorno da força como linguagem diplomática

Por Fernando Castilho



O mundo assiste, em choque, às imagens do sequestro de Nicolás Maduro e à ocupação de pontos estratégicos na Venezuela pelas forças dos Estados Unidos. Para os historiadores, o eco de setembro de 1939 é ensurdecedor. Embora o século XXI se orgulhasse de suas instituições multilaterais e de uma arquitetura de paz aparentemente sólida, a Operação Determinação Absoluta, deflagrada por Donald Trump, guarda semelhanças perturbadoras com a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista. O evento levanta uma questão existencial: o Direito Internacional sobrevive a este novo capítulo ou estamos apenas documentando o seu funeral?

A construção do pretexto para a agressão revela um padrão histórico de manipulação narrativa. Em 1939, Hitler utilizou a Operação Himmler, um ataque de falsa bandeira, para justificar a invasão da Polônia como uma "medida defensiva". Em 2026, a administração americana resgatou uma versão anacrônica e agressiva da Doutrina Monroe, moldada sob o conceito de "Autodefesa Hemisférica". Sob o argumento de que a Venezuela se tornou um "Narcoestado" que ameaça a segurança interna dos EUA via fluxo de fentanil e imigração descontrolada, Washington atropelou a soberania nacional venezuelana. Em ambos os casos, a retórica serviu para mascarar objetivos estratégicos de longo prazo: o Lebensraum (espaço vital) alemão e o controle das maiores reservas de petróleo do mundo pela administração Trump.

A rapidez da queda das defesas venezuelanas em 2026 mimetiza a eficácia assustadora da Blitzkrieg alemã. Enquanto a Polônia foi esmagada pela coordenação inédita de divisões Panzer e o terror vindo dos céus com a Luftwaffe em 28 dias, a Venezuela viu a cabeça de seu comando central ser decapitada em menos de uma semana por uma "guerra relâmpago" tecnológica, embora o restante do corpo esteja mantido. Em 2026, o campo de batalha foi definido por enxames de drones, ataques cibernéticos paralisantes à rede elétrica e ao sistema de defesa antiaérea, culminando no sequestro cirúrgico de Nicolás Maduro por forças especiais.

Essa disparidade militar absoluta não permitiu uma defesa convencional, empurrando o que restou das forças locais para a guerrilha e a resistência civil. O "Estado Secreto Polonês" de outrora encontra seu paralelo moderno nas milícias bolivarianas que agora se escondem no interior venezuelano, com o potencial de transformar o país em um barril de pólvora de insurgência.

A invasão da Polônia foi o "rastilho de pólvora" que ativou alianças e engolfou o globo. Hoje, o risco de uma Terceira Guerra Mundial não reside necessariamente em uma invasão terrestre entre superpotências, mas na ruptura total das cadeias globais e na "Putinização" da política externa americana. A reação do bloco BRICS, liderada por um Brasil que vê sua fronteira amazônica militarizada para evitar o transbordamento do caos, e uma China que observa seus investimentos petrolíferos serem confiscados, coloca o planeta em uma corda bamba. Se em 1939 o gatilho foi o expansionismo territorial europeu, em 2026 o estopim é a voracidade por recursos energéticos e a percepção de que países como Colômbia e México podem ser os próximos alvos de uma política de "limpeza regional" de Washington. E o Brasil, que se cuide.

A gravidade do momento reside no fato de que, diferente da Alemanha de 1939, os EUA implodem o sistema por dentro, ocupando uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Seja qual for o desfecho da ocupação na Venezuela, o paralelo histórico nos ensina que, quando o diálogo é substituído pela força unilateral, a ordem mundial que conhecemos deixa de existir. A invasão da Polônia enterrou a Liga das Nações; a invasão da Venezuela em 2026 pode ter acabado de redigir a certidão de óbito da ONU.

Hoje, o Direito Internacional parece reduzido a uma sugestão acadêmica, enquanto um faroeste geopolítico impera sem que haja xerifes. Resta saber se o mundo precisará passar por um conflito total para reescrever suas regras de convivência ou se a interdependência econômica de 2026 servirá como o último freio que faltou em 1939.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A cigana leu o destino do Brasil?

Por Fernando Castilho



Todo começo de ano é a mesma coisa: videntes e astrólogos se revezam em adivinhações. A maioria prefere “arriscar” prevendo que um artista famoso vai morrer. E, lógico, infelizmente temos um bom número de longevos candidatos a nos deixar.

Mas, longe de me arvorar em pitonisa, há no campo político possibilidades que requerem análises sérias.

Em 2026, o Brasil voltará a viver um momento decisivo. A eleição presidencial não será apenas uma disputa entre nomes, mas um pleito que colocará em jogo o sentido do ciclo político iniciado com a redemocratização, interrompido em 2016 e reconfigurado após 2022. Lula, candidato à reeleição, estará no centro desse processo, seja vencendo, seja perdendo.

Diante disso, há três cenários possíveis: Lula perde a eleição, Lula vence a eleição e Lula faz seu sucessor em 2030.

Se Lula perder a eleição, o que ocorrerá com o país dependerá menos dele e mais de quem o substituir. Uma derrota diante de um candidato da direita democrática institucional representaria uma alternância de poder típica das democracias liberais. Nesse cenário, o Brasil tenderia a manter a estabilidade institucional, com respeito às regras do jogo, mas passaria por uma reorientação econômica mais restritiva, marcada por ajuste fiscal, contenção de políticas redistributivas e maior sintonia com o mercado financeiro. O conflito social não desapareceria; ao contrário, sindicatos e movimentos populares reagiriam a eventuais cortes, produzindo um ambiente de tensão controlada, porém constante. Contudo, não se vê no horizonte esse candidato, que seria chamado de terceira via.

Muito mais preocupante seria a derrota de Lula para um campo político de viés autoritário ou populista radical:  o bolsonarismo, mesmo que travestido de moderado para enganar mais uma vez os incautos. Nesse caso, o país poderia voltar a conviver com ataques sistemáticos às instituições, especialmente ao Supremo Tribunal Federal, à imprensa e aos mecanismos de controle. A polarização entre quem defende a democracia e quem quer destruí-la se intensificaria, e o Brasil correria novamente o risco de isolamento internacional, sobretudo em temas ambientais e de direitos humanos. O perigo maior, nesse cenário, não seria uma crise econômica imediata, mas a corrosão progressiva da democracia liberal.

É preciso considerar ainda que essa corrosão pode ocorrer como uma verdadeira ruptura, ou seja, a continuidade da tentativa de golpe, agora legitimada pelas urnas. Qualquer um que derrote Lula, dentro de um espectro que vai de Flávio Bolsonaro a Tarcísio, Zema, Caiado ou Ratinho, se prestaria a esse papel. O retrocesso, após quatro anos de recuperação do país frente aos estragos causados por Jair Bolsonaro, seria inevitável. E, lógico, nesse combo ainda estaria uma anistia ao genocida.

Em qualquer hipótese de derrota, Lula não desapareceria da cena política. Tornar-se-ia o principal líder da oposição, uma espécie de fiador simbólico da ordem democrática, tentando preservar seu legado e, ao mesmo tempo, organizar o campo progressista para o futuro. Ainda assim, uma derrota em 2026 marcaria o início inequívoco do declínio do lulismo como liderança pessoal, mesmo que o projeto político sobrevivesse.

Se, por outro lado, Lula vencer a eleição de 2026, o significado político será profundo. Ele consolidaria um ciclo histórico raro, tornando-se o presidente mais longevo da República e uma figura comparável, em termos de duração e influência, a Getúlio Vargas. Essa vitória representaria não apenas um triunfo eleitoral, mas uma confirmação de que o campo democrático conseguiu resistir às investidas autoritárias do período anterior.

Ainda assim, um eventual quarto mandato não seria um governo de grandes rupturas. As restrições fiscais, a fragmentação do Congresso e o desgaste natural do tempo imporiam limites claros à ação governamental. Lula tenderia a governar administrando o possível: aprofundando políticas sociais dentro das margens disponíveis, reforçando o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, mas evitando confrontos que pudessem gerar instabilidade. O fim da escala 6 x 1 seria a grande marca de um governo que a grande imprensa se esforça para caracterizar como ausente de marcas. Do ponto de vista institucional, haveria um ambiente de maior previsibilidade, com fortalecimento do STF e redução significativa do risco de aventuras golpistas.

Uma vitória em 2026 também abriria, de forma explícita, a questão da sucessão em 2030. Lula não poderá concorrer novamente, e o país entrará inevitavelmente no debate sobre o pós-Lula. Nesse ponto, sua decisão será estratégica. Ele tenderá a buscar um sucessor que combine lealdade política, capacidade de diálogo com o centro e menor grau de polarização. A prevalecer esse cenário, surgem dois nomes possíveis: Geraldo Alckmin e Simone Tebet. Se em 2026 Alckmin e Tebet concorrerem e se elegerem governadores em seus estados, a depender do sucesso de suas administrações, podem surgir fortalecidos para 2030. Pode-se incluir nessa pequena lista Fernando Haddad, desde que ele comece a demonstrar maior traquejo político. Um nome excessivamente ideológico poderia preservar a identidade histórica do PT, mas teria mais dificuldade eleitoral. Um nome mais moderado, técnico-político, poderia ampliar alianças e garantir competitividade, ainda que ao custo de diluir parte do lulismo clássico. Há também a possibilidade de Lula apoiar alguém da esquerda fora do PT, desde que comprometido com uma frente ampla democrática e com a preservação de seu legado. Nesse caso, pode surgir Guilherme Boulos, que, no cargo de ministro, parece estar sendo preparado por Lula para obter experiência administrativa.

O dilema é evidente: indicar alguém fraco pode levar à derrota; indicar alguém forte demais pode significar perder o controle sobre o legado político; não indicar claramente pode fragmentar o campo progressista. Historicamente, Lula prefere controlar a sucessão, mas a história mostra que nenhuma sucessão é plenamente controlável.

Em síntese, 2026 será menos sobre Lula individualmente e mais sobre o destino do ciclo político que ele simboliza. Se perder, o Brasil poderá voltar a viver momentos tensos de ameaça institucional. Se vencer, o país tende a atravessar um período de estabilidade democrática e transição, preparando-se para um cenário inevitável: o fim do lulismo como liderança pessoal em 2030, ainda que suas ideias continuem a disputar o futuro político do Brasil e o avanço nas políticas que reduzirão a desigualdade e colocarão o país no grupo restrito das maiores economias do mundo.

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Jaques Wagner: herói ou vilão?

Por Fernando Castilho



Antes de mais nada, convém baixar a guarda, como eu já fiz, para pensar racionalmente e evitar rachaduras desnecessárias dentro da esquerda.

O famigerado PL da Dosimetria, uma excrescência que jamais deveria ter visto a luz do dia e que Renan Calheiros batizou com precisão cirúrgica de “PL da Infâmia”, chegou à CCJ do Senado. Davi Alcolumbre, sempre diligente quando convém, não poupou esforços para aprová-lo antes do recesso. O projeto tinha toda a cara de rejeitado e parecia pronto para o cemitério legislativo. Mas eis que surge o imponderável: Sergio Moro, em sua costumeira criatividade, apresentou uma “emenda de redação”. Só que, na prática, não era redação coisa nenhuma. A alteração impedia que o PL beneficiasse autores de crimes sexuais e de corrupção. Em outras palavras, uma emenda de mérito travestida de retoque gramatical. Resultado: o projeto deveria voltar à Câmara, como manda a Constituição, depois retornar ao Senado, e não seria votado este ano.

Foi aí que Jaques Wagner, do PT, enxergou a oportunidade. A jogada era simples e engenhosa: condicionar a aprovação do PL à aprovação de outro projeto vital para o governo: o aumento da taxação das bets e das fintechs, capaz de render cerca de 20 bilhões de reais em 2026, ano eleitoral. Enquanto isso, Lindbergh Farias, indignado, entraria no STF com um mandado de segurança denunciando a “criatividade jurídica” de Moro. Se fazia parte do acordo com Wagner, ninguém sabe, ninguém viu. Mas acho que não.

O roteiro é quase previsível: o STF deve considerar a votação da CCJ inconstitucional, o projeto volta à Câmara, é aprovado novamente e retorna ao Senado. Mas isso só em 2026, depois do recesso. Desta vez, sem acordo algum, será rejeitado e arquivado. Lula não precisará nem gastar tinta com veto. Jogada de mestre, típica de quem coleciona décadas de política, embora bastante discutível do ponto de vista republicano e ético, e que pode causar ao senador sua destituição de líder do governo.

Nem todos aplaudiram. Renan Calheiros denunciou em plenário, sem papas na língua, a conversa reservada que teve com Wagner, e classificou o acordo como uma “farsa” da qual não participaria. Convenhamos, o termo cai como uma luva.

Nas redes, o resultado é uma esquerda dividida: uns se dizem traídos depois das manifestações de domingo, outros se esforçam para encontrar justificativas que isentem o governo de qualquer manobra.

No fim das contas, o pragmatismo frio de Jaques Wagner pode estar conduzindo ao enterro definitivo do infame PL da Dosimetria, enquanto garante a taxação das bets e das fintechs, uma vitória política e financeira para o governo.

 Ironias da política: às vezes, para enterrar uma infâmia, é preciso abraçar uma farsa. Ou criar outra infâmia.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Tentativa de Golpe de Estado: A Mãe de Todos os Crimes

Por Fernando Castilho



A desproporção penal brasileira


A pena para homicídio qualificado no Brasil varia de 6 a 30 anos de reclusão. Trata-se de um crime grave, que atinge diretamente uma vítima individual. No entanto, quando se observa a legislação referente à tentativa de golpe de Estado, a desproporção salta aos olhos: a sanção prevista é de apenas 4 a 12 anos. Essa discrepância revela uma falha estrutural do sistema penal brasileiro, pois o golpe de Estado não é um crime comum. Ele ameaça toda a coletividade, suprime direitos fundamentais, destrói instituições e coloca em risco a vida de milhares de pessoas.

Recentemente, Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de reclusão por diversos crimes, pena que pode ser reduzida a 20 anos caso o chamado “PL da Dosimetria” seja aprovado. A ironia é que, se fosse apenas pela tentativa de golpe, a punição seria inferior à de um homicídio isolado. Ora, o golpe de Estado, se concretizado, inaugura um regime de exceção em que opositores são perseguidos, presos e torturados, assassinatos políticos são cometidos com ocultação de cadáveres, a imprensa é censurada e a população privada de informação. Os livros de história, reescritos sob a ótica do regime, registram apenas uma “mudança necessária” para preservar a democracia e as instituições. Não há eleições livres, e o ditador governa pelo tempo que desejar, podendo transferir o poder a alguém de confiança, como um filho. O regime se perpetua até que uma revolução o derrube, e como a repressão é violenta, o resultado costuma ser uma conflagração nacional com milhares de mortes.

Em diversos países, a tentativa de golpe é tratada como crime gravíssimo. A Constituição alemã prevê penas severas para atentados contra a ordem democrática, podendo chegar à prisão perpétua. Na Espanha, a tentativa de subverter o Estado é punida com até 30 anos de reclusão. Chile e Argentina, após suas ditaduras, endureceram suas legislações contra conspirações golpistas, reconhecendo o caráter coletivo e devastador desse tipo de crime. O Brasil, ao manter penas brandas, transmite a mensagem de que atentar contra a democracia é menos grave do que ceifar uma vida individual.

A tentativa de golpe de Estado deveria ser considerada a mãe de todos os crimes. Mais grave que o homicídio, porque ameaça milhões de vidas e destrói o pacto social. A pena mínima deveria ser multiplicada, chegando a 50 anos de reclusão, para que o golpista tenha tempo de refletir atrás das grades e, sobretudo, para desestimular futuros aventureiros. A democracia não pode ser tratada como bem de menor valor. Se o homicídio qualificado merece até 30 anos de prisão, a tentativa de golpe de Estado deveria ser punida com muito mais rigor. Só assim o Brasil deixará claro que não tolera ataques à sua ordem constitucional e que a liberdade coletiva vale mais do que qualquer ambição autoritária.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

A fibra de Gláuber e a frouxidão da extrema direita

Por Fernando Castilho



Acompanhei todo o processo de cassação de Gláuber Braga na Câmara dos Deputados e, convenhamos, o deputado do Psol do Rio de Janeiro não arredou um centímetro de suas convicções. Se tivesse feito o teatrinho básico, pedido desculpas, retirado o que disse a Arthur Lira sobre o escândalo das emendas, teria escapado bem antes da via crucis que lhe armaram. Mas não: preferiu sair de cabeça erguida, vitorioso e honrado.

E aí me vieram algumas comparações inevitáveis.
Dilma Rousseff, diante do seu terror pessoal, o torturador Brilhante Ustra, não entregou um único nome. E olha que as torturas eram coisa de manual de barbárie de Átila, o rei dos Hunos.

Do outro lado, Jair Bolsonaro, quando encarou Alexandre de Moraes em seu julgamento, fez o que sabe de melhor: pediu desculpas, jurou que nunca viu os milhões que tinha afirmado que Moraes recebera e, para coroar, ainda convidou o ministro para integrar seu futuro governo. Brio? Fibra? Nada disso. Saiu com aquela cara de bobo típica dos covardes que se humilham para salvar a própria pele.

Agora, o mesmo Bolsonaro repousa em uma sala especial (não cela, veja bem) na superintendência da Polícia Federal em Brasília. Doze metros quadrados com ar-condicionado (que já reclamou porque faz barulho), frigobar, cama com colchão, banheiro privativo e chuveiro quente. Um verdadeiro spa carcerário. Ah, e duas horas de banho de sol por dia, podendo circular tranquilamente como se fosse hóspede de resort.

Mesmo assim, o deputado Paulo Bilynskyj, em vistoria, teve a coragem de dizer que seu Jair estava sendo submetido a “verdadeira tortura”. Tortura, aliás, que ele defende para os outros sem pestanejar. Enquanto isso, Lula, também idoso, enfrentou 580 dias de prisão preventiva numa sala da PF de Curitiba sem reclamar, sem pedir anistia, e isso já depois de ter enfrentado um câncer.

Seu Jair, o homem com “histórico de atleta” que classificou a Covid-19 como “gripezinha” e chamou todos os brasileiros que se resguardavam dela de “maricas”, o homem que até ontem exibia vigor ao passear de jet-ski e participar de motociatas, de repente virou um paciente terminal, quase à beira da morte. Por isso, precisa de prisão domiciliar, de preferência com piscina, sauna e quem sabe até uma jacuzzi.

Curiosamente, também, o general Heleno, homem de perfil notoriamente autoritário, agora alega Alzheimer. Alexandre Ramagem, para não cumprir pena, simplesmente fugiu para os Estados Unidos, assim como Carla Zambelli para a Itália. E o que falar de Eduardo Bolsonaro? Além de covardes, são fujões.

E o ex-ajudante de ordens, Mauro Cid? Ao ouvir os conselhos dos advogados, não pensou duas vezes: entregou todos os golpistas para salvar a própria pele.

É isso: não têm fibra. Não aguentam uma hora de interrogatório mais duro. Bastaria a menção de uma “pau-de-arara” para que borrassem as calças e entregassem até o cachorro da vizinha.

A extrema direita é frouxa. São guerreiros de frigobar, mártires de ar-condicionado barulhento e heróis de motociata.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Jorge Messias virou a moeda de troca contra o PL da Dosimetria

Por Fernando Castilho


Não precisamos perder tempo relembrando os últimos espetáculos grotescos de Hugo Motta na Câmara dos Deputados. O que importa é ir direto ao ponto.

O famigerado PL da Dosimetria já passou pela Câmara e agora segue para o Senado. Lá, o presidente Davi Alcolumbre, sempre ávido por protagonismo, anunciou que pretende votar ainda este ano. O detalhe é que vários senadores como Renan Calheiros e Otto Alencar já se insurgiram de forma áspera contra o atropelo e disseram que não vão engolir a pressa. Veremos.

O relator escolhido é ninguém menos que Esperidião Amin, do PL. Um homem que guarda no coração sua velha paixão: a Arena, partido que sustentou a ditadura militar. Pois bem, Amin já avisou que vai “mexer” no projeto para incluir a anistia. Ou seja, o que será votado não é o PL original, mas um Frankenstein jurídico feito sob medida para reduzir as penas do totem Jair Bolsonaro e seus generais de estimação.

Vale lembrar: quando a PEC da Bandidagem chegou ao Senado, Alcolumbre correu para enterrá-la, tentando agradar Lula para emplacar Rodrigo Pacheco no STF. Ganhou pontos, mas não ganhou o prêmio. Agora, ressentido, decidiu se vingar. E a vingança vem embalada no PL da Dosimetria.

Se esse monstrengo passar no Senado, seguirá para sanção de Lula, que obviamente vetará. A Câmara, previsivelmente, derrubará o veto. E então algum partido baterá às portas do STF com uma ADI ou ADPF. É aí que mora o perigo. Explico.

Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli são simpáticos a Rodrigo Pacheco. Já Nunes Marques e André Mendonça preferem Jorge Messias, por afinidade evangélica. Lula sabe que o projeto tem chances reais de ser chancelado pelo Supremo. Bastam seis votos. E Alcolumbre também sabe. Portanto, há um conluio descarado entre parte dos ministros do STF e o presidente do Senado.

No meio disso tudo, Jorge Messias virou moeda de troca. O assalto é cristalino: “Lula, não indique Messias. Indique Pacheco e o PL da Dosimetria será enterrado no Senado.” É chantagem pura e simples. E, como toda chantagem, tende a funcionar. Lula será empurrado a indicar Rodrigo Pacheco.

Eis a atmosfera em que os poderes convivem “harmoniosamente” hoje: um teatro de pressões, vinganças e chantagens. Harmonia, aqui, é apenas o nome pomposo dado ao caos institucional.