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segunda-feira, 30 de março de 2026

O que o filho 03 pretendeu ao exibir o celular no congresso supremacista?

Por Fernando Castilho



Há coisas que, à primeira vista, parecem bizarras. Mas basta esfregar os olhos e olhar de novo para perceber que de “estranhas” não têm nada, só exigem que a gente suspenda a boa-fé nas pessoas por alguns minutos.

O leitor perceberá durante a leitura que não há citação dos nomes do clã que pretendeu dar um golpe de estado no país.

Os filhos 01 e 03 foram discursar num congresso “conservador” nos Estados Unidos, eufemismo elegante para “supremacista branco”. No palco, o 01, candidato à presidência, ofereceu nossas terras raras e, de quebra, pediu a Donald Trump uma ajudinha nas eleições brasileiras. Já o 03, com o celular grudado na mão, anunciou que mostraria o vídeo ao pai, aquele mesmo que a Justiça proibiu de usar celular. Um detalhe que chamou a atenção de alguém que está vigilante.

Alexandre de Moraes, com a paciência de quem já cansou de ver esse filme, deu 24 horas para a defesa explicar a gracinha, sob pena de mandar o prisioneiro de volta à Papudinha. Se isso acontecer, será a segunda vez que o 03 abre a porta da cela para o próprio pai. Coincidência? Ingenuidade? Ou um filho que sabe muito bem o que está fazendo? Afinal, o ex-deputado autoexilado pode não ser um gênio, mas também não é tão tapado a ponto de colocar o pai em fria por acidente.

Voltemos ao filho 01. Enquanto o pai ainda estava na UTI, ele protagonizou dancinhas em eventos do PL. Estranho? Talvez. Mas, neste ponto, a estranheza já pode dar lugar à desconfiança. Quem conecta os pontos percebe que o teatro tem roteiro.

Se o ex-presidente estava realmente debilitado na Papudinha, a ponto de médicos pedirem transferência, se retornar à prisão, pode muito bem voltar a ficar doente. Embora drones tenham mostrado imagens dele com saúde aparentemente firme, nada impede que a narrativa da fragilidade seja ressuscitada. E essa fragilidade pode ser verdadeira, não sabemos. E, convenhamos, para um candidato que aparece empatado ou ligeiramente atrás de Lula nas pesquisas, um empurrãozinho dramático seria providencial. Só que, com o pai confortável em prisão domiciliar, esse empurrão não vem. É preciso criar o cenário. Um cenário de comoção nacional, como o que já vimos no passado e que propiciou a eleição de um candidato que passou três décadas na Câmara dos Deputados sem aprovar nenhum projeto.

Quais são as marcas registradas dessa dinâmica familiar? O uso compulsivo da mentira, a ausência de limites para atingir objetivos e uma carência de empatia. Assim como o patriarca, os filhos utilizam quem lhes serve, mas não hesitam em descartar aliados que perderam a utilidade.

O Capitão ainda tem serventia, e será manobrado conforme o interesse dos herdeiros. Se o sucesso do projeto exigir um sacrifício ou um novo "fato heroico", ele poderá ser novamente exposto. Não é um teatro improvisado; é uma peça ensaiada. E nós, a plateia, assistimos ao roteiro se desenrolar.

domingo, 29 de março de 2026

O capitão das mamatas deve voltar pra Papudinha?

Por Fernando Castilho



Muita gente da esquerda parece ter esquecido que Alexandre de Moraes segurou com mão firme as rédeas da democracia nos seus momentos mais turbulentos. Agora, alguns o acusam de leniência, ou até de medo, por permitir que o líder da organização criminosa familiar trocasse a cela pela prisão domiciliar.

Em artigo anterior já havia apontado que Moraes, conhecido por sua inflexibilidade diante de bandidos, foi obrigado a ceder às pressões dos filhos mamateiros do Estado, da grande mídia e até de colegas da corte. O argumento era quase irrefutável: o capitão morte poderia morrer na Papudinha e, caso isso acontecesse, todos diriam em coro: “Eu avisei!”. Quem mais lucraria com isso? O filho 01, já em campanha presidencial, que reeditaria o episódio da facada embalado por comoção nacional. O resto da história já podemos prever.

Mas o capitão não chegou em sua mansão saltitando de felicidade. Foi para a domiciliar com várias cautelas: tornozeleira eletrônica, vigilância policial 24 horas, proibição de celulares e visitas restritas à família e advogados apenas dois dias por semana. Tudo muito bonito no papel. Até que um drone intrometido revelou o óbvio: o capitão descumpriu as regras, recebendo visitas e exibindo uma saúde de ferro para quem, dias antes, saíra de uma UTI.

A ironia é que o bozo, formado no Exército, parece ter aprendido apenas a arte de desobedecer ordens. Sempre que há uma determinação superior, ele arrisca e desafia. Em passado recente, tentou até romper a tornozeleira, como quem brinca de “pega-pega” com a Justiça.

Ele e os filhos, porém, dominam uma tática militar: a dos avanços graduais e sucessivos. Primeiro, reclamaram do barulho do ar-condicionado e das instalações “precárias” da cela. Moraes cedeu e o mandou para a Papudinha, uma casa de 65 m² mais confortável que a moradia da maioria dos brasileiros, com assistência médica 24 horas. Não bastou. Todos os dias exigiam prisão domiciliar. O capitão foi parar na UTI de um hospital de luxo, com pneumonia conveniente. Isso acendeu o alerta em Moraes, que novamente cedeu: mansão paga pelo PL, com dinheiro do contribuinte, piscina e churrasqueira incluídas.

Agora, como bons estrategistas do “quanto mais, melhor”, exigem que o 00 receba visitas a qualquer hora, como se não estivesse cumprindo pena. Reclamam, também, que a domiciliar só vale por 90 dias. Querem definitiva. Se Moraes ceder, o próximo passo será pedir autorização para reuniões políticas, churrascadas e lives. E não se pode descartar que isso já esteja acontecendo, já que, por ordem do ministro, não haverá mais drones reveladores.

Mas o ministro, diante do flagrante descumprimento da cautelar documentado pelo drone, está de olho. E pode (e deve) mandar o capitão de volta para a Papudinha. Afinal, serpentes costumam morder os descalços, mas também podem dar o bote em quem insiste em brincar com a Justiça.

quarta-feira, 25 de março de 2026

O golpista ganhou o direito de morar numa casa em que jamais a maioria dos brasileiros honestos e trabalhadores conseguiria

Por Fernando Castilho



Eu sei, eu sei. Você não queria, nem eu. Mas aconteceu.

No fundo, todo mundo já sabia: mais cedo ou mais tarde, com a pressão diária dos filhos, o chefe da organização criminosa que tentou dar um golpe no país — o maior de todos os crimes — acabaria em prisão domiciliar. E não se iludam: embora Alexandre de Moraes tenha concedido o benefício por apenas 90 dias, é quase certo que o capitão voltará a “adoecer gravemente” convenientemente às vésperas do prazo, até conseguir transformar o provisório em definitivo. Afinal, a saúde dele tem uma pontualidade suíça.

Mas não pensem que será um paraíso. Apesar da casa alugada pelo PL com dinheiro do contribuinte (não sabemos se será a mesma mansão da outra vez) ser bem mais confortável que a Papudinha, as regalias serão limitadas: nada de celular próprio ou emprestado, as visitas serão restritas a familiares e advogados, o que, convenhamos, dificulta bastante a logística de novas tramas golpistas. E usará tornozeleira. Por isso, nada de ferro de soldar por perto.

Além disso, haverá policiamento 24 horas para evitar uma possível fuga de pijama. O problema é que será a Polícia Militar do Distrito Federal a encarregada. A mesma que facilitou a invasão dos golpistas no 8 de janeiro.

O que pesou na decisão de Moraes? Provavelmente mais política do que medicina. Saúde não é equação matemática: o sujeito parece ótimo e morre de repente; parece à beira da morte e sobrevive por décadas. Se o “capitão morte” viesse a falecer na Papudinha, sob custódia do Estado, a repercussão seria nacional. Os filhos fariam campanha diária acusando Moraes de assassino, Michelle choraria diante de cada câmera, e a imprensa transformaria o episódio em comoção social, tal qual na novela da facada.

Só que, desta vez, o verdadeiro beneficiado não seria o pai, mas o filho 01, em plena campanha presidencial. E, a julgar pelas dancinhas felizes que anda postando, não se descarta um certo entusiasmo com a ideia de herdar o drama.

Quando os 90 dias se esgotarem, as campanhas estarão fervendo nas ruas, na TV e nas redes sociais. Saberemos, então, se o “Rachadinha” será mesmo o candidato da extrema-direita. Uma coisa é certa: os filhos logo começarão a reclamar não da saúde debilitada do pai, nem das supostas torturas de Moraes na Papudinha, mas da falta de liberdade. “Não pode nem ver um vídeo de dancinha no TikTok! Isso não é tortura?” — preparem-se para o novo bordão.

quarta-feira, 18 de março de 2026

A imprensa que flerta com o demônio

Por Fernando Castilho



Primeiro, uma fábula

Havia um homem que, dominado pela ambição de enriquecer sem esforço, descobriu a existência de um demônio guardião de tesouros em uma caverna. Movido pela ganância, decidiu negociar com ele. Na primeira visita, o terror da criatura e o peso sombrio do lugar o fizeram fugir apavorado. “Esse demônio é perigoso”, pensou.

Mas a ganância é como uma coceira: quanto mais se tenta ignorá-la, mais ela incomoda. Uma semana depois, lá estava o homem novamente, desta vez levando queijo e vinho, esquecendo-se do terror e acreditando que poderia conquistar a confiança do demônio. A cada presente entregue, a criatura recuava mais fundo na escuridão, atraindo o homem para longe da luz. Convencido de estar prestes a receber sua fortuna, ele insistiu em continuar negociando.

Foi então que o demônio revelou seu verdadeiro desejo: não queria oferendas, mas sim a alma do homem. E, como todo tolo que acredita em acordos fáceis com o mal, ele foi arrastado para as trevas eternas, onde nenhum tesouro poderia salvá-lo.

 

Agora, a fábula aplicada à realidade

O atual morador da Papuda, quando era presidente, já mostrava que não suportava a imprensa. Tratava repórteres como se fossem mosquitos: incômodos, mas insistentes. A ironia é que a mesma imprensa, durante a campanha de 2018, abanava o rabo como um cãozinho fiel, preferindo-o a Haddad. O capitão chegou até a ameaçar a Rede Globo de perder sua concessão pública, porque ditadores, como sabemos, não gostam de holofotes que não controlam.

Quando tentou o golpe, ficou claro que queria se firmar como ditador. E ditadores fazem o quê? Quebram a espinha da imprensa, para que ela só publique o que lhes convém.

Agora, seu filho disputa eleições contra Lula. Apesar de se apresentar como moderado, não faz muito tempo declarou que o sucessor do pai deveria conceder anistia ao capitão e, se necessário, usar a força contra o STF. Traduzindo: golpe. Além disso, prometeu dar continuidade ao “trabalho” do pai. Ora, se um dos trabalhos do pai foi tentar um golpe, o filho não ficaria atrás. E, claro, a liberdade de imprensa seria a primeira a ser jogada no abismo.

Durante a internação do capitão na UTI, repórteres cumpriam seu papel: cobrir os fatos. Mas bastou Michelle postar um vídeo acusando jornalistas de desejar a morte do “mito” para que repórteres e suas famílias passassem a ser ameaçados de morte por fanáticos. Eis o apreço do clã pela liberdade de expressão: zero, ou melhor, negativo.

E, como na fábula, a imprensa parece não aprender. Hoje investe pesado na candidatura de Flávio Rachadinha, blindando-o mesmo diante de indícios comprometedores de ligações com Daniel Vorcaro e o Banco Master, enquanto lança suspeitas contra Lula e seu filho em casos onde só há políticos de direita envolvidos. É como oferecer queijo e vinho ao demônio, acreditando que ele vai se tornar vegetariano.

Pelo menos, Merval Pereira, crítico histórico do PT, percebeu o risco e afirmou: “A chance de Flávio Bolsonaro se eleger e dar um golpe existe. A de Lula, não.” Portanto, parte da imprensa sabe o que pode vir caso se negocie algo com Flávio.

 

Moral da história

Negociar com o demônio nunca termina bem. No começo ele aceita o queijo e o vinho, mas no fim arrasta quem confiou nele para o inferno. A imprensa, ao que parece, ainda acredita que pode domar o monstro com agrados para mais tarde conseguir, junto com a Faria Lima, tudo que desejam: nova reforma trabalhista aumentando a jornada diária e nova reforma da previdência acabando com os reajustes atrelados ao salário-mínimo. A ela, é preciso lembrar que monstros não se domesticam, pois eles devoram.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Grande mídia e Faria Lima juntas: cabeça de Lula a prêmio

Por Fernando Castilho



Arthur Schopenhauer dizia que a maioria das pessoas prefere se acomodar em dogmas e “verdades” pré-estabelecidas a raciocinar e buscar a verdade dos fatos. É exatamente isso que vemos em manifestações bolsonaristas: quando perguntados sobre o que Flávio fez de bom para o povo, muitos se perdem e respondem apenas com slogans como “Deus, Pátria e Família” ou recorrem a xingamentos, chamando o entrevistador de “comunista”.

A imprensa brasileira compreendeu esse comportamento melhor do que ninguém. Ao estampar nas manchetes que “Lulinha movimentou 16,5 milhões”, entregou uma “verdade” incompleta a quem se contenta apenas com títulos e não se aprofunda no assunto. O que não se explica na manchete é essencial: movimentação significa entradas e saídas; ocorreu ao longo de quatro anos; trata-se de um empresário, não de alguém que vive às custas do governo; e, sobretudo, não há dinheiro do “careca do INSS”. Ainda assim, a imprensa alcançou seu objetivo: milhões de pessoas passaram a repetir que Lula é corrupto.

O propósito é evidente: impedir sua reeleição. Não há como provar, mas é plausível imaginar que emissários de Folha, Estadão e Rede Globo tenham se reunido com Flávio para oferecer apoio maciço à sua campanha contra Lula, em troca de compromissos claros. Entre eles: evitar comportamentos ridículos como os que seu pai protagonizou em público (espalhar farofa pelo chão enquanto come, imitar pessoas se asfixiando...), defender o aumento da jornada de trabalho para 12 horas, privatizar tudo o que for possível, inclusive a Petrobras, promover uma nova reforma da previdência que desvincule aposentadorias e benefícios do salário mínimo, e barrar novos programas sociais. Se possível, extinguir ou reduzir os já existentes. É esse o sonho da Faria Lima.

Hoje, a imprensa depende muito mais de investimentos e aplicações financeiras do que da venda de jornais. Por isso, sua prioridade é influenciar os rumos do país, não informar. Para quem conecta os pontos, fica evidente o apoio já explícito em conluio com a Faria Lima, na tentativa de associar Lula a Daniel Vorcaro e ao Banco Master.

Nesse esforço, não hesitam em tentar ligar o ministro Alexandre de Moraes a Lula, como se fosse parte do governo ou militante petista. Cada vez que atacam Moraes, reforçam no imaginário popular a ideia de que Lula estaria por trás de conversas não republicanas entre Moraes e Vorcaro e que, por isso, seria o “chefão corrupto”.

Talvez uma contrapartida que Flávio tenha exigido para participar desse consórcio seja um antigo sonho: enfraquecer o Supremo Tribunal Federal até que seja possível anistiar o pai, permitindo que ele se torne ministro e governe (ou desgoverne) de fato. Daí a bateria de ataques contra Moraes.

Para esse enfraquecimento, a Globo já recrutou seu soldado obediente: o jornalista Fernando Gabeira, ex-opositor da ditadura, afirmou no GloboNews que é preciso fechar o STF. Alguém deveria fazer uma representação contra ele por estar pregando, diante de milhões de brasileiros, um dos instrumentos clássicos de golpe.

Sempre fui um defensor das pesquisas eleitorais sérias, mesmo quando mostravam meu candidato em desvantagem. Mas, desta vez, algo parece realmente fora de lugar. Como pode um candidato que passou quatro anos no Senado apresentando apenas um projeto, o de privatizar as praias, e nenhum que beneficiasse o povo, estar empatado com Lula, que tantas entregas já fez em três anos de mandato?

Até uma semana atrás, parecia que a única responsável era a comunicação deficiente. Ela é, mas não está sozinha. A força da mídia está falseando as pesquisas, fazendo com que Flávio apareça artificialmente empatado com Lula no segundo turno. Ele não está. E, próximo ao final da campanha, veremos uma acomodação dos números, com Lula subindo cada vez mais e seu oponente caindo.

A menos que criem algum factoide capaz de desmontar Lula.

E aqui entra um ponto crucial: as redes sociais e os grupos de mensagens funcionam como multiplicadores dessa desinformação. Uma manchete distorcida ou uma pesquisa manipulada ganha proporções gigantescas quando replicada por milhares de perfis, muitas vezes automatizados, que espalham fake news em escala industrial. O que antes era apenas uma narrativa da imprensa, hoje se transforma em verdade “viral” para milhões de pessoas que não questionam, apenas compartilham. Esse ecossistema de desinformação é o que sustenta a ilusão de que Flávio está em pé de igualdade com Lula.

O Brasil já viveu momentos em que factóides, manchetes enviesadas e campanhas de desinformação moldaram o destino político da nação. Hoje, vemos a repetição desse roteiro, agora potencializado pelas redes sociais e pela força dos conglomerados financeiros que controlam a mídia. Mas há uma diferença crucial: o povo brasileiro já provou, em diversas ocasiões, que sabe distinguir entre propaganda e realidade quando chega a hora decisiva.

É por isso que, apesar da avalanche de ataques, manipulações e pesquisas artificiais, a verdade tende a prevalecer. A história mostra que nenhum factoide resiste ao confronto com a vida concreta das pessoas, com as políticas que melhoram o dia a dia e com a memória coletiva de quem já experimentou avanços sociais.

No fim, o que está em jogo não é apenas uma eleição, mas a capacidade de o Brasil escolher entre a manipulação e a razão, entre o retrocesso e a continuidade de conquistas e entre a democracia e a ditadura. A imprensa pode tentar fabricar narrativas, mas não pode apagar a realidade. E é essa realidade que, cedo ou tarde, se impõe.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Cuidado com esse moleque

Por Fernando Castilho



No dia seguinte à chegada de Nikolas a Brasília, coincidindo com aquele episódio do raio que atingiu 89 pessoas, felizmente sem mortes, surgiram, em sites e perfis da esquerda, comentários apressados de que a caminhada teria “flopado”, de que Nikolas saíra derrotado e de que Alexandre de Moraes jamais cederia à pressão, frustrando o objetivo da empreitada.

Essa leitura, a meu ver, é equivocada.

Nikolas conseguiu exatamente o que queria. Em nenhum momento seu objetivo real foi convencer Alexandre de Moraes a soltar Bolsonaro. Pelo contrário: Bolsonaro preso e inelegível é funcional aos seus planos. Nikolas precisa de um bolsonarismo sem Bolsonaro. Sobretudo, sem o peso político e simbólico da família Bolsonaro.

A caminhada serviu, antes de tudo, como uma grande operação de autopromoção. Ele precisava desviar o foco das notícias sobre seu nome constar na lista de endereços ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. E conseguiu.

Precisava também produzir uma sequência interminável de vídeos, atualizações e registros da caminhada, alimentando algoritmos, acumulando curtidas impulsionadas pela Meta e convertendo engajamento em novos seguidores. E conseguiu.

Outro objetivo central era manter distância calculada dos filhos de Bolsonaro (à exceção de Carlos, que saiu rapidinho após uma possível reprimenda de Flávio), de Michelle Bolsonaro e de Silas Malafaia. A ausência dessas figuras não foi um acaso, mas parte da estratégia: desvincular sua imagem do clã e se apresentar como algo “novo”, ainda que herdeiro direto do bolsonarismo. E, novamente, conseguiu.

O resultado é evidente. Nikolas se consolida como sucessor natural de Jair Bolsonaro, logo atrás apenas de Flávio “Rachadinha” na linha de herança política. Mais do que isso: ele já ultrapassou Tarcísio de Freitas, que até então era visto como o único nome capaz de suceder Bolsonaro sem carregar o sangue da família.

Hoje, com 29 anos, Nikolas não pode disputar a Presidência em 2026 nem em 2030. Mas 2034 está logo ali. Se continuar crescendo nesse ritmo e não for politicamente freado, o cenário é claro: Nikolas Ferreira será presidente do Brasil.

E quem acha que a caminhada fracassou ainda está discutindo o meio do caminho, enquanto ele já pensa na linha de chegada.

Cuidado com o moleque.

domingo, 25 de janeiro de 2026

O golpe que Nikolas deu em Bolsonaro

Por Fernando Castilho



Quando Nikolas Ferreira iniciou sua épica caminhada de Paracatu a Brasília, nada modestos 240 quilômetros, tinha em mente apenas um objetivo: promover-se ao máximo. A missão incluía, naturalmente, ofuscar Flávio Rachadinha, os outros filhos e até o próprio Bolsonaro, ainda que o discurso oficial jurasse tratar-se de uma manifestação em defesa da “justiça e da liberdade” do capitão.

Evidentemente, ninguém em sã consciência imaginou que Nikolas caminharia dia e noite por longos 240 quilômetros. A ideia sempre foi outra: andar cerca de um quilômetro, entrar em um carro confortável, com ar-condicionado (havia vários carros de apoio, diga-se), e dormir em hotéis previamente reservados ao longo do trajeto. Fé, patriotismo e colchão de molas ensacadas.

O que ele não esperava era a adesão relativamente grande. Centenas de pessoas apareceram, a maioria deputados bolsonaristas, assessores convocados que interromperam suas férias e aspirantes a parlamentares nas próximas eleições. Afinal, se a imprensa estava noticiando a caminhada, nada mais estratégico do que surgir sorridente ao lado de Nikolas, como figurante de um marketing eleitoral ambulante.

Agora, com tanta gente filmando tudo, parte considerável do percurso precisou ser feita a pé de verdade. Afinal, vídeos são traiçoeiros: hoje estão no celular de um aliado, amanhã viralizam desmontando toda a encenação.

Após vários dias, Nikolas e sua comitiva aproximaram-se de Brasília. Foi então que receberam a notícia de que Alexandre de Moraes havia proibido acampamentos nas proximidades da Penitenciária da Papuda e da Papudinha. Nikolas percebeu rapidamente que aquelas cerca de 500 pessoas poderiam causar tumulto. Tumulto gera visualizações. Visualizações geram capital político. Capital político ajuda em 2026. E isso era tudo que candidatos queriam. Mas o tumulto também poderia gerar algo menos instagramável: responsabilização criminal.

Como idealizador e líder do movimento, Nikolas poderia ser acusado de incentivar desordem ou até tentativa de golpe. Poderia entrar na mira de Alexandre de Moraes. Melhor recuar. Prudência é tudo quando uma prisão aparece no horizonte.

Reuniu, então, seus seguidores e fez um discurso desmobilizando o grupo logo após a chegada a Brasília. O movimento terminava ali, todos deveriam voltar para casa. Para completar a performance, elogiou a decisão de Moraes, afirmando que a Papuda é área de segurança nacional. Curioso: os quartéis também eram, em 2022 e no início de 2023, mas isso parece ter sido esquecido no caminho.

E pronto. Estratégia concluída com sucesso. Nikolas teve a exposição que desejava e saiu do episódio fortalecido, ainda que a esquerda tenha desmentido a farsa e o ridicularizado. Mas, como dizia Paulo Maluf, “falem mal de mim, mas falem”. Missão cumprida.

O detalhe inconveniente é que, ao desistir de um ato em Brasília “pela liberdade de Bolsonaro”, ou mesmo de um quebra-quebra que pudesse crescer e virar uma tentativa de golpe, e usar a caminhada exclusivamente para autopromoção, Nikolas acabou traindo Bolsonaro. E isso não passou despercebido pelos filhos, com exceção de Carlos, que apareceu por alguns instantes na caminhada e depois sumiu. Provavelmente foi alertado pelos irmãos para parar de dar holofote a Nikolas..

Flávio, Eduardo e Jair Renan ignoraram solenemente o evento porque perceberam desde o início as verdadeiras intenções de Nikolas: usar o slogan “Justiça e Liberdade” não para soltar Bolsonaro, pois ele sabia perfeitamente que uma caminhada jamais anularia decisão do STF, mas para se projetar politicamente.

Além disso, Nikolas deve ter enxergado um pouco mais adiante. Os contatos recentes de Michelle Bolsonaro com Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes indicavam uma possível articulação em direção à prisão domiciliar de Bolsonaro, algo que, de fato, já poderia até estar sendo cogitado. Mas Nikolas não deseja isso. Para ele, é estratégico que seu Jair esteja preso e inelegível, pois ele próprio deseja ser presidente quando atingir a idade mínima para isso. A caminhada, com potencial de tumulto no final, só daria a Moraes mais motivos para manter Bolsonaro na Papudinha.

No fim das contas, Nikolas caminhou bastante, mas sempre com os olhos fixos no espelho.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Por que ainda precisamos falar de ditadura e Bolsonaro

Por Fernando Castilho



O filme O Agente Secreto e a vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro foram celebrados não apenas pela esquerda, mas por todos que ainda veem no cinema um instrumento de reflexão. Em contrapartida, a ala bolsonarista, fiel ao hábito de rejeitar o que não consome, condenou a obra apenas por ser ambientada na época da ditadura militar. Para esse grupo, qualquer resgate dos "anos de chumbo" é encarado como uma afronta pessoal, postura reforçada por opiniões como a de uma colunista da Folha de S. Paulo, que sugeriu que "já basta de filmes sobre o tema". É o equivalente a propor um apagamento deliberado da história para evitar o desconforto do real.

Essa resistência ao passado tem um reflexo geracional preocupante. Como a ditadura terminou em 1985, brasileiros com menos de 45 anos não possuem memória direta do período. Somado a isso, o ensino escolar muitas vezes resume esse capítulo em páginas superficiais, impedindo que os jovens compreendam a dimensão daquele pesadelo. Essa lacuna educacional e histórica ajuda a explicar por que tantos não entenderam a gravidade da tentativa de golpe em 8 de janeiro, nem o peso de suas consequências.

O desejo de silenciar o debate sobre os anos de chumbo nasce da conveniência: é mais fácil apagar a memória coletiva do que encarar fantasmas. Esse mesmo mecanismo de negação surge quando denunciamos nas redes sociais as ações de Jair Bolsonaro. Diante das críticas à sua tentativa de golpe ou ao comportamento de sua família nas redes sociais, surge o apelo: “Parem de falar sobre ele, deixem-no cair no esquecimento”.

No entanto, ignorar o presente seria repetir o erro de quem varreu a ditadura para debaixo do tapete. Bolsonaro precisa ser lembrado, não por culto, mas por vigilância. É preciso manter vivo o registro de sua responsabilidade na gestão da pandemia, quando foi responsável direto pela morte de mais de 400 mil pessoas, e o fato de que, sob sua liderança, o Brasil flertou com o retorno ao autoritarismo, às prisões políticas, à tortura e aos assassinatos.

Falar sobre esses temas não é obsessão; é um exercício de autodefesa democrática. Recordar o passado e expor o presente é a única forma de garantir que as novas gerações não caiam na armadilha de eleger, novamente, figuras que transformam a política em um projeto de opressão.

Portanto, falemos sim sobre ele. Para que nunca nos esqueçamos.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Tentativa de Golpe de Estado: A Mãe de Todos os Crimes

Por Fernando Castilho



A desproporção penal brasileira


A pena para homicídio qualificado no Brasil varia de 6 a 30 anos de reclusão. Trata-se de um crime grave, que atinge diretamente uma vítima individual. No entanto, quando se observa a legislação referente à tentativa de golpe de Estado, a desproporção salta aos olhos: a sanção prevista é de apenas 4 a 12 anos. Essa discrepância revela uma falha estrutural do sistema penal brasileiro, pois o golpe de Estado não é um crime comum. Ele ameaça toda a coletividade, suprime direitos fundamentais, destrói instituições e coloca em risco a vida de milhares de pessoas.

Recentemente, Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de reclusão por diversos crimes, pena que pode ser reduzida a 20 anos caso o chamado “PL da Dosimetria” seja aprovado. A ironia é que, se fosse apenas pela tentativa de golpe, a punição seria inferior à de um homicídio isolado. Ora, o golpe de Estado, se concretizado, inaugura um regime de exceção em que opositores são perseguidos, presos e torturados, assassinatos políticos são cometidos com ocultação de cadáveres, a imprensa é censurada e a população privada de informação. Os livros de história, reescritos sob a ótica do regime, registram apenas uma “mudança necessária” para preservar a democracia e as instituições. Não há eleições livres, e o ditador governa pelo tempo que desejar, podendo transferir o poder a alguém de confiança, como um filho. O regime se perpetua até que uma revolução o derrube, e como a repressão é violenta, o resultado costuma ser uma conflagração nacional com milhares de mortes.

Em diversos países, a tentativa de golpe é tratada como crime gravíssimo. A Constituição alemã prevê penas severas para atentados contra a ordem democrática, podendo chegar à prisão perpétua. Na Espanha, a tentativa de subverter o Estado é punida com até 30 anos de reclusão. Chile e Argentina, após suas ditaduras, endureceram suas legislações contra conspirações golpistas, reconhecendo o caráter coletivo e devastador desse tipo de crime. O Brasil, ao manter penas brandas, transmite a mensagem de que atentar contra a democracia é menos grave do que ceifar uma vida individual.

A tentativa de golpe de Estado deveria ser considerada a mãe de todos os crimes. Mais grave que o homicídio, porque ameaça milhões de vidas e destrói o pacto social. A pena mínima deveria ser multiplicada, chegando a 50 anos de reclusão, para que o golpista tenha tempo de refletir atrás das grades e, sobretudo, para desestimular futuros aventureiros. A democracia não pode ser tratada como bem de menor valor. Se o homicídio qualificado merece até 30 anos de prisão, a tentativa de golpe de Estado deveria ser punida com muito mais rigor. Só assim o Brasil deixará claro que não tolera ataques à sua ordem constitucional e que a liberdade coletiva vale mais do que qualquer ambição autoritária.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

A fibra de Gláuber e a frouxidão da extrema direita

Por Fernando Castilho



Acompanhei todo o processo de cassação de Gláuber Braga na Câmara dos Deputados e, convenhamos, o deputado do Psol do Rio de Janeiro não arredou um centímetro de suas convicções. Se tivesse feito o teatrinho básico, pedido desculpas, retirado o que disse a Arthur Lira sobre o escândalo das emendas, teria escapado bem antes da via crucis que lhe armaram. Mas não: preferiu sair de cabeça erguida, vitorioso e honrado.

E aí me vieram algumas comparações inevitáveis.
Dilma Rousseff, diante do seu terror pessoal, o torturador Brilhante Ustra, não entregou um único nome. E olha que as torturas eram coisa de manual de barbárie de Átila, o rei dos Hunos.

Do outro lado, Jair Bolsonaro, quando encarou Alexandre de Moraes em seu julgamento, fez o que sabe de melhor: pediu desculpas, jurou que nunca viu os milhões que tinha afirmado que Moraes recebera e, para coroar, ainda convidou o ministro para integrar seu futuro governo. Brio? Fibra? Nada disso. Saiu com aquela cara de bobo típica dos covardes que se humilham para salvar a própria pele.

Agora, o mesmo Bolsonaro repousa em uma sala especial (não cela, veja bem) na superintendência da Polícia Federal em Brasília. Doze metros quadrados com ar-condicionado (que já reclamou porque faz barulho), frigobar, cama com colchão, banheiro privativo e chuveiro quente. Um verdadeiro spa carcerário. Ah, e duas horas de banho de sol por dia, podendo circular tranquilamente como se fosse hóspede de resort.

Mesmo assim, o deputado Paulo Bilynskyj, em vistoria, teve a coragem de dizer que seu Jair estava sendo submetido a “verdadeira tortura”. Tortura, aliás, que ele defende para os outros sem pestanejar. Enquanto isso, Lula, também idoso, enfrentou 580 dias de prisão preventiva numa sala da PF de Curitiba sem reclamar, sem pedir anistia, e isso já depois de ter enfrentado um câncer.

Seu Jair, o homem com “histórico de atleta” que classificou a Covid-19 como “gripezinha” e chamou todos os brasileiros que se resguardavam dela de “maricas”, o homem que até ontem exibia vigor ao passear de jet-ski e participar de motociatas, de repente virou um paciente terminal, quase à beira da morte. Por isso, precisa de prisão domiciliar, de preferência com piscina, sauna e quem sabe até uma jacuzzi.

Curiosamente, também, o general Heleno, homem de perfil notoriamente autoritário, agora alega Alzheimer. Alexandre Ramagem, para não cumprir pena, simplesmente fugiu para os Estados Unidos, assim como Carla Zambelli para a Itália. E o que falar de Eduardo Bolsonaro? Além de covardes, são fujões.

E o ex-ajudante de ordens, Mauro Cid? Ao ouvir os conselhos dos advogados, não pensou duas vezes: entregou todos os golpistas para salvar a própria pele.

É isso: não têm fibra. Não aguentam uma hora de interrogatório mais duro. Bastaria a menção de uma “pau-de-arara” para que borrassem as calças e entregassem até o cachorro da vizinha.

A extrema direita é frouxa. São guerreiros de frigobar, mártires de ar-condicionado barulhento e heróis de motociata.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

O golpe continua. Mesmo com Bolsonaro de papelão

Por Fernando Castilho



A ilustração fala mais que mil palavras

Jair Bolsonaro está preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília e, para suprir sua ausência, a extrema direita precisou improvisar: fizeram um boneco de papelão. Sim, um totem. Afinal, sem o “mito” em carne e osso, não há culto. E sem culto, não há extrema direita. Daqui a alguns meses, sem ele e sem pautas que interessem ao povo, o centrão pragmático abandonará esse barco furado e correrá para o navio que realmente navega: Lula.

Foi por isso que Flávio Bolsonaro saiu de uma reunião com o pai alardeando que havia sido ungido pelo mito para dar continuidade ao projeto da família. Aqui, cabe um parêntese: Bolsonaro, mesmo preso, segue o manual de Marcola e Fernandinho Beira-Mar: dar ordens de dentro da prisão como se estivesse solto. E o STF, aparentemente, acha isso normal. Voltemos.

É claro que tanto pai quanto filho sabiam que, com o vasto telhado de vidro de Flávio, sua candidatura não tinha como florescer. O anúncio foi apenas uma jogada para abrir negociação, já que o nome preferido para a sucessão de Seu Jair é Tarcísio de Freitas. Nos bastidores, a leitura é que o acordo foi fechado: ofereceram as cabeças de Carla Zambelli (presa na Itália, em vias de ser extraditada e cassada, perdendo seus direitos políticos por oito anos) e Eduardo Bolsonaro (punido por faltas, mas sem perda de direitos). Em troca, entrou em pauta, de forma sorrateira e relâmpago, para que não houvesse tempo de manifestações nas ruas, o PL da Dosimetria. De brinde, a abertura do processo de cassação de Glauber Braga, por ter chutado um militante do MBL que insultava sua mãe. Dois pesos, duas medidas, como sempre.

Braga, inconformado, sentou-se por duas horas na cadeira da presidência da Câmara e previu, diante de deputados surpresos: “Ainda hoje, um de vocês me trairá.” Ah, não. Isso foi Jesus quem falou. Hugo Motta, que tolerou a usurpação da mesa diretora pela extrema direita por 48 horas, ordenaria sua retirada à força pela Polícia Legislativa. Acertou. Mas ninguém imaginava a violência desproporcional que feriu a ele e a vários deputados que lhe davam apoio. De quebra, Motta, o mesmo que evocou Ulisses Guimarães em seu discurso de posse, mandou cortar o sinal da TV Câmara, expulsar jornalistas e, como se nada tivesse acontecido, colocou projetos em votação, incluindo o PL da Dosimetria. Ouviu os discursos indignados com cinismo, sem esconder sorrisos. Motta está deslocado no tempo. Deveria tentar a sorte em 1968.

Este é o resumo da situação: o PL da Dosimetria foi aprovado, como se esperava, e segue para o Senado. Lá, Davi Alcolumbre, que não hesita em prejudicar o país para se vingar do governo por não ter emplacado Rodrigo Pacheco no STF, já prometeu votação célere. E pode passar.

O projeto altera artigos do Código Penal para reduzir penas dos envolvidos na tentativa de golpe de Estado. Os bagrinhos já fizeram acordo ou cumpriram pena. Portanto, o alvo real são as lideranças: o totem Jair Bolsonaro e seus generais. Até os que planejaram assassinar Lula, Alckmin e Moraes no chamado Plano Punhal Verde-amarelo. Pelo texto, Bolsonaro poderia deixar o regime fechado em apenas 2 anos e 4 meses. Em prisão domiciliar, montaria um QG do Golpe em casa, coordenando novas ações. Quem sabe uma nova tentativa, sem incorrer nos mesmos erros, daria certo daqui a alguns anos?

Se aprovado, Lula provavelmente vetará. A Câmara derrubará o veto. Restará a possibilidade de algum partido representar uma ADI ao STF. Mas, ao contrário do PL da Anistia, a inconstitucionalidade aqui é nebulosa. Três ministros: Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux, já sabemos que não veriam problema. Gilmar Mendes alertou: abrir a porteira da dosimetria é escancarar a anistia. E Sóstenes Cavalcanti profetizou que ela vem ano que vem. Um Judiciário refém do Congresso será engolido por ele.

A Constituição prevê separação e harmonia entre os poderes. Harmonia pressupõe diálogo. É hora de Lula e Fachin chamarem Hugo Motta e perguntarem: Qual é a sua? Quando a água bater na sua bunda, vai fazer o quê?

Enquanto isso, cabe ao povo ocupar as ruas, como fez contra a PEC da Bandidagem.

Ulisses Guimarães já dizia: deputado só tem medo das ruas.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Oi, pai! Que dia!

Por Rosa Maria Martinelli



Pra quem viveu dentro de casa as consequências de um Golpe hoje é um dia com sabor especial. Não porque traz alegria (é sempre triste observar que um país tenha pessoas que queiram romper com democracias) mas pq um pequeno pedaço se vislumbra de ver algo passado a limpo.

Desde menina ouço as paredes do medo. Numa ditadura é assim. Cresci com ele (o medo). Todo tempo éramos ameaçados por sermos “daquela família”.

"Daquela família" era uma gente que procurava o pai desaparecido, que acordava muito cedo, uma gente que seguia os dias sentindo que desaguar não era possível e não dava tempo. Uma gente da lida, de dividir pão com ovo, do olho no olho, do sentimento, das canções camponesas, das incertezas e dos silêncios.

Aos sábados eu passava em revista feminina com minha mãe. Era dia de visita a meu pai. Sabem como era a revista? Explico: Você ficava numa sala com mulheres fardadas que pediam para que abaixasse o shorts, abrisse as pernas, mostrasse a língua, virasse de costas e agachasse para que olhasse se nada havia escondido em seu bumbum. O detalhe é que tinha oito anos.

Conheço essa truculência, e isso nunca me fez uma pessoa melhor, mas fez crescer uma mulher que precisava, quer queira ou não, se defender. O problema é que sofria por não saber de quem me defender, e isso sempre me assustava.

Anos enfiando o pé na jaca dos meus degraus mais íngremes da alma.

Em 2018 com o demente na presidência, adoeci. Ouvir aquela mula falando todos os dias de maneira grosseira, deselegante e tosca me fez crer que em quatro anos nada poderia ser pior na vida. Nada pior do que ter um adorador de torturas como chefe do Estado. NADA!!

A cada absurda manifestação, e depois do hecatombe pandêmico ao qual deu as costas e foi ali se divertir em motociatas e jet-ski, eu me voltava para aquela criança que fui... Lembrava dela e da raiva que ela sentia na revista. E pensava: eu poderia ser uma assassina. Certeza!

Não, certeza não! Sou filha da D. Maria e Sr. Raphael (duas usinas de amor). Então este plano de perder meu réu primário não ia dar certo.

Sabemos o quão difícil será se libertar dessas figuras extremistas que ocupam o Congresso, que são os rabichos da maior ignorância social, política, cultural e os escambal que o Brasil já teve. Lá estão eles espumando suas narrativas mais esfarrapadas, dignas da série: “PNEU Segunda Temporada”.

Grudados em seus cargos e em seu Deus que só admite entrada no paraíso de quem faz parte do clubinho de tiro.

Quanta sanha de lustrarem seus míseros umbigos!

Penso hoje em nomes como Costa e Silva, Medici, Geisel, Figueiredo. Gente de protagonismo em ditaduras.

Penso nos psicopatas Brilhante Ustra, Sergio Paranhos Fleury, Capitão Albernaz (torturador do meu pai).

Por falar nisso... Oi pai! Que dia! ❤

A lição que esses nomes deixaram, tão marcada de sangue na história do país, trouxe o olhar atento da justiça. Uma justiça que dessa vez estava ali, atenta!

Nada é mais precioso do que ter o direito de se expressar, de viver as diversidades, sem tabus e sem romper com movimentos conciliatórios.

Hoje é pra observar que a história desenha um roteiro, muitas vezes enormemente demorado.

Mas aí está.

Criminosos de alta patente finalmente condenados!

Viva a Constituição! Viva o STF!

Anistia é o Kralho!


(Rosa Maria Martinelli é poeta e filha do sindicalista Raphael Martinelli, preso político durante a ditadura)

 

domingo, 23 de novembro de 2025

A tragicomédia da prisão preventiva de Jair Bolsonaro

Por Fernando Castilho



O caso da prisão preventiva de Jair Bolsonaro é tão cheio de camadas que mais parece uma cebola, porém com caroço. Para não me perder no labirinto, vamos à cronologia, porque sem ela, ninguém entende essa ópera bufa.

SEXTA-FEIRA, 21

Flávio Bolsonaro grava um vídeo convocando apoiadores para uma “vigília religiosa” no sábado, em frente ao condomínio de luxo onde o pai cumpria prisão domiciliar. Vigília religiosa, claro. Porque nada combina mais com oração do que um ex-presidente tentando serrar uma tornozeleira com ferro de soldar.

O discurso de Flávio vinha recheado de códigos: “busca ao Senhor dos Exércitos” (tradução simultânea: apoio dos militares golpistas) e “luta para resgatar a democracia” (tradução simultânea: resgatar o papai). Era praticamente um tutorial de conspiração em vídeo.

ENQUANTO ISSO…

Na mesma tarde, Bolsonaro já estava entretido com seu novo passatempo: romper a tornozeleira. Tentou de tudo, até que apelou para um aparelho de solda. Sim, solda, dentro da casa alugada pelo PL às custas do contribuinte. O processo durou horas, até que, às 0h08, a Polícia Militar recebeu o alerta: tornozeleira danificada.

Os agentes foram até lá, gravaram vídeo e perguntaram o que ele pretendia. Resposta: “curiosidade”. Quem nunca acordou de madrugada com vontade de brincar de eletricista, não é? Ele sabia que cortar a pulseira, que possui fio interno, dispararia alerta, mas aparentemente achava que fritar o aparelho inteiro não daria nada. Gênio incompreendido.
Detalhe: ninguém perguntou como o aparelho de solda entrou na casa. Mas a investigação certamente vai descobrir.

A MADRUGADA DE MORAES

A PF acorda Alexandre de Moraes: “Ministro, seu Jair está tentando fugir”. Moraes toma um copo d’água, liga para o PGR Paulo Gonet, recebe o aval e determina a prisão preventiva. Só poderia ocorrer a partir das 6h. Enquanto isso, sem a toga, de pijama, Moraes redige um documento de 17 páginas fundamentando a decisão.

No texto, determina prisão discreta, sem algemas. Afinal, nada de espetáculo. Só o suficiente para virar manchete.

SÁBADO, 22

Às 7h, a imprensa divulga. Bolsonaristas correm às redes: “Perseguição religiosa! Era só uma vigília de oração!”. Senhorinhas com Bíblia na mão, claro. O detalhe da tornozeleira fritada foi convenientemente omitido.

Nos bastidores, aliados admitem: não há defesa possível. O vídeo é autoexplicativo e será usado por Lula em 2026. Até vai virar meme. A candidatura de Flávio, com sua genialidade estratégica, subiu no telhado.

O PLANO MIRABOLANTE

Qual era a ideia? Reunir apoiadores na porta do condomínio, infiltrar gente da pesada (talvez até os famosos “kids pretos”), criar tumulto generalizado e, no meio da confusão, retirar Bolsonaro rumo a alguma embaixada. A dos EUA não serviria: provavelmente, antes de Lindbergh Farias solicitar monitoramento constante do condomínio, já haviam pedido asilo e recebido um sonoro “não”. Trump, informado da prisão, reagiu com a clássica cara de “fazer o quê, né?”.
Sobravam opções mais exóticas: Argentina, Hungria, Arábia Saudita. O roteiro parecia escrito por roteirista de novela ruim.

O PÓS-PRISÃO

Bolsonaro passa por exame de corpo de delito e pode alegar problemas de saúde. Se uma junta médica confirmar, Moraes decide se volta para prisão domiciliar. Também terá audiência de custódia para verificar condições da prisão.

Enquanto isso, o prazo para embargos de declaração termina na segunda, 24. Se não houver novidade, Moraes pode, no jargão jurídico, não conhecer dos embargos e declarar trânsito em julgado já na terça ou quarta. A Papuda o aguarda, mesmo que por pouco tempo.

O LEMBRETE

Se eu dissesse que alguém estacionaria um caminhão-tanque carregado de combustível em frente ao Aeroporto de Brasília para explodir e matar dezenas de pessoas, você acreditaria? Pois é, isso aconteceu. E só não deu certo porque o tal “George Washington” errou a mão.

CONCLUSÃO

A prisão preventiva de Jair Bolsonaro não é um detalhe burocrático, nem um capítulo qualquer da novela política brasileira. É um alerta vermelho: essa turma já tentou explodir caminhão-tanque em aeroporto, já tentou invadir a sede da PF, já tentou golpe em praça pública. E não há limite para quem acredita que democracia é apenas um obstáculo inconveniente.

Se hoje o “curioso da solda” está atrás das grades, amanhã seus fiéis podem muito bem tentar transformar a sede da PF em palco de resgate cinematográfico. Portanto, nada de negligenciar. Segurança reforçada!

A diferença é que, desta vez, não haverá “festa da Selma” para disfarçar. Haverá apenas o registro histórico de que o pior presidente pós-ditadura militar terminou onde sempre deveria ter estado: sob vigilância, cercado, e finalmente impedido de brincar de golpista com o destino do país.

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

Por que tem que ser Papuda?

Por Fernando Castilho

Foto: Reprodução

Nos últimos meses, a grande imprensa, sempre obediente ao mercado financeiro, vem tentando naturalizar a corações e mentes de que Jair Bolsonaro merece a suavidade de uma prisão domiciliar. Até setores ditos “progressistas” já se renderam a essa cantilena em seus canais de YouTube.

Ora, a mera possibilidade (não o fato) de que o capitão esteja com problemas de saúde não o torna automaticamente inapto a cumprir pena em regime fechado na Papuda. Afinal, a penitenciária tem hospital próprio, justamente porque o Estado é responsável pela saúde dos detentos. E não faltam exemplos de presos com doenças graves que continuam atrás das grades, sem direito a suíte VIP.

A menos que seu Jair esteja em estado terminal e precise ser operado novamente no DF Star, hospital cinco estrelas para milionários, não há justificativa para que não seja tratado na Papuda. Lá, ele terá atendimento médico adequado. O resto é chororô.

E não, não vale alegar que o estresse exige que ele cumpra pena na mansão de Angra, embalado pela brisa marítima e pela vista relaxante. Se fosse assim, metade da população carcerária deveria estar em resorts.

Convém lembrar: Bolsonaro não foi condenado por uma travessura qualquer, mas por um dos crimes mais graves previstos na Constituição. Resultado? 27 anos de cadeia, uma pena à altura da gravidade do ato. E cadeia é cadeia: deve ser tratado como qualquer outro preso, ainda que os demais estejam lá por delitos bem menos monstruosos.

A lei garante segurança a ex-presidentes. Isso significa cela especial, separada dos demais. Ponto. Mas não significa mordomias como TV, ar-condicionado ou menu gourmet. A distinção é de segurança, não de conforto.

O problema é que nosso Judiciário tem histórico de aliviar para os poderosos, como fez com Collor, e de aplicar mão de ferro contra os pobres, pretos e vulneráveis, como acabou de fazer com os aposentados da Revisão da Vida Toda. Assim, não seria surpresa se Bolsonaro recebesse tratamento diferenciado. Um criminoso que, se tivesse tido sucesso em sua tentativa de golpe, teria não apenas eliminado Alexandre de Moraes, mas fechado o Supremo Tribunal e encarcerado seus ministros.

Em resumo: Papuda não é castigo extra. É apenas o lugar certo para quem tentou rasgar a democracia e impor a volta dos anos de chumbo.

quarta-feira, 12 de novembro de 2025

Só mais 72 horas para Jair pra Papuda?

Por Fernando Castilho



A defesa de Jair Papudável está prestes a protocolar mais um embargo de declaração. Sim, mais um. Não traz nada de novo, mas Alexandre de Moraes, para não ser acusado de perseguição (embora eu possa estar redondamente enganado), provavelmente aguardará o recebimento. Só que, como não há novidade alguma, talvez nem recepcionado seja. O despacho pode vir direto e reto:
“O presente embargo possui o único objetivo de ser protelatório. Por isso, indefiro o recebimento.”

Com o acórdão já publicado e o direito aos embargos devidamente exercido (e exaurido), será decretado o trânsito em julgado.

Pelo menos pelo crime de tentativa de golpe de Estado, seu Jair será recolhido à Papuda. Em cela especial, claro, porque a lei exige que ex-presidentes cumpram pena em segurança. É dever do Estado garantir que ele não seja assassinado por desafetos. Por isso, a cela será separada, com ar-condicionado e televisão. Um mimo. Só que o espaço é minúsculo e tem banheiro interno. Nada de varanda gourmet.

A defesa, então, entrará em ação com laudos médicos que atestam a necessidade de seu Jair cumprir pena no conforto da residência de luxo em Brasília, onde já cumpre prisão domiciliar preventiva. Um imóvel alugado por uma fortuna, com piscina, churrasqueira e, veja só, pago com dinheiro público.

Mas Moraes, que não é exatamente fã de quem tentou matá-lo, não costuma fazer concessões. Vai submeter seu Jair ao crivo de uma junta médica da própria penitenciária. Nada de pareceres encomendados. São os médicos da Papuda que darão a palavra final.

Se precisa de acompanhamento médico, terá. Se precisa de medicação, terá. Se precisa de exames, também. Assim como qualquer outro preso. Ou será que esses direitos não valem para os demais?

Portanto, a menos que os médicos da Papuda confessem que não têm condições de monitorá-lo, seu Jair ficará por lá mesmo, pois é plenamente papudável. É o desejo de Moraes e de quem compreende que se trata de um bandido da mais alta periculosidade que não hesitaria, caso o golpe tivesse sido bem sucedido, em prender, torturar e matar milhares.

Aliás, ainda há outros crimes a serem enfrentados: o roubo das joias e, o mais grave, os mais de 400 mil mortos pela recusa em comprar vacinas durante a pandemia.

Parafraseando o próprio Jair, em vídeo zombeteiro quando Lula estava prestes a ser preso:
“A Papuda o espera.”

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Bandido bom é parlamentar eleito?

Por Fernando Castilho



Há décadas, um grupo de políticos se alimenta da velha e falaciosa máxima: “bandido bom é bandido morto”. É a chamada bancada da bala na Câmara dos Deputados, sempre presente, eleição após eleição, vociferando que só a violência resolve o problema da segurança pública.

Nas duas últimas legislaturas, essa bancada ganhou reforço: uma cepa de deputados bolsonaristas como Paulo Bilinsly e o sargento Fahour, que se sentem em casa na Comissão de Segurança Pública. Até poucos meses atrás, suas únicas pautas eram a PEC da Bandidagem, para livrá-los dos próprios crimes, e o PL da Anistia, para salvar o chefe da quadrilha, Jair Bolsonaro, o mesmo que inundou o crime organizado com fuzis e armas de todos os calibres.

Mas o povo foi às ruas e enterrou essas pautas. Sobrou o quê? Apenas o apoio a Eduardo Bolsonaro, autoexilado nos Estados Unidos tentando impor sanções ao Brasil. Com a reunião entre Donald Trump e Lula caminhando bem, ficaram sem discurso. E, para piorar, assistem impotentes à escalada de Lula nas pesquisas para 2026. Estavam à deriva.

Foi então que o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, tirou essa turma da letargia. Recorreu à velha fórmula: mais uma chacina. Antes de se eleger em 2022, já havia promovido um massacre em nome da segurança. Agora, quer se tornar senador em 2026 e, quem sabe, intocável diante das acusações de corrupção que o cercam. “Já sei!”, pensou. “Preciso de outra operação sangrenta.”

E ela veio: a Operação Contenção, que deixou ao menos 121 mortos, sendo considerada a mais letal da história do Rio. Uma pesquisa revelou que 63% da população apoiou a ação. Com esse respaldo, a eleição de Castro ao Senado parece garantida, assim como foram as de figuras como Pazuello, que sabotou a vacinação, e Ricardo Salles, que passou a boiada no meio ambiente e tentou vender madeira ilegal para os EUA. Sim, boa parte da população apoia bandidos, desde que bem vestidos e com mandato.

Na esteira de Castro, os bolsonaristas se animaram. Haviam levado um baque com a Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que desmantelou o tráfico sem disparar um único tiro. A operação mostrou que é mais eficaz cortar as cabeças da hidra do que continuar a matar soldados substituíveis.

Quando a imprensa noticiou o sucesso da operação, os deputados se retraíram. Já estavam incomodados com a PEC da Segurança Pública, que propõe constitucionalizar o SUSP, ampliar o papel da PF e das guardas municipais, e fortalecer a atuação da União. O ministro da Justiça foi à Comissão diversas vezes, mas os deputados preferiram atacar Lula e gravar vídeos para suas redes, saindo do plenário sem ouvir uma palavra.

É claro que projetos como a PEC da Segurança e operações como a Carbono Oculto não interessam a eles. Se o crime organizado for desmantelado, vão viver de quê? Não sejamos ingênuos: boa parte, senão todos, são financiados pelo mesmo crime que dizem combater. Sim, o crime organizado está na Câmara.

Agora, em estado de estase, voltaram a ter uma pauta: acusar o governo federal de “defender bandidos”. E há mais um ponto a considerar. A operação de Castro ocorreu em áreas dominadas pelo Comando Vermelho. Muitos “bagrinhos” foram mortos. Essa desorganização momentânea pode abrir espaço para o PCC avançar e tomar território. É só uma hipótese, sem dados, sem análise. Mas quem sabe?

O governo federal, dentro da política republicana de Lula, se dispõe a ajudar o Rio. Cláudio Castro dará apoio total? Será?

"O Brasil não aguenta mais quatro anos com Lula!"

Por Fernando Castilho



Foi o que bradou o deputado Gustavo Gayer na tribuna da Câmara, ignorando solenemente todos os índices positivos do governo, inclusive o recorde histórico de 150 mil pontos alcançado ontem na Bolsa de Valores. No momento, confesso, fiquei indignado com o tamanho da mentira do deputado bolsonarista. Depois, respirei fundo e pus-me a pensar: qual é o Brasil de Gayer? O do povo, ou das elites?

Ora, Gayer é um dos lacaios que, ao longo da história, sempre estiveram a serviço das oligarquias e da elite que insiste em mandar no país, e que, claro, não admite perder um centímetro de seus privilégios. Foi essa mesma elite que, de mãos dadas com os militares, deu o golpe de 1964 e instaurou uma ditadura que durou 21 anos. Saudade, né?

A frase do deputado, aliás, me remeteu imediatamente ao código usado pelos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o famoso “apito de cachorro”, ou, para os íntimos, a “festa da Selma”. Explico.

Depois que o governo Lula desarmou, ao menos em parte, a bomba tarifária deixada pelo terrorista oficial de gravata vermelha, Donald Trump, que impunha tarifas de 50% aos produtos brasileiros, e o Congresso sepultou a PEC da Anistia e o PL da Dosimetria, que pretendiam livrar Jair Bolsonaro da cadeia, a extrema direita viu Lula subir mais uma vez nas pesquisas para 2026. E aí bateu o desespero.

Sem projeto, sem pauta, sem rumo, e ainda sendo fustigada por Flávio Dino, que vem apertando o torniquete para punir quem cometeu fraudes com emendas parlamentares, a extrema direita precisava de uma boia de salvação. E ela veio, pasme, na forma de uma chacina comandada pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Contra todas as expectativas do mundo civilizado, sua popularidade aumentou. Sim, matar dá voto. E isso pode garantir a ele uma vaga no Senado.

A direita, ou melhor, o centrão, aquele agrupamento que habita a Câmara apenas para fazer negócios lucrativos, ainda hesita em abandonar o barco bolsonarista e embarcar com Lula. Afinal, quem estiver no palanque ao lado do presidente terá o apoio do povo para se reeleger. Mas se ainda não mudaram totalmente de lado, é porque têm dúvidas quanto à manutenção do recebimento de emendas. Pragmáticos, sempre.

Já a extrema direita decidiu: se Lula não for contido, vence no primeiro turno. E o bolsonarismo sabe disso. A pergunta é: como conter?

As pesquisas indicam que a percepção popular do sucesso do governo está superando as avalanches de fake news que tentam pintar o país como um caos. Enquanto bolsonaristas como Gayer fazem vídeos jurando que o arroz está a mais de R$ 40, a realidade insiste em mostrar que o preço não passa de R$ 18. Se a estratégia continuar sendo apenas espalhar mentiras, Lula vence.

Por isso, é preciso criar factoides. Destruir a reputação de Lula e do governo virou prioridade. Um desses factoides foi justamente a chacina no Rio. A acusação é direta e rasteira: “Lula e a esquerda defendem bandido!”, ou seja, o velho calcanhar de Aquiles: segurança pública.

Mas de pouco adianta o governo estar lutando para aprovar a PEC da Segurança Pública, que ataca os líderes do crime organizado, asfixiando suas finanças e os prendendo, se isso não for amplamente divulgado. Afinal, manchete boa é só a que sangra.

A senha foi dada por Cláudio Castro: “Querem se eleger presidente? Façam como eu, matem.

Não me surpreenderia se Caiado, Zema, Ratinho Jr. e, principalmente, Tarcísio (que já tem uma chacina no currículo) começassem a competir em número de mortos em seus estados. Afinal, a extrema direita não vai assistir passivamente Lula vencer no primeiro turno.

E se não for possível subir nas pesquisas, o plano é simples: derrubar Lula. Ou acabar com ele.

Que Lula esteja com sua segurança bem reforçada.