terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Je ne suis pas manipulable

Por Fernando Castilho


Já ouví e lí de tudo um pouco sobre o massacre dos cartunistas do Charlie Hebdo.

Muitos compararam o jornal com o antigo O Pasquim.
Algumas semelhanças, tantas diferenças...

O O Pasquim, como o Charlie, era um jornalzinho (sem desmerecimento) satírico, com muitas charges, de esquerda e que ousava muito.

As semelhanças param por aí.
Ao contrário do Charlie, o O Pasquim era uma resistência à ditadura. Criado pelo cartunista Jaguar e os jornalistas Tarso de Castro e Sérgio Cabral, mais tarde teve a participação de nomes como Ziraldo, Millôr, Prósperi, Claudius e Fortuna. Colaboradores não lhe faltavam, como Henfil, Paulo Francis, Ivan Lessa, Carlos Leonam, Sérgio Augusto, Ruy Castro, Fausto Wolff, Chico Buarque, Antônio Callado, Rubem Fonseca, Odete Lara, Gláuber Rocha e diversos outros intelectuais cariocas. Deu pra sacar a qualidade?

O Brasil vivia o regime militar, e em novembro de 1970 a redação inteira do O Pasquim foi presa depois que o jornal publicou uma sátira do célebre quadro de Dom Pedro às margens do Ipiranga, (de autoria de Pedro Américo).

Sim, o O Pasquim era uma pedra muito dura no sapato da ditadura. Coragem para lutar contra o regime não lhe faltava. Autêntico semanal de esquerda em pleno regime da direita mais feroz que comandou o Brasil.

Em seu auge, o semanário atingiria a marca de 200 mil exemplares vendidos!
E o Charlie Hebdo?

O Charlie começou como um jornal de esquerda, defensor da justiça social, mas que nos últimos anos tem, conscientemente ou não, atuado como um defensor dos interesses do capital, dado as charges de conteúdo (alguns discordarão) xonófobo.

O fato é que o semanário francês tinha uma tiragem de 60 mil exemplares, muito menor que a do O Pasquim. Agora, devido ao ataque vão imprimir um milhão de exemplares, aproveitando-se de sua vitimização e se colocando como defensores da liberdade de expressão. Lucrarão em cima da tragédia. Luciano Huck faria uma camiseta. Duvido que Jaguar fizesse isso.

Jean-Marie Le Pen e sua filha Marine Le Pen, deputada do Parlamento Europeu desde 2004, sempre pregaram o preconceito e o ódio aos imigrantes, principalmente os de origem argelina e marroquina, de religião predominantemente muçulmana. O Charlie, por ser de esquerda, deveria ter a obrigação de lutar contra a xenofobia pregada pelos Le Pen e pela direita da França contra os imigrantes. Não o faz, prefere insistir durante anos na publicação de charges de gosto duvidoso (alguém vai discordar).

É claro que as religiões, todas elas, quando seus praticantes atingem um alto grau de fundamentalismo, acabam por carregar em si toda a maldade e o preconceito, contrários ao que seus criadores pregavam. Temos aqui mesmo no Brasil exemplos perfeitos disso, como os pastores homofóbicos, Marco Feliciano e Silas Malafaia.

Porém, democraticamente, temos o dever de respeitar todas as religiões e todos os que as praticam como forma de confortar o espírito. Muita gente precisa disso.

Faltou à Charlie o devido respeito à Maomé e ao povo praticante do Islã, que considera o profeta, sagrado.

Cito um trecho de um comentário feito por José Antonio Gutierrez D. No semanariovoz.com. :

"Não me esqueço do número 1099 da Charlie Hebdo, na qual se banalizava o massacre de mais de mil egípcios por uma brutal ditadura militar, que tem o consentimento da França e dos EUA, mediante uma capa que diz algo como: 'Matança no Egito. O Corão é uma merda: não detém as balas'. A caricatura era a de um homem muçulmano todo furado, enquanto se protegia com o Corão. Haverá quem ache isso engraçado. Também, na sua época, os colonos ingleses na Terra do Fogo acreditavam que era engraçado tirar fotografias junto com indígenas que eles haviam 'caçado', com amplos sorrisos, espingarda na mão, e com o pé sobre o cadáver sangrento ainda quente.''

No caso da Charlie Hebdo a liberdade deles extrapolou a liberdade de fé dos muçulmanos. O que eles fazem não é crítica, humor ou sátira. É alimentar a intolerância (e, neste caso, se igualam aos fundamentalistas), alimentar a islamofobia e a perseguição e preconceito aos árabes, repetindo a mesma propaganda anti judaica usada pelos nazistas no século passado, desta vez a nível mundial e financiada por quem? A quem interessa esse novo anti semitismo? Pergunta retórica.

No Brasil, o O Pasquim encerrou suas atividades em novembro de 1991. Outras publicações satíricas seguiram seus passos já devidamente reinventadas, uma vez que a ditadura já havia acabado. Jornais como ''O Planeta Diário'' e a revista ''Bundas'' tentaram preencher seu espaço.

O que temos hoje em seu lugar?
Justamente la crème de la crème da intolerância, do preconceito e da xenofobia da direita. Programas como o de Danilo Gentili, CQC e Pânico na TV mudaram a tônica da sátira e do humorismo brasileiro e se posicionaram como adeptos do politicamente incorreto. Ou seja, vale tudo pra fazer você rir.

Com as devidas proporções e diferenças, mais ou menos o que a Charlie faz.

Mas será que estou defendendo o ataque à revista?
Não, de forma alguma. Pessoas nunca devem ser assassinadas, e a tal da liberdade de expressão deve ser protegida.

Mas ela tem limites?
Quando se ofende sem motivo (ou só com a intenção de causar choque ou polêmica para vender jornal) a alguém ou um grupo, será que ela é benéfica?

Os grandes grupos de mídia, quando inventam notícias, caluniam ou difamam, como costumam fazer a Veja e a Globo, tem esse direito? São defensáveis?

Será que o grande avanço será não implantar a censura prévia, mas sim a censura posterior? Isto é, após o estrago ter sido feito, o veículo publica um ''Erramos'' no rodapé?

E a liberdade de expressão dos muçulmanos não vale? Na França se proibe o termo ao contrário: a expressão da liberdade de religião, uma vez que está proibido o uso do hijab, o véu muçulmano...

De fato, no caso do ataque ao jornal, o que realmente aconteceu?
Alguém sabe? Alguém tem certeza?

Dois homens treinados pela Al-Qaeda do Iêmen, encapuzados, munidos de fuzis kalashnikov, os tais ak-47, que, de tão simples, podem ser manejados por qualquer pessoa sem treinamento, têm a missão de matar os cartunistas do jornal.

Primeiro, erram o endereço do semanário.

Depois, aproveitando-se de uma reunião de pauta (que sorte) em que todos estavam presentes, atiram e matam quase todos os cartunistas e fogem em um carro roubado.

Na fuga, um deles esquece seu documento de identidade (já viram algum terrorista bem treinado carregar consigo seu RG?) no veículo.

São mortos (mortos não falam, certo?) pela polícia francesa treinada, com um contingente de 80 mil homens que deveria prendê-los vivos para interrogatório (o que seria muito mais importante) e divulgam áudio (só áudio não identifica ninguém) se dizendo Al-Qaedistas do Iêmen.

Se o Iêmen não possuísse grandes reservas de petróleo, eu diria: Ah, tá certo, tudo bem. Mas tudo parece um filme que já vimos anos atrás e que está a se repetir ad nauseum.

Então, o que verdadeiramente está em jogo?


O exsubsecretario Tesouro dos EUA (não é qualquer um), Paul Craig Roberts, diz que o ataque terrorista à sede da "Charlie Hebdo" em Paris foi uma operação de falsa bandeira ", destinada a reforçar o estado vassalo da França para Washington".

"Os suspeitos podem ser tanto culpados quanto bodes expiatórios . Basta lembrar todos os planos terroristas criados pelo FBI que serviram para fazer a ameaça terrorista real para os americanos ", escreveu Roberts em um artigo publicado em seu site. Veja matéria aqui. O cientista político afirmou que agências dos EUA têm planejado operações clandestinas na Europa para criar o ódio contra os muçulmanos e fortalecer a esfera de influência nos países europeus de Washington.

Agora vemos uma foto dos ''grandes'' líderes mundiais irmanados (de braços dados) numa marcha por Paris contra o terrorismo.


Quando a mídia conservadora (nos Estados Unidos, nas mãos dos judeus, e aqui nas mãos de 6 famílias) utiliza o bordão ''somos todos Charlie'', seu objetivo é outro.

Tenta-se reduzir a tragédia a um atentado à liberdade de expressão, para tentar utilizar a comoção causada ao povo em um veto ao projeto de regulação da mídia brasileira.

São todos Charlie Hebdo?
Benjamin Netanyahu, o comandante israelense do genocídio que se pratica contra Gaza, também está contra o terrorismo? Ele é Charlie Hebdo?

Bem, o blogueiro já definiu um lado.
Não sou Charlie Hebdo.

Sou O Pasquim.










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