Mostrando postagens com marcador Carmen Lúcia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carmen Lúcia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Areia movediça no sambódromo

Por Fernando Castilho




“É um terreno de areia movediça”, advertiu a presidente do TSE, Carmen Lúcia, sobre o desfile da escola de samba que pretende homenagear Lula no carnaval. Tradução livre: cuidado, porque basta um passista levantar o braço errado e pronto: crime eleitoral na avenida.

O ministro André Mendonça já anunciou seu papel: espectador de sofá, lupa em punho, pronto para transformar qualquer gesto em infração.

Até a quinta-feira, eu achava a homenagem inofensiva. Mas, convenhamos, Lula não pode nada. Não pode tomar uma cachaça, não pode viajar, não pode se hospedar em hotéis, não podia trocar avião presidencial (mesmo que o antigo fosse praticamente um caixão voador), não pôde comparecer ao velório do irmão. E, claro, não pode ser homenageado. No Brasil, Lula respirar já é ato político.

Se a oposição correu ao TSE antes do desfile para tentar criminalizá-lo, imaginem depois. A escola promete cuidados extremos: nada de “L” com as mãos, nada de número 13, nada de camiseta vermelha. Mas quem garante? Basta um passista afoito ou um infiltrado bolsonarista para transformar o carnaval em processo de inelegibilidade. Afinal, quem disse que todos os integrantes da escola são lulistas?

Lula lidera as pesquisas. Com o portfólio de feitos em três anos, comunicar bem o que já fez é praticamente sua única tarefa para se reeleger. Ninguém o alcança. Nem Flávio “Rachadinha”, que jura que seu programa de governo é dar continuidade à obra do pai. Sabemos bem qual foi a obra. A extrema-direita sabe que tem pouquíssimas chances. Por isso, só existem duas formas de derrotá-lo: ou ele morre, ou é declarado inelegível. E alguém duvida que vão investir pesado nessa segunda opção? Sem prejuízo da primeira, se o desespero falar mais alto?

E não esqueçamos: Janja. Muitos dizem que ela não tem cargo no governo, logo poderia desfilar livremente. Ingenuidade. Ela é o maior símbolo de Lula, justamente por ser sua esposa. E isso, claro, será judicializado. Afinal, estamos falando de uma corte que absolveu por unanimidade o senador Jorge Seif, mesmo diante de fotos, vídeos e e-mails trocados com Luciano Hang. O ministro Nunes Marques chegou a dizer que, mesmo com essas provas, não via “indícios de abuso econômico”. Que o digam os demais candidatos que não obtiveram a mesma ajuda. Pois é, indícios demais podem atrapalhar.

Alguns sugerem que Lula não compareça ao desfile. Ótimo, mas isso não resolve nada: a escola desfilará de qualquer forma. O correto seria cancelar o desfile. Mas já é tarde. Ele vai acontecer.

E acontecerá no contexto em que Lula, num discurso recente, afirmou que essa eleição será uma guerra. Pois bem, talvez ele devesse levar suas próprias palavras mais a sério.

Resta torcer para que o carnaval não vire tribunal. Porque, convenhamos, seria um tropeço tão previsível quanto evitável. E se acontecer, não será samba-enredo. Será marcha fúnebre da democracia, com direito a tamborim, mas sem alegria.