Por Fernando Castilho
“É um terreno de areia movediça”, advertiu a presidente do
TSE, Carmen Lúcia, sobre o desfile da escola de samba que pretende homenagear
Lula no carnaval. Tradução livre: cuidado, porque basta um passista levantar o
braço errado e pronto: crime eleitoral na avenida.
O ministro André Mendonça já anunciou seu papel: espectador
de sofá, lupa em punho, pronto para transformar qualquer gesto em infração.
Até a quinta-feira, eu achava a homenagem inofensiva. Mas,
convenhamos, Lula não pode nada. Não pode tomar uma cachaça, não pode viajar,
não pode se hospedar em hotéis, não podia trocar avião presidencial (mesmo que
o antigo fosse praticamente um caixão voador), não pôde comparecer ao velório
do irmão. E, claro, não pode ser homenageado. No Brasil, Lula respirar já é ato
político.
Se a oposição correu ao TSE antes do desfile para tentar
criminalizá-lo, imaginem depois. A escola promete cuidados extremos: nada de
“L” com as mãos, nada de número 13, nada de camiseta vermelha. Mas quem
garante? Basta um passista afoito ou um infiltrado bolsonarista para
transformar o carnaval em processo de inelegibilidade. Afinal, quem disse que
todos os integrantes da escola são lulistas?
Lula lidera as pesquisas. Com o portfólio de feitos em três
anos, comunicar bem o que já fez é praticamente sua única tarefa para se
reeleger. Ninguém o alcança. Nem Flávio “Rachadinha”, que jura que seu programa
de governo é dar continuidade à obra do pai. Sabemos bem qual foi a obra. A
extrema-direita sabe que tem pouquíssimas chances. Por isso, só existem duas
formas de derrotá-lo: ou ele morre, ou é declarado inelegível. E alguém duvida
que vão investir pesado nessa segunda opção? Sem prejuízo da primeira, se o
desespero falar mais alto?
E não esqueçamos: Janja. Muitos dizem que ela não tem cargo
no governo, logo poderia desfilar livremente. Ingenuidade. Ela é o maior
símbolo de Lula, justamente por ser sua esposa. E isso, claro, será
judicializado. Afinal, estamos falando de uma corte que absolveu por
unanimidade o senador Jorge Seif, mesmo diante de fotos, vídeos e e-mails
trocados com Luciano Hang. O ministro Nunes Marques chegou a dizer que, mesmo
com essas provas, não via “indícios de abuso econômico”. Que o digam os demais
candidatos que não obtiveram a mesma ajuda. Pois é, indícios demais podem
atrapalhar.
Alguns sugerem que Lula não compareça ao desfile. Ótimo, mas
isso não resolve nada: a escola desfilará de qualquer forma. O correto seria
cancelar o desfile. Mas já é tarde. Ele vai acontecer.
E acontecerá no contexto em que Lula, num discurso recente,
afirmou que essa eleição será uma guerra. Pois bem, talvez ele devesse levar
suas próprias palavras mais a sério.
Resta torcer para que o carnaval não vire tribunal. Porque,
convenhamos, seria um tropeço tão previsível quanto evitável. E se acontecer,
não será samba-enredo. Será marcha fúnebre da democracia, com direito a
tamborim, mas sem alegria.