Por Fernando Castilho
O
mundo que conhecíamos, aquele erguido sobre os escombros fumegantes de 1945,
cimentado por tratados multilaterais e pela previsibilidade diplomática, foi
oficialmente enterrado em 2025. Ao iniciarmos 2026, a “aventura” de Donald
Trump na Casa Branca deixou de ser um slogan de campanha e se transformou em um
terremoto geopolítico. Não estamos diante de uma simples troca de governo, mas
da substituição da ordem jurídica internacional pela “Lei do Mais Forte”, uma
doutrina que brinca perigosamente com fósforos em um barril de pólvora global.
Assistimos,
assim, ao fim da “Polícia do Mundo” e ao início do “Dono do Bairro”.
Washington não mais se apresenta como xerife, mas como síndico autoritário de
um condomínio hemisférico. A captura de Nicolás Maduro no início do ano, somada
à disposição de anexar a Groenlândia e invadir o México por terra, desenha um
mapa mental digno de um CEO delirante que confunde geopolítica com fusões e
aquisições. A nova Estratégia de Segurança Nacional é cristalina: os EUA não
vão mais bancar a segurança da Europa ou a estabilidade da Ásia sem receber
dividendos imediatos. E não vão tentar enganar mais ninguém com o velho
discurso de levar democracia a quem não tem.
Para
os aliados da OTAN, o recado foi um banho de água gelada: “Paguem ou
protejam-se sozinhos”. Ao esvaziar sua presença militar no Leste Europeu e
concentrar forças no Hemisfério Ocidental, Trump abre um vácuo que Putin e Xi
Jinping podem interpretar como um convite para redesenhar fronteiras. Nesse
cenário, o estopim de uma Terceira Guerra Mundial não viria de uma invasão
americana, mas da ausência da dissuasão americana.
E
como se fosse um trailer antecipado do caos, em 8–9 de janeiro de 2026, as
Forças Armadas russas lançaram um ataque de grande escala contra a Ucrânia, com
drones, mísseis convencionais e o hipersônico Oreshnik. Foi apenas a segunda
vez que esse míssil foi usado, depois de um teste com ogivas inertes em 2024. A
mensagem é clara: Moscou quer encerrar de vez a novela ucraniana e guardar
munição para o próximo ato, possivelmente um conflito mundial.
O
perigo iminente reside na natureza errática do atual governo americano. A
diplomacia foi substituída por grosseria institucionalizada. Quando o
presidente usa tarifas de 60% como se fossem cupons de desconto e autoriza
operações militares unilaterais contra alvos iranianos ou sul-americanos, ele
arranca as válvulas de escape do motor diplomático. Resultado: qualquer faísca,
um drone abatido no Estreito de Ormuz, uma disputa sobre semicondutores ou o
sequestro de um submarino russo, pode virar incêndio em questão de horas.
Vivemos
numa era de “geopolítica do compliance”: países e empresas não seguem a lei,
apenas tentam adivinhar quem terá força para ditá-la amanhã. É como jogar
xadrez em um tabuleiro onde as peças mudam de regra a cada rodada.
Para
o Brasil e o Sul Global, o dilema é pragmatismo ou isolamento. O retorno da
Doutrina Monroe transforma Brasília em refém de um jogo duplo: de um lado, a
chance de ocupar espaços deixados por uma China acuada; de outro, o risco de
sanções caso não se alinhe ao script de Washington em temas como migração e
segurança. E, claro, esse risco se estende às eleições de 2026, quando a
imprensa hegemônica já afia suas penas para pressionar o governo Lula. Afinal,
nada como um empurrãozinho midiático para acelerar o fim de um mandato
incômodo.
A
aventura trumpista é uma aposta de alto risco: o prêmio seria a hegemonia
americana renovada, mas o preço pode ser o caos sistêmico. O risco de uma
Terceira Guerra Mundial não é mais uma abstração ideológica; é a consequência
lógica de um mundo sem árbitros, onde cada potência joga sua própria roleta
russa.
Se
2026 já nos ensinou algo, é que a estabilidade global era um luxo que
tratávamos como banal, mas que era necessário. Agora, resta saber se as outras
potências terão a sobriedade que falta ao Salão Oval, ou se todos aceitarão o
convite para essa roleta russa geopolítica. E não, não é trocadilho: é
diagnóstico.
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