Por Fernando Castilho
O
filme O Agente Secreto e a vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro
foram celebrados não apenas pela esquerda, mas por todos que ainda veem no
cinema um instrumento de reflexão. Em contrapartida, a ala bolsonarista, fiel
ao hábito de rejeitar o que não consome, condenou a obra apenas por ser
ambientada na época da ditadura militar. Para esse grupo, qualquer resgate dos
"anos de chumbo" é encarado como uma afronta pessoal, postura
reforçada por opiniões como a de uma colunista da Folha de S. Paulo, que
sugeriu que "já basta de filmes sobre o tema". É o equivalente a
propor um apagamento deliberado da história para evitar o desconforto do real.
Essa
resistência ao passado tem um reflexo geracional preocupante. Como a ditadura
terminou em 1985, brasileiros com menos de 45 anos não possuem memória direta
do período. Somado a isso, o ensino escolar muitas vezes resume esse capítulo
em páginas superficiais, impedindo que os jovens compreendam a dimensão daquele
pesadelo. Essa lacuna educacional e histórica ajuda a explicar por que tantos
não entenderam a gravidade da tentativa de golpe em 8 de janeiro, nem o peso de
suas consequências.
O
desejo de silenciar o debate sobre os anos de chumbo nasce da conveniência: é
mais fácil apagar a memória coletiva do que encarar fantasmas. Esse mesmo
mecanismo de negação surge quando denunciamos nas redes sociais as ações de
Jair Bolsonaro. Diante das críticas à sua tentativa de golpe ou ao
comportamento de sua família nas redes sociais, surge o apelo: “Parem de falar
sobre ele, deixem-no cair no esquecimento”.
No
entanto, ignorar o presente seria repetir o erro de quem varreu a ditadura para
debaixo do tapete. Bolsonaro precisa ser lembrado, não por culto, mas por
vigilância. É preciso manter vivo o registro de sua responsabilidade na gestão
da pandemia, quando foi responsável direto pela morte de mais de 400 mil
pessoas, e o fato de que, sob sua liderança, o Brasil flertou com o retorno ao
autoritarismo, às prisões políticas, à tortura e aos assassinatos.
Falar
sobre esses temas não é obsessão; é um exercício de autodefesa democrática.
Recordar o passado e expor o presente é a única forma de garantir que as novas
gerações não caiam na armadilha de eleger, novamente, figuras que transformam a
política em um projeto de opressão.
Portanto,
falemos sim sobre ele. Para que nunca nos esqueçamos.