Mostrando postagens com marcador André Mendonça. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador André Mendonça. Mostrar todas as postagens

domingo, 22 de março de 2026

A porosidade e elasticidade dos conceitos e das instituições

Por Fernando Castilho



No julgamento sobre a prisão preventiva de Daniel Vorcaro, Gilmar Mendes acusou o voto de André Mendonça de trabalhar com “conceitos porosos e elásticos”. A frase, aparentemente técnica, é quase uma caricatura involuntária: o ministro aponta o risco de conceitos que se comportam como esponjas ou como chicletes. Absorvem tudo, esticam-se até perder forma. E, nesse processo, deixam de conter e passam a justificar.

Um conceito poroso é como uma parede mal rebocada: qualquer infiltração encontra caminho. Ele se adapta ao caso concreto, incorpora elementos externos e, nesse movimento, perde densidade. Já o conceito elástico é como aquele elástico de calça velha: estica tanto que já não segura nada. Abrange situações diversas, amplia o campo de incidência da norma e transforma limites em conveniências. Juntos, porosidade e elasticidade produzem um efeito corrosivo: o conceito deixa de ser barreira e vira ferramenta de acomodação.

O contraponto seria o conceito impermeável, ideal da dogmática, que funciona como uma represa: não absorve, não se estica, resiste. No processo penal, onde está em jogo a liberdade, essa diferença não é detalhe acadêmico. É a diferença entre conter o poder punitivo e permitir que ele se derrame como enchente.

Ao adotar categorias mais abertas, como uma leitura ampliada da “garantia da ordem pública”, Mendonça expande o campo da prisão cautelar. O efeito não decorre da intenção, mas da forma. A porosidade permite justificar; a elasticidade permite ampliar. É uma lógica que lembra a Lava Jato, com seus prognósticos grandiosos e conceitos indeterminados usados como passaporte para medidas severas. Não é identidade, mas é parentesco — e daquelas famílias em que se reconhece o DNA à primeira vista.

A crítica de Gilmar Mendes, portanto, é estrutural. Quanto mais maleável o conceito, maior o poder de prender. Um conceito impermeável, ao contrário, exige demonstração específica e individualizada. Obriga o julgador a dizer, com precisão quase cirúrgica, por que aquele indivíduo, naquele momento, deve ser privado de liberdade. É bisturi contra faca de pão.

Mas eis a ironia institucional. A própria Constituição exige dos ministros “notório saber jurídico”. A expressão soa como granito, mas é mais próxima da argila: moldável, adaptável, sujeita a interpretações diversas. Em outras palavras, um conceito poroso. E, não raras vezes, elástico. O Supremo é uma feira de saberes: de um lado, acadêmicos rigorosos, afeitos à geometria conceitual; de outro, operadores pragmáticos, cuja autoridade vem da prática e da trajetória institucional. Há ainda os que ostentam precário saber jurídico, como vêm demonstrando Toffoli, Nunes Marques e o próprio André Mendonça. Nada disso é defeito, mas é fonte de tensão. Uns usam bisturis conceituais; outros, martelos de borracha.

O resultado é uma assimetria silenciosa. Exige-se rigor geométrico em um ambiente que admite curvas, infiltrações e improvisos. A régua sobe em alguns pontos, mas em outros permanece ao nível do chão. A porosidade, então, muda de lugar: não está apenas nos votos, mas na própria instituição. O conceito de “notório saber jurídico” é tão indeterminado quanto a “garantia da ordem pública” que sustenta prisões preventivas. É como se a Corte cobrasse impermeabilidade conceitual em suas decisões, mas aceitasse porosidade na sua própria fundação.

E talvez seja esse o ponto mais incômodo. No exato momento em que decide sobre a liberdade de um indivíduo, o Supremo expõe não apenas divergências jurídicas, mas a flexibilidade de seus próprios critérios. É como se pedisse contenção conceitual com uma mão e, com a outra, moldasse a argila institucional ao sabor das circunstâncias. No limite, a pergunta que fica não é se um voto foi poroso ou elástico. É outra, mais desconfortável: como exigir rigor de conceitos em uma Corte que se orgulha de sua própria maleabilidade?

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Areia movediça no sambódromo

Por Fernando Castilho




“É um terreno de areia movediça”, advertiu a presidente do TSE, Carmen Lúcia, sobre o desfile da escola de samba que pretende homenagear Lula no carnaval. Tradução livre: cuidado, porque basta um passista levantar o braço errado e pronto: crime eleitoral na avenida.

O ministro André Mendonça já anunciou seu papel: espectador de sofá, lupa em punho, pronto para transformar qualquer gesto em infração.

Até a quinta-feira, eu achava a homenagem inofensiva. Mas, convenhamos, Lula não pode nada. Não pode tomar uma cachaça, não pode viajar, não pode se hospedar em hotéis, não podia trocar avião presidencial (mesmo que o antigo fosse praticamente um caixão voador), não pôde comparecer ao velório do irmão. E, claro, não pode ser homenageado. No Brasil, Lula respirar já é ato político.

Se a oposição correu ao TSE antes do desfile para tentar criminalizá-lo, imaginem depois. A escola promete cuidados extremos: nada de “L” com as mãos, nada de número 13, nada de camiseta vermelha. Mas quem garante? Basta um passista afoito ou um infiltrado bolsonarista para transformar o carnaval em processo de inelegibilidade. Afinal, quem disse que todos os integrantes da escola são lulistas?

Lula lidera as pesquisas. Com o portfólio de feitos em três anos, comunicar bem o que já fez é praticamente sua única tarefa para se reeleger. Ninguém o alcança. Nem Flávio “Rachadinha”, que jura que seu programa de governo é dar continuidade à obra do pai. Sabemos bem qual foi a obra. A extrema-direita sabe que tem pouquíssimas chances. Por isso, só existem duas formas de derrotá-lo: ou ele morre, ou é declarado inelegível. E alguém duvida que vão investir pesado nessa segunda opção? Sem prejuízo da primeira, se o desespero falar mais alto?

E não esqueçamos: Janja. Muitos dizem que ela não tem cargo no governo, logo poderia desfilar livremente. Ingenuidade. Ela é o maior símbolo de Lula, justamente por ser sua esposa. E isso, claro, será judicializado. Afinal, estamos falando de uma corte que absolveu por unanimidade o senador Jorge Seif, mesmo diante de fotos, vídeos e e-mails trocados com Luciano Hang. O ministro Nunes Marques chegou a dizer que, mesmo com essas provas, não via “indícios de abuso econômico”. Que o digam os demais candidatos que não obtiveram a mesma ajuda. Pois é, indícios demais podem atrapalhar.

Alguns sugerem que Lula não compareça ao desfile. Ótimo, mas isso não resolve nada: a escola desfilará de qualquer forma. O correto seria cancelar o desfile. Mas já é tarde. Ele vai acontecer.

E acontecerá no contexto em que Lula, num discurso recente, afirmou que essa eleição será uma guerra. Pois bem, talvez ele devesse levar suas próprias palavras mais a sério.

Resta torcer para que o carnaval não vire tribunal. Porque, convenhamos, seria um tropeço tão previsível quanto evitável. E se acontecer, não será samba-enredo. Será marcha fúnebre da democracia, com direito a tamborim, mas sem alegria.