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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O farol da democracia em chamas

Por Fernando Castilho



Por décadas, os Estados Unidos venderam ao mundo a imagem do “farol da liberdade e da democracia”. O mundo inteiro comprou: constituições foram moldadas à sua semelhança, adolescentes copiaram o rock, e Hollywood ensinou que, no fim, os heróis truculentos sempre vencem contra árabes, russos e, agora, o "perigo amarelo" chinês. Hoje, porém, os EUA preparam um novo produto de exportação. Não vem em disco de platina nem em tela de cinema. Preparem-se: em breve veremos polícias políticas violentas pipocando pelo globo, ostentando o selo de qualidade da maior democracia do mundo: MADE IN USA.

É fascinante, para não dizer patológico, observar um Estado que, para distrair o público de seu próprio declínio, decide caçar imigrantes como forma de sobrevivência política no mundo. Mas o espetáculo evoluiu. Por que parar nos imigrantes, se é possível estender os tentáculos da repressão aos próprios cidadãos? Em Minneapolis, o palco foi montado: prefeitos e governadores democratas assistem, atônitos, enquanto o governo federal transforma suas ruas em um laboratório de tiro e em um campo de testes para sistemas de vigilância preditiva e reconhecimento facial.

O recrutamento do ICE é um exemplo cruel de eficiência: basta encontrar jovens cujos cérebros foram moldados pela estética de guerra dos videogames e cujos bolsos foram esvaziados por dívidas reais. Para eles, o cartaz diz: “Seu país precisa de você!”. Traduzindo do politiquês: “Precisamos que você esqueça seus boletos e canalize seu ódio contra qualquer um que te olhe torto”. É a gamificação da brutalidade: o distintivo torna-se o upgrade definitivo em um jogo onde a vida do "inimigo interno" não tem reinício. A história já viu coreografia semelhante na Alemanha de Hitler, mas agora ela conta com algoritmos.

O resultado desse treinamento relâmpago é uma performance de gala da barbárie. Dois americanos já foram executados em Minneapolis. O último recebeu dez tiros no rosto, mesmo após estar dominado. Reconfortante, talvez, para o agente que se sentiu com “carta branca” para matar. Afinal, o que é um rosto desfigurado diante do dever patriótico de manter a ordem? E não vai parar por aí. A resistência precisa ser testada, como uma criança que desafia os limites dos pais para ver até onde começa o castigo.

Enquanto isso, as instituições que deveriam servir de freio, o Judiciário e o Partido Democrata, parecem sofrer de uma paralisia assistida. O famoso sistema de pesos e contrapesos, orgulho da exportação jurídica americana, transformou-se em um carimbo burocrático para o inevitável. O Partido Democrata faz vistas grossas, talvez investindo no caos para depois surgir como o "salvador" da democracia, ou talvez esteja apenas em choque por descobrir que país está se tornando um regime ditatorial.

Toda essa "Estratégia da Tensão" serve a um plano quase poético em seu autoritarismo. Trump não está apenas governando; ele está ensaiando. Quer medir até onde a corda estica antes de se romper em uma quase guerra civil. Ele espera o confronto, anseia por um agente morto para ter o pretexto perfeito de “endurecer” e decretar medidas de exceção. É uma tática tão velha quanto o fascismo clássico, mas que sempre encontra uma plateia fiel e sedenta por um "homem forte".

À medida que as eleições de meio de mandato, e a obsessão pela permanência em 2028 se aproximam, o exército doméstico vai sendo alimentado. E cresce. Trump poderá se sentir forte o suficiente para tentar repetir o que fez em 2021 e o que seu aprendiz, Bolsonaro, tentou em 2022: ignorar a Constituição e eternizar-se no poder. Em ambos os casos, não deu certo. Poderá dar desta vez?

Se o “farol do mundo” decidir apagar as luzes para instalar uma ditadura de grife, o resto do planeta que se prepare: a escuridão é contagiosa, altamente tecnológica e, infelizmente, costuma ser copiada.