Por Fernando Castilho
Há
uma leitura persistente, quase folclórica, de que Donald Trump e o Deep
State, a burocracia permanente de inteligência e defesa dos EUA, habitam
universos paralelos, mas em rota de colisão. No entanto, uma observação mais
aguda da realidade geopolítica sugere o contrário: eles não estão em guerra,
mas em uma simbiose de conveniência. Trump é o martelo ruidoso; o Deep State
é a mão que direciona o golpe. Um casamento improvável, mas funcional, que se
aproveita mutuamente para transpor o que ambos consideram um obstáculo
obsoleto: a liturgia da democracia liberal.
As
diatribes de Trump contra as instituições não são apenas retórica eleitoral;
são testes de estresse. Por enquanto, ele ainda precisa driblar as engrenagens
democráticas que atrasam decisões de força. Mas esse “por enquanto” tem data de
validade. O americano médio, fustigado por crises de custo de vida, salários
congelados desde 2008 e uma sensação de declínio nacional, começa a ver a
democracia não como um direito inalienável, mas como um entrave burocrático que
impede a “resolução de problemas”. Afinal, quem precisa de direitos quando se
pode ter soluções rápidas, não é mesmo?
Quando
o cidadão comum manda a democracia às favas, o líder ganha o salvo-conduto para
agir como soberano. É nesse vácuo de controle institucional que o Deep State
opera com maior liberdade, utilizando a figura disruptiva de Trump para
executar manobras que nenhum político tradicional ousaria, até porque nenhum
político tradicional teria coragem de fazer tanto barulho sem se importar com o
ridículo.
O
recente sequestro de Nicolás Maduro e a postura “pela metade” de Washington na
Venezuela ilustram perfeitamente esse jogo. Por que não uma invasão total? Por
que manter a estrutura do regime sob pressão em vez de derrubá-lo de uma vez?
Talvez porque o espetáculo rende mais quando se prolonga.
A
resposta pode residir no equilíbrio de forças globais. Ao manter um discurso
“meio aliche, meio muçarela” na ONU, Trump segura as reações de Pequim e
Moscou. Ele oferece um pragmatismo cínico: permite que a China e a Rússia
mantenham seus interesses econômicos e minerais (como o acesso a terras raras,
ouro e petróleo pesado) em troca de não interferirem na “limpeza” ideológica da
região. É o famoso “cada um cuida do seu quintal, mas não reclame da bagunça do
vizinho”.
O
alvo real não é apenas o chavismo, mas seus tentáculos externos. A estratégia
pode estar diante de nossos olhos, mas custamos a compreendê-la:
- Isolamento de Células
Ideológicas: Desmantelar radicalmente a influência de Cuba e do Irã no
hemisfério, removendo o suporte logístico e de inteligência que sustenta
regimes autocráticos.
- Aposta na Implosão: Em vez
de gastar bilhões em uma ocupação militar, os EUA fomentam as condições
para uma guerra civil. Ao estrangular a economia e remover a cabeça do
regime (Maduro), cria-se um vácuo onde as elites militares e as facções
internas lutarão entre si. Isso já se tornou visível na noite de 5 de
janeiro, quando drones sobrevoaram Caracas e ninguém entendeu
absolutamente nada. Estratégia nova? Nem de longe.
O
objetivo é uma vitória por W.O.: derrubar o sistema venezuelano sem que o
governo americano precise dar mais um tiro sequer após as operações iniciais.
Se a Venezuela se tornar um campo de batalha interno, o Deep State
americano poderá “gerenciar” o resultado através de procuradores, garantindo
que o novo governo seja alinhado aos interesses de Washington, mas mantendo as
mãos americanas formalmente limpas. Afinal, nada como parecer neutro enquanto
se dita as regras do jogo. É por isso que Trump não empossou Maria Corina no governo
venezuelano.
Estamos
diante de uma nova doutrina de poder: menos diplomacia, mais erosão
institucional; menos guerra direta, mais caos induzido. Trump e o aparato
estatal descobriram que, no século XXI, o controle não vem da ocupação, mas da
capacidade de ditar quem sobrevive ao colapso. E, convenhamos, é muito mais
barato, e rende manchetes mais emocionantes.
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