quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Por que ainda precisamos falar de ditadura e Bolsonaro

Por Fernando Castilho



O filme O Agente Secreto e a vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro foram celebrados não apenas pela esquerda, mas por todos que ainda veem no cinema um instrumento de reflexão. Em contrapartida, a ala bolsonarista, fiel ao hábito de rejeitar o que não consome, condenou a obra apenas por ser ambientada na época da ditadura militar. Para esse grupo, qualquer resgate dos "anos de chumbo" é encarado como uma afronta pessoal, postura reforçada por opiniões como a de uma colunista da Folha de S. Paulo, que sugeriu que "já basta de filmes sobre o tema". É o equivalente a propor um apagamento deliberado da história para evitar o desconforto do real.

Essa resistência ao passado tem um reflexo geracional preocupante. Como a ditadura terminou em 1985, brasileiros com menos de 45 anos não possuem memória direta do período. Somado a isso, o ensino escolar muitas vezes resume esse capítulo em páginas superficiais, impedindo que os jovens compreendam a dimensão daquele pesadelo. Essa lacuna educacional e histórica ajuda a explicar por que tantos não entenderam a gravidade da tentativa de golpe em 8 de janeiro, nem o peso de suas consequências.

O desejo de silenciar o debate sobre os anos de chumbo nasce da conveniência: é mais fácil apagar a memória coletiva do que encarar fantasmas. Esse mesmo mecanismo de negação surge quando denunciamos nas redes sociais as ações de Jair Bolsonaro. Diante das críticas à sua tentativa de golpe ou ao comportamento de sua família nas redes sociais, surge o apelo: “Parem de falar sobre ele, deixem-no cair no esquecimento”.

No entanto, ignorar o presente seria repetir o erro de quem varreu a ditadura para debaixo do tapete. Bolsonaro precisa ser lembrado, não por culto, mas por vigilância. É preciso manter vivo o registro de sua responsabilidade na gestão da pandemia, quando foi responsável direto pela morte de mais de 400 mil pessoas, e o fato de que, sob sua liderança, o Brasil flertou com o retorno ao autoritarismo, às prisões políticas, à tortura e aos assassinatos.

Falar sobre esses temas não é obsessão; é um exercício de autodefesa democrática. Recordar o passado e expor o presente é a única forma de garantir que as novas gerações não caiam na armadilha de eleger, novamente, figuras que transformam a política em um projeto de opressão.

Portanto, falemos sim sobre ele. Para que nunca nos esqueçamos.

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