sábado, 27 de junho de 2015

Quando o ser social de alguém lhe determina a consciência

Por Fernando Castilho


Gloria Álvarez - foto por Fernando Conrado
Ela tem cabelos louros, talvez um tanto ruivos, olhos azuis ou verdes. A guatemalteca Gloria Álvarez de 30 anos, na semana passada proferiu palestra no auditório de 2 mil lugares da PUC-RS, em Porto Alegre, completamente lotado.

Tida como uma das jovens caras da direita, Gloria veio ao Brasil, financiada pelo capital, para falar aos jovens, segundo uma agenda americana de reforçar a direita nos países latino-americanos, o que tem dado bons resultados pelo que temos observado ultimamente. A moça defendeu a liberdade individual, “empoderamento” da juventude, impostos baixos, Estado mínimo e, pra variar, a meritocracia, segundo ela, sem culpa moral nem social.

Para ela, ''todos nós, 7 bilhões e meio de seres humanos que habitamos este planeta, somos egoístas. É essa a verdade, meus queridos amigos do Brasil, todos somos egoístas. E isso é ruim? É bom? Não, é apenas a realidade.”

Pode parecer chocante alguém admitir abertamente ser egoísta, mas na verdade ela está sendo verdadeira. ''Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência'', dizia Marx.

O que Gloria quer dizer com todas as letras é: ''que se danem os pobres, que eles continuem sem nenhum tipo de ajuda ou direitos, o que importa é que nós, nascidos brancos, privilegiados, dominemos, acumulemos riqueza e aproveitemos a vida sem culpa ou remorsos'', afinal, como dizia Engels, “os que no regime burguês trabalham, não lucram e os que lucram, não trabalham.”

Se fizermos uma pesquisa com nossos amigos, não importando de que lado se situam no espectro ideológico, praticamente 100% negarão ser egoístas, afinal isso não é exatamente uma qualidade. Mas a grande maioria terá mentido, certo?

O capitalismo na visão de Gloria é extremamente benéfico para os poucos que alcançaram uma posição de destaque ou de domínio sobre a grande maioria de pobres.

Mas para a moça não importa que o capitalismo venha a colocar a sobrevivência na Terra num futuro próximo, em extemo perigo. Os recursos naturais e as fontes de energia não renováveis estão se exaurindo, as temperaturas médias estão aumentando ano a ano, a produção de lixo só faz crescer, etc.. Estamos extraindo de Gaia, como lembra o cientista James Lovelock, muito mais do que ela é capaz de nos ofertar.

O capitalismo pressupõe como condição sine qua non para sua existência a obsolescência programada e a publicidade. As duas são aliadas, funcionam juntas.

A obsolescência programada faz com que tenhamos que trocar de celulares, computadores, roupas, etc..todos os anos. A publicidade nos faz sentir defasados no tempo ou fora de moda, forçando-nos a comprar produtos sempre atuais.

Uma hora a coisa acaba.

E os pobres, imensa maioria no mundo, não terão tido a oportunidade de usufruir de nada disso.

O socialismo tem outra visão de mundo. Não pressupõe o egoísmo.

Gloria, mais à frente disse: ''Há pessoas que não aceitam essa verdade (que somos egoístas) e saem com a maravilhosa ideia: ‘Não! [imita a voz de um homem], eu vou fazer a primeira sociedade não egoísta’. Cuidem-se, brasileiros; cuide-se, América Latina! Esses espertinhos são como Stálin, na União Soviética, como Kim Jong-il, Kim Jong-un, na Coreia do Norte, Fidel Castro, em Cuba, Hugo Chávez, na Venezuela. E por que “seguimos como carneirinhos atrás desses “hipócritas”? Porque [faz careta e vozinha de velha] nos ensinam que é feio ser egoísta e que pensar em nós mesmos é pecado.''

Mas é feio e é pecado mesmo, como vem ensinando o Papa Francisco.

O socialismo pressupõe uma sociedade mais igualitária em que todos possam ter as mesmas oportunidades e usufruir do que for possível dentro de uma sociedade.

A mídia durante décadas nos ensinou que é ruim ser esquerdista. Que o socialismo é o mal a ser combatido. Por isso há tanto pobre que se diz de direita pois desconhece o que significa socialismo e esquerda, tendendo a reproduzir aquilo que seus patrões dizem.

Alguém dirá: ''pera lá! O socialismo não deu certo em nenhum lugar do mundo!''

Meia verdade. E talvez aí Gloria tenha razão. O ser humano em grande parte é egoísta. Quer sempre mais. Isto inclui poder.

Não há como defender com paixão um governo como o de Stalin na União Soviética ou de Kim-Jong-Un da Coreia do Norte. Nem o governo da China, que hoje mais se assemelha a um regime capitalista, exaurindo ao máximo os recursos naturais, poluindo o ambiente e escravizando milhões de pessoas nas linhas de produção de suas fábricas.

Mas é impressionante que Cuba, uma ilha com somente 105 mil km² (no Brasil caberiam 80 Cubas) e 11 milhões de pessoas, sem possibilidade de comércio com o resto do mundo há mais de 50 anos, tenha um sistema de saúde e de educação admirado no resto do planeta.

Para a ilha se dirigem anualmente centenas de norte-americanos que necessitam de medicina barata e de qualidade. Além disso, Cuba envia médicos para todas as regiões necessitadas em todo o mundo, inclusive o Brasil. O analfabetismo em Cuba praticamente não existe.

Antes de me mandarem pra Cuba, perguntarão sobre os direitos humanos. Talvez os mesmos que são contra direitos humanos.

Bem, nada é perfeito. Sempre haverão os egoístas da Gloria que quererão acumular mais riqueza que os outros. Estes não suportam levar uma vida simples, o que faz com que decidam trair a revolução. Alguns fogem para Miami, sendo recebidos prontamente pela máfia cubana que lhes garante algum subemprego e submoradia para serem subcidadãos por lá. Outros tentam organizar, com apoio da Cia, golpes para derrubar o governo, sendo presos. Vejam que nada diferente disso acontece nos países capitalistas. Os Estados Unidos mantém em Cuba a prisão de segurança máxima de Guantánamo, onde há centenas de presos políticos acusados de alta traição, sem direito a advogados, sem julgamento e sem pena definida. Vão ficando presos por lá ad eternum.

E tenham certeza de que, se no Brasil houver tentativa de golpe contra a presidenta, como ocorreu na Venezuela, o governo também fará seus presos políticos.

Mas na realidade, quando se fala numa sociedade socialista, fala-se numa utopia que precisa se tornar possível para que se possa salvar o planeta, afinal é o ser social do homem que lhe determina a consciência.

A consciência de ser plural, de ser fraterno, de ser tolerante e compartilhante.





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