Por Fernando Castilho
O
mundo assiste, em choque, às imagens do sequestro de Nicolás Maduro e à
ocupação de pontos estratégicos na Venezuela pelas forças dos Estados Unidos.
Para os historiadores, o eco de setembro de 1939 é ensurdecedor. Embora o
século XXI se orgulhasse de suas instituições multilaterais e de uma
arquitetura de paz aparentemente sólida, a Operação Determinação Absoluta,
deflagrada por Donald Trump, guarda semelhanças perturbadoras com a invasão da
Polônia pela Alemanha Nazista. O evento levanta uma questão existencial: o
Direito Internacional sobrevive a este novo capítulo ou estamos apenas
documentando o seu funeral?
A
construção do pretexto para a agressão revela um padrão histórico de
manipulação narrativa. Em 1939, Hitler utilizou a Operação Himmler, um ataque
de falsa bandeira, para justificar a invasão da Polônia como uma "medida
defensiva". Em 2026, a administração americana resgatou uma versão
anacrônica e agressiva da Doutrina Monroe, moldada sob o conceito de
"Autodefesa Hemisférica". Sob o argumento de que a Venezuela se
tornou um "Narcoestado" que ameaça a segurança interna dos EUA via
fluxo de fentanil e imigração descontrolada, Washington atropelou a soberania
nacional venezuelana. Em ambos os casos, a retórica serviu para mascarar
objetivos estratégicos de longo prazo: o Lebensraum (espaço vital)
alemão e o controle das maiores reservas de petróleo do mundo pela
administração Trump.
A
rapidez da queda das defesas venezuelanas em 2026 mimetiza a eficácia
assustadora da Blitzkrieg alemã. Enquanto a Polônia foi esmagada pela
coordenação inédita de divisões Panzer e o terror vindo dos céus com a
Luftwaffe em 28 dias, a Venezuela viu a cabeça de seu comando central ser
decapitada em menos de uma semana por uma "guerra relâmpago"
tecnológica, embora o restante do corpo esteja mantido. Em 2026, o campo de
batalha foi definido por enxames de drones, ataques cibernéticos paralisantes à
rede elétrica e ao sistema de defesa antiaérea, culminando no sequestro
cirúrgico de Nicolás Maduro por forças especiais.
Essa
disparidade militar absoluta não permitiu uma defesa convencional, empurrando o
que restou das forças locais para a guerrilha e a resistência civil. O
"Estado Secreto Polonês" de outrora encontra seu paralelo moderno nas
milícias bolivarianas que agora se escondem no interior venezuelano, com o
potencial de transformar o país em um barril de pólvora de insurgência.
A
invasão da Polônia foi o "rastilho de pólvora" que ativou alianças e
engolfou o globo. Hoje, o risco de uma Terceira Guerra Mundial não reside
necessariamente em uma invasão terrestre entre superpotências, mas na ruptura
total das cadeias globais e na "Putinização" da política externa
americana. A reação do bloco BRICS, liderada por um Brasil que vê sua fronteira
amazônica militarizada para evitar o transbordamento do caos, e uma China que
observa seus investimentos petrolíferos serem confiscados, coloca o planeta em
uma corda bamba. Se em 1939 o gatilho foi o expansionismo territorial europeu,
em 2026 o estopim é a voracidade por recursos energéticos e a percepção de que
países como Colômbia e México podem ser os próximos alvos de uma política de
"limpeza regional" de Washington. E o Brasil, que se cuide.
A
gravidade do momento reside no fato de que, diferente da Alemanha de 1939, os
EUA implodem o sistema por dentro, ocupando uma cadeira permanente no Conselho
de Segurança da ONU. Seja qual for o desfecho da ocupação na Venezuela, o
paralelo histórico nos ensina que, quando o diálogo é substituído pela força
unilateral, a ordem mundial que conhecemos deixa de existir. A invasão da
Polônia enterrou a Liga das Nações; a invasão da Venezuela em 2026 pode ter
acabado de redigir a certidão de óbito da ONU.
Hoje,
o Direito Internacional parece reduzido a uma sugestão acadêmica, enquanto um
faroeste geopolítico impera sem que haja xerifes. Resta saber se o mundo
precisará passar por um conflito total para reescrever suas regras de
convivência ou se a interdependência econômica de 2026 servirá como o último
freio que faltou em 1939.
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