segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

De Varsóvia a Caracas: O retorno da força como linguagem diplomática

Por Fernando Castilho



O mundo assiste, em choque, às imagens do sequestro de Nicolás Maduro e à ocupação de pontos estratégicos na Venezuela pelas forças dos Estados Unidos. Para os historiadores, o eco de setembro de 1939 é ensurdecedor. Embora o século XXI se orgulhasse de suas instituições multilaterais e de uma arquitetura de paz aparentemente sólida, a Operação Determinação Absoluta, deflagrada por Donald Trump, guarda semelhanças perturbadoras com a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista. O evento levanta uma questão existencial: o Direito Internacional sobrevive a este novo capítulo ou estamos apenas documentando o seu funeral?

A construção do pretexto para a agressão revela um padrão histórico de manipulação narrativa. Em 1939, Hitler utilizou a Operação Himmler, um ataque de falsa bandeira, para justificar a invasão da Polônia como uma "medida defensiva". Em 2026, a administração americana resgatou uma versão anacrônica e agressiva da Doutrina Monroe, moldada sob o conceito de "Autodefesa Hemisférica". Sob o argumento de que a Venezuela se tornou um "Narcoestado" que ameaça a segurança interna dos EUA via fluxo de fentanil e imigração descontrolada, Washington atropelou a soberania nacional venezuelana. Em ambos os casos, a retórica serviu para mascarar objetivos estratégicos de longo prazo: o Lebensraum (espaço vital) alemão e o controle das maiores reservas de petróleo do mundo pela administração Trump.

A rapidez da queda das defesas venezuelanas em 2026 mimetiza a eficácia assustadora da Blitzkrieg alemã. Enquanto a Polônia foi esmagada pela coordenação inédita de divisões Panzer e o terror vindo dos céus com a Luftwaffe em 28 dias, a Venezuela viu a cabeça de seu comando central ser decapitada em menos de uma semana por uma "guerra relâmpago" tecnológica, embora o restante do corpo esteja mantido. Em 2026, o campo de batalha foi definido por enxames de drones, ataques cibernéticos paralisantes à rede elétrica e ao sistema de defesa antiaérea, culminando no sequestro cirúrgico de Nicolás Maduro por forças especiais.

Essa disparidade militar absoluta não permitiu uma defesa convencional, empurrando o que restou das forças locais para a guerrilha e a resistência civil. O "Estado Secreto Polonês" de outrora encontra seu paralelo moderno nas milícias bolivarianas que agora se escondem no interior venezuelano, com o potencial de transformar o país em um barril de pólvora de insurgência.

A invasão da Polônia foi o "rastilho de pólvora" que ativou alianças e engolfou o globo. Hoje, o risco de uma Terceira Guerra Mundial não reside necessariamente em uma invasão terrestre entre superpotências, mas na ruptura total das cadeias globais e na "Putinização" da política externa americana. A reação do bloco BRICS, liderada por um Brasil que vê sua fronteira amazônica militarizada para evitar o transbordamento do caos, e uma China que observa seus investimentos petrolíferos serem confiscados, coloca o planeta em uma corda bamba. Se em 1939 o gatilho foi o expansionismo territorial europeu, em 2026 o estopim é a voracidade por recursos energéticos e a percepção de que países como Colômbia e México podem ser os próximos alvos de uma política de "limpeza regional" de Washington. E o Brasil, que se cuide.

A gravidade do momento reside no fato de que, diferente da Alemanha de 1939, os EUA implodem o sistema por dentro, ocupando uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Seja qual for o desfecho da ocupação na Venezuela, o paralelo histórico nos ensina que, quando o diálogo é substituído pela força unilateral, a ordem mundial que conhecemos deixa de existir. A invasão da Polônia enterrou a Liga das Nações; a invasão da Venezuela em 2026 pode ter acabado de redigir a certidão de óbito da ONU.

Hoje, o Direito Internacional parece reduzido a uma sugestão acadêmica, enquanto um faroeste geopolítico impera sem que haja xerifes. Resta saber se o mundo precisará passar por um conflito total para reescrever suas regras de convivência ou se a interdependência econômica de 2026 servirá como o último freio que faltou em 1939.

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