Por Fernando Castilho
Donald Trump encerrou o primeiro ano de seu segundo mandato
com um saldo simplesmente tenebroso, para os Estados Unidos e para o resto do
mundo.
Impôs tarifas de forma unilateral, ajudando a empurrar a
inflação para níveis perigosos; perseguiu trabalhadores estrangeiros,
deportando-os ou enviando-os para a prisão de Bukele, em El Salvador, o que
resultou em escassez de mão de obra e no fechamento de restaurantes e serviços;
sequestrou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e agora ameaça tomar a
Groenlândia, num roteiro que lembra perigosamente certos delírios
expansionistas da Alemanha nazista.
Há muito mais, mas podemos parar por aqui. O excesso já
cumpre sua função.
Trump não blefou ao criar o slogan Make America Great
Again. Está cumprindo a promessa; Só que à sua maneira. Em nome de um
patriotismo ruidoso e performático, trabalha incansavelmente para tornar o
próprio país mais frágil, dividido e irreconhecível. A bandeira é exaltada
enquanto a ideia de nação é esvaziada.
O descontentamento interno cresce a olhos vistos,
impulsionado pela truculência do ICE, a “polícia migratória” que começa a
parecer uma releitura moderna da Gestapo. Paralelamente, avança um processo
silencioso, porém decisivo, de corrosão institucional: ataques sistemáticos à
imprensa, deslegitimação do Judiciário, enfraquecimento dos órgãos de controle
e a transformação do Estado em extensão da vontade pessoal do presidente. O
mais preocupante é que tudo isso vai sendo naturalizado, tratado como ruído político,
como se não estivesse em curso um desmonte deliberado das bases democráticas.
Um agente do ICE matou uma mulher americana somente porque
ela ficou assustada e se afastou com seu carro. A versão oficial naturaliza o
crime ao afirmar que o agente apenas reagiu à investida do carro da mulher que
quase o atropelou. Mas o vídeo é conclusivo e desmente essa versão
No plano externo, a União Europeia finalmente parece
despertar, observando com apreensão os desejos nada modestos do presidente
norte-americano.
Como se não bastasse, Trump “aceitou” um Prêmio Nobel da Paz
das mãos de Maria Corina, como se isso tivesse qualquer validade. E ainda
escreveu uma carta ao primeiro-ministro da Noruega reclamando por não ter
recebido o prêmio oficial, ignorando o detalhe irrelevante de que o Nobel não é
concedido pelo governo norueguês.
Pode parecer somente loucura, mas também é ego em estado
inflamado agudo.
Com as eleições de meio de mandato se aproximando, tudo
indica que, diante do descontentamento generalizado, inclusive entre
republicanos, Trump perderá a maioria no Congresso. Isso deve dificultar sua
governabilidade e reacender o fantasma do impeachment.
O problema é que, a julgar por seu comportamento, o mais
coerente é que ele não aceite limites institucionais, mas que os ignore. Em
outras palavras: que tente se manter no poder à força, como quase fez Jair
Bolsonaro.
Se isso ocorrer, o autoritarismo estará oficialmente
decretado nos Estados Unidos, dando a Trump carta branca para seus devaneios.
Virá repressão, muita repressão. A pergunta já não é mais o que ele é capaz de
fazer, mas até onde os outros permitirão que ele vá. A América já viveu uma
guerra civil. A história não costuma dar muitos avisos.
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