quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O próximo slogan de Trump: Faça a America uma autocracia trumpiana

Por Fernando Castilho



Donald Trump encerrou o primeiro ano de seu segundo mandato com um saldo simplesmente tenebroso, para os Estados Unidos e para o resto do mundo.

Impôs tarifas de forma unilateral, ajudando a empurrar a inflação para níveis perigosos; perseguiu trabalhadores estrangeiros, deportando-os ou enviando-os para a prisão de Bukele, em El Salvador, o que resultou em escassez de mão de obra e no fechamento de restaurantes e serviços; sequestrou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e agora ameaça tomar a Groenlândia, num roteiro que lembra perigosamente certos delírios expansionistas da Alemanha nazista.

Há muito mais, mas podemos parar por aqui. O excesso já cumpre sua função.

Trump não blefou ao criar o slogan Make America Great Again. Está cumprindo a promessa; Só que à sua maneira. Em nome de um patriotismo ruidoso e performático, trabalha incansavelmente para tornar o próprio país mais frágil, dividido e irreconhecível. A bandeira é exaltada enquanto a ideia de nação é esvaziada.

O descontentamento interno cresce a olhos vistos, impulsionado pela truculência do ICE, a “polícia migratória” que começa a parecer uma releitura moderna da Gestapo. Paralelamente, avança um processo silencioso, porém decisivo, de corrosão institucional: ataques sistemáticos à imprensa, deslegitimação do Judiciário, enfraquecimento dos órgãos de controle e a transformação do Estado em extensão da vontade pessoal do presidente. O mais preocupante é que tudo isso vai sendo naturalizado, tratado como ruído político, como se não estivesse em curso um desmonte deliberado das bases democráticas.

Um agente do ICE matou uma mulher americana somente porque ela ficou assustada e se afastou com seu carro. A versão oficial naturaliza o crime ao afirmar que o agente apenas reagiu à investida do carro da mulher que quase o atropelou. Mas o vídeo é conclusivo e desmente essa versão

No plano externo, a União Europeia finalmente parece despertar, observando com apreensão os desejos nada modestos do presidente norte-americano.

Como se não bastasse, Trump “aceitou” um Prêmio Nobel da Paz das mãos de Maria Corina, como se isso tivesse qualquer validade. E ainda escreveu uma carta ao primeiro-ministro da Noruega reclamando por não ter recebido o prêmio oficial, ignorando o detalhe irrelevante de que o Nobel não é concedido pelo governo norueguês.

Pode parecer somente loucura, mas também é ego em estado inflamado agudo.

Com as eleições de meio de mandato se aproximando, tudo indica que, diante do descontentamento generalizado, inclusive entre republicanos, Trump perderá a maioria no Congresso. Isso deve dificultar sua governabilidade e reacender o fantasma do impeachment.

O problema é que, a julgar por seu comportamento, o mais coerente é que ele não aceite limites institucionais, mas que os ignore. Em outras palavras: que tente se manter no poder à força, como quase fez Jair Bolsonaro.

Se isso ocorrer, o autoritarismo estará oficialmente decretado nos Estados Unidos, dando a Trump carta branca para seus devaneios. Virá repressão, muita repressão. A pergunta já não é mais o que ele é capaz de fazer, mas até onde os outros permitirão que ele vá. A América já viveu uma guerra civil. A história não costuma dar muitos avisos.

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