domingo, 25 de janeiro de 2026

O golpe que Nikolas deu em Bolsonaro

Por Fernando Castilho



Quando Nikolas Ferreira iniciou sua épica caminhada de Paracatu a Brasília, nada modestos 240 quilômetros, tinha em mente apenas um objetivo: promover-se ao máximo. A missão incluía, naturalmente, ofuscar Flávio Rachadinha, os outros filhos e até o próprio Bolsonaro, ainda que o discurso oficial jurasse tratar-se de uma manifestação em defesa da “justiça e da liberdade” do capitão.

Evidentemente, ninguém em sã consciência imaginou que Nikolas caminharia dia e noite por longos 240 quilômetros. A ideia sempre foi outra: andar cerca de um quilômetro, entrar em um carro confortável, com ar-condicionado (havia vários carros de apoio, diga-se), e dormir em hotéis previamente reservados ao longo do trajeto. Fé, patriotismo e colchão de molas ensacadas.

O que ele não esperava era a adesão relativamente grande. Centenas de pessoas apareceram, a maioria deputados bolsonaristas, assessores convocados que interromperam suas férias e aspirantes a parlamentares nas próximas eleições. Afinal, se a imprensa estava noticiando a caminhada, nada mais estratégico do que surgir sorridente ao lado de Nikolas, como figurante de um marketing eleitoral ambulante.

Agora, com tanta gente filmando tudo, parte considerável do percurso precisou ser feita a pé de verdade. Afinal, vídeos são traiçoeiros: hoje estão no celular de um aliado, amanhã viralizam desmontando toda a encenação.

Após vários dias, Nikolas e sua comitiva aproximaram-se de Brasília. Foi então que receberam a notícia de que Alexandre de Moraes havia proibido acampamentos nas proximidades da Penitenciária da Papuda e da Papudinha. Nikolas percebeu rapidamente que aquelas cerca de 500 pessoas poderiam causar tumulto. Tumulto gera visualizações. Visualizações geram capital político. Capital político ajuda em 2026. E isso era tudo que candidatos queriam. Mas o tumulto também poderia gerar algo menos instagramável: responsabilização criminal.

Como idealizador e líder do movimento, Nikolas poderia ser acusado de incentivar desordem ou até tentativa de golpe. Poderia entrar na mira de Alexandre de Moraes. Melhor recuar. Prudência é tudo quando uma prisão aparece no horizonte.

Reuniu, então, seus seguidores e fez um discurso desmobilizando o grupo logo após a chegada a Brasília. O movimento terminava ali, todos deveriam voltar para casa. Para completar a performance, elogiou a decisão de Moraes, afirmando que a Papuda é área de segurança nacional. Curioso: os quartéis também eram, em 2022 e no início de 2023, mas isso parece ter sido esquecido no caminho.

E pronto. Estratégia concluída com sucesso. Nikolas teve a exposição que desejava e saiu do episódio fortalecido, ainda que a esquerda tenha desmentido a farsa e o ridicularizado. Mas, como dizia Paulo Maluf, “falem mal de mim, mas falem”. Missão cumprida.

O detalhe inconveniente é que, ao desistir de um ato em Brasília “pela liberdade de Bolsonaro”, ou mesmo de um quebra-quebra que pudesse crescer e virar uma tentativa de golpe, e usar a caminhada exclusivamente para autopromoção, Nikolas acabou traindo Bolsonaro. E isso não passou despercebido pelos filhos, com exceção de Carlos, que apareceu por alguns instantes na caminhada e depois sumiu. Provavelmente foi alertado pelos irmãos para parar de dar holofote a Nikolas..

Flávio, Eduardo e Jair Renan ignoraram solenemente o evento porque perceberam desde o início as verdadeiras intenções de Nikolas: usar o slogan “Justiça e Liberdade” não para soltar Bolsonaro, pois ele sabia perfeitamente que uma caminhada jamais anularia decisão do STF, mas para se projetar politicamente.

Além disso, Nikolas deve ter enxergado um pouco mais adiante. Os contatos recentes de Michelle Bolsonaro com Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes indicavam uma possível articulação em direção à prisão domiciliar de Bolsonaro, algo que, de fato, já poderia até estar sendo cogitado. Mas Nikolas não deseja isso. Para ele, é estratégico que seu Jair esteja preso e inelegível, pois ele próprio deseja ser presidente quando atingir a idade mínima para isso. A caminhada, com potencial de tumulto no final, só daria a Moraes mais motivos para manter Bolsonaro na Papudinha.

No fim das contas, Nikolas caminhou bastante, mas sempre com os olhos fixos no espelho.

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