Por Fernando Castilho
Quando Nikolas Ferreira iniciou sua épica caminhada de
Paracatu a Brasília, nada modestos 240 quilômetros, tinha em mente apenas um
objetivo: promover-se ao máximo. A missão incluía, naturalmente, ofuscar Flávio
Rachadinha, os outros filhos e até o próprio Bolsonaro, ainda que o discurso
oficial jurasse tratar-se de uma manifestação em defesa da “justiça e da
liberdade” do capitão.
Evidentemente, ninguém em sã consciência imaginou que
Nikolas caminharia dia e noite por longos 240 quilômetros. A ideia sempre foi
outra: andar cerca de um quilômetro, entrar em um carro confortável, com
ar-condicionado (havia vários carros de apoio, diga-se), e dormir em hotéis
previamente reservados ao longo do trajeto. Fé, patriotismo e colchão de molas
ensacadas.
O que ele não esperava era a adesão relativamente grande.
Centenas de pessoas apareceram, a maioria deputados bolsonaristas, assessores
convocados que interromperam suas férias e aspirantes a parlamentares nas
próximas eleições. Afinal, se a imprensa estava noticiando a caminhada, nada
mais estratégico do que surgir sorridente ao lado de Nikolas, como figurante de
um marketing eleitoral ambulante.
Agora, com tanta gente filmando tudo, parte considerável do
percurso precisou ser feita a pé de verdade. Afinal, vídeos são traiçoeiros:
hoje estão no celular de um aliado, amanhã viralizam desmontando toda a
encenação.
Após vários dias, Nikolas e sua comitiva aproximaram-se de
Brasília. Foi então que receberam a notícia de que Alexandre de Moraes havia
proibido acampamentos nas proximidades da Penitenciária da Papuda e da
Papudinha. Nikolas percebeu rapidamente que aquelas cerca de 500 pessoas
poderiam causar tumulto. Tumulto gera visualizações. Visualizações geram
capital político. Capital político ajuda em 2026. E isso era tudo que
candidatos queriam. Mas o tumulto também poderia gerar algo menos
instagramável: responsabilização criminal.
Como idealizador e líder do movimento, Nikolas poderia ser
acusado de incentivar desordem ou até tentativa de golpe. Poderia entrar na
mira de Alexandre de Moraes. Melhor recuar. Prudência é tudo quando uma prisão
aparece no horizonte.
Reuniu, então, seus seguidores e fez um discurso
desmobilizando o grupo logo após a chegada a Brasília. O movimento terminava
ali, todos deveriam voltar para casa. Para completar a performance, elogiou a
decisão de Moraes, afirmando que a Papuda é área de segurança nacional.
Curioso: os quartéis também eram, em 2022 e no início de 2023, mas isso parece
ter sido esquecido no caminho.
E pronto. Estratégia concluída com sucesso. Nikolas teve a
exposição que desejava e saiu do episódio fortalecido, ainda que a esquerda
tenha desmentido a farsa e o ridicularizado. Mas, como dizia Paulo Maluf,
“falem mal de mim, mas falem”. Missão cumprida.
O detalhe inconveniente é que, ao desistir de um ato em
Brasília “pela liberdade de Bolsonaro”, ou mesmo de um quebra-quebra que
pudesse crescer e virar uma tentativa de golpe, e usar a caminhada
exclusivamente para autopromoção, Nikolas acabou traindo Bolsonaro. E isso não
passou despercebido pelos filhos, com exceção de Carlos, que apareceu por
alguns instantes na caminhada e depois sumiu. Provavelmente foi alertado pelos
irmãos para parar de dar holofote a Nikolas..
Flávio, Eduardo e Jair Renan ignoraram solenemente o evento
porque perceberam desde o início as verdadeiras intenções de Nikolas: usar o
slogan “Justiça e Liberdade” não para soltar Bolsonaro, pois ele sabia
perfeitamente que uma caminhada jamais anularia decisão do STF, mas para se
projetar politicamente.
Além disso, Nikolas deve ter enxergado um pouco mais
adiante. Os contatos recentes de Michelle Bolsonaro com Gilmar Mendes e
Alexandre de Moraes indicavam uma possível articulação em direção à prisão
domiciliar de Bolsonaro, algo que, de fato, já poderia até estar sendo
cogitado. Mas Nikolas não deseja isso. Para ele, é estratégico que seu Jair
esteja preso e inelegível, pois ele próprio deseja ser presidente quando
atingir a idade mínima para isso. A caminhada, com potencial de tumulto no
final, só daria a Moraes mais motivos para manter Bolsonaro na Papudinha.
No fim das contas, Nikolas caminhou bastante, mas sempre com
os olhos fixos no espelho.
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