Por Fernando Castilho
De
uns tempos para cá, venho me inquietando com a questão do tempo. Desculpem o
trocadilho inevitável. Essa inquietação se intensificou após meu contato com o
pensamento do físico teórico norte-americano Richard Feynman.
Uma
ideia dele permaneceu ressoando em minha mente por semanas: o passado não
desaparece, mas persiste como uma estrutura invisível que sustenta o presente.
O agora só existe porque há um ontem que o molda e o determina.
À
primeira vista, essa concepção parece lógica. Contudo, ao tentar imaginá-la,
percebemos o limite da nossa mente: ela não alcança plenamente o que significa
um passado que não se dissolve, mas se acumula como fundamento. Eu mesmo me vi
por dias tentando visualizar essa arquitetura oculta.
Até
que uma imagem se formou. Dentro de uma caverna, uma estalagmite ergue-se
lentamente, gota após gota, ao longo de milênios. Cada gota de água misturada
ao calcário é o presente que, no instante em que toca o chão, já se converte em
passado. A estrutura, sólida e silenciosa, é o acúmulo do tempo, o ontem que
sustenta o hoje.
As
metáforas, sei bem, são simplificações de realidades complexas. Mas essa imagem
me ajudou a compreender, ainda que de modo imperfeito, o que Feynman sugeria: o
passado não é apenas lembrança, mas matéria, corpo, sustentação. O presente é
apenas o instante da gota; o passado, a rocha que se ergue, paciente, no
interior da caverna da existência.