domingo, 1 de março de 2026

O que é o passado?

Por Fernando Castilho



De uns tempos para cá, venho me inquietando com a questão do tempo. Desculpem o trocadilho inevitável. Essa inquietação se intensificou após meu contato com o pensamento do físico teórico norte-americano Richard Feynman.

Uma ideia dele permaneceu ressoando em minha mente por semanas: o passado não desaparece, mas persiste como uma estrutura invisível que sustenta o presente. O agora só existe porque há um ontem que o molda e o determina.

À primeira vista, essa concepção parece lógica. Contudo, ao tentar imaginá-la, percebemos o limite da nossa mente: ela não alcança plenamente o que significa um passado que não se dissolve, mas se acumula como fundamento. Eu mesmo me vi por dias tentando visualizar essa arquitetura oculta.

Até que uma imagem se formou. Dentro de uma caverna, uma estalagmite ergue-se lentamente, gota após gota, ao longo de milênios. Cada gota de água misturada ao calcário é o presente que, no instante em que toca o chão, já se converte em passado. A estrutura, sólida e silenciosa, é o acúmulo do tempo, o ontem que sustenta o hoje.

As metáforas, sei bem, são simplificações de realidades complexas. Mas essa imagem me ajudou a compreender, ainda que de modo imperfeito, o que Feynman sugeria: o passado não é apenas lembrança, mas matéria, corpo, sustentação. O presente é apenas o instante da gota; o passado, a rocha que se ergue, paciente, no interior da caverna da existência.

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