quarta-feira, 8 de abril de 2026

Efeito imã: como Lula está redesenhando o mapa do poder

Por Fernando Castilho



Um dos movimentos mais sísmicos da política brasileira atual não vem de discursos inflamados, mas do som das canetas nas assinaturas em fichas de filiação. Nomes de peso, historicamente ancorados no centro e na direita, estão migrando para o campo progressista. Para uns, o movimento gera entusiasmo; para outros, desconfiança. Mas o fato é incontestável: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a ser o grande polo de gravidade da política nacional.

Na política, veteranos não mudam de lado por impulso. Eles farejam o vento e sentem o clima das ruas. O que estamos vendo é a percepção clara de que o eixo do poder está se deslocando.

Simone Tebet: Do Agro ao calor das ruas

Talvez não haja símbolo maior dessa transição do que Simone Tebet. Vinda do MDB e com raízes profundas no agronegócio, sua filiação ao PSB consolida uma metamorfose que começou no tenso segundo turno de 2022. O que era um apoio de risco tornou-se uma parceria de gestão no Ministério do Planejamento, onde Tebet trabalhou em sintonia fina com Fernando Haddad.

Mas há um fator invisível que pesa tanto quanto o tecnicismo de sua pasta: o fator humano. Assim como Geraldo Alckmin, o histórico adversário de Lula que hoje é seu vice e ministro, Tebet descobriu algo raro para quem sempre frequentou ambientes elitizados: o abraço do povo. Ver Alckmin e Tebet sendo aplaudidos por camadas populares é presenciar uma transformação de trajetórias que a frieza dos números não explica.

Rupturas e Pontes: Eliziane Gama e Kátia Abreu

A mudança da senadora Eliziane Gama foi um divórcio litigioso com a direita, gestado no calor da CPMI da Covid, da qual ela foi relatora. O resultado foi o indiciamento de Jair Bolsonaro. O empurrão final para que ela decidisse mudar de partido veio de Gilberto Kassab (PSD), ao sinalizar apoio à direita dura de Ronaldo Caiado. Sem espaço naquele palanque, Eliziane saltou para o PT.

No outro lado da ponte, surge Kátia Abreu. A ex-ministra, que nunca soltou a mão de Dilma Rousseff, agora oficializa sua entrada no PT. Mais do que um nome, ela representa um símbolo: o agronegócio começando a atravessar o rio. Com três recordes consecutivos no Plano Safra e crédito farto, o setor começa a notar que a retórica ideológica não paga as contas. No fim do dia, o resultado concreto (e o lucro) fala mais alto que o discurso de rede social. Esclarecer isso aos empresários deverá ser sua missão.

Minas Gerais e o Tabuleiro de Rodrigo Pacheco

O mapa ganha contornos decisivos com Rodrigo Pacheco. Agora no PSB e pré-candidato ao governo de Minas Gerais, Pacheco oferece a Lula o que todo presidente deseja: um palanque sólido no "estado-pêndulo". O ditado é velho, mas segue invicto: quem vence em Minas, vence o Brasil. Fortalecer essa aliança não é apenas política; é pura estratégia de sobrevivência e vitória.

Charutos, Fidel e a Estratégia de Longo Prazo

Engana-se quem pensa que esse movimento é improvisado. Lula tenta levar o PT para o centro-esquerda desde os anos 90. No livro Lula II, Fernando Morais revela conversas antigas com Tasso Jereissati (PSDB) que foram interrompidas pela ascensão de FHC.

Um detalhe curioso e quase desconhecido ilustra essa diplomacia de bastidor: este articulista presenciou o momento em que Lula revelou que os charutos cubanos que então fumava não vinham diretamente de Fidel Castro, mas sim de Jereissati. Fidel os enviava para Tasso que, por não fumar, repassava o presente ao petista.

O que vemos hoje com Alckmin e Tebet é a conclusão de um plano imaginado há décadas por um Lula notório conciliador.

O Próximo Nome e o Fator China

O processo de atração está apenas no começo. No radar, surge Soraya Thronicke (Podemos). Deslocada em um partido ligado ao bolsonarismo, Soraya não esconde a admiração pela serenidade de Lula, sentimento selado durante um voo turbulento ao México, onde o autocontrole do presidente a impressionou profundamente. Se não fosse Lula, ela teria entrado em desespero.

Não descartemos também a saída dos senadores Otto Alencar e Omar Azis do PSD. Políticos tradicionais de centro, mas apoiadores do governo Lula, já sinalizaram que não subirão no palanque de Caiado. Caberia a Alckimin iniciar conversações para levá-los ao PSB, quem sabe.

Enquanto Lula amplia sua frente, a oposição parece jogar contra o próprio patrimônio. As declarações recentes do senador Flávio Bolsonaro nos EUA, afirmando, caso eleito, ajuda ao país contra a China, acenderam o sinal vermelho no agronegócio. Colocar em risco o maior parceiro comercial do Brasil é um erro estratégico que Tebet, Kátia e talvez Soraya precisarão explicar aos produtores rurais.

O Barulho que Vem do Silêncio

Com esses novos aliados, Lula não apenas fortalece palanques; ele reposiciona as peças e isola os extremos. A eleição que se aproxima será difícil, disputada centímetro a centímetro. Nesse cenário, os nomes que vieram e vierem do centro e da direita não serão apenas coadjuvantes, eles serão os decisores.

O movimento começou silenciosamente nos bastidores. Agora, ele começa a fazer um barulho ensurdecedor para a oposição.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Caiado, a carta na manga de Kassab

Por Fernando Castilho



Quando Kassab anunciou Ronaldo Caiado como candidato à Presidência pelo PSD, a reação foi quase unânime: gargalhadas. Afinal, Caiado mal aparece nas pesquisas, e eu mesmo entrei na onda da chacota. Mas, pensando melhor, talvez não seja só isso. Talvez seja muito mais.

 Antes de tudo, convém lembrar quem é Kassab. O dono do PSD, maestro do centrão, conseguiu nas últimas eleições eleger o maior número de prefeitos do país. Não é pouca coisa. Isso significa que, mesmo sem ser candidato, estará presente em palanques Brasil afora, muitos deles ao lado de Lula. Kassab não dá ponto sem nó. Nunca deu.

 O plano original, claro, não era Caiado. O sonho era Tarcísio de Freitas, o privatista de estimação, a quem, durante três anos, serviu como secretário em seu governo. Mas Tarcísio pulou fora, e Kassab ficou com três opções: Ratinho Jr., Eduardo Leite e Ronaldo Caiado. Ratinho desistiu, Leite não tinha musculatura eleitoral, e sobrou Caiado, o extremista de direita mais longevo em atividade.

 Enquanto isso, o centrão, maior força do Congresso, não se engaja na candidatura do Rachadinha. Motivos não faltam: seu eventual governo é visto como um risco real para a economia e para a estabilidade institucional. Lula, com toda a sua previsibilidade, dá ao empresariado e ao centrão o que eles mais querem: tranquilidade para continuar enchendo os bolsos. Já o Rachadinha, com seus discursos inflamados, provoca calafrios, com ameaças de golpe que podem fazer o país regredir décadas.

 Aliás, depois de sua performance na convenção conservadora nos Estados Unidos, o agronegócio deve ter ficado em estado de choque. Ouvir que ele pretende dificultar relações com a China, principal compradora da nossa soja, apenas para agradar Donald Trump foi demais. O agro pode até não gostar de Lula, apesar do volume de dinheiro público que ele despeja no setor, mas dificilmente embarcará na aventura do Rachadinha. Caiado, por outro lado, soa bem mais palatável. Além disso, sai do governo de Goiás com invejável aprovação, enquanto a única produção do 01 em seu mandato como senador foi o criminoso projeto de privatização das praias.

 A jogada de Kassab, portanto, é simples: usar o capital político dos prefeitos do PSD para testar até onde o 01 consegue ir, minando sua candidatura enquanto fortalece Caiado. A campanha de verdade começa em abril, e o telhado de vidro do Rachadinha vai brilhar como nunca. Ele mesmo parece empenhado em acelerar o processo, tornando-o ainda mais frágil. Depois do discurso nos EUA, mais pedras já estão prontas para serem lançadas. Quando começar a rachar, Caiado pode subir nas pesquisas. E, dependendo do rumo da campanha, o Rachadinha pode até desistir, afinal, ficar quatro anos sem cargo público (ganhar dinheiro sem trabalhar) seria um pesadelo. Melhor continuar como senador.