Por Fernando Castilho
Eu
sei, eu sei. Você não queria, nem eu. Mas aconteceu.
No
fundo, todo mundo já sabia: mais cedo ou mais tarde, com a pressão diária dos
filhos, o chefe da organização criminosa que tentou dar um golpe no país — o
maior de todos os crimes — acabaria em prisão domiciliar. E não se iludam:
embora Alexandre de Moraes tenha concedido o benefício por apenas 90 dias, é
quase certo que o capitão voltará a “adoecer gravemente” convenientemente às
vésperas do prazo, até conseguir transformar o provisório em definitivo.
Afinal, a saúde dele tem uma pontualidade suíça.
Mas
não pensem que será um paraíso. Apesar da casa alugada pelo PL com dinheiro do
contribuinte (não sabemos se será a mesma mansão da outra vez) ser bem mais
confortável que a Papudinha, as regalias serão limitadas: nada de celular
próprio ou emprestado, as visitas serão restritas a familiares e advogados, o
que, convenhamos, dificulta bastante a logística de novas tramas golpistas. E
usará tornozeleira. Por isso, nada de ferro de soldar por perto.
Além
disso, haverá policiamento 24 horas para evitar uma possível fuga de pijama. O
problema é que será a Polícia Militar do Distrito Federal a encarregada. A
mesma que facilitou a invasão dos golpistas no 8 de janeiro.
O
que pesou na decisão de Moraes? Provavelmente mais política do que medicina.
Saúde não é equação matemática: o sujeito parece ótimo e morre de repente;
parece à beira da morte e sobrevive por décadas. Se o “capitão morte” viesse a
falecer na Papudinha, sob custódia do Estado, a repercussão seria nacional. Os
filhos fariam campanha diária acusando Moraes de assassino, Michelle choraria
diante de cada câmera, e a imprensa transformaria o episódio em comoção social,
tal qual na novela da facada.
Só
que, desta vez, o verdadeiro beneficiado não seria o pai, mas o filho 01, em
plena campanha presidencial. E, a julgar pelas dancinhas felizes que anda
postando, não se descarta um certo entusiasmo com a ideia de herdar o drama.
Quando
os 90 dias se esgotarem, as campanhas estarão fervendo nas ruas, na TV e nas
redes sociais. Saberemos, então, se o “Rachadinha” será mesmo o candidato da
extrema-direita. Uma coisa é certa: os filhos logo começarão a reclamar não da
saúde debilitada do pai, nem das supostas torturas de Moraes na Papudinha, mas
da falta de liberdade. “Não pode nem ver um vídeo de dancinha no TikTok! Isso
não é tortura?” — preparem-se para o novo bordão.