Por Fernando Castilho
Um
dos movimentos mais sísmicos da política brasileira atual não vem de discursos
inflamados, mas do som das canetas nas assinaturas em fichas de filiação. Nomes
de peso, historicamente ancorados no centro e na direita, estão migrando para o
campo progressista. Para uns, o movimento gera entusiasmo; para outros,
desconfiança. Mas o fato é incontestável: o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva voltou a ser o grande polo de gravidade da política nacional.
Na
política, veteranos não mudam de lado por impulso. Eles farejam o vento e sentem
o clima das ruas. O que estamos vendo é a percepção clara de que o eixo do
poder está se deslocando.
Simone
Tebet: Do Agro ao calor das ruas
Talvez
não haja símbolo maior dessa transição do que Simone Tebet. Vinda do MDB e com
raízes profundas no agronegócio, sua filiação ao PSB consolida uma metamorfose
que começou no tenso segundo turno de 2022. O que era um apoio de risco
tornou-se uma parceria de gestão no Ministério do Planejamento, onde Tebet trabalhou
em sintonia fina com Fernando Haddad.
Mas
há um fator invisível que pesa tanto quanto o tecnicismo de sua pasta: o fator
humano. Assim como Geraldo Alckmin, o histórico adversário de Lula que hoje é seu
vice e ministro, Tebet descobriu algo raro para quem sempre frequentou
ambientes elitizados: o abraço do povo. Ver Alckmin e Tebet sendo aplaudidos
por camadas populares é presenciar uma transformação de trajetórias que a
frieza dos números não explica.
Rupturas
e Pontes: Eliziane Gama e Kátia Abreu
A
mudança da senadora Eliziane Gama foi um divórcio litigioso com a direita,
gestado no calor da CPMI da Covid, da qual ela foi relatora. O resultado foi o
indiciamento de Jair Bolsonaro. O empurrão final para que ela decidisse mudar
de partido veio de Gilberto Kassab (PSD), ao sinalizar apoio à direita dura de
Ronaldo Caiado. Sem espaço naquele palanque, Eliziane saltou para o PT.
No
outro lado da ponte, surge Kátia Abreu. A ex-ministra, que nunca soltou a mão
de Dilma Rousseff, agora oficializa sua entrada no PT. Mais do que um nome, ela
representa um símbolo: o agronegócio começando a atravessar o rio. Com três
recordes consecutivos no Plano Safra e crédito farto, o setor começa a notar
que a retórica ideológica não paga as contas. No fim do dia, o resultado
concreto (e o lucro) fala mais alto que o discurso de rede social. Esclarecer
isso aos empresários deverá ser sua missão.
Minas
Gerais e o Tabuleiro de Rodrigo Pacheco
O
mapa ganha contornos decisivos com Rodrigo Pacheco. Agora no PSB e
pré-candidato ao governo de Minas Gerais, Pacheco oferece a Lula o que todo
presidente deseja: um palanque sólido no "estado-pêndulo". O ditado é
velho, mas segue invicto: quem vence em Minas, vence o Brasil. Fortalecer essa
aliança não é apenas política; é pura estratégia de sobrevivência e vitória.
Charutos,
Fidel e a Estratégia de Longo Prazo
Engana-se
quem pensa que esse movimento é improvisado. Lula tenta levar o PT para o
centro-esquerda desde os anos 90. No livro Lula II, Fernando Morais
revela conversas antigas com Tasso Jereissati (PSDB) que foram interrompidas
pela ascensão de FHC.
Um
detalhe curioso e quase desconhecido ilustra essa diplomacia de bastidor: este
articulista presenciou o momento em que Lula revelou que os charutos cubanos
que então fumava não vinham diretamente de Fidel Castro, mas sim de Jereissati.
Fidel os enviava para Tasso que, por não fumar, repassava o presente ao
petista.
O
que vemos hoje com Alckmin e Tebet é a conclusão de um plano imaginado há
décadas por um Lula notório conciliador.
O
Próximo Nome e o Fator China
O
processo de atração está apenas no começo. No radar, surge Soraya Thronicke
(Podemos). Deslocada em um partido ligado ao bolsonarismo, Soraya não esconde a
admiração pela serenidade de Lula, sentimento selado durante um voo turbulento
ao México, onde o autocontrole do presidente a impressionou profundamente. Se
não fosse Lula, ela teria entrado em desespero.
Não
descartemos também a saída dos senadores Otto Alencar e Omar Azis do PSD.
Políticos tradicionais de centro, mas apoiadores do governo Lula, já
sinalizaram que não subirão no palanque de Caiado. Caberia a Alckimin iniciar
conversações para levá-los ao PSB, quem sabe.
Enquanto
Lula amplia sua frente, a oposição parece jogar contra o próprio patrimônio. As
declarações recentes do senador Flávio Bolsonaro nos EUA, afirmando, caso
eleito, ajuda ao país contra a China, acenderam o sinal vermelho no
agronegócio. Colocar em risco o maior parceiro comercial do Brasil é um erro
estratégico que Tebet, Kátia e talvez Soraya precisarão explicar aos produtores
rurais.
O
Barulho que Vem do Silêncio
Com
esses novos aliados, Lula não apenas fortalece palanques; ele reposiciona as
peças e isola os extremos. A eleição que se aproxima será difícil, disputada
centímetro a centímetro. Nesse cenário, os nomes que vieram e vierem do centro
e da direita não serão apenas coadjuvantes, eles serão os decisores.
O
movimento começou silenciosamente nos bastidores. Agora, ele começa a fazer um
barulho ensurdecedor para a oposição.