Por Fernando Castilho
Quando
Kassab anunciou Ronaldo Caiado como candidato à Presidência pelo PSD, a reação
foi quase unânime: gargalhadas. Afinal, Caiado mal aparece nas pesquisas, e eu
mesmo entrei na onda da chacota. Mas, pensando melhor, talvez não seja só isso.
Talvez seja muito mais.
Antes
de tudo, convém lembrar quem é Kassab. O dono do PSD, maestro do centrão,
conseguiu nas últimas eleições eleger o maior número de prefeitos do país. Não
é pouca coisa. Isso significa que, mesmo sem ser candidato, estará presente em
palanques Brasil afora, muitos deles ao lado de Lula. Kassab não dá ponto sem
nó. Nunca deu.
O
plano original, claro, não era Caiado. O sonho era Tarcísio de Freitas, o
privatista de estimação, a quem, durante três anos, serviu como secretário em
seu governo. Mas Tarcísio pulou fora, e Kassab ficou com três opções: Ratinho
Jr., Eduardo Leite e Ronaldo Caiado. Ratinho desistiu, Leite não tinha
musculatura eleitoral, e sobrou Caiado, o extremista de direita mais longevo em
atividade.
Enquanto
isso, o centrão, maior força do Congresso, não se engaja na candidatura do
Rachadinha. Motivos não faltam: seu eventual governo é visto como um risco real
para a economia e para a estabilidade institucional. Lula, com toda a sua
previsibilidade, dá ao empresariado e ao centrão o que eles mais querem:
tranquilidade para continuar enchendo os bolsos. Já o Rachadinha, com seus
discursos inflamados, provoca calafrios, com ameaças de golpe que podem fazer o
país regredir décadas.
Aliás,
depois de sua performance na convenção conservadora nos Estados Unidos, o
agronegócio deve ter ficado em estado de choque. Ouvir que ele pretende
dificultar relações com a China, principal compradora da nossa soja, apenas
para agradar Donald Trump foi demais. O agro pode até não gostar de Lula,
apesar do volume de dinheiro público que ele despeja no setor, mas dificilmente
embarcará na aventura do Rachadinha. Caiado, por outro lado, soa bem mais
palatável. Além disso, sai do governo de Goiás com invejável aprovação,
enquanto a única produção do 01 em seu mandato como senador foi o criminoso
projeto de privatização das praias.
A
jogada de Kassab, portanto, é simples: usar o capital político dos prefeitos do
PSD para testar até onde o 01 consegue ir, minando sua candidatura enquanto
fortalece Caiado. A campanha de verdade começa em abril, e o telhado de vidro
do Rachadinha vai brilhar como nunca. Ele mesmo parece empenhado em acelerar o
processo, tornando-o ainda mais frágil. Depois do discurso nos EUA, mais pedras
já estão prontas para serem lançadas. Quando começar a rachar, Caiado pode
subir nas pesquisas. E, dependendo do rumo da campanha, o Rachadinha pode até
desistir, afinal, ficar quatro anos sem cargo público (ganhar dinheiro sem
trabalhar) seria um pesadelo. Melhor continuar como senador.