Por Mauro Gouvêa
quinta-feira, 6 de novembro de 2025
A última foto
quarta-feira, 5 de novembro de 2025
Bandido bom é parlamentar eleito?
Por Fernando Castilho
Há décadas, um grupo de políticos se alimenta da velha e
falaciosa máxima: “bandido bom é bandido morto”. É a chamada bancada
da bala na Câmara dos Deputados, sempre presente, eleição após eleição,
vociferando que só a violência resolve o problema da segurança pública.
Nas duas últimas legislaturas, essa bancada ganhou reforço:
uma cepa de deputados bolsonaristas como Paulo Bilinsly e o sargento Fahour,
que se sentem em casa na Comissão de Segurança Pública. Até poucos meses atrás,
suas únicas pautas eram a PEC da Bandidagem, para livrá-los dos próprios crimes,
e o PL da Anistia, para salvar o chefe da quadrilha, Jair Bolsonaro, o mesmo
que inundou o crime organizado com fuzis e armas de todos os calibres.
Mas o povo foi às ruas e enterrou essas pautas. Sobrou o
quê? Apenas o apoio a Eduardo Bolsonaro, autoexilado nos Estados Unidos
tentando impor sanções ao Brasil. Com a reunião entre Donald Trump e Lula
caminhando bem, ficaram sem discurso. E, para piorar, assistem impotentes à
escalada de Lula nas pesquisas para 2026. Estavam à deriva.
Foi então que o governador do Rio de Janeiro, Cláudio
Castro, tirou essa turma da letargia. Recorreu à velha fórmula: mais uma
chacina. Antes de se eleger em 2022, já havia promovido um massacre em nome da
segurança. Agora, quer se tornar senador em 2026 e, quem sabe, intocável diante
das acusações de corrupção que o cercam. “Já sei!”, pensou. “Preciso de outra
operação sangrenta.”
E ela veio: a Operação Contenção, que deixou ao menos
121 mortos, sendo considerada a mais letal da história do Rio. Uma
pesquisa revelou que 63% da população apoiou a ação. Com esse respaldo,
a eleição de Castro ao Senado parece garantida, assim como foram as de figuras
como Pazuello, que sabotou a vacinação, e Ricardo Salles, que passou
a boiada no meio ambiente e tentou vender madeira ilegal para os EUA. Sim, boa
parte da população apoia bandidos, desde que bem vestidos e com mandato.
Na esteira de Castro, os bolsonaristas se animaram. Haviam
levado um baque com a Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que
desmantelou o tráfico sem disparar um único tiro. A operação mostrou que é mais
eficaz cortar as cabeças da hidra do que continuar a matar soldados
substituíveis.
Quando a imprensa noticiou o sucesso da operação, os
deputados se retraíram. Já estavam incomodados com a PEC da Segurança
Pública, que propõe constitucionalizar o SUSP, ampliar o papel da PF e das
guardas municipais, e fortalecer a atuação da União. O ministro da Justiça foi
à Comissão diversas vezes, mas os deputados preferiram atacar Lula e gravar
vídeos para suas redes, saindo do plenário sem ouvir uma palavra.
É claro que projetos como a PEC da Segurança e operações
como a Carbono Oculto não interessam a eles. Se o crime organizado for
desmantelado, vão viver de quê? Não sejamos ingênuos: boa parte, senão todos,
são financiados pelo mesmo crime que dizem combater. Sim, o crime organizado
está na Câmara.
Agora, em estado de estase, voltaram a ter uma pauta: acusar
o governo federal de “defender bandidos”. E há mais um ponto a considerar. A
operação de Castro ocorreu em áreas dominadas pelo Comando Vermelho.
Muitos “bagrinhos” foram mortos. Essa desorganização momentânea pode abrir
espaço para o PCC avançar e tomar território. É só uma hipótese, sem
dados, sem análise. Mas quem sabe?
O governo federal, dentro da política republicana de Lula,
se dispõe a ajudar o Rio. Cláudio Castro dará apoio total? Será?
"O Brasil não aguenta mais quatro anos com Lula!"
Por Fernando Castilho
Foi o que bradou o deputado Gustavo Gayer na tribuna da
Câmara, ignorando solenemente todos os índices positivos do governo, inclusive
o recorde histórico de 150 mil pontos alcançado ontem na Bolsa de Valores. No
momento, confesso, fiquei indignado com o tamanho da mentira do deputado
bolsonarista. Depois, respirei fundo e pus-me a pensar: qual é o Brasil de
Gayer? O do povo, ou das elites?
Ora, Gayer é um dos lacaios que, ao longo da história,
sempre estiveram a serviço das oligarquias e da elite que insiste em mandar no
país, e que, claro, não admite perder um centímetro de seus privilégios. Foi
essa mesma elite que, de mãos dadas com os militares, deu o golpe de 1964 e
instaurou uma ditadura que durou 21 anos. Saudade, né?
A frase do deputado, aliás, me remeteu imediatamente ao
código usado pelos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o famoso “apito de
cachorro”, ou, para os íntimos, a “festa da Selma”. Explico.
Depois que o governo Lula desarmou, ao menos em parte, a
bomba tarifária deixada pelo terrorista oficial de gravata vermelha, Donald
Trump, que impunha tarifas de 50% aos produtos brasileiros, e o Congresso
sepultou a PEC da Anistia e o PL da Dosimetria, que pretendiam livrar Jair
Bolsonaro da cadeia, a extrema direita viu Lula subir mais uma vez nas
pesquisas para 2026. E aí bateu o desespero.
Sem projeto, sem pauta, sem rumo, e ainda sendo fustigada
por Flávio Dino, que vem apertando o torniquete para punir quem cometeu fraudes
com emendas parlamentares, a extrema direita precisava de uma boia de salvação.
E ela veio, pasme, na forma de uma chacina comandada pelo governador do Rio de
Janeiro, Cláudio Castro. Contra todas as expectativas do mundo civilizado, sua
popularidade aumentou. Sim, matar dá voto. E isso pode garantir a ele uma vaga
no Senado.
A direita, ou melhor, o centrão, aquele agrupamento que
habita a Câmara apenas para fazer negócios lucrativos, ainda hesita em
abandonar o barco bolsonarista e embarcar com Lula. Afinal, quem estiver no
palanque ao lado do presidente terá o apoio do povo para se reeleger. Mas se
ainda não mudaram totalmente de lado, é porque têm dúvidas quanto à manutenção
do recebimento de emendas. Pragmáticos, sempre.
Já a extrema direita decidiu: se Lula não for contido, vence
no primeiro turno. E o bolsonarismo sabe disso. A pergunta é: como conter?
As pesquisas indicam que a percepção popular do sucesso do
governo está superando as avalanches de fake news que tentam pintar o país como
um caos. Enquanto bolsonaristas como Gayer fazem vídeos jurando que o arroz
está a mais de R$ 40, a realidade insiste em mostrar que o preço não passa de
R$ 18. Se a estratégia continuar sendo apenas espalhar mentiras, Lula vence.
Por isso, é preciso criar factoides. Destruir a reputação de
Lula e do governo virou prioridade. Um desses factoides foi justamente a
chacina no Rio. A acusação é direta e rasteira: “Lula e a esquerda defendem
bandido!”, ou seja, o velho calcanhar de Aquiles: segurança pública.
Mas de pouco adianta o governo estar lutando para aprovar a
PEC da Segurança Pública, que ataca os líderes do crime organizado, asfixiando
suas finanças e os prendendo, se isso não for amplamente divulgado. Afinal,
manchete boa é só a que sangra.
A senha foi dada por Cláudio Castro: “Querem se eleger
presidente? Façam como eu, matem.
Não me surpreenderia se Caiado, Zema, Ratinho Jr. e,
principalmente, Tarcísio (que já tem uma chacina no currículo) começassem a
competir em número de mortos em seus estados. Afinal, a extrema direita não vai
assistir passivamente Lula vencer no primeiro turno.
E se não for possível subir nas pesquisas, o plano é
simples: derrubar Lula. Ou acabar com ele.
Que Lula esteja com sua segurança bem reforçada.
sábado, 25 de outubro de 2025
O futuro do STF
Por Fernando Castilho
Dizem
que Lula embarcou para o Oriente sem decidir se Jorge Messias será o novo
iluminado do STF. Dizem também que o impasse tem nome e sobrenome: Davi
Alcolumbre, o presidente do Congresso que, aparentemente, sonha acordado com
Rodrigo Pacheco de toga. Será verdade? Vai saber. Brasília é o único lugar onde
boatos têm mais credibilidade que comunicados oficiais.
Jorge
Messias, é aquele tipo raro: técnico, discreto, sem ambições políticas. Um
espécime em extinção. Já Pacheco... ah, Pacheco é político até o último fio de
cabelo. E como todo político que se preze, sonha com voos altos. O governo de
Minas Gerais, atualmente um cenário pós-apocalíptico graças à gestão Zema,
seria o trampolim ideal para Pacheco se lançar à presidência em 2030. Se
conseguir consertar o caos mineiro, claro. Mas virar ministro do STF? Isso
seria como trancar um pássaro político numa gaiola dourada até os 75 anos. Um
pesadelo para quem vive de articulação e holofote. Por isso, talvez Alcolumbre
deseje Pacheco no STF mais do que o próprio Pacheco. Vai entender.
Enquanto
isso, Luís Fux, lavajatista raiz, migrou para a segunda turma do tribunal. Lá,
vai se juntar a Nunes Marques e André Mendonça, formando o que alguns chamariam
de “clube do bolsonarismo gourmet”. Mas nem tudo são flores: Fux terá que
dividir o cafezinho com Gilmar Mendes, seu desafeto de longa data. E como
bônus, ainda tem Dias Toffoli, o ministro que parece sempre estar procurando a
saída de emergência da Corte.
Toffoli,
no entanto, tem se reinventado como o “consertador de estragos da Lava Jato”,
uma espécie de zelador jurídico. E pode acabar levando Sérgio Moro ao tribunal
para responder por crimes que, segundo dizem, começaram antes mesmo da
operação. Ironia das ironias: o herói da Lava Jato sendo julgado. E não é certo
que Nunes Marques e Mendonça vão sair em defesa de Moro. Afinal, o bolsonarismo
o trata com o mesmo carinho que se dá a um ex-amigo que virou delator. E ainda
tem o detalhe de que Moro saiu do governo acusando Bolsonaro de manipular a
Polícia Federal para blindar os filhos. Um gesto que os filhos do capitão e
gente como Malafaia não perdoam.
Fux,
por sua vez, talvez não consiga nem defender Bolsonaro. A maioria dos processos
do capitão está na primeira turma, sob a batuta de Alexandre de Moraes, que,
digamos, não é exatamente fã do ex-presidente. Há quem diga que a segunda turma
pode reverter a inelegibilidade de Bolsonaro. Eu, sinceramente, não apostaria
nem um centavo. O capitão foi condenado e pode acabar atrás das grades ainda
este ano. Depois disso, entra na Lei da Ficha Limpa e só volta a sonhar com
eleições após cumprir seus 27 anos e 3 meses de pena. Com bom comportamento,
pode até ir para o semiaberto em quatro anos e meio. Mas, mesmo assim,
inelegível. A menos que mudem a Lei da Ficha Limpa para beneficiá-lo.
Fux
não escapará dos encontros com seus desafetos da primeira turma. O plenário
será seu purgatório. Lá, será lembrado, com toda pompa e circunstância, de como
jogou sua carreira no lixo após seu voto talhado para defender Bolsonaro. Aos
71 anos, talvez decida mandar tudo às favas e se aposentar antes dos 75. Com
muita grana no bolso, quem não faria isso?
A
ver. Ou melhor: a assistir, porque esse roteiro está digno de série.
terça-feira, 21 de outubro de 2025
Estarei desenvolvendo o dom da invisibilidade?
Por Fernando Castilho
Platão, em A República, nos apresenta o famoso Anel de Giges, uma espécie de "modo stealth" da Antiguidade. Giges, um pastor da Lídia, encontra um cadáver dentro de um cavalo de bronze depois que um terremoto abre uma fenda na terra. Sim, parece roteiro de série épica, mas é filosofia mesmo.
O defunto usava um anel de ouro que, ao ser girado para a palma da mão, concedia o poder da invisibilidade. Giges, então, faz o que qualquer personagem de tragédia grega faria com esse poder: seduz a rainha, assassina o rei e vira o novo monarca da Lídia. Tudo isso sem levar uma multa sequer.
Platão, por meio de Sócrates, lança a pergunta que vale mais que o trono: se alguém pudesse agir injustamente sem ser punido, ainda escolheria ser justo? Glauco, o irmão cético, responde que a maioria só é justa por medo das consequências, e que, se pudesse agir impunemente, escolheria a injustiça. Basicamente, ele diz que a ética é uma questão de vigilância. Ou seja, sem câmeras, sem caráter.
E aí vem a pergunta que nos cutuca até hoje: quando ninguém está olhando, ainda assim agimos corretamente?
Às vezes, confesso, me sinto como se estivesse usando o Anel de Giges. Caminho pelas calçadas e as pessoas que vêm no sentido contrário simplesmente não desviam. Se eu não sair do caminho é trombada na certa. E sou sempre eu quem desvia. É como se eu fosse invisível. E não é raro.
Semana passada, por exemplo, sentei num banco de ônibus praticamente vazio. Uma senhora entrou, olhou ao redor, e, ignorando todos os assentos livres, sentou-se ao meu lado. Com meus 1,80 m, achei que era impossível não me notar. Mas, ao sentar, ela fez uma expressão de surpresa, como quem percebeu que havia se sentado num banco já ocupado por um... fantasma? Em seguida, levantou-se e foi se sentar em outro lugar. Fiquei ali, me perguntando se deveria começar a atravessar paredes.
Outro dia, numa fila, já estava sendo atendido quando uma mulher passou direto por mim. Fiquei tão surpreso que quase pedi replay. A atendente, gentil, disse que eu era o próximo. A mulher, constrangida, respondeu: “Desculpe, não tinha visto o senhor.” Olhei para meus braços, pernas, conferi o reflexo no vidro. Estava visível, sim. Ufa. Procurei o anel nos dedos. Nada. Ainda bem. Um poder desses nas mãos erradas (ou nas minhas, num dia ruim) é um perigo.
Portanto, sempre sigo atento. Se alguém me atravessa na calçada, ignora minha presença no ônibus ou me ultrapassa na fila, já sei: ou estou invisível... ou sou só mais um cidadão comum em modo “transparente social”. Mas sigo firme. Afinal, enquanto não encontrar um cavalo de bronze com um cadáver dentro, acho que estou seguro. E se um dia eu achar o tal anel, prometo usar com moderação: no máximo para escapar de conversas chatas de gente reacionária.
No Kings
Por Fernando Castilho
segunda-feira, 20 de outubro de 2025
Centrão: o grande camaleão da politica brasileira
Por Fernando Castilho
Nos últimos tempos, o Centrão, essa entidade política que
sempre sabe onde fica a cozinha, esteve confortavelmente abraçado à extrema
direita bolsonarista. A parceria, claro, não foi por afinidade ideológica, mas
por conveniência. Prova disso foram os mimos trocados, como a PEC da Blindagem,
uma tentativa quase poética de escapar das investigações sobre o destino das
emendas parlamentares. Afinal, ninguém quer acabar atrás das grades por falta
de zelo orçamentário.
Outro ponto de união foi a resistência à taxação dos
super-ricos. Nada mais natural: muitos dos parlamentares do Centrão fazem parte
desse seleto grupo e, como bons representantes (deles mesmos), defenderam com
unhas e dentes seus próprios bolsos.
Mas eis que o roteiro saiu do controle. O povo, elemento
imprevisível da democracia, resolveu sair às ruas contra os abusos. A
mobilização popular pegou os parlamentares de surpresa. Com as eleições se
aproximando, a má fama do Centrão começou a ameaçar a reeleição de seus
membros, que até então acreditavam que bastava distribuir emendas e selfies
para garantir votos.
A onda de protestos também deu um empurrãozinho nas
pesquisas para o presidente. Lula foi beneficiado por episódios dignos de
série. Eduardo Bolsonaro, ao agir contra os interesses nacionais, acabou
presenteando Lula com o papel de defensor da soberania. É preciso lembrar que,
uma vez iniciadas as campanhas eleitorais na TV, os vídeos em que Eduardo pede que
os Estados Unidos imponham sanções ao Brasil, joguem uma bomba atômica ou enviem
um porta-aviões para cá, serão enormemente explorados. Quem do Centrão, em
juízo perfeito, vai querer ter seu nome ligado a alguém tão tóxico ao país?
Além do tiro no pé que Eduardo deu, Donald Trump, num giro
inesperado, buscou diálogo com Lula para tentar consertar os estragos do
tarifaço. Sim, até Trump percebeu que talvez seja melhor conversar com quem
manda de verdade e não com dois patetas.
Outro dado importante é o destino de Jair Bolsonaro. Preso,
ele iniciará uma nova trajetória rumo ao... ostracismo. Rei morto, rei posto.
Adeus.
Enquanto o cenário se inverte, dois ministros de Lula, mesmo
sob ameaças de expulsão partidária, ignoraram os caciques e permaneceram no
governo. Um gesto raro de convicção política, ou talvez apenas de cálculo mais
refinado.
Diante desse novo cenário, o Centrão, sempre com o dedo no
vento, começa a recalibrar sua bússola. Alguns membros já se aproximam do
governo, conscientes de que dividir o palanque com Lula, favorito em todos os
cenários eleitorais, e não com um possível Tarcísio ou Ratinho Jr., pode render
bons frutos. Afinal, quem quer ficar do lado que só oferece desgaste e memes
ruins?
A debandada tem uma consequência direta: o isolamento dos
bolsonaristas, agora desmascarados por seu apoio explícito aos bilionários, às
casas de apostas e aos bancos. Nada como defender esse povo... rico. E há
vídeos mais que suficientes de Sóstenes e outros, que serão explorados durante
a campanha.
A aproximação do Centrão com Lula pode redesenhar
completamente o jogo político. Governadores e prefeitos ligados ao grupo já
ensaiam passos rumo ao governo federal, em busca de apoio, recursos e, claro,
emendas. A dança das cadeiras começou, e os palanques bolsonaristas em
estados-chave correm o risco de ficarem vazios ou, pior, com plateia hostil.
No Nordeste, onde Lula nada de braçada, a migração
partidária deve ser ainda mais intensa. Não será surpresa se deputados e
senadores trocarem de sigla como quem troca de gravata, buscando abrigo em
partidos mais alinhados ao governo, como PSB, MDB ou até o próprio PT. Afinal,
a coerência para eles é ditada pelo momento.
Essa disputa por espaço no campo governista pode gerar
tensões internas. Partidos que sempre estiveram com Lula vão exigir
contrapartidas: mais ministérios, mais apoio, mais tudo. E o bolsonarismo? Deve
se restringir aos núcleos ideológicos mais radicais, com menos capilaridade
eleitoral e orçamento digno de vaquinha online.
Com o Centrão recalculando sua rota, a dinâmica legislativa
também muda. Lula pode conquistar uma base mais ampla e estável, suficiente
para aprovar projetos estratégicos, especialmente nas áreas de economia,
justiça tributária e reformas sociais e ambientais. O isolamento dos
bolsonaristas, por sua vez, tende a reduzir a obstrução nas votações. O
plenário, palco de gritaria e memes, pode finalmente virar espaço de debate (ou
pelo menos de silêncio constrangedor). A negociação com o Centrão, embora pragmática
e baseada em cargos e verbas, pode garantir avanços em pautas populares.
Afinal, até o fisiologismo tem seu lado útil.
O Centrão, como sempre, não decepciona. Atento à direção dos
ventos, recalculou sua rota com a precisão de um GPS político. A combinação
entre pressão popular, desgaste bolsonarista e ascensão de Lula criou um novo
campo gravitacional no Congresso. E como bons satélites da sobrevivência
eleitoral, os parlamentares estão sendo atraídos para o lado do governo.
Se isso vai redefinir os rumos do país? Provavelmente. Se
vai ser por convicção? Pouco provável. Mas no Brasil, até a conveniência pode
ser revolucionária, desde que venha com cargo, verba e uma boa foto no
palanque.
domingo, 19 de outubro de 2025
3I/ATLAS: Um estranho no sistema solar
Por Fernando Castilho
O cometa 3I/ATLAS, terceiro objeto interestelar já
registrado em nosso sistema solar, tem despertado grande curiosidade entre os
astrônomos. Recentemente, ele passou a cerca de 30 milhões de quilômetros de
Marte e foi observado por sondas como a Mars Express, ExoMars TGO
e até pelo rover Perseverance. Mas o que mais chama atenção não é sua
rota, mas seu comportamento.
Procurando o procurador Gonet. Cadê você?
Por Fernando Castilho
O
Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, foi impecável ao oferecer denúncia
contra Jair Bolsonaro no caso da tentativa de golpe de Estado. Palmas.
Aplausos. Medalha de mérito jurídico. Mas agora, parece que resolveu dar uma
pausa estratégica, e está deixando Alexandre de Moraes com um abacaxi
institucional para descascar.
Bolsonaro
está em prisão domiciliar desde 18 de julho, no inquérito que investiga seu
filho Eduardo e o sempre performático e traidor da pátria Paulo Figueiredo, por
obstrução da ação penal relacionada ao golpe. Entre os motivos da prisão
preventiva está o risco de fuga e, convenhamos, não seria exatamente
surpreendente se o ex-presidente fugisse.
Só
que os advogados de Bolsonaro, percebendo que Gonet sumiu da cena, pediram a
revogação das medidas cautelares. Moraes, claro, negou. Mas, ironicamente, os
advogados têm um ponto: sem denúncia formal, a prisão preventiva começa a
parecer uma peça de teatro jurídico sem roteiro. E isso coloca Moraes numa
sinuca de bico: se revogar, Bolsonaro pode fugir e o caos estará armado. Se
mantiver, será acusado de manter uma prisão ilegal. E lá vem o discurso de
perseguição política.
A
situação de Bolsonaro hoje é bem diferente daquela de três meses atrás, quando
muita gente estourou champanhe acreditando que ele iria direto para a Papuda.
Hoje, essa certeza evaporou. Além dos problemas de saúde alegados (com boletins
médicos dignos de novela), há uma tendência crescente e preocupante de
normalizar a ideia de que ele cumpra pena em prisão domiciliar. Afinal, já está
lá.
Essa
normalização vem sendo empurrada por setores da grande imprensa e por políticos
de vários naipes. É claro que Bolsonaro não vai cumprir pena pelo genocídio
durante a pandemia, nem pelo desfile de joias desviadas. Mas, para quem
acompanhou a trajetória do traste por quatro longos anos, a condenação de 27
anos soa como uma espécie de acerto simbólico, uma tentativa de justiça
acumulada.
Agora,
se essa pena virar prisão domiciliar num condomínio de luxo em Brasília, com
aluguel bancado pelo Fundo Partidário do PL, ou seja, com o nosso dinheiro,
então não é punição, é prêmio. E ainda há o projeto que reduz a dosimetria da
pena, podendo colocar Bolsonaro de volta à sociedade em cerca de três anos.
Três curtos anos. Depois voltará a sua habitual sandice provocando nossa
sanidade mental.
Não.
Paulo Gonet precisa oferecer a denúncia ao STF, para que Bolsonaro se torne réu
também por obstrução de justiça. Isso aliviaria a pressão que os advogados
estão jogando sobre Moraes e, quem sabe, evitaria mais uma reviravolta digna de
série política.
Vamos
lá, Gonet. É pra ontem. Antes que a Papuda vire só mais uma miragem
institucional.
quarta-feira, 15 de outubro de 2025
Apresento o Zé Ninguém para a vaga de Barroso no STF
Por Fernando Castilho
Com a saída de Luís Roberto Barroso do STF, Lula tem agora a
chance de corrigir alguns erros do passado.
Comecemos por Barroso. Em 2021, ele declarou à Folha
que Dilma Rousseff não caiu por crime de responsabilidade, mas por não saber
fazer política. Traduzindo: foi deposta por falta de traquejo parlamentar, não
por pedaladas. E Barroso, indicado por ela, diante dessa “injustiça”, fez o
quê? Nada. Omitiu-se. Um silêncio que grita. Dilma errou ao escolhê-lo, e Lula,
agora, pode consertar isso.
Aliás, Dilma também nos presenteou com Luiz Fux, grande
professor e autor de importantes livros sobre direito processual que,
vergonhosamente os rasgou para defender um golpista. Mais, sobre ele, prefiro
não falar para poupar meus dedos e sua paciência.
Lula, por sua vez, teve seu momento de arrependimento com
Dias Toffoli. Quando estava preso, foi impedido por Toffoli de comparecer ao
velório do irmão. Só autorizou a ida quando faltavam 20 minutos para o enterro,
e ainda sugeriu que o corpo fosse levado a um quartel para um velório
improvisado. Lula, com razão, recusou. E essa mágoa, dizem, ainda ecoa no
Planalto.
Agora, Lula tem uma nova lista de possíveis indicados: Jorge
Messias, Rodrigo Pacheco, Bruno Dantas, Carol Proner... Nomes fortes. Mas vamos
aos poréns.
Rodrigo Pacheco? Um político de direita que, de repente,
virou um doce de pessoa, justo quando a vaga apareceu. Coincidência, claro. Já
Bruno Dantas é cria de Gilmar Mendes. Precisa dizer mais?
— “Ah, Fernando, então você quer um ministro que diga amém a
tudo que Lula fizer, como Nunes Marques e André Mendonça fazem com Bolsonaro?”
Não. A questão não é alinhamento cego. A verdadeira
polarização não é entre esquerda e direita, mas entre quem defende a democracia
e quem flerta com o autoritarismo; entre quem luta pelos vulneráveis e quem
serve aos privilegiados; entre quem busca justiça e quem a transforma em
privilégio.
Outros nomes correm por fora: Kakay, Lenio Streck, Pedro
Serrano... Todos bons. Mas o que define um bom ministro do STF?
Além do tal “notório saber jurídico”, que, convenhamos,
virou bordão, é preciso que o ministro saiba para que lado pender a balança: o
lado dos que mais precisam de justiça. Hoje, ela pende para os patrões, os
latifundiários, o INSS contra os aposentados. Gilmar, Toffoli, Fux, Barroso,
Nunes Marques, Mendonça, Cármen Lúcia... todos muito comprometidos com a
minoria abastada.
Por isso, minha aposta é Jorge Messias. Tem preparo, tem
trajetória, tem compromisso. E Carol Proner, porque o STF precisa de mais
mulheres, e porque ela é muito competente.
Mas, correndo totalmente por fora, e com chances
rigorosamente nulas, apresento a candidatura do Zé Ninguém.
Sim, ele tem notório saber jurídico. Não no sentido
tradicional, claro. Seu saber é notório justamente por ser... escasso. Mas ele conhece
bem a lei da vida e da sobrevivência. E tem algo que falta a muitos togados:
senso de justiça. Aquele impulso quase infantil de querer proteger os mais
vulneráveis e punir quem os explora.
Portanto, se você acha que o mais importante para o STF é
alguém que conheça leis, talvez o Zé Ninguém não seja o nome ideal. Mas se
acredita que o essencial é ter compromisso com quem realmente precisa de
justiça, então, quem sabe, ele mereça ao menos um voto de confiança. Ou um
cafezinho no gabinete.
Mas, afinal, quem é o Zé Ninguém?
São milhões espalhados pelo Brasil. Gente que possui muito
mais senso de justiça que a maioria dos ministros. Gente que não faz negócios
com empresas por meio de escritórios de fachada. Gente que não organiza
regabofes em Portugal. Gente que não acha que indígenas e aposentados sejam
fardos para o país. Gente, enfim, que carrega nas costas, dia após dia, o peso
de uma desigualdade de mais de quinhentos anos.