Por Fernando Castilho
Primeiro, uma fábula
Havia
um homem que, dominado pela ambição de enriquecer sem esforço, descobriu a
existência de um demônio guardião de tesouros em uma caverna. Movido pela
ganância, decidiu negociar com ele. Na primeira visita, o terror da criatura e
o peso sombrio do lugar o fizeram fugir apavorado. “Esse demônio é perigoso”,
pensou.
Mas
a ganância é como uma coceira: quanto mais se tenta ignorá-la, mais ela
incomoda. Uma semana depois, lá estava o homem novamente, desta vez levando
queijo e vinho, esquecendo-se do terror e acreditando que poderia conquistar a
confiança do demônio. A cada presente entregue, a criatura recuava mais fundo
na escuridão, atraindo o homem para longe da luz. Convencido de estar prestes a
receber sua fortuna, ele insistiu em continuar negociando.
Foi
então que o demônio revelou seu verdadeiro desejo: não queria oferendas, mas
sim a alma do homem. E, como todo tolo que acredita em acordos fáceis com o
mal, ele foi arrastado para as trevas eternas, onde nenhum tesouro poderia
salvá-lo.
Agora,
a fábula aplicada à realidade
O
atual morador da Papuda, quando era presidente, já mostrava que não suportava a
imprensa. Tratava repórteres como se fossem mosquitos: incômodos, mas
insistentes. A ironia é que a mesma imprensa, durante a campanha de 2018,
abanava o rabo como um cãozinho fiel, preferindo-o a Haddad. O capitão chegou
até a ameaçar a Rede Globo de perder sua concessão pública, porque ditadores,
como sabemos, não gostam de holofotes que não controlam.
Quando
tentou o golpe, ficou claro que queria se firmar como ditador. E ditadores
fazem o quê? Quebram a espinha da imprensa, para que ela só publique o que lhes
convém.
Agora,
seu filho disputa eleições contra Lula. Apesar de se apresentar como moderado,
não faz muito tempo declarou que o sucessor do pai deveria conceder anistia ao
capitão e, se necessário, usar a força contra o STF. Traduzindo: golpe. Além
disso, prometeu dar continuidade ao “trabalho” do pai. Ora, se um dos trabalhos
do pai foi tentar um golpe, o filho não ficaria atrás. E, claro, a liberdade de
imprensa seria a primeira a ser jogada no abismo.
Durante
a internação do capitão na UTI, repórteres cumpriam seu papel: cobrir os fatos.
Mas bastou Michelle postar um vídeo acusando jornalistas de desejar a morte do
“mito” para que repórteres e suas famílias passassem a ser ameaçados de morte por
fanáticos. Eis o apreço do clã pela liberdade de expressão: zero, ou melhor,
negativo.
E,
como na fábula, a imprensa parece não aprender. Hoje investe pesado na
candidatura de Flávio Rachadinha, blindando-o mesmo diante de indícios
comprometedores de ligações com Daniel Vorcaro e o Banco Master, enquanto lança
suspeitas contra Lula e seu filho em casos onde só há políticos de direita
envolvidos. É como oferecer queijo e vinho ao demônio, acreditando que ele vai
se tornar vegetariano.
Pelo
menos, Merval Pereira, crítico histórico do PT, percebeu o risco e afirmou: “A
chance de Flávio Bolsonaro se eleger e dar um golpe existe. A de Lula, não.”
Portanto, parte da imprensa sabe o que pode vir caso se negocie algo com
Flávio.
Moral
da história
Negociar
com o demônio nunca termina bem. No começo ele aceita o queijo e o vinho, mas
no fim arrasta quem confiou nele para o inferno. A imprensa, ao que parece,
ainda acredita que pode domar o monstro com agrados para mais tarde conseguir,
junto com a Faria Lima, tudo que desejam: nova reforma trabalhista aumentando a
jornada diária e nova reforma da previdência acabando com os reajustes
atrelados ao salário-mínimo. A ela, é preciso lembrar que monstros não se
domesticam, pois eles devoram.
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