quarta-feira, 18 de março de 2026

A imprensa que flerta com o demônio

Por Fernando Castilho



Primeiro, uma fábula

Havia um homem que, dominado pela ambição de enriquecer sem esforço, descobriu a existência de um demônio guardião de tesouros em uma caverna. Movido pela ganância, decidiu negociar com ele. Na primeira visita, o terror da criatura e o peso sombrio do lugar o fizeram fugir apavorado. “Esse demônio é perigoso”, pensou.

Mas a ganância é como uma coceira: quanto mais se tenta ignorá-la, mais ela incomoda. Uma semana depois, lá estava o homem novamente, desta vez levando queijo e vinho, esquecendo-se do terror e acreditando que poderia conquistar a confiança do demônio. A cada presente entregue, a criatura recuava mais fundo na escuridão, atraindo o homem para longe da luz. Convencido de estar prestes a receber sua fortuna, ele insistiu em continuar negociando.

Foi então que o demônio revelou seu verdadeiro desejo: não queria oferendas, mas sim a alma do homem. E, como todo tolo que acredita em acordos fáceis com o mal, ele foi arrastado para as trevas eternas, onde nenhum tesouro poderia salvá-lo.

 

Agora, a fábula aplicada à realidade

O atual morador da Papuda, quando era presidente, já mostrava que não suportava a imprensa. Tratava repórteres como se fossem mosquitos: incômodos, mas insistentes. A ironia é que a mesma imprensa, durante a campanha de 2018, abanava o rabo como um cãozinho fiel, preferindo-o a Haddad. O capitão chegou até a ameaçar a Rede Globo de perder sua concessão pública, porque ditadores, como sabemos, não gostam de holofotes que não controlam.

Quando tentou o golpe, ficou claro que queria se firmar como ditador. E ditadores fazem o quê? Quebram a espinha da imprensa, para que ela só publique o que lhes convém.

Agora, seu filho disputa eleições contra Lula. Apesar de se apresentar como moderado, não faz muito tempo declarou que o sucessor do pai deveria conceder anistia ao capitão e, se necessário, usar a força contra o STF. Traduzindo: golpe. Além disso, prometeu dar continuidade ao “trabalho” do pai. Ora, se um dos trabalhos do pai foi tentar um golpe, o filho não ficaria atrás. E, claro, a liberdade de imprensa seria a primeira a ser jogada no abismo.

Durante a internação do capitão na UTI, repórteres cumpriam seu papel: cobrir os fatos. Mas bastou Michelle postar um vídeo acusando jornalistas de desejar a morte do “mito” para que repórteres e suas famílias passassem a ser ameaçados de morte por fanáticos. Eis o apreço do clã pela liberdade de expressão: zero, ou melhor, negativo.

E, como na fábula, a imprensa parece não aprender. Hoje investe pesado na candidatura de Flávio Rachadinha, blindando-o mesmo diante de indícios comprometedores de ligações com Daniel Vorcaro e o Banco Master, enquanto lança suspeitas contra Lula e seu filho em casos onde só há políticos de direita envolvidos. É como oferecer queijo e vinho ao demônio, acreditando que ele vai se tornar vegetariano.

Pelo menos, Merval Pereira, crítico histórico do PT, percebeu o risco e afirmou: “A chance de Flávio Bolsonaro se eleger e dar um golpe existe. A de Lula, não.” Portanto, parte da imprensa sabe o que pode vir caso se negocie algo com Flávio.

 

Moral da história

Negociar com o demônio nunca termina bem. No começo ele aceita o queijo e o vinho, mas no fim arrasta quem confiou nele para o inferno. A imprensa, ao que parece, ainda acredita que pode domar o monstro com agrados para mais tarde conseguir, junto com a Faria Lima, tudo que desejam: nova reforma trabalhista aumentando a jornada diária e nova reforma da previdência acabando com os reajustes atrelados ao salário-mínimo. A ela, é preciso lembrar que monstros não se domesticam, pois eles devoram.

Nenhum comentário:

Postar um comentário