quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O farol da democracia em chamas

Por Fernando Castilho



Por décadas, os Estados Unidos venderam ao mundo a imagem do “farol da liberdade e da democracia”. O mundo inteiro comprou: constituições foram moldadas à sua semelhança, adolescentes copiaram o rock, e Hollywood ensinou que, no fim, os heróis truculentos sempre vencem contra árabes, russos e, agora, o "perigo amarelo" chinês. Hoje, porém, os EUA preparam um novo produto de exportação. Não vem em disco de platina nem em tela de cinema. Preparem-se: em breve veremos polícias políticas violentas pipocando pelo globo, ostentando o selo de qualidade da maior democracia do mundo: MADE IN USA.

É fascinante, para não dizer patológico, observar um Estado que, para distrair o público de seu próprio declínio, decide caçar imigrantes como forma de sobrevivência política no mundo. Mas o espetáculo evoluiu. Por que parar nos imigrantes, se é possível estender os tentáculos da repressão aos próprios cidadãos? Em Minneapolis, o palco foi montado: prefeitos e governadores democratas assistem, atônitos, enquanto o governo federal transforma suas ruas em um laboratório de tiro e em um campo de testes para sistemas de vigilância preditiva e reconhecimento facial.

O recrutamento do ICE é um exemplo cruel de eficiência: basta encontrar jovens cujos cérebros foram moldados pela estética de guerra dos videogames e cujos bolsos foram esvaziados por dívidas reais. Para eles, o cartaz diz: “Seu país precisa de você!”. Traduzindo do politiquês: “Precisamos que você esqueça seus boletos e canalize seu ódio contra qualquer um que te olhe torto”. É a gamificação da brutalidade: o distintivo torna-se o upgrade definitivo em um jogo onde a vida do "inimigo interno" não tem reinício. A história já viu coreografia semelhante na Alemanha de Hitler, mas agora ela conta com algoritmos.

O resultado desse treinamento relâmpago é uma performance de gala da barbárie. Dois americanos já foram executados em Minneapolis. O último recebeu dez tiros no rosto, mesmo após estar dominado. Reconfortante, talvez, para o agente que se sentiu com “carta branca” para matar. Afinal, o que é um rosto desfigurado diante do dever patriótico de manter a ordem? E não vai parar por aí. A resistência precisa ser testada, como uma criança que desafia os limites dos pais para ver até onde começa o castigo.

Enquanto isso, as instituições que deveriam servir de freio, o Judiciário e o Partido Democrata, parecem sofrer de uma paralisia assistida. O famoso sistema de pesos e contrapesos, orgulho da exportação jurídica americana, transformou-se em um carimbo burocrático para o inevitável. O Partido Democrata faz vistas grossas, talvez investindo no caos para depois surgir como o "salvador" da democracia, ou talvez esteja apenas em choque por descobrir que país está se tornando um regime ditatorial.

Toda essa "Estratégia da Tensão" serve a um plano quase poético em seu autoritarismo. Trump não está apenas governando; ele está ensaiando. Quer medir até onde a corda estica antes de se romper em uma quase guerra civil. Ele espera o confronto, anseia por um agente morto para ter o pretexto perfeito de “endurecer” e decretar medidas de exceção. É uma tática tão velha quanto o fascismo clássico, mas que sempre encontra uma plateia fiel e sedenta por um "homem forte".

À medida que as eleições de meio de mandato, e a obsessão pela permanência em 2028 se aproximam, o exército doméstico vai sendo alimentado. E cresce. Trump poderá se sentir forte o suficiente para tentar repetir o que fez em 2021 e o que seu aprendiz, Bolsonaro, tentou em 2022: ignorar a Constituição e eternizar-se no poder. Em ambos os casos, não deu certo. Poderá dar desta vez?

Se o “farol do mundo” decidir apagar as luzes para instalar uma ditadura de grife, o resto do planeta que se prepare: a escuridão é contagiosa, altamente tecnológica e, infelizmente, costuma ser copiada.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Cuidado com esse moleque

Por Fernando Castilho



No dia seguinte à chegada de Nikolas a Brasília, coincidindo com aquele episódio do raio que atingiu 89 pessoas, felizmente sem mortes, surgiram, em sites e perfis da esquerda, comentários apressados de que a caminhada teria “flopado”, de que Nikolas saíra derrotado e de que Alexandre de Moraes jamais cederia à pressão, frustrando o objetivo da empreitada.

Essa leitura, a meu ver, é equivocada.

Nikolas conseguiu exatamente o que queria. Em nenhum momento seu objetivo real foi convencer Alexandre de Moraes a soltar Bolsonaro. Pelo contrário: Bolsonaro preso e inelegível é funcional aos seus planos. Nikolas precisa de um bolsonarismo sem Bolsonaro. Sobretudo, sem o peso político e simbólico da família Bolsonaro.

A caminhada serviu, antes de tudo, como uma grande operação de autopromoção. Ele precisava desviar o foco das notícias sobre seu nome constar na lista de endereços ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. E conseguiu.

Precisava também produzir uma sequência interminável de vídeos, atualizações e registros da caminhada, alimentando algoritmos, acumulando curtidas impulsionadas pela Meta e convertendo engajamento em novos seguidores. E conseguiu.

Outro objetivo central era manter distância calculada dos filhos de Bolsonaro (à exceção de Carlos, que saiu rapidinho após uma possível reprimenda de Flávio), de Michelle Bolsonaro e de Silas Malafaia. A ausência dessas figuras não foi um acaso, mas parte da estratégia: desvincular sua imagem do clã e se apresentar como algo “novo”, ainda que herdeiro direto do bolsonarismo. E, novamente, conseguiu.

O resultado é evidente. Nikolas se consolida como sucessor natural de Jair Bolsonaro, logo atrás apenas de Flávio “Rachadinha” na linha de herança política. Mais do que isso: ele já ultrapassou Tarcísio de Freitas, que até então era visto como o único nome capaz de suceder Bolsonaro sem carregar o sangue da família.

Hoje, com 29 anos, Nikolas não pode disputar a Presidência em 2026 nem em 2030. Mas 2034 está logo ali. Se continuar crescendo nesse ritmo e não for politicamente freado, o cenário é claro: Nikolas Ferreira será presidente do Brasil.

E quem acha que a caminhada fracassou ainda está discutindo o meio do caminho, enquanto ele já pensa na linha de chegada.

Cuidado com o moleque.

domingo, 25 de janeiro de 2026

O golpe que Nikolas deu em Bolsonaro

Por Fernando Castilho



Quando Nikolas Ferreira iniciou sua épica caminhada de Paracatu a Brasília, nada modestos 240 quilômetros, tinha em mente apenas um objetivo: promover-se ao máximo. A missão incluía, naturalmente, ofuscar Flávio Rachadinha, os outros filhos e até o próprio Bolsonaro, ainda que o discurso oficial jurasse tratar-se de uma manifestação em defesa da “justiça e da liberdade” do capitão.

Evidentemente, ninguém em sã consciência imaginou que Nikolas caminharia dia e noite por longos 240 quilômetros. A ideia sempre foi outra: andar cerca de um quilômetro, entrar em um carro confortável, com ar-condicionado (havia vários carros de apoio, diga-se), e dormir em hotéis previamente reservados ao longo do trajeto. Fé, patriotismo e colchão de molas ensacadas.

O que ele não esperava era a adesão relativamente grande. Centenas de pessoas apareceram, a maioria deputados bolsonaristas, assessores convocados que interromperam suas férias e aspirantes a parlamentares nas próximas eleições. Afinal, se a imprensa estava noticiando a caminhada, nada mais estratégico do que surgir sorridente ao lado de Nikolas, como figurante de um marketing eleitoral ambulante.

Agora, com tanta gente filmando tudo, parte considerável do percurso precisou ser feita a pé de verdade. Afinal, vídeos são traiçoeiros: hoje estão no celular de um aliado, amanhã viralizam desmontando toda a encenação.

Após vários dias, Nikolas e sua comitiva aproximaram-se de Brasília. Foi então que receberam a notícia de que Alexandre de Moraes havia proibido acampamentos nas proximidades da Penitenciária da Papuda e da Papudinha. Nikolas percebeu rapidamente que aquelas cerca de 500 pessoas poderiam causar tumulto. Tumulto gera visualizações. Visualizações geram capital político. Capital político ajuda em 2026. E isso era tudo que candidatos queriam. Mas o tumulto também poderia gerar algo menos instagramável: responsabilização criminal.

Como idealizador e líder do movimento, Nikolas poderia ser acusado de incentivar desordem ou até tentativa de golpe. Poderia entrar na mira de Alexandre de Moraes. Melhor recuar. Prudência é tudo quando uma prisão aparece no horizonte.

Reuniu, então, seus seguidores e fez um discurso desmobilizando o grupo logo após a chegada a Brasília. O movimento terminava ali, todos deveriam voltar para casa. Para completar a performance, elogiou a decisão de Moraes, afirmando que a Papuda é área de segurança nacional. Curioso: os quartéis também eram, em 2022 e no início de 2023, mas isso parece ter sido esquecido no caminho.

E pronto. Estratégia concluída com sucesso. Nikolas teve a exposição que desejava e saiu do episódio fortalecido, ainda que a esquerda tenha desmentido a farsa e o ridicularizado. Mas, como dizia Paulo Maluf, “falem mal de mim, mas falem”. Missão cumprida.

O detalhe inconveniente é que, ao desistir de um ato em Brasília “pela liberdade de Bolsonaro”, ou mesmo de um quebra-quebra que pudesse crescer e virar uma tentativa de golpe, e usar a caminhada exclusivamente para autopromoção, Nikolas acabou traindo Bolsonaro. E isso não passou despercebido pelos filhos, com exceção de Carlos, que apareceu por alguns instantes na caminhada e depois sumiu. Provavelmente foi alertado pelos irmãos para parar de dar holofote a Nikolas..

Flávio, Eduardo e Jair Renan ignoraram solenemente o evento porque perceberam desde o início as verdadeiras intenções de Nikolas: usar o slogan “Justiça e Liberdade” não para soltar Bolsonaro, pois ele sabia perfeitamente que uma caminhada jamais anularia decisão do STF, mas para se projetar politicamente.

Além disso, Nikolas deve ter enxergado um pouco mais adiante. Os contatos recentes de Michelle Bolsonaro com Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes indicavam uma possível articulação em direção à prisão domiciliar de Bolsonaro, algo que, de fato, já poderia até estar sendo cogitado. Mas Nikolas não deseja isso. Para ele, é estratégico que seu Jair esteja preso e inelegível, pois ele próprio deseja ser presidente quando atingir a idade mínima para isso. A caminhada, com potencial de tumulto no final, só daria a Moraes mais motivos para manter Bolsonaro na Papudinha.

No fim das contas, Nikolas caminhou bastante, mas sempre com os olhos fixos no espelho.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

O próximo slogan de Trump: Faça a America uma autocracia trumpiana

Por Fernando Castilho



Donald Trump encerrou o primeiro ano de seu segundo mandato com um saldo simplesmente tenebroso, para os Estados Unidos e para o resto do mundo.

Impôs tarifas de forma unilateral, ajudando a empurrar a inflação para níveis perigosos; perseguiu trabalhadores estrangeiros, deportando-os ou enviando-os para a prisão de Bukele, em El Salvador, o que resultou em escassez de mão de obra e no fechamento de restaurantes e serviços; sequestrou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e agora ameaça tomar a Groenlândia, num roteiro que lembra perigosamente certos delírios expansionistas da Alemanha nazista.

Há muito mais, mas podemos parar por aqui. O excesso já cumpre sua função.

Trump não blefou ao criar o slogan Make America Great Again. Está cumprindo a promessa; Só que à sua maneira. Em nome de um patriotismo ruidoso e performático, trabalha incansavelmente para tornar o próprio país mais frágil, dividido e irreconhecível. A bandeira é exaltada enquanto a ideia de nação é esvaziada.

O descontentamento interno cresce a olhos vistos, impulsionado pela truculência do ICE, a “polícia migratória” que começa a parecer uma releitura moderna da Gestapo. Paralelamente, avança um processo silencioso, porém decisivo, de corrosão institucional: ataques sistemáticos à imprensa, deslegitimação do Judiciário, enfraquecimento dos órgãos de controle e a transformação do Estado em extensão da vontade pessoal do presidente. O mais preocupante é que tudo isso vai sendo naturalizado, tratado como ruído político, como se não estivesse em curso um desmonte deliberado das bases democráticas.

Um agente do ICE matou uma mulher americana somente porque ela ficou assustada e se afastou com seu carro. A versão oficial naturaliza o crime ao afirmar que o agente apenas reagiu à investida do carro da mulher que quase o atropelou. Mas o vídeo é conclusivo e desmente essa versão

No plano externo, a União Europeia finalmente parece despertar, observando com apreensão os desejos nada modestos do presidente norte-americano.

Como se não bastasse, Trump “aceitou” um Prêmio Nobel da Paz das mãos de Maria Corina, como se isso tivesse qualquer validade. E ainda escreveu uma carta ao primeiro-ministro da Noruega reclamando por não ter recebido o prêmio oficial, ignorando o detalhe irrelevante de que o Nobel não é concedido pelo governo norueguês.

Pode parecer somente loucura, mas também é ego em estado inflamado agudo.

Com as eleições de meio de mandato se aproximando, tudo indica que, diante do descontentamento generalizado, inclusive entre republicanos, Trump perderá a maioria no Congresso. Isso deve dificultar sua governabilidade e reacender o fantasma do impeachment.

O problema é que, a julgar por seu comportamento, o mais coerente é que ele não aceite limites institucionais, mas que os ignore. Em outras palavras: que tente se manter no poder à força, como quase fez Jair Bolsonaro.

Se isso ocorrer, o autoritarismo estará oficialmente decretado nos Estados Unidos, dando a Trump carta branca para seus devaneios. Virá repressão, muita repressão. A pergunta já não é mais o que ele é capaz de fazer, mas até onde os outros permitirão que ele vá. A América já viveu uma guerra civil. A história não costuma dar muitos avisos.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Por que ainda precisamos falar de ditadura e Bolsonaro

Por Fernando Castilho



O filme O Agente Secreto e a vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro foram celebrados não apenas pela esquerda, mas por todos que ainda veem no cinema um instrumento de reflexão. Em contrapartida, a ala bolsonarista, fiel ao hábito de rejeitar o que não consome, condenou a obra apenas por ser ambientada na época da ditadura militar. Para esse grupo, qualquer resgate dos "anos de chumbo" é encarado como uma afronta pessoal, postura reforçada por opiniões como a de uma colunista da Folha de S. Paulo, que sugeriu que "já basta de filmes sobre o tema". É o equivalente a propor um apagamento deliberado da história para evitar o desconforto do real.

Essa resistência ao passado tem um reflexo geracional preocupante. Como a ditadura terminou em 1985, brasileiros com menos de 45 anos não possuem memória direta do período. Somado a isso, o ensino escolar muitas vezes resume esse capítulo em páginas superficiais, impedindo que os jovens compreendam a dimensão daquele pesadelo. Essa lacuna educacional e histórica ajuda a explicar por que tantos não entenderam a gravidade da tentativa de golpe em 8 de janeiro, nem o peso de suas consequências.

O desejo de silenciar o debate sobre os anos de chumbo nasce da conveniência: é mais fácil apagar a memória coletiva do que encarar fantasmas. Esse mesmo mecanismo de negação surge quando denunciamos nas redes sociais as ações de Jair Bolsonaro. Diante das críticas à sua tentativa de golpe ou ao comportamento de sua família nas redes sociais, surge o apelo: “Parem de falar sobre ele, deixem-no cair no esquecimento”.

No entanto, ignorar o presente seria repetir o erro de quem varreu a ditadura para debaixo do tapete. Bolsonaro precisa ser lembrado, não por culto, mas por vigilância. É preciso manter vivo o registro de sua responsabilidade na gestão da pandemia, quando foi responsável direto pela morte de mais de 400 mil pessoas, e o fato de que, sob sua liderança, o Brasil flertou com o retorno ao autoritarismo, às prisões políticas, à tortura e aos assassinatos.

Falar sobre esses temas não é obsessão; é um exercício de autodefesa democrática. Recordar o passado e expor o presente é a única forma de garantir que as novas gerações não caiam na armadilha de eleger, novamente, figuras que transformam a política em um projeto de opressão.

Portanto, falemos sim sobre ele. Para que nunca nos esqueçamos.

sábado, 10 de janeiro de 2026

A roleta russa de Washington: o mundo na era da brutalidade

Por Fernando Castilho



O mundo que conhecíamos, aquele erguido sobre os escombros fumegantes de 1945, cimentado por tratados multilaterais e pela previsibilidade diplomática, foi oficialmente enterrado em 2025. Ao iniciarmos 2026, a “aventura” de Donald Trump na Casa Branca deixou de ser um slogan de campanha e se transformou em um terremoto geopolítico. Não estamos diante de uma simples troca de governo, mas da substituição da ordem jurídica internacional pela “Lei do Mais Forte”, uma doutrina que brinca perigosamente com fósforos em um barril de pólvora global.

Assistimos, assim, ao fim da “Polícia do Mundo” e ao início do “Dono do Bairro”.
Washington não mais se apresenta como xerife, mas como síndico autoritário de um condomínio hemisférico. A captura de Nicolás Maduro no início do ano, somada à disposição de anexar a Groenlândia e invadir o México por terra, desenha um mapa mental digno de um CEO delirante que confunde geopolítica com fusões e aquisições. A nova Estratégia de Segurança Nacional é cristalina: os EUA não vão mais bancar a segurança da Europa ou a estabilidade da Ásia sem receber dividendos imediatos. E não vão tentar enganar mais ninguém com o velho discurso de levar democracia a quem não tem.

Para os aliados da OTAN, o recado foi um banho de água gelada: “Paguem ou protejam-se sozinhos”. Ao esvaziar sua presença militar no Leste Europeu e concentrar forças no Hemisfério Ocidental, Trump abre um vácuo que Putin e Xi Jinping podem interpretar como um convite para redesenhar fronteiras. Nesse cenário, o estopim de uma Terceira Guerra Mundial não viria de uma invasão americana, mas da ausência da dissuasão americana.

E como se fosse um trailer antecipado do caos, em 8–9 de janeiro de 2026, as Forças Armadas russas lançaram um ataque de grande escala contra a Ucrânia, com drones, mísseis convencionais e o hipersônico Oreshnik. Foi apenas a segunda vez que esse míssil foi usado, depois de um teste com ogivas inertes em 2024. A mensagem é clara: Moscou quer encerrar de vez a novela ucraniana e guardar munição para o próximo ato, possivelmente um conflito mundial.

O perigo iminente reside na natureza errática do atual governo americano. A diplomacia foi substituída por grosseria institucionalizada. Quando o presidente usa tarifas de 60% como se fossem cupons de desconto e autoriza operações militares unilaterais contra alvos iranianos ou sul-americanos, ele arranca as válvulas de escape do motor diplomático. Resultado: qualquer faísca, um drone abatido no Estreito de Ormuz, uma disputa sobre semicondutores ou o sequestro de um submarino russo, pode virar incêndio em questão de horas.

Vivemos numa era de “geopolítica do compliance”: países e empresas não seguem a lei, apenas tentam adivinhar quem terá força para ditá-la amanhã. É como jogar xadrez em um tabuleiro onde as peças mudam de regra a cada rodada.

Para o Brasil e o Sul Global, o dilema é pragmatismo ou isolamento. O retorno da Doutrina Monroe transforma Brasília em refém de um jogo duplo: de um lado, a chance de ocupar espaços deixados por uma China acuada; de outro, o risco de sanções caso não se alinhe ao script de Washington em temas como migração e segurança. E, claro, esse risco se estende às eleições de 2026, quando a imprensa hegemônica já afia suas penas para pressionar o governo Lula. Afinal, nada como um empurrãozinho midiático para acelerar o fim de um mandato incômodo.

A aventura trumpista é uma aposta de alto risco: o prêmio seria a hegemonia americana renovada, mas o preço pode ser o caos sistêmico. O risco de uma Terceira Guerra Mundial não é mais uma abstração ideológica; é a consequência lógica de um mundo sem árbitros, onde cada potência joga sua própria roleta russa.

Se 2026 já nos ensinou algo, é que a estabilidade global era um luxo que tratávamos como banal, mas que era necessário. Agora, resta saber se as outras potências terão a sobriedade que falta ao Salão Oval, ou se todos aceitarão o convite para essa roleta russa geopolítica. E não, não é trocadilho: é diagnóstico.

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A simbiose do caos: Trump, o Deep State e a nova ordem pós-democrática

Por Fernando Castilho



Há uma leitura persistente, quase folclórica, de que Donald Trump e o Deep State, a burocracia permanente de inteligência e defesa dos EUA, habitam universos paralelos, mas em rota de colisão. No entanto, uma observação mais aguda da realidade geopolítica sugere o contrário: eles não estão em guerra, mas em uma simbiose de conveniência. Trump é o martelo ruidoso; o Deep State é a mão que direciona o golpe. Um casamento improvável, mas funcional, que se aproveita mutuamente para transpor o que ambos consideram um obstáculo obsoleto: a liturgia da democracia liberal.

 

As diatribes de Trump contra as instituições não são apenas retórica eleitoral; são testes de estresse. Por enquanto, ele ainda precisa driblar as engrenagens democráticas que atrasam decisões de força. Mas esse “por enquanto” tem data de validade. O americano médio, fustigado por crises de custo de vida, salários congelados desde 2008 e uma sensação de declínio nacional, começa a ver a democracia não como um direito inalienável, mas como um entrave burocrático que impede a “resolução de problemas”. Afinal, quem precisa de direitos quando se pode ter soluções rápidas, não é mesmo?

Quando o cidadão comum manda a democracia às favas, o líder ganha o salvo-conduto para agir como soberano. É nesse vácuo de controle institucional que o Deep State opera com maior liberdade, utilizando a figura disruptiva de Trump para executar manobras que nenhum político tradicional ousaria, até porque nenhum político tradicional teria coragem de fazer tanto barulho sem se importar com o ridículo.

 

O recente sequestro de Nicolás Maduro e a postura “pela metade” de Washington na Venezuela ilustram perfeitamente esse jogo. Por que não uma invasão total? Por que manter a estrutura do regime sob pressão em vez de derrubá-lo de uma vez? Talvez porque o espetáculo rende mais quando se prolonga.

 

A resposta pode residir no equilíbrio de forças globais. Ao manter um discurso “meio aliche, meio muçarela” na ONU, Trump segura as reações de Pequim e Moscou. Ele oferece um pragmatismo cínico: permite que a China e a Rússia mantenham seus interesses econômicos e minerais (como o acesso a terras raras, ouro e petróleo pesado) em troca de não interferirem na “limpeza” ideológica da região. É o famoso “cada um cuida do seu quintal, mas não reclame da bagunça do vizinho”.

 

O alvo real não é apenas o chavismo, mas seus tentáculos externos. A estratégia pode estar diante de nossos olhos, mas custamos a compreendê-la:

  1. Isolamento de Células Ideológicas: Desmantelar radicalmente a influência de Cuba e do Irã no hemisfério, removendo o suporte logístico e de inteligência que sustenta regimes autocráticos.
  2. Aposta na Implosão: Em vez de gastar bilhões em uma ocupação militar, os EUA fomentam as condições para uma guerra civil. Ao estrangular a economia e remover a cabeça do regime (Maduro), cria-se um vácuo onde as elites militares e as facções internas lutarão entre si. Isso já se tornou visível na noite de 5 de janeiro, quando drones sobrevoaram Caracas e ninguém entendeu absolutamente nada. Estratégia nova? Nem de longe.
  3.  

O objetivo é uma vitória por W.O.: derrubar o sistema venezuelano sem que o governo americano precise dar mais um tiro sequer após as operações iniciais. Se a Venezuela se tornar um campo de batalha interno, o Deep State americano poderá “gerenciar” o resultado através de procuradores, garantindo que o novo governo seja alinhado aos interesses de Washington, mas mantendo as mãos americanas formalmente limpas. Afinal, nada como parecer neutro enquanto se dita as regras do jogo. É por isso que Trump não empossou Maria Corina no governo venezuelano.

 

Estamos diante de uma nova doutrina de poder: menos diplomacia, mais erosão institucional; menos guerra direta, mais caos induzido. Trump e o aparato estatal descobriram que, no século XXI, o controle não vem da ocupação, mas da capacidade de ditar quem sobrevive ao colapso. E, convenhamos, é muito mais barato, e rende manchetes mais emocionantes.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

De Varsóvia a Caracas: O retorno da força como linguagem diplomática

Por Fernando Castilho



O mundo assiste, em choque, às imagens do sequestro de Nicolás Maduro e à ocupação de pontos estratégicos na Venezuela pelas forças dos Estados Unidos. Para os historiadores, o eco de setembro de 1939 é ensurdecedor. Embora o século XXI se orgulhasse de suas instituições multilaterais e de uma arquitetura de paz aparentemente sólida, a Operação Determinação Absoluta, deflagrada por Donald Trump, guarda semelhanças perturbadoras com a invasão da Polônia pela Alemanha Nazista. O evento levanta uma questão existencial: o Direito Internacional sobrevive a este novo capítulo ou estamos apenas documentando o seu funeral?

A construção do pretexto para a agressão revela um padrão histórico de manipulação narrativa. Em 1939, Hitler utilizou a Operação Himmler, um ataque de falsa bandeira, para justificar a invasão da Polônia como uma "medida defensiva". Em 2026, a administração americana resgatou uma versão anacrônica e agressiva da Doutrina Monroe, moldada sob o conceito de "Autodefesa Hemisférica". Sob o argumento de que a Venezuela se tornou um "Narcoestado" que ameaça a segurança interna dos EUA via fluxo de fentanil e imigração descontrolada, Washington atropelou a soberania nacional venezuelana. Em ambos os casos, a retórica serviu para mascarar objetivos estratégicos de longo prazo: o Lebensraum (espaço vital) alemão e o controle das maiores reservas de petróleo do mundo pela administração Trump.

A rapidez da queda das defesas venezuelanas em 2026 mimetiza a eficácia assustadora da Blitzkrieg alemã. Enquanto a Polônia foi esmagada pela coordenação inédita de divisões Panzer e o terror vindo dos céus com a Luftwaffe em 28 dias, a Venezuela viu a cabeça de seu comando central ser decapitada em menos de uma semana por uma "guerra relâmpago" tecnológica, embora o restante do corpo esteja mantido. Em 2026, o campo de batalha foi definido por enxames de drones, ataques cibernéticos paralisantes à rede elétrica e ao sistema de defesa antiaérea, culminando no sequestro cirúrgico de Nicolás Maduro por forças especiais.

Essa disparidade militar absoluta não permitiu uma defesa convencional, empurrando o que restou das forças locais para a guerrilha e a resistência civil. O "Estado Secreto Polonês" de outrora encontra seu paralelo moderno nas milícias bolivarianas que agora se escondem no interior venezuelano, com o potencial de transformar o país em um barril de pólvora de insurgência.

A invasão da Polônia foi o "rastilho de pólvora" que ativou alianças e engolfou o globo. Hoje, o risco de uma Terceira Guerra Mundial não reside necessariamente em uma invasão terrestre entre superpotências, mas na ruptura total das cadeias globais e na "Putinização" da política externa americana. A reação do bloco BRICS, liderada por um Brasil que vê sua fronteira amazônica militarizada para evitar o transbordamento do caos, e uma China que observa seus investimentos petrolíferos serem confiscados, coloca o planeta em uma corda bamba. Se em 1939 o gatilho foi o expansionismo territorial europeu, em 2026 o estopim é a voracidade por recursos energéticos e a percepção de que países como Colômbia e México podem ser os próximos alvos de uma política de "limpeza regional" de Washington. E o Brasil, que se cuide.

A gravidade do momento reside no fato de que, diferente da Alemanha de 1939, os EUA implodem o sistema por dentro, ocupando uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Seja qual for o desfecho da ocupação na Venezuela, o paralelo histórico nos ensina que, quando o diálogo é substituído pela força unilateral, a ordem mundial que conhecemos deixa de existir. A invasão da Polônia enterrou a Liga das Nações; a invasão da Venezuela em 2026 pode ter acabado de redigir a certidão de óbito da ONU.

Hoje, o Direito Internacional parece reduzido a uma sugestão acadêmica, enquanto um faroeste geopolítico impera sem que haja xerifes. Resta saber se o mundo precisará passar por um conflito total para reescrever suas regras de convivência ou se a interdependência econômica de 2026 servirá como o último freio que faltou em 1939.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A cigana leu o destino do Brasil?

Por Fernando Castilho



Todo começo de ano é a mesma coisa: videntes e astrólogos se revezam em adivinhações. A maioria prefere “arriscar” prevendo que um artista famoso vai morrer. E, lógico, infelizmente temos um bom número de longevos candidatos a nos deixar.

Mas, longe de me arvorar em pitonisa, há no campo político possibilidades que requerem análises sérias.

Em 2026, o Brasil voltará a viver um momento decisivo. A eleição presidencial não será apenas uma disputa entre nomes, mas um pleito que colocará em jogo o sentido do ciclo político iniciado com a redemocratização, interrompido em 2016 e reconfigurado após 2022. Lula, candidato à reeleição, estará no centro desse processo, seja vencendo, seja perdendo.

Diante disso, há três cenários possíveis: Lula perde a eleição, Lula vence a eleição e Lula faz seu sucessor em 2030.

Se Lula perder a eleição, o que ocorrerá com o país dependerá menos dele e mais de quem o substituir. Uma derrota diante de um candidato da direita democrática institucional representaria uma alternância de poder típica das democracias liberais. Nesse cenário, o Brasil tenderia a manter a estabilidade institucional, com respeito às regras do jogo, mas passaria por uma reorientação econômica mais restritiva, marcada por ajuste fiscal, contenção de políticas redistributivas e maior sintonia com o mercado financeiro. O conflito social não desapareceria; ao contrário, sindicatos e movimentos populares reagiriam a eventuais cortes, produzindo um ambiente de tensão controlada, porém constante. Contudo, não se vê no horizonte esse candidato, que seria chamado de terceira via.

Muito mais preocupante seria a derrota de Lula para um campo político de viés autoritário ou populista radical:  o bolsonarismo, mesmo que travestido de moderado para enganar mais uma vez os incautos. Nesse caso, o país poderia voltar a conviver com ataques sistemáticos às instituições, especialmente ao Supremo Tribunal Federal, à imprensa e aos mecanismos de controle. A polarização entre quem defende a democracia e quem quer destruí-la se intensificaria, e o Brasil correria novamente o risco de isolamento internacional, sobretudo em temas ambientais e de direitos humanos. O perigo maior, nesse cenário, não seria uma crise econômica imediata, mas a corrosão progressiva da democracia liberal.

É preciso considerar ainda que essa corrosão pode ocorrer como uma verdadeira ruptura, ou seja, a continuidade da tentativa de golpe, agora legitimada pelas urnas. Qualquer um que derrote Lula, dentro de um espectro que vai de Flávio Bolsonaro a Tarcísio, Zema, Caiado ou Ratinho, se prestaria a esse papel. O retrocesso, após quatro anos de recuperação do país frente aos estragos causados por Jair Bolsonaro, seria inevitável. E, lógico, nesse combo ainda estaria uma anistia ao genocida.

Em qualquer hipótese de derrota, Lula não desapareceria da cena política. Tornar-se-ia o principal líder da oposição, uma espécie de fiador simbólico da ordem democrática, tentando preservar seu legado e, ao mesmo tempo, organizar o campo progressista para o futuro. Ainda assim, uma derrota em 2026 marcaria o início inequívoco do declínio do lulismo como liderança pessoal, mesmo que o projeto político sobrevivesse.

Se, por outro lado, Lula vencer a eleição de 2026, o significado político será profundo. Ele consolidaria um ciclo histórico raro, tornando-se o presidente mais longevo da República e uma figura comparável, em termos de duração e influência, a Getúlio Vargas. Essa vitória representaria não apenas um triunfo eleitoral, mas uma confirmação de que o campo democrático conseguiu resistir às investidas autoritárias do período anterior.

Ainda assim, um eventual quarto mandato não seria um governo de grandes rupturas. As restrições fiscais, a fragmentação do Congresso e o desgaste natural do tempo imporiam limites claros à ação governamental. Lula tenderia a governar administrando o possível: aprofundando políticas sociais dentro das margens disponíveis, reforçando o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, mas evitando confrontos que pudessem gerar instabilidade. O fim da escala 6 x 1 seria a grande marca de um governo que a grande imprensa se esforça para caracterizar como ausente de marcas. Do ponto de vista institucional, haveria um ambiente de maior previsibilidade, com fortalecimento do STF e redução significativa do risco de aventuras golpistas.

Uma vitória em 2026 também abriria, de forma explícita, a questão da sucessão em 2030. Lula não poderá concorrer novamente, e o país entrará inevitavelmente no debate sobre o pós-Lula. Nesse ponto, sua decisão será estratégica. Ele tenderá a buscar um sucessor que combine lealdade política, capacidade de diálogo com o centro e menor grau de polarização. A prevalecer esse cenário, surgem dois nomes possíveis: Geraldo Alckmin e Simone Tebet. Se em 2026 Alckmin e Tebet concorrerem e se elegerem governadores em seus estados, a depender do sucesso de suas administrações, podem surgir fortalecidos para 2030. Pode-se incluir nessa pequena lista Fernando Haddad, desde que ele comece a demonstrar maior traquejo político. Um nome excessivamente ideológico poderia preservar a identidade histórica do PT, mas teria mais dificuldade eleitoral. Um nome mais moderado, técnico-político, poderia ampliar alianças e garantir competitividade, ainda que ao custo de diluir parte do lulismo clássico. Há também a possibilidade de Lula apoiar alguém da esquerda fora do PT, desde que comprometido com uma frente ampla democrática e com a preservação de seu legado. Nesse caso, pode surgir Guilherme Boulos, que, no cargo de ministro, parece estar sendo preparado por Lula para obter experiência administrativa.

O dilema é evidente: indicar alguém fraco pode levar à derrota; indicar alguém forte demais pode significar perder o controle sobre o legado político; não indicar claramente pode fragmentar o campo progressista. Historicamente, Lula prefere controlar a sucessão, mas a história mostra que nenhuma sucessão é plenamente controlável.

Em síntese, 2026 será menos sobre Lula individualmente e mais sobre o destino do ciclo político que ele simboliza. Se perder, o Brasil poderá voltar a viver momentos tensos de ameaça institucional. Se vencer, o país tende a atravessar um período de estabilidade democrática e transição, preparando-se para um cenário inevitável: o fim do lulismo como liderança pessoal em 2030, ainda que suas ideias continuem a disputar o futuro político do Brasil e o avanço nas políticas que reduzirão a desigualdade e colocarão o país no grupo restrito das maiores economias do mundo.

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Jaques Wagner: herói ou vilão?

Por Fernando Castilho



Antes de mais nada, convém baixar a guarda, como eu já fiz, para pensar racionalmente e evitar rachaduras desnecessárias dentro da esquerda.

O famigerado PL da Dosimetria, uma excrescência que jamais deveria ter visto a luz do dia e que Renan Calheiros batizou com precisão cirúrgica de “PL da Infâmia”, chegou à CCJ do Senado. Davi Alcolumbre, sempre diligente quando convém, não poupou esforços para aprová-lo antes do recesso. O projeto tinha toda a cara de rejeitado e parecia pronto para o cemitério legislativo. Mas eis que surge o imponderável: Sergio Moro, em sua costumeira criatividade, apresentou uma “emenda de redação”. Só que, na prática, não era redação coisa nenhuma. A alteração impedia que o PL beneficiasse autores de crimes sexuais e de corrupção. Em outras palavras, uma emenda de mérito travestida de retoque gramatical. Resultado: o projeto deveria voltar à Câmara, como manda a Constituição, depois retornar ao Senado, e não seria votado este ano.

Foi aí que Jaques Wagner, do PT, enxergou a oportunidade. A jogada era simples e engenhosa: condicionar a aprovação do PL à aprovação de outro projeto vital para o governo: o aumento da taxação das bets e das fintechs, capaz de render cerca de 20 bilhões de reais em 2026, ano eleitoral. Enquanto isso, Lindbergh Farias, indignado, entraria no STF com um mandado de segurança denunciando a “criatividade jurídica” de Moro. Se fazia parte do acordo com Wagner, ninguém sabe, ninguém viu. Mas acho que não.

O roteiro é quase previsível: o STF deve considerar a votação da CCJ inconstitucional, o projeto volta à Câmara, é aprovado novamente e retorna ao Senado. Mas isso só em 2026, depois do recesso. Desta vez, sem acordo algum, será rejeitado e arquivado. Lula não precisará nem gastar tinta com veto. Jogada de mestre, típica de quem coleciona décadas de política, embora bastante discutível do ponto de vista republicano e ético, e que pode causar ao senador sua destituição de líder do governo.

Nem todos aplaudiram. Renan Calheiros denunciou em plenário, sem papas na língua, a conversa reservada que teve com Wagner, e classificou o acordo como uma “farsa” da qual não participaria. Convenhamos, o termo cai como uma luva.

Nas redes, o resultado é uma esquerda dividida: uns se dizem traídos depois das manifestações de domingo, outros se esforçam para encontrar justificativas que isentem o governo de qualquer manobra.

No fim das contas, o pragmatismo frio de Jaques Wagner pode estar conduzindo ao enterro definitivo do infame PL da Dosimetria, enquanto garante a taxação das bets e das fintechs, uma vitória política e financeira para o governo.

 Ironias da política: às vezes, para enterrar uma infâmia, é preciso abraçar uma farsa. Ou criar outra infâmia.

sábado, 13 de dezembro de 2025

Tentativa de Golpe de Estado: A Mãe de Todos os Crimes

Por Fernando Castilho



A desproporção penal brasileira


A pena para homicídio qualificado no Brasil varia de 6 a 30 anos de reclusão. Trata-se de um crime grave, que atinge diretamente uma vítima individual. No entanto, quando se observa a legislação referente à tentativa de golpe de Estado, a desproporção salta aos olhos: a sanção prevista é de apenas 4 a 12 anos. Essa discrepância revela uma falha estrutural do sistema penal brasileiro, pois o golpe de Estado não é um crime comum. Ele ameaça toda a coletividade, suprime direitos fundamentais, destrói instituições e coloca em risco a vida de milhares de pessoas.

Recentemente, Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de reclusão por diversos crimes, pena que pode ser reduzida a 20 anos caso o chamado “PL da Dosimetria” seja aprovado. A ironia é que, se fosse apenas pela tentativa de golpe, a punição seria inferior à de um homicídio isolado. Ora, o golpe de Estado, se concretizado, inaugura um regime de exceção em que opositores são perseguidos, presos e torturados, assassinatos políticos são cometidos com ocultação de cadáveres, a imprensa é censurada e a população privada de informação. Os livros de história, reescritos sob a ótica do regime, registram apenas uma “mudança necessária” para preservar a democracia e as instituições. Não há eleições livres, e o ditador governa pelo tempo que desejar, podendo transferir o poder a alguém de confiança, como um filho. O regime se perpetua até que uma revolução o derrube, e como a repressão é violenta, o resultado costuma ser uma conflagração nacional com milhares de mortes.

Em diversos países, a tentativa de golpe é tratada como crime gravíssimo. A Constituição alemã prevê penas severas para atentados contra a ordem democrática, podendo chegar à prisão perpétua. Na Espanha, a tentativa de subverter o Estado é punida com até 30 anos de reclusão. Chile e Argentina, após suas ditaduras, endureceram suas legislações contra conspirações golpistas, reconhecendo o caráter coletivo e devastador desse tipo de crime. O Brasil, ao manter penas brandas, transmite a mensagem de que atentar contra a democracia é menos grave do que ceifar uma vida individual.

A tentativa de golpe de Estado deveria ser considerada a mãe de todos os crimes. Mais grave que o homicídio, porque ameaça milhões de vidas e destrói o pacto social. A pena mínima deveria ser multiplicada, chegando a 50 anos de reclusão, para que o golpista tenha tempo de refletir atrás das grades e, sobretudo, para desestimular futuros aventureiros. A democracia não pode ser tratada como bem de menor valor. Se o homicídio qualificado merece até 30 anos de prisão, a tentativa de golpe de Estado deveria ser punida com muito mais rigor. Só assim o Brasil deixará claro que não tolera ataques à sua ordem constitucional e que a liberdade coletiva vale mais do que qualquer ambição autoritária.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

A fibra de Gláuber e a frouxidão da extrema direita

Por Fernando Castilho



Acompanhei todo o processo de cassação de Gláuber Braga na Câmara dos Deputados e, convenhamos, o deputado do Psol do Rio de Janeiro não arredou um centímetro de suas convicções. Se tivesse feito o teatrinho básico, pedido desculpas, retirado o que disse a Arthur Lira sobre o escândalo das emendas, teria escapado bem antes da via crucis que lhe armaram. Mas não: preferiu sair de cabeça erguida, vitorioso e honrado.

E aí me vieram algumas comparações inevitáveis.
Dilma Rousseff, diante do seu terror pessoal, o torturador Brilhante Ustra, não entregou um único nome. E olha que as torturas eram coisa de manual de barbárie de Átila, o rei dos Hunos.

Do outro lado, Jair Bolsonaro, quando encarou Alexandre de Moraes em seu julgamento, fez o que sabe de melhor: pediu desculpas, jurou que nunca viu os milhões que tinha afirmado que Moraes recebera e, para coroar, ainda convidou o ministro para integrar seu futuro governo. Brio? Fibra? Nada disso. Saiu com aquela cara de bobo típica dos covardes que se humilham para salvar a própria pele.

Agora, o mesmo Bolsonaro repousa em uma sala especial (não cela, veja bem) na superintendência da Polícia Federal em Brasília. Doze metros quadrados com ar-condicionado (que já reclamou porque faz barulho), frigobar, cama com colchão, banheiro privativo e chuveiro quente. Um verdadeiro spa carcerário. Ah, e duas horas de banho de sol por dia, podendo circular tranquilamente como se fosse hóspede de resort.

Mesmo assim, o deputado Paulo Bilynskyj, em vistoria, teve a coragem de dizer que seu Jair estava sendo submetido a “verdadeira tortura”. Tortura, aliás, que ele defende para os outros sem pestanejar. Enquanto isso, Lula, também idoso, enfrentou 580 dias de prisão preventiva numa sala da PF de Curitiba sem reclamar, sem pedir anistia, e isso já depois de ter enfrentado um câncer.

Seu Jair, o homem com “histórico de atleta” que classificou a Covid-19 como “gripezinha” e chamou todos os brasileiros que se resguardavam dela de “maricas”, o homem que até ontem exibia vigor ao passear de jet-ski e participar de motociatas, de repente virou um paciente terminal, quase à beira da morte. Por isso, precisa de prisão domiciliar, de preferência com piscina, sauna e quem sabe até uma jacuzzi.

Curiosamente, também, o general Heleno, homem de perfil notoriamente autoritário, agora alega Alzheimer. Alexandre Ramagem, para não cumprir pena, simplesmente fugiu para os Estados Unidos, assim como Carla Zambelli para a Itália. E o que falar de Eduardo Bolsonaro? Além de covardes, são fujões.

E o ex-ajudante de ordens, Mauro Cid? Ao ouvir os conselhos dos advogados, não pensou duas vezes: entregou todos os golpistas para salvar a própria pele.

É isso: não têm fibra. Não aguentam uma hora de interrogatório mais duro. Bastaria a menção de uma “pau-de-arara” para que borrassem as calças e entregassem até o cachorro da vizinha.

A extrema direita é frouxa. São guerreiros de frigobar, mártires de ar-condicionado barulhento e heróis de motociata.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Jorge Messias virou a moeda de troca contra o PL da Dosimetria

Por Fernando Castilho


Não precisamos perder tempo relembrando os últimos espetáculos grotescos de Hugo Motta na Câmara dos Deputados. O que importa é ir direto ao ponto.

O famigerado PL da Dosimetria já passou pela Câmara e agora segue para o Senado. Lá, o presidente Davi Alcolumbre, sempre ávido por protagonismo, anunciou que pretende votar ainda este ano. O detalhe é que vários senadores como Renan Calheiros e Otto Alencar já se insurgiram de forma áspera contra o atropelo e disseram que não vão engolir a pressa. Veremos.

O relator escolhido é ninguém menos que Esperidião Amin, do PL. Um homem que guarda no coração sua velha paixão: a Arena, partido que sustentou a ditadura militar. Pois bem, Amin já avisou que vai “mexer” no projeto para incluir a anistia. Ou seja, o que será votado não é o PL original, mas um Frankenstein jurídico feito sob medida para reduzir as penas do totem Jair Bolsonaro e seus generais de estimação.

Vale lembrar: quando a PEC da Bandidagem chegou ao Senado, Alcolumbre correu para enterrá-la, tentando agradar Lula para emplacar Rodrigo Pacheco no STF. Ganhou pontos, mas não ganhou o prêmio. Agora, ressentido, decidiu se vingar. E a vingança vem embalada no PL da Dosimetria.

Se esse monstrengo passar no Senado, seguirá para sanção de Lula, que obviamente vetará. A Câmara, previsivelmente, derrubará o veto. E então algum partido baterá às portas do STF com uma ADI ou ADPF. É aí que mora o perigo. Explico.

Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli são simpáticos a Rodrigo Pacheco. Já Nunes Marques e André Mendonça preferem Jorge Messias, por afinidade evangélica. Lula sabe que o projeto tem chances reais de ser chancelado pelo Supremo. Bastam seis votos. E Alcolumbre também sabe. Portanto, há um conluio descarado entre parte dos ministros do STF e o presidente do Senado.

No meio disso tudo, Jorge Messias virou moeda de troca. O assalto é cristalino: “Lula, não indique Messias. Indique Pacheco e o PL da Dosimetria será enterrado no Senado.” É chantagem pura e simples. E, como toda chantagem, tende a funcionar. Lula será empurrado a indicar Rodrigo Pacheco.

Eis a atmosfera em que os poderes convivem “harmoniosamente” hoje: um teatro de pressões, vinganças e chantagens. Harmonia, aqui, é apenas o nome pomposo dado ao caos institucional.

O golpe continua. Mesmo com Bolsonaro de papelão

Por Fernando Castilho



A ilustração fala mais que mil palavras

Jair Bolsonaro está preso na Superintendência da Polícia Federal em Brasília e, para suprir sua ausência, a extrema direita precisou improvisar: fizeram um boneco de papelão. Sim, um totem. Afinal, sem o “mito” em carne e osso, não há culto. E sem culto, não há extrema direita. Daqui a alguns meses, sem ele e sem pautas que interessem ao povo, o centrão pragmático abandonará esse barco furado e correrá para o navio que realmente navega: Lula.

Foi por isso que Flávio Bolsonaro saiu de uma reunião com o pai alardeando que havia sido ungido pelo mito para dar continuidade ao projeto da família. Aqui, cabe um parêntese: Bolsonaro, mesmo preso, segue o manual de Marcola e Fernandinho Beira-Mar: dar ordens de dentro da prisão como se estivesse solto. E o STF, aparentemente, acha isso normal. Voltemos.

É claro que tanto pai quanto filho sabiam que, com o vasto telhado de vidro de Flávio, sua candidatura não tinha como florescer. O anúncio foi apenas uma jogada para abrir negociação, já que o nome preferido para a sucessão de Seu Jair é Tarcísio de Freitas. Nos bastidores, a leitura é que o acordo foi fechado: ofereceram as cabeças de Carla Zambelli (presa na Itália, em vias de ser extraditada e cassada, perdendo seus direitos políticos por oito anos) e Eduardo Bolsonaro (punido por faltas, mas sem perda de direitos). Em troca, entrou em pauta, de forma sorrateira e relâmpago, para que não houvesse tempo de manifestações nas ruas, o PL da Dosimetria. De brinde, a abertura do processo de cassação de Glauber Braga, por ter chutado um militante do MBL que insultava sua mãe. Dois pesos, duas medidas, como sempre.

Braga, inconformado, sentou-se por duas horas na cadeira da presidência da Câmara e previu, diante de deputados surpresos: “Ainda hoje, um de vocês me trairá.” Ah, não. Isso foi Jesus quem falou. Hugo Motta, que tolerou a usurpação da mesa diretora pela extrema direita por 48 horas, ordenaria sua retirada à força pela Polícia Legislativa. Acertou. Mas ninguém imaginava a violência desproporcional que feriu a ele e a vários deputados que lhe davam apoio. De quebra, Motta, o mesmo que evocou Ulisses Guimarães em seu discurso de posse, mandou cortar o sinal da TV Câmara, expulsar jornalistas e, como se nada tivesse acontecido, colocou projetos em votação, incluindo o PL da Dosimetria. Ouviu os discursos indignados com cinismo, sem esconder sorrisos. Motta está deslocado no tempo. Deveria tentar a sorte em 1968.

Este é o resumo da situação: o PL da Dosimetria foi aprovado, como se esperava, e segue para o Senado. Lá, Davi Alcolumbre, que não hesita em prejudicar o país para se vingar do governo por não ter emplacado Rodrigo Pacheco no STF, já prometeu votação célere. E pode passar.

O projeto altera artigos do Código Penal para reduzir penas dos envolvidos na tentativa de golpe de Estado. Os bagrinhos já fizeram acordo ou cumpriram pena. Portanto, o alvo real são as lideranças: o totem Jair Bolsonaro e seus generais. Até os que planejaram assassinar Lula, Alckmin e Moraes no chamado Plano Punhal Verde-amarelo. Pelo texto, Bolsonaro poderia deixar o regime fechado em apenas 2 anos e 4 meses. Em prisão domiciliar, montaria um QG do Golpe em casa, coordenando novas ações. Quem sabe uma nova tentativa, sem incorrer nos mesmos erros, daria certo daqui a alguns anos?

Se aprovado, Lula provavelmente vetará. A Câmara derrubará o veto. Restará a possibilidade de algum partido representar uma ADI ao STF. Mas, ao contrário do PL da Anistia, a inconstitucionalidade aqui é nebulosa. Três ministros: Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux, já sabemos que não veriam problema. Gilmar Mendes alertou: abrir a porteira da dosimetria é escancarar a anistia. E Sóstenes Cavalcanti profetizou que ela vem ano que vem. Um Judiciário refém do Congresso será engolido por ele.

A Constituição prevê separação e harmonia entre os poderes. Harmonia pressupõe diálogo. É hora de Lula e Fachin chamarem Hugo Motta e perguntarem: Qual é a sua? Quando a água bater na sua bunda, vai fazer o quê?

Enquanto isso, cabe ao povo ocupar as ruas, como fez contra a PEC da Bandidagem.

Ulisses Guimarães já dizia: deputado só tem medo das ruas.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Marx sempre atual (com comentários)

Por Mauro Gouvêa

[..] Basta mencionar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, ameaçam cada vez mais a existência da sociedade burguesa. Cada crise destrói regularmente não só uma grande massa de produtos já fabricados, mas também uma grande parte das próprias forças produtivas já desenvolvidas. Uma epidemia, que em qualquer outra época teria parecido um paradoxo, desaba sobre a sociedade - a epidemia da superprodução. Subitamente, a sociedade vê-se, reconduzida a um estado de barbaria momentânea, dir-se-ia que a fome ou uma guerra de extermínio cortaram-lhe todos os meios de subsistência; a indústria e o comércio parecem aniquilados. E por quê? Porque a sociedade possui demasiada civilização, demasiados meios de subsistência, demasiada indústria, demasiado comércio. As forças produtivas de quê dispõe não mais favorecem o desenvolvimento das relações de propriedade burguesa; pelo contrário, tornaram-se por demais poderosas para essas condições, que passam a entravá-las; e todas as vezes que as forças produtivas sociais se libertam desses entraves, precipitam na desordem a sociedade inteira e ameaçam a existência da propriedade burguesa. O sistema burguês tornou-se demasiado estreito para conter as riquezas criadas em seu seio. De que maneira consegue a burguesia vencer essas crises? De um lado, pela destruição violenta de grande quantidade de forças produtivas; de outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais intensa dos antigos. A que leva isso? Ao preparo de crises mais extensas e mais destruidoras e à diminuição dos meios de evitá-las. [...]

Manifesto Comunista

Marx&Engels

O que mudou em 200 anos? É atual ou não é? Marx está falando das crises cíclicas ou eu estou imaginando coisas?

O trecho: do que exatamente Marx e Engels estão falando?

Esse fragmento do Manifesto Comunista (1848) descreve as crises cíclicas do capitalismo com uma precisão que assusta ainda hoje. Eles estão afirmando, em síntese, que:

O capitalismo produz mais do que a sociedade consegue absorver.

Essa contradição não gera abundância social, mas crise, desemprego, falência, miséria.

As crises não são acidentes: são estruturais, periódicas, inerentes ao sistema.

Para sair delas, a burguesia:

destrói forças produtivas (fechamento de fábricas, guerras, recessões),

busca novos mercados,

explora mais intensamente os antigos.

Só que isso prepara crises ainda maiores depois.

A imagem mais brutal é esta:

“a epidemia da superprodução”

Ou seja: não falta mercadoria, ao contrário sobra, mas sobra concentrada, inacessível, encalhada, enquanto falta o básico para milhões.

Isso é a definição clássica de crise de superprodução no capitalismo.

Marx está falando de crises cíclicas?

Sim, exatamente. E isso é ponto pacífico na teoria marxista.

Ele está antecipando o que depois a história confirmou repetidas vezes:

1873 – Grande Depressão do século XIX

1929 – Quebra da Bolsa de Nova York

1973 – Crise do petróleo

2008 – Crise do subprime

2020 – Colapso global com a pandemia

2022–2024 – inflação global, crise logística, crise de energia, guerra, endividamento em massa

Todas seguem o mesmo roteiro estrutural:

expansão → saturação → colapso → concentração de riqueza → nova expansão → novo colapso.

Ou seja:

Marx descreveu o motor interno dessas crises com 200 anos de antecedência.

Exercício de adivinhação? Profecia? Nada disso, apenas análise pura e simples.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Dias Toffoli - A dura rotina de um ministro do STF

Por Fernando Castilho



O ministro Dias Toffoli, esse incansável servidor da pátria, há muito tempo ostenta o título nada invejável de ministro mais entediado da Suprema Corte. Justiça? Apenas um detalhe burocrático. Em julgamento sobre questões ambientais, ainda no primeiro semestre, revelou sua verdadeira vocação: o tédio em estado puro. Para espanto dos colegas, confessou que preferia resolver o caso com cara ou coroa porque não via relevância no caso. Afinal, quem precisa de Constituição quando se tem uma moeda no bolso?

Mas não sejamos injustos: há algo que realmente o arranca da monotonia institucional. O futebol, claro. O Palmeiras, seu grande amor, é o único capaz de fazê-lo vibrar. Tanto que viajou até Lima para assistir à final da Libertadores. Só que, curiosamente, o que pareceu excitá-lo ainda mais foi a companhia do advogado que, por coincidência, representa Luiz Antonio Bull, investigado em negócios nada triviais entre o Banco Master de Daniel Vorcaro e o BRB. Quatro dias depois, com o Palmeiras derrotado, Toffoli decidiu que o caso merecia um “sigilo sigilíssimo”. Coincidência, claro.

E assim o ministro segue sua via-crúcis na Corte: sessões sonolentas, votos redigidos por assessores e decisões que condenam aposentados a sobreviver com um salário mínimo. Talvez, se no caso da Revisão da Vida Toda tivesse recorrido ao seu método infalível da moeda, os segurados do INSS hoje estariam em situação mais digna. Um verdadeiro mártir da burocracia.

Em 2024, fiel ao seu costume de encontrar válvulas de escape para sua rotina de sacrifícios, faltou a uma sessão para assistir à final da Champions League em Londres, no camarote de um empresário com negócios relatados por ele próprio na Corte. Porque, convenhamos, quem resiste a um bom jogo e a uma taça de champanhe? Aliás, seria digno de estudo o fato de ministros do Supremo serem tão fanáticos por futebol.

No fim das contas, já sabemos: justiça pode esperar. O que realmente desperta Toffoli são duas paixões inabaláveis: o futebol e a boa companhia de empresários investigados. Afinal, cada um encontra sua motivação onde pode.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

O impeachment no Brasil: da instrumentalização política à defesa institucional do STF

Por Fernando Castilho



O impeachment de Dilma Rousseff em 2016 teve como pretexto jurídico as famosas “pedaladas fiscais”, uma prática contábil corriqueira em governos anteriores, mas que, naquele momento, foi convenientemente elevada à categoria de crime de responsabilidade.

As “pedaladas” consistiam no atraso do repasse de recursos da União a bancos públicos que haviam arcado com despesas sociais. O Tribunal de Contas da União (TCU) e a acusação sustentaram que essa manobra configurava uma operação de crédito vedada pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). O ponto central da controvérsia era o dolo: seria preciso provar que a presidenta agiu com intenção deliberada de violar a lei fiscal para caracterizar crime de responsabilidade, conforme o art. 85, V, da Constituição. Mas, claro, não provaram.

Curiosamente, após a queda de Dilma, as pedaladas voltaram ao seu status original de mera manobra contábil, sem qualquer repercussão jurídica. Coincidência? Difícil acreditar. O episódio reforça a crítica de que o impeachment foi instrumentalizado politicamente, transformando um mecanismo constitucional de exceção em ferramenta de conveniência.

Na época, o Supremo Tribunal Federal (STF), especialmente Ricardo Lewandowski, que presidiu a sessão no Senado, preferiu se limitar ao papel de guardião do procedimento, evitando discutir o mérito da acusação sob a justificativa de que o julgamento cabia ao Congresso (juízo político). Anos depois, em 2022, Luís Roberto Barroso admitiu em entrevista que Dilma foi derrubada por um “conjunto da obra”, e não por crime de responsabilidade. Um mea culpa tardio, quase irônico.

Hoje, a instrumentalização política do impeachment mira o Judiciário. Grupos bolsonaristas sonham com um Senado recheado de aliados em 2026 para impichar ministros do STF, como Alexandre de Moraes e Flávio Dino, simplesmente porque suas decisões contrariam interesses políticos. A lógica é simplista e quase infantil: não pensa como a gente? Impeachment nele! Está investigando nossos aliados? Impeachment nele! E, para complicar ainda mais, surge um novo elemento que exigirá atenção dos ministros: a associação de parlamentares com o crime organizado. Impeachment nos ministros!

É nesse cenário que se insere a decisão de Gilmar Mendes na ADPF 877. O ministro suspendeu artigos da Lei nº 1.079/50 e estabeleceu duas regras cruciais para proteger a independência judicial:

Exclusividade da denúncia pela PGR – apenas a Procuradoria-Geral da República pode apresentar denúncia contra ministros do STF, retirando a prerrogativa de “qualquer cidadão”.

Quórum de 2/3 para admissibilidade – o processo só pode ser instaurado se dois terços do Senado aprovarem sua abertura, o mesmo quórum exigido para a condenação final.

Embora se possa defender que qualquer cidadão deveria manter o direito de solicitar impeachment, essa dupla barreira destrói o plano de transformar o mecanismo em brinquedo político ou “golpe constitucional”. Exige consenso amplo e robusto, algo que não se conquista com discursos inflamados em redes sociais.

A reação foi imediata: bolsonaristas e parte do centrão acusaram o STF de “extrapolar funções”; jornalistas que se dizem “isentos” repetiram o mantra da “blindagem”; e até setores da esquerda reclamaram que Gilmar estaria protegendo demais a Corte. Mas, no fundo, a decisão recoloca o impeachment em seu devido lugar: uma medida extrema, não um instrumento de vingança.

É sempre bom lembrar: o fascismo não desapareceu. Ele se adapta, se reorganiza e usa todas as armas possíveis para corroer a democracia. Gilmar Mendes sabe disso. E sua decisão, gostem ou não, foi um freio necessário contra a banalização do impeachment.

Estamos em guerra, minha gente. Não nos esqueçamos disso. Uma cochilada e eles comem nossos olhos. Gilmar, ao dizer aos repórteres: “Sou um enfermeiro que já viu muito sangue”, certamente percebeu o grande risco.