Por Fernando Castilho
Por
décadas, os Estados Unidos venderam ao mundo a imagem do “farol da liberdade e
da democracia”. O mundo inteiro comprou: constituições foram moldadas à sua
semelhança, adolescentes copiaram o rock, e Hollywood ensinou que, no fim, os
heróis truculentos sempre vencem contra árabes, russos e, agora, o "perigo
amarelo" chinês. Hoje, porém, os EUA preparam um novo produto de
exportação. Não vem em disco de platina nem em tela de cinema. Preparem-se: em
breve veremos polícias políticas violentas pipocando pelo globo, ostentando o
selo de qualidade da maior democracia do mundo: MADE IN USA.
É
fascinante, para não dizer patológico, observar um Estado que, para distrair o
público de seu próprio declínio, decide caçar imigrantes como forma de
sobrevivência política no mundo. Mas o espetáculo evoluiu. Por que parar nos
imigrantes, se é possível estender os tentáculos da repressão aos próprios
cidadãos? Em Minneapolis, o palco foi montado: prefeitos e governadores
democratas assistem, atônitos, enquanto o governo federal transforma suas ruas
em um laboratório de tiro e em um campo de testes para sistemas de vigilância
preditiva e reconhecimento facial.
O
recrutamento do ICE é um exemplo cruel de eficiência: basta encontrar jovens
cujos cérebros foram moldados pela estética de guerra dos videogames e cujos
bolsos foram esvaziados por dívidas reais. Para eles, o cartaz diz: “Seu país
precisa de você!”. Traduzindo do politiquês: “Precisamos que você esqueça seus
boletos e canalize seu ódio contra qualquer um que te olhe torto”. É a
gamificação da brutalidade: o distintivo torna-se o upgrade definitivo
em um jogo onde a vida do "inimigo interno" não tem reinício. A
história já viu coreografia semelhante na Alemanha de Hitler, mas agora ela
conta com algoritmos.
O
resultado desse treinamento relâmpago é uma performance de gala da barbárie.
Dois americanos já foram executados em Minneapolis. O último recebeu dez tiros
no rosto, mesmo após estar dominado. Reconfortante, talvez, para o agente que
se sentiu com “carta branca” para matar. Afinal, o que é um rosto desfigurado
diante do dever patriótico de manter a ordem? E não vai parar por aí. A
resistência precisa ser testada, como uma criança que desafia os limites dos
pais para ver até onde começa o castigo.
Enquanto
isso, as instituições que deveriam servir de freio, o Judiciário e o Partido
Democrata, parecem sofrer de uma paralisia assistida. O famoso sistema de pesos
e contrapesos, orgulho da exportação jurídica americana, transformou-se em um
carimbo burocrático para o inevitável. O Partido Democrata faz vistas grossas,
talvez investindo no caos para depois surgir como o "salvador" da
democracia, ou talvez esteja apenas em choque por descobrir que país está se
tornando um regime ditatorial.
Toda
essa "Estratégia da Tensão" serve a um plano quase poético em seu
autoritarismo. Trump não está apenas governando; ele está ensaiando. Quer medir
até onde a corda estica antes de se romper em uma quase guerra civil. Ele
espera o confronto, anseia por um agente morto para ter o pretexto perfeito de
“endurecer” e decretar medidas de exceção. É uma tática tão velha quanto o
fascismo clássico, mas que sempre encontra uma plateia fiel e sedenta por um
"homem forte".
À
medida que as eleições de meio de mandato, e a obsessão pela permanência em
2028 se aproximam, o exército doméstico vai sendo alimentado. E cresce. Trump
poderá se sentir forte o suficiente para tentar repetir o que fez em 2021 e o
que seu aprendiz, Bolsonaro, tentou em 2022: ignorar a Constituição e
eternizar-se no poder. Em ambos os casos, não deu certo. Poderá dar desta vez?
Se o
“farol do mundo” decidir apagar as luzes para instalar uma ditadura de grife, o
resto do planeta que se prepare: a escuridão é contagiosa, altamente
tecnológica e, infelizmente, costuma ser copiada.