Por Fernando Castilho
terça-feira, 25 de novembro de 2025
QUARENTENA NEWS ALCANÇA CEM MIL LEITORES COM POST DE FERNANDO CASTILHO
domingo, 23 de novembro de 2025
A tragicomédia da prisão preventiva de Jair Bolsonaro
Por Fernando Castilho
O caso da prisão preventiva de Jair Bolsonaro é tão cheio de
camadas que mais parece uma cebola, porém com caroço. Para não me perder no
labirinto, vamos à cronologia, porque sem ela, ninguém entende essa ópera bufa.
SEXTA-FEIRA, 21
Flávio Bolsonaro grava um vídeo convocando apoiadores para
uma “vigília religiosa” no sábado, em frente ao condomínio de luxo onde o pai
cumpria prisão domiciliar. Vigília religiosa, claro. Porque nada combina mais
com oração do que um ex-presidente tentando serrar uma tornozeleira com ferro
de soldar.
O discurso de Flávio vinha recheado de códigos: “busca ao
Senhor dos Exércitos” (tradução simultânea: apoio dos militares golpistas) e
“luta para resgatar a democracia” (tradução simultânea: resgatar o papai). Era
praticamente um tutorial de conspiração em vídeo.
ENQUANTO ISSO…
Na mesma tarde, Bolsonaro já estava entretido com seu novo
passatempo: romper a tornozeleira. Tentou de tudo, até que apelou para um
aparelho de solda. Sim, solda, dentro da casa alugada pelo PL às custas do
contribuinte. O processo durou horas, até que, às 0h08, a Polícia Militar
recebeu o alerta: tornozeleira danificada.
A MADRUGADA DE MORAES
A PF acorda Alexandre de Moraes: “Ministro, seu Jair está
tentando fugir”. Moraes toma um copo d’água, liga para o PGR Paulo Gonet,
recebe o aval e determina a prisão preventiva. Só poderia ocorrer a partir das
6h. Enquanto isso, sem a toga, de pijama, Moraes redige um documento de 17
páginas fundamentando a decisão.
No texto, determina prisão discreta, sem algemas. Afinal,
nada de espetáculo. Só o suficiente para virar manchete.
SÁBADO, 22
Às 7h, a imprensa divulga. Bolsonaristas correm às redes:
“Perseguição religiosa! Era só uma vigília de oração!”. Senhorinhas com Bíblia
na mão, claro. O detalhe da tornozeleira fritada foi convenientemente omitido.
Nos bastidores, aliados admitem: não há defesa possível. O
vídeo é autoexplicativo e será usado por Lula em 2026. Até vai virar meme. A
candidatura de Flávio, com sua genialidade estratégica, subiu no telhado.
O PLANO MIRABOLANTE
O PÓS-PRISÃO
Bolsonaro passa por exame de corpo de delito e pode alegar
problemas de saúde. Se uma junta médica confirmar, Moraes decide se volta para
prisão domiciliar. Também terá audiência de custódia para verificar condições
da prisão.
Enquanto isso, o prazo para embargos de declaração termina
na segunda, 24. Se não houver novidade, Moraes pode, no jargão jurídico, não
conhecer dos embargos e declarar trânsito em julgado já na terça ou quarta. A
Papuda o aguarda, mesmo que por pouco tempo.
O LEMBRETE
Se eu dissesse que alguém estacionaria um caminhão-tanque carregado
de combustível em frente ao Aeroporto de Brasília para explodir e matar dezenas
de pessoas, você acreditaria? Pois é, isso aconteceu. E só não deu certo porque
o tal “George Washington” errou a mão.
CONCLUSÃO
A prisão preventiva de Jair Bolsonaro não é um detalhe
burocrático, nem um capítulo qualquer da novela política brasileira. É um
alerta vermelho: essa turma já tentou explodir caminhão-tanque em aeroporto, já
tentou invadir a sede da PF, já tentou golpe em praça pública. E não há limite
para quem acredita que democracia é apenas um obstáculo inconveniente.
Se hoje o “curioso da solda” está atrás das grades, amanhã
seus fiéis podem muito bem tentar transformar a sede da PF em palco de resgate
cinematográfico. Portanto, nada de negligenciar. Segurança reforçada!
A diferença é que, desta vez, não haverá “festa da Selma”
para disfarçar. Haverá apenas o registro histórico de que o pior presidente
pós-ditadura militar terminou onde sempre deveria ter estado: sob vigilância,
cercado, e finalmente impedido de brincar de golpista com o destino do país.
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
A lógica fraturada do conservadorismo de almanaque
Por Mauro Gouvêa
O debate público brasileiro tem sido ocupado, há anos, por
um grupo que se autoproclama “liberal conservador”. Por caridade intelectual,
aceitemos provisoriamente a nomenclatura. Suponhamos que essas vozes
compreendam minimamente as tradições políticas que reivindicam: liberalismo,
conservadorismo, capitalismo. Suponhamos, ainda, que tenham lido algo além das
manchetes que reproduzem com fervor religioso. Mesmo sob tais suposições
generosas, o edifício argumentativo dessa direita militante desaba diante de um
olhar atento.
Os discursos se repetem como se fossem retirados de uma
mesma cartilha, um conjunto rígido de palavras de ordem: anticomunistas,
moralistas e ressentidas, que funciona mais como catarse do que como pensamento
político. Ao serem confrontados com fatos ou incoerências, recorrem
imediatamente à velha estratégia descrita por Schopenhauer: insultar para
vencer o debate pela força do grito e não pela consistência da razão. Mas é
possível, e até necessário, observar as contradições internas desse pensamento
performático.
A primeira delas diz respeito ao mercado. O liberal
conservador afirma, com devoção, que o mercado se autorregula e que qualquer
interferência estatal é uma ameaça à liberdade. No entanto, quando crises,
desastres ambientais ou abusos corporativos se tornam incontornáveis, o apelo
pela “responsabilidade individual” do consumidor surge como salvo-conduto para
que empresas façam o que quiserem. Liberdade para os de cima; vigilância e
culpa para os de baixo.
Outra contradição aparece na defesa apaixonada de que
empresas são pessoas, desde que apenas para exercer poder político, financiar
campanhas e defender interesses próprios. Na hora de assumir responsabilidade
civil, criminal ou moral, a metáfora se esvai: corporações deixam de ser
pessoas e voltam a ser abstrações jurídicas.
A mesma lógica se manifesta quando o tema são direitos
trabalhistas e sindicatos. Organizar trabalhadores seria um atentado à ordem
econômica; exigir condições dignas é visto como privilégio. Paradoxalmente,
poucos desses críticos recusam os próprios direitos conquistados, e muitos
continuam a acalentar o sonho do cargo público estável, aquele mesmo que dizem
representar um Estado “inchado”.
No campo moral, a incoerência atinge o ápice. Celebridades
de esquerda são acusadas de oportunismo, enquanto figuras públicas de
comportamento abertamente antidemocrático são celebradas como patriotas. A
liberdade religiosa é defendida como princípio absoluto, contanto que se limite
às confissões que reforçam a ordem conservadora. Quando minorias religiosas
reivindicam os mesmos direitos, o discurso muda: “isso deveria ser proibido”.
No terreno econômico, o duplo padrão se torna ainda mais
evidente. Programas sociais voltados à população pobre são catalogados como
“socialismo destrutivo”, enquanto salvamentos bilionários de bancos são
descritos como “medidas responsáveis” para preservar a economia. O moralismo
vale, desde que não atrapalhe as prioridades do capital.
Por fim, o debate institucional. A crítica ao chamado
“ativismo judicial” é constante, mas apenas quando decisões judiciais
contrariam interesses específicos. Quando um juiz de instância inferior
extrapola seus limites constitucionais para atender a determinada agenda, ele é
celebrado como herói nacional. Não é o respeito às instituições que importa,
mas o alinhamento à narrativa do dia.
O que emerge dessas contradições não é um pensamento
conservador clássico, coerente, enraizado em tradições filosóficas e preocupado
com a preservação de instituições. O que temos é um fenômeno político
emocional, reativo, profundamente marcado pelo medo e pelo ressentimento. Não
se trata de conservar nada: trata-se de defender privilégios, atacar
adversários e manter intacto o mundo tal como ele é para alguns poucos.
A política, nesse registro, deixa de ser debate e se torna
performance. A razão dá lugar ao slogan; a reflexão cede ao automatismo; a
democracia se fragiliza diante do moralismo agressivo transformado em arma
retórica. Em vez de produzir soluções, produz culpados. Em vez de complexidade,
oferece caricaturas. Em vez de futuro, repete um passado idealizado que nunca
existiu.
O país, porém, precisa de algo maior do que cartilhas e
espantalhos. Precisa de coragem intelectual para reconhecer contradições,
revisar crenças, buscar diálogo e construir políticas que respondam às
desigualdades reais e não aos fantasmas produzidos pelo medo. Enquanto isso não
acontecer, seguiremos condenados a esse debate truncado, em que a retórica da
força substitui a força dos argumentos.
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
Por que tem que ser Papuda?
Por Fernando Castilho
Foto: Reprodução
Nos últimos meses, a grande imprensa, sempre obediente ao
mercado financeiro, vem tentando naturalizar a corações e mentes de que Jair
Bolsonaro merece a suavidade de uma prisão domiciliar. Até setores ditos
“progressistas” já se renderam a essa cantilena em seus canais de YouTube.
Ora, a mera possibilidade (não o fato) de que o capitão
esteja com problemas de saúde não o torna automaticamente inapto a cumprir pena
em regime fechado na Papuda. Afinal, a penitenciária tem hospital próprio,
justamente porque o Estado é responsável pela saúde dos detentos. E não faltam
exemplos de presos com doenças graves que continuam atrás das grades, sem
direito a suíte VIP.
A menos que seu Jair esteja em estado terminal e precise ser
operado novamente no DF Star, hospital cinco estrelas para milionários, não há
justificativa para que não seja tratado na Papuda. Lá, ele terá atendimento
médico adequado. O resto é chororô.
E não, não vale alegar que o estresse exige que ele cumpra
pena na mansão de Angra, embalado pela brisa marítima e pela vista relaxante.
Se fosse assim, metade da população carcerária deveria estar em resorts.
Convém lembrar: Bolsonaro não foi condenado por uma
travessura qualquer, mas por um dos crimes mais graves previstos na
Constituição. Resultado? 27 anos de cadeia, uma pena à altura da gravidade do
ato. E cadeia é cadeia: deve ser tratado como qualquer outro preso, ainda que
os demais estejam lá por delitos bem menos monstruosos.
A lei garante segurança a ex-presidentes. Isso significa
cela especial, separada dos demais. Ponto. Mas não significa mordomias como TV,
ar-condicionado ou menu gourmet. A distinção é de segurança, não de conforto.
O problema é que nosso Judiciário tem histórico de aliviar
para os poderosos, como fez com Collor, e de aplicar mão de ferro contra os
pobres, pretos e vulneráveis, como acabou de fazer com os aposentados da
Revisão da Vida Toda. Assim, não seria surpresa se Bolsonaro recebesse
tratamento diferenciado. Um criminoso que, se tivesse tido sucesso em sua
tentativa de golpe, teria não apenas eliminado Alexandre de Moraes, mas fechado
o Supremo Tribunal e encarcerado seus ministros.
Em resumo: Papuda não é castigo extra. É apenas o lugar
certo para quem tentou rasgar a democracia e impor a volta dos anos de chumbo.
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
Só mais 72 horas para Jair pra Papuda?
Por Fernando Castilho
Com o acórdão já publicado e o direito aos embargos
devidamente exercido (e exaurido), será decretado o trânsito em julgado.
Pelo menos pelo crime de tentativa de golpe de Estado, seu
Jair será recolhido à Papuda. Em cela especial, claro, porque a lei exige que
ex-presidentes cumpram pena em segurança. É dever do Estado garantir que ele
não seja assassinado por desafetos. Por isso, a cela será separada, com
ar-condicionado e televisão. Um mimo. Só que o espaço é minúsculo e tem
banheiro interno. Nada de varanda gourmet.
A defesa, então, entrará em ação com laudos médicos que
atestam a necessidade de seu Jair cumprir pena no conforto da residência de
luxo em Brasília, onde já cumpre prisão domiciliar preventiva. Um imóvel
alugado por uma fortuna, com piscina, churrasqueira e, veja só, pago com
dinheiro público.
Mas Moraes, que não é exatamente fã de quem tentou matá-lo,
não costuma fazer concessões. Vai submeter seu Jair ao crivo de uma junta
médica da própria penitenciária. Nada de pareceres encomendados. São os médicos
da Papuda que darão a palavra final.
Se precisa de acompanhamento médico, terá. Se precisa de
medicação, terá. Se precisa de exames, também. Assim como qualquer outro preso.
Ou será que esses direitos não valem para os demais?
Portanto, a menos que os médicos da Papuda confessem que não
têm condições de monitorá-lo, seu Jair ficará por lá mesmo, pois é plenamente
papudável. É o desejo de Moraes e de quem compreende que se trata de um bandido
da mais alta periculosidade que não hesitaria, caso o golpe tivesse sido bem
sucedido, em prender, torturar e matar milhares.
Aliás, ainda há outros crimes a serem enfrentados: o roubo
das joias e, o mais grave, os mais de 400 mil mortos pela recusa em comprar
vacinas durante a pandemia.
terça-feira, 11 de novembro de 2025
O aparecimento do Pceacea Comandus Vermelhatis em nossas águas e o projeto para combatê-lo
Por Fernando Castilho
Enquanto
estamos empenhados em encontrar vida em Marte, aqui mesmo, no fundo do mar,
quanto mais nos aprofundamos, mais formas de vida estranhas encontramos.
Recentemente foi descoberto um ser nas águas mais profundas do Brasil, ao qual
os cientistas deram o nome de Pceacea Comandus Vermelhatis. Trata-se de
uma criatura praticamente sem membros, arredondada, de aspecto gelatinoso e
repulsivo. Possui uma boca enorme, usada não apenas para se alimentar, mas
também para expelir milhares de outros seres pequeninos e venenosos, que mantém
sob seu controle, como se fosse um daqueles fungos que dominam a mente de
outros animais.
Esses
pequenos seres acabam envenenando a vida marinha, não só nas profundezas, mas
também próximas à superfície. Milhares de peixes, com a realidade distorcida
pelas toxinas, dirigem-se voluntariamente para a boca da criatura, que assim
não precisa se esforçar para caçar.
Preocupados
com isso, alguns notáveis da vida marinha, como as baleias, o peixe-espada, o
polvo e o atum, enviaram o tubarão para eliminar o problema. O tubarão atacou
com violência os pequenos seres do Pceacea Comandus Vermelhatis,
tingindo a água ao redor de sangue.
A
criatura percebeu, então, que o tubarão poderia ser perigoso. Chamou-o para uma
conversa e perguntou:
— E
aí? Está conseguindo se alimentar direito?
O
tubarão respondeu:
—
Que nada. Você sabe, tubarões comem o tempo todo. E quando não tem comida, a
coisa fica difícil.
—
Então, eu tenho uma proposta. Todo dia, depois que trouxerem os peixes para eu
comer, separo uma parte para você. Assim, terá comida fácil sem precisar caçar.
— Opa! Assim de graça?
—
Quase. Só um favorzinho. Coisa pequena. Não vai alterar nada do que você já
faz. Pode matar algumas das minhas criaturinhas, sem problema. Mas não mexa
comigo. Garanta o seu.
No
dia seguinte, a criatura expeliu mais uma centena de pequenos seres e tudo
recomeçou. O tubarão os eliminou violentamente. No terceiro dia, a mesma coisa.
Mas o problema continuava.
A
baleia, o peixe-espada, o polvo e o atum chamaram o tubarão e ordenaram que
descesse às profundezas para eliminar o Pceacea Comandus Vermelhatis de
vez.
O tubarão, então, disse:
—
Tenho uma ideia melhor: comprometo-me a matar cem criaturinhas por dia. Assim,
o Pceacea Comandus Vermelhatis vai se enfraquecer pela forme e nós o
venceremos.
Até
hoje, o Pceacea Comandus Vermelhatis continua a fazer vítimas,
alimentando-se muito bem e crescendo cada vez mais. Um dia, se tornará tão
grande que devorará a baleia, o peixe-espada, o polvo, o atum e todo o oceano.
Este
texto é uma paródia e a imagem foi gerada por IA.
Lula voando em céu de brigadeiro
Por Fernando Castilho
Durante a COP 30, em Belém, o ministro do Turismo, Celso
Sabino, prestes a ser expulso do União Brasil por cometer o grave pecado de
permanecer no governo, declarou, com ar messiânico: “Nenhum partido político,
nenhum cargo ou ambição pessoal vai me afastar desse povo que eu amo.” E, num
gesto digno de novela das seis, olhou nos olhos de Lula e disse: “Conte comigo,
onde quer que eu esteja, para lhe apoiar, para segurar na sua mão.” Faltou só a
trilha sonora e os créditos finais.
Outro que resolveu dar uma guinada retórica foi o deputado
Otoni de Paula. Sim, ele mesmo, um dos mais fervorosos defensores de Jair
Bolsonaro, agora faz críticas públicas a Silas Malafaia e à gestão desastrosa
(eufemismo generoso) de Cláudio Castro no Rio de Janeiro. Aos poucos, o pastor
Otoni vai se aproximando de Lula como quem muda de banco na igreja,
discretamente, mas com fé renovada.
E tem mais: o senador Cleitinho, conhecido por suas falas
inflamadas contra o presidente, declarou recentemente que votará a favor de
todos os projetos do governo que beneficiem o povo, como a isenção do Imposto
de Renda. Um gesto nobre, claro, mas que também soa como quem já está ensaiando
o discurso para o novo palanque.
Já o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (também do
União Brasil), resolveu mirar em Eduardo Bolsonaro. Criticou duramente o
deputado por ter atuado junto a Donald Trump para impor tarifas de 50% ao
Brasil. Aparentemente, o nacionalismo econômico bolsonarista tem seus limites,
especialmente quando ameaça o agronegócio.
Cito esses quatro, todos da ala mais à direita do espectro
político, para ilustrar uma tese simples: se até bolsonaristas já ensaiam
passos de dança em direção a Lula, imagine o que os deputados do centrão não
farão para garantir um espacinho no palanque presidencial em 2026.
É pura lógica de sobrevivência: os indicadores econômicos
vão bem, Lula lidera todas as pesquisas, e, a partir do ano que vem,
trabalhadores que ganham até R$ 5 mil mensais verão sua renda aumentar com o
fim da mordida do Imposto de Renda. Subir no palanque com Caiado, Ratinho Jr.,
Zema ou até mesmo Tarcísio, nesse cenário, seria um ato de suicídio político, e
sem bilhete de despedida.
Outro fator que acelera a debandada é a iminente prisão de
Bolsonaro. Não deve acontecer logo após o julgamento dos embargos de
declaração, pois Alexandre de Moraes — sempre adepto do xadrez em vez do pôquer
— pode conceder mais um prazo. Curto. Mas, se a defesa não trouxer nada de
novo, os embargos nem serão recepcionados, e o ex-presidente, alguns dias
depois, será transferido para a Papuda. Hoje, em prisão domiciliar, Bolsonaro
já caiu no esquecimento e, quando for para o regime fechado na Papuda, poucos
darão falta. Nem os pombos da Praça dos Três Poderes.
Como disse Lula: rei morto, rei posto. E o novo rei, ao que
tudo indica, está com a coroa bem ajustada.
Enquanto isso, a extrema-direita, órfã e desorientada,
começa a disputar as roupas do defunto. Em Santa Catarina, a briga é de foice
no escuro. A deputada Carol de Toni tinha a promessa do governador Jorginho
Melo de que seria candidata ao Senado, ao lado de Espiridião Amin. Mas
Jorginho, num gesto clássico do bolsonarismo raiz, rasgou o acordo para atender
à exigência de Bolsonaro: emplacar Carluxo. Sim, ele mesmo, com seu
inconfundível sotaque carioca, como candidato. Como a decisão não pode ser
salomônica, Carol de Toni ameaça deixar o PL. Afinal, Jorginho jamais ousaria
contrariar o clã.
Com o sucesso da COP 30 ofuscando a narrativa golpista que
tentava colar em Lula o rótulo de “defensor de bandido”, restou à
extrema-direita o desespero. Após o enterro do projeto de anistia, agora tentam
aprovar uma aberração legislativa: obrigar meninas estupradas a levar a
gravidez adiante.
Outro sintoma de desespero foi o relator do PL da Segurança
Pública restringir a atuação da Polícia Federal no combate ao crime organizado,
com o claro intuito de preservar seus líderes. Na cabeça desse pessoal, as
polícias militares dos estados devem continuar a sacrificar rapazes de bermuda
e chinelo, enquanto a diretoria segue intocada em mansões com garagens
abarrotadas de carrões esportivos. Porém, há alguns meses, o povo saiu às ruas
e conseguiu derrubar a PEC da Bandidagem. Talvez agora tenha que fazer o mesmo
contra esse projeto absurdo.
Vencida mais essa tentativa de golpe no governo (e será), a
menos que algo absolutamente imponderável aconteça, Lula seguirá até 2026 em
céu de brigadeiro. E, pelo visto, com cada vez mais gente pedindo carona na
cabine.
segunda-feira, 10 de novembro de 2025
O que pensam Sofia e Artur sobre Um Humano Num Pálido Ponto Azul?
Por Fernando Castilho
Pedi para o Gemini criar um diálogo sobre meu livro "Um Humano Num Pálido Ponto Azul", e o resultado foi este:
Sofia:
Terminei o livro do Castilho. É denso, mas fascinante. Fiquei presa na forma
como ele costura as memórias de infância com a história da evolução. Aquele
capítulo sobre o Homo Familiaris me fez pensar: a família mudou mais por
causa da geladeira Consul e do micro-ondas do que por qualquer filosofia.
Artur:
Exatamente. Ele usa a geladeira e o micro-ondas como marcos da
"modernidade líquida" do Bauman. A crítica dele é que a tecnologia,
que deveria nos unir, acabou nos isolando, transformando o jantar familiar em
um encontro silencioso. O contraponto com a avó dele, Dona Ana, fanática por
novelas, é genial para mostrar essa ruptura.
Sofia:
Sim, e a parte sobre o pai, Éros — forte e calado — que chora depois de bater
no filho. Ele transforma uma palmada em uma lição de ética, não pela dor, mas
pela vulnerabilidade que revela. O autor insiste: a ética é aprendida em casa,
não na escola.
Artur:
Esse é o ponto nevrálgico. O livro inteiro é um apelo à responsabilidade
individual. O autor não perdoa. O capítulo Homo Religiosus é o mais
corajoso. A forma como ele desconstrói o medo e o conceito de Paraíso é quase
nietzschiana.
Sofia:
E a crítica à hipocrisia — tanto do padre que expulsa o mendigo quanto dos
pastores da Teologia da Prosperidade... Ele questiona se a fé não está mais a
serviço do poder do que da espiritualidade. A ideia de que a Bíblia é, em
parte, um reflexo das guerras contra assírios e babilônios, criando o
monoteísmo, me fez ver a religião como uma estratégia de sobrevivência.
Artur:
E não se esqueça da parte sobre o aborto. Ele mostra como o tema foi distorcido
pela Igreja, mas, no fundo, a questão é científica: quando a alma se instala no
corpo. O autor nos força a sair do dogma e ir para a razão.
Sofia:
Já o Homo Potens me assustou de verdade. A história da Ford com o modelo
Pinto — o cálculo frio de que era mais barato pagar indenizações pelas mortes
do que consertar o carro. É o cúmulo da ética utilitarista a serviço do lucro.
Aquele memorando é a prova de que o capitalismo, sem controle ético, tem um
lado destrutivo.
Artur:
E a experiência dele na ditadura, quase sendo preso e vendo os falsos
"operários" no camburão... Ele sentiu na pele o que é o Estado se
tornar um Leviatã que, em vez de proteger, te caça. Por isso, a esperança dele
é o salto para o Homo Conscious.
Sofia:
Sim! É a única saída, segundo ele. Ele não acredita em um Deus salvador, mas
numa mutação evolutiva que nos leve para além da razão, rumo à consciência
plena. Se não mudarmos, o fim virá em 20 ou 40 anos — profetizado pelo
desmatamento e pelo crescimento exponencial da população.
Artur:
O pessimismo dele é científico, mas a solução é quase poética. É o Übermensch
de Nietzsche adaptado à biologia. O fim do livro é um chamado à ação: para que
o ser humano use sua inteligência não para acumular e guerrear, mas para salvar
a si mesmo — e o "pálido ponto azul".
O intruso interestelar e a fragilidade das certezas
Por Fernando Castilho
Tenho
uma convicção racionalista e cética sobre quase tudo, e, ao longo dos anos,
venho comprovando o acerto nessa postura.
Porém,
artigos como os do amigo Walter Falceta (A SOPA DO MISTÉRIO: A GENTE AINDA NÃO
SABE NADA SOBRE TUDO, https://www.facebook.com/profile.php?id=1598311744) às vezes têm o poder
de me “corromper”, fazendo-me sentir tentado a trair minhas convicções, tamanha
a força de seus argumentos.
Um
dos assuntos do momento é o aparecimento do cometa 3I/ATLAS em nosso sistema
solar, vindo de uma região distante da galáxia.
Nosso
planeta tem cerca de 4,5 bilhões de anos, mas cientistas, por meio de métodos
rigorosamente científicos, estimam que esse intruso interestelar esteja
viajando há inacreditáveis 7 bilhões de anos. Ou seja, quando a nuvem de poeira
e gás que daria origem ao nosso Sol ainda estava em formação, ele já vagava
pelo Universo, talvez expelido por uma estrela muito mais antiga.
O
3I/ATLAS é o terceiro objeto identificado como vindo de fora do sistema solar.
Antes dele, tivemos o 1I/Oumuamua, em 2017, detectado tardiamente, e o
2I/Borisov, em 2019.
Esses,
no entanto, não foram os únicos “invasores”. Foram apenas os primeiros que
conseguimos identificar, graças ao avanço recente da nossa tecnologia.
Assim
como no caso do Oumuamua, o renomado cientista e professor de Harvard, Avi
Loeb, sugeriu que o 3I/ATLAS poderia ser um objeto artificial, talvez uma sonda
enviada por uma civilização extraterrestre para explorar mundos com potencial
para abrigar vida.
O
comportamento anômalo do cometa alimentou essa especulação. Ele acelerou,
desacelerou e até mudou de trajetória ao longo dos meses em que cruzou nosso
quintal cósmico, contrariando a Primeira Lei de Newton, que afirma que todo
corpo tende a permanecer em repouso ou em movimento retilíneo uniforme, a menos
que uma força externa atue sobre ele.
Como,
então, poderia apresentar tais variações sem uma força atuante?
Já
escrevi, mais de uma vez, que, com base nas gigantescas distâncias entre os
planetas fora do sistema solar e na Teoria da Relatividade Geral de Einstein,
seria impossível que civilizações extraterrestres viajassem até aqui em curto
espaço de tempo.
Para
se ter uma ideia, os planetas mais próximos da Terra, localizados em Alpha
Centauri, estão a cerca de 4 anos-luz de distância. Isso significa que a luz
leva 4 anos para chegar até nós.
Nossas
naves mais modernas levariam cerca de 17 mil anos para alcançar esse destino.
Imagine, então, distâncias ainda maiores.
Se o
3I/ATLAS seja mesmo uma sonda alienígena, a civilização que o construiu teria
realizado uma obra sem sentido prático, pois não viveria para acompanhar os
resultados. Provavelmente, já estaria extinta.
Felizmente,
as observações começaram a trazer respostas.
A
explicação para sua aceleração, desaceleração e mudança de direção é simples:
física pura.
À
medida que o cometa se aproximava do Sol, a enorme atração gravitacional o
acelerou. Após o periélio, o Sol continuou a puxá-lo, mas agora em sentido
contrário, desacelerando-o e alterando sua trajetória.
Além
disso, os gases aprisionados em seu interior, ao serem aquecidos pela
proximidade solar, foram liberados em forma de jatos, contribuindo para
mudanças de direção.
Temos
a tendência de interpretar o desconhecido com base no que conhecemos.
Estamos acostumados ao comportamento dos cometas oriundos da Nuvem de Oort,
resquícios da formação do sistema solar, compostos pelos mesmos elementos que
formaram o Sol.
Mas
um cometa vindo de fora pode ter se formado a partir de gases e poeira de outra
estrela, com composição distinta.
Essas
distinções fazem toda a diferença em relação ao comportamento dos nossos
cometas.
Contudo,
talvez seja a hora de procurar uma atitude mais humilde e dar uma pausa na
rigidez do conhecimento científico cristalizado, pois, o telescópio espacial
James Webb tem revelado inconsistências nas teorias consolidadas sobre a origem
do Universo, enxergando muito além do que julgávamos possível.
À
luz do artigo de Walter Falceta, precisamos voltar a fazer o que sempre
fizemos: sermos curiosos e dar asas à imaginação. Ou, como queiram, baixar um
pouco a bola.
Foi
isso que permitiu o avanço da ciência ao longo dos últimos quatro séculos.
Embora
as viagens espaciais a distâncias gigantescas sejam tecnicamente impossíveis
hoje, a história humana está repleta de impossibilidades vencidas.
O avião, por exemplo, um objeto mais pesado que o ar, conseguiu alçar voo.
Por
isso, não devemos desprezar as hipóteses de Avi Loeb. Ele não é um especulador
qualquer.
Sua
formação sólida lhe permite desconfiar que o 3I/ATLAS possa ser, sim, uma sonda
de outro planeta muito distante, talvez enviada por uma civilização que sonhou
como nós, ao lançarmos duas sondas ao espaço em 1977, que hoje estão a mais de
25 bilhões de quilômetros da Terra: as Voyager I e II.
Apesar
disso, tudo, ainda creio que o 3I/ATLAS seja mesmo um cometa. Diferente dos
nosso, mas, ainda assim, um cometa.
quinta-feira, 6 de novembro de 2025
A última foto
Por Mauro Gouvêa