Por Mauro Gouvêa
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
A máquina emperrada da história (meninos, eu vi!)
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
A fraude institucionalizada contra os aposentados
Por Fernando Castilho
Enquanto
a CPMI das fraudes contra o INSS ainda tenta juntar os cacos e apontar os
culpados que dilapidaram os aposentados, o STF, depois de cinco anos de
conversa fiada, resolveu agir com uma rapidez inédita: pegou a Revisão da Vida
Toda (RVT), amassou e jogou direto na lixeira. Eficiência seletiva, digamos
assim.
A
grande imprensa? Fingiu que não viu. Deu aquele clássico encolher de ombros e
seguiu em frente, como se fosse apenas mais uma terça-feira. Sites
progressistas, salvo raríssimas exceções, preferiram se esconder atrás da sua
covardia habitual. Afinal, perder a boquinha da publicidade estatal seria para
eles um drama maior que o dos aposentados.
E
quando tudo já estava perdido, eis que surge o Uol, com um estagiário de
jornalismo encarregado de cobrir o tema. O rapaz entrevistou quatro aposentados
que sobrevivem com um salário mínimo. O roteiro é sempre o mesmo: com a RVT,
teriam benefícios melhores; sem ela, resta “dar um jeito”. O texto, porém,
parece escrito por uma IA sem alma: zero emoção, zero indignação, zero
humanidade.
Para
fingir equilíbrio, o jovem repórter ainda ouviu uma advogada que nada entende
de previdência, mas que defendeu a decisão do STF. Missão cumprida: parecer
imparcial sem ser. O detalhe é que ele tinha obrigação de ouvir o Ieprev, que
defende os aposentados e poderia trazer informações cruciais. Mas isso, claro,
daria trabalho e poderia desagradar o patrão.
Recapitulando
o enredo: a RVT foi aprovada por unanimidade no STJ. O INSS recorreu, chegou ao
STF, e lá venceu duas vezes: primeiro no plenário virtual, depois no
presencial, ambas por 6 a 5. Havia esperança. Até que apareceu o fantasma de R$
480 bilhões na LDO de 2024 destinado a pagar a ação. O governo, assustado com o
“rombo”, correu para reverter. Lula levou o caso a Barroso, que, num passe de
mágica jurídica, ressuscitou duas ADIs de 1999 que nada tinham a ver com o
assunto. Resultado: aposentados perderam o direito de optar pela regra mais
vantajosa.
A
analogia é cruel: você guarda dinheiro por 20 anos para comprar uma casa. No
dia do saque, em 2045, o banco avisa que todos os depósitos feitos antes de
2035 não valem, pois quebrariam o banco. Simples assim.
O
número de R$ 480 bilhões, claro, é uma farsa. O próprio CNJ, presidido por
Barroso, através de despacho reproduzido ao final do artigo, já havia mostrado
que o custo real seria pouco mais de R$ 10 bilhões em dez anos. Mas quem liga
para fatos quando se pode inflar cifras e assustar a opinião pública?
Pior:
Além de anular o mérito da decisão, a Corte errou ao não modular os efeitos,
medida obrigatória sempre que há mudança de entendimento. O direito adquirido
de quem entrou com a ação de boa-fé deveria ter sido preservado. O novo
entendimento, se fosse aplicado, deveria valer apenas dali em diante. O
resultado foi insegurança jurídica e prejuízo imenso para quem vive com apenas
um salário mínimo, mas por direito deveria receber mais.
Entre
os entrevistados em seu artigo, felizmente ninguém cogitou tirar a própria
vida. No entanto, conheço ao menos uma pessoa nessa situação: sem condições de
continuar trabalhando, sem família para oferecer apoio e ainda obrigada a pagar
aluguel. Como sair dessa situação? Além desse caso, há o de uma senhora de 71
anos que apareceu no chat de um canal da RVT falando que não valia a pena viver
daquele jeito e pensava em se matar (como fizeram muitos aposentados no Chile).
A
maioria dos aposentados já não tem força de trabalho e depende exclusivamente
da aposentadoria para viver. E muitos ainda ajudam filhos e netos.
Enviei
ao jornalista, por e-mail, um convite para aprofundar esse tema e revelar a
injustiça cometida contra cerca de 130 mil aposentados que confiaram no sistema
previdenciário e contribuíram para o crescimento do país. Solicitei que, após
investigação séria, elaborasse um novo artigo, mesmo que desagradasse o
UOL/Folha, que preferem considerar o tema encerrado.
Afinal,
como ele também deve saber, todo jornalista que chega longe já atravessou, em
algum momento da carreira, o seu próprio Rubicão.
domingo, 30 de novembro de 2025
A locomotiva Lula e o centrão descarrilado
Por Fernando Castilho
Antes
de qualquer coisa, vamos aos números, pois eles têm o ótimo hábito de esmagar
discursos inflamados:
- Desemprego: 5,4%, a
menor taxa desde 2012, lá no governo Dilma.
- Inflação: 0,09%, a
mais baixa desde 1998.
- Bolsa: 159 mil
pontos, recorde histórico.
- Dólar: R$ 5,34, bem
longe dos R$ 6,31 que já vimos.
- Exportações do agro:
US$ 15,5 bilhões, mesmo com tarifaço.
- Renda média do trabalhador:
R$ 3057,00, recorde histórico.
Ou
seja, o cenário econômico está tão arrumadinho que desmonta qualquer narrativa
oposicionista. E se isso não basta para o centrão largar o bolsonarismo e
embarcar na locomotiva Lula 2026, tem mais: a isenção do Imposto de Renda para
quem ganha até R$ 5 mil. O governo ainda não capitalizou isso, mas Lula vai
anunciar em rede nacional (até que enfim). Resultado? No ano que vem, corações
e mentes vão migrar rapidinho, porque não é todo dia que um presidente coloca
mais de R$ 4 mil por ano no bolso do trabalhador, o suficiente para trocar de
TV, geladeira ou máquina de lavar.
E aí
fica a pergunta: quem vai querer se arriscar a não se reeleger ficando fora do
palanque de Lula? Os novatos vão mesmo apostar suas fichas em um criminoso já
preso? Ou em figuras tão inexpressivas que mal chegam a dois dígitos nas
pesquisas? Convenhamos: é pedir para perder.
O
agro, por exemplo, já começou a rir à toa. Cada plano safra bate recorde em
relação ao anterior. Nunca ganharam tanto dinheiro. E já perceberam que foi
Lula quem segurou a onda depois da “patriotada” de Eduardo Bolsonaro, que quase
afundou o setor.
Lula
está com a faca e o queijo na mão. Talvez por isso tenha bancado Jorge Messias
no STF, mesmo comprando briga com o todo-poderoso Davi Alcolumbre. Mas se o
mais lógico é embarcar na locomotiva de Lula, por que o centrão insiste em
pressionar o governo e abraçar pautas que só prejudicam a população, a ponto de
ganhar o título de “pior congresso da história” ou “congresso inimigo do povo”?
A
resposta é simples: medo da prisão.
Quando Lula disse em 1993 que a Câmara tinha “mais de 300 picaretas com anel de
doutor”, não imaginava que a frase atravessaria décadas com tanta precisão.
Hoje, pelo menos três operações: Carbono Oculto, Banco Master e Poço de Lobato.
Elas estão desmontando quadrilhas financeiras e prendendo gente graúda. E
adivinha? Tem parlamentar do centrão e do bolsonarismo no meio. Muitos. Tem até
governador. Sem falar nas emendas parlamentares, que já começam a pegar vários
deles pelo colarinho.
No
fim das contas, pressionar o governo virou a estratégia da sobrevivência: ou
Lula os salva, ou a cadeia os espera. Eis o motivo da adesão tímida.
Se
esse é mesmo o pior congresso da história, talvez a depuração em curso torne o
de 2027 um pouco menos vergonhoso. Mas não se iluda: picareta com anel de
doutor é espécie resistente.
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
Oi, pai! Que dia!
Por Rosa Maria Martinelli
Pra quem viveu dentro de casa as consequências de um Golpe
hoje é um dia com sabor especial. Não porque traz alegria (é sempre triste
observar que um país tenha pessoas que queiram romper com democracias) mas pq
um pequeno pedaço se vislumbra de ver algo passado a limpo.
Desde menina ouço as paredes do medo. Numa ditadura é assim.
Cresci com ele (o medo). Todo tempo éramos ameaçados por sermos “daquela
família”.
"Daquela família" era uma gente que procurava o
pai desaparecido, que acordava muito cedo, uma gente que seguia os dias
sentindo que desaguar não era possível e não dava tempo. Uma gente da lida, de
dividir pão com ovo, do olho no olho, do sentimento, das canções camponesas,
das incertezas e dos silêncios.
Aos sábados eu passava em revista feminina com minha mãe.
Era dia de visita a meu pai. Sabem como era a revista? Explico: Você ficava
numa sala com mulheres fardadas que pediam para que abaixasse o shorts, abrisse
as pernas, mostrasse a língua, virasse de costas e agachasse para que olhasse
se nada havia escondido em seu bumbum. O detalhe é que tinha oito anos.
Conheço essa truculência, e isso nunca me fez uma pessoa
melhor, mas fez crescer uma mulher que precisava, quer queira ou não, se
defender. O problema é que sofria por não saber de quem me defender, e isso
sempre me assustava.
Anos enfiando o pé na jaca dos meus degraus mais íngremes da
alma.
Em 2018 com o demente na presidência, adoeci. Ouvir aquela
mula falando todos os dias de maneira grosseira, deselegante e tosca me fez
crer que em quatro anos nada poderia ser pior na vida. Nada pior do que ter um
adorador de torturas como chefe do Estado. NADA!!
A cada absurda manifestação, e depois do hecatombe pandêmico
ao qual deu as costas e foi ali se divertir em motociatas e jet-ski, eu me
voltava para aquela criança que fui... Lembrava dela e da raiva que ela sentia
na revista. E pensava: eu poderia ser uma assassina. Certeza!
Não, certeza não! Sou filha da D. Maria e Sr. Raphael (duas
usinas de amor). Então este plano de perder meu réu primário não ia dar certo.
Sabemos o quão difícil será se libertar dessas figuras
extremistas que ocupam o Congresso, que são os rabichos da maior ignorância
social, política, cultural e os escambal que o Brasil já teve. Lá estão eles
espumando suas narrativas mais esfarrapadas, dignas da série: “PNEU Segunda
Temporada”.
Grudados em seus cargos e em seu Deus que só admite entrada
no paraíso de quem faz parte do clubinho de tiro.
Quanta sanha de lustrarem seus míseros umbigos!
Penso hoje em nomes como Costa e Silva, Medici, Geisel,
Figueiredo. Gente de protagonismo em ditaduras.
Penso nos psicopatas Brilhante Ustra, Sergio Paranhos
Fleury, Capitão Albernaz (torturador do meu pai).
Por falar nisso... Oi pai! Que dia!
A lição que esses nomes deixaram, tão marcada de sangue na
história do país, trouxe o olhar atento da justiça. Uma justiça que dessa vez
estava ali, atenta!
Nada é mais precioso do que ter o direito de se expressar,
de viver as diversidades, sem tabus e sem romper com movimentos conciliatórios.
Hoje é pra observar que a história desenha um roteiro,
muitas vezes enormemente demorado.
Mas aí está.
Criminosos de alta patente finalmente condenados!
Viva a Constituição! Viva o STF!
Anistia é o Kralho!
(Rosa Maria Martinelli é poeta e filha do sindicalista Raphael Martinelli, preso político durante a ditadura)
terça-feira, 25 de novembro de 2025
QUARENTENA NEWS ALCANÇA CEM MIL LEITORES COM POST DE FERNANDO CASTILHO
Por Fernando Castilho
domingo, 23 de novembro de 2025
A tragicomédia da prisão preventiva de Jair Bolsonaro
Por Fernando Castilho
O caso da prisão preventiva de Jair Bolsonaro é tão cheio de
camadas que mais parece uma cebola, porém com caroço. Para não me perder no
labirinto, vamos à cronologia, porque sem ela, ninguém entende essa ópera bufa.
SEXTA-FEIRA, 21
Flávio Bolsonaro grava um vídeo convocando apoiadores para
uma “vigília religiosa” no sábado, em frente ao condomínio de luxo onde o pai
cumpria prisão domiciliar. Vigília religiosa, claro. Porque nada combina mais
com oração do que um ex-presidente tentando serrar uma tornozeleira com ferro
de soldar.
O discurso de Flávio vinha recheado de códigos: “busca ao
Senhor dos Exércitos” (tradução simultânea: apoio dos militares golpistas) e
“luta para resgatar a democracia” (tradução simultânea: resgatar o papai). Era
praticamente um tutorial de conspiração em vídeo.
ENQUANTO ISSO…
Na mesma tarde, Bolsonaro já estava entretido com seu novo
passatempo: romper a tornozeleira. Tentou de tudo, até que apelou para um
aparelho de solda. Sim, solda, dentro da casa alugada pelo PL às custas do
contribuinte. O processo durou horas, até que, às 0h08, a Polícia Militar
recebeu o alerta: tornozeleira danificada.
A MADRUGADA DE MORAES
A PF acorda Alexandre de Moraes: “Ministro, seu Jair está
tentando fugir”. Moraes toma um copo d’água, liga para o PGR Paulo Gonet,
recebe o aval e determina a prisão preventiva. Só poderia ocorrer a partir das
6h. Enquanto isso, sem a toga, de pijama, Moraes redige um documento de 17
páginas fundamentando a decisão.
No texto, determina prisão discreta, sem algemas. Afinal,
nada de espetáculo. Só o suficiente para virar manchete.
SÁBADO, 22
Às 7h, a imprensa divulga. Bolsonaristas correm às redes:
“Perseguição religiosa! Era só uma vigília de oração!”. Senhorinhas com Bíblia
na mão, claro. O detalhe da tornozeleira fritada foi convenientemente omitido.
Nos bastidores, aliados admitem: não há defesa possível. O
vídeo é autoexplicativo e será usado por Lula em 2026. Até vai virar meme. A
candidatura de Flávio, com sua genialidade estratégica, subiu no telhado.
O PLANO MIRABOLANTE
O PÓS-PRISÃO
Bolsonaro passa por exame de corpo de delito e pode alegar
problemas de saúde. Se uma junta médica confirmar, Moraes decide se volta para
prisão domiciliar. Também terá audiência de custódia para verificar condições
da prisão.
Enquanto isso, o prazo para embargos de declaração termina
na segunda, 24. Se não houver novidade, Moraes pode, no jargão jurídico, não
conhecer dos embargos e declarar trânsito em julgado já na terça ou quarta. A
Papuda o aguarda, mesmo que por pouco tempo.
O LEMBRETE
Se eu dissesse que alguém estacionaria um caminhão-tanque carregado
de combustível em frente ao Aeroporto de Brasília para explodir e matar dezenas
de pessoas, você acreditaria? Pois é, isso aconteceu. E só não deu certo porque
o tal “George Washington” errou a mão.
CONCLUSÃO
A prisão preventiva de Jair Bolsonaro não é um detalhe
burocrático, nem um capítulo qualquer da novela política brasileira. É um
alerta vermelho: essa turma já tentou explodir caminhão-tanque em aeroporto, já
tentou invadir a sede da PF, já tentou golpe em praça pública. E não há limite
para quem acredita que democracia é apenas um obstáculo inconveniente.
Se hoje o “curioso da solda” está atrás das grades, amanhã
seus fiéis podem muito bem tentar transformar a sede da PF em palco de resgate
cinematográfico. Portanto, nada de negligenciar. Segurança reforçada!
A diferença é que, desta vez, não haverá “festa da Selma”
para disfarçar. Haverá apenas o registro histórico de que o pior presidente
pós-ditadura militar terminou onde sempre deveria ter estado: sob vigilância,
cercado, e finalmente impedido de brincar de golpista com o destino do país.
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
A lógica fraturada do conservadorismo de almanaque
Por Mauro Gouvêa
O debate público brasileiro tem sido ocupado, há anos, por
um grupo que se autoproclama “liberal conservador”. Por caridade intelectual,
aceitemos provisoriamente a nomenclatura. Suponhamos que essas vozes
compreendam minimamente as tradições políticas que reivindicam: liberalismo,
conservadorismo, capitalismo. Suponhamos, ainda, que tenham lido algo além das
manchetes que reproduzem com fervor religioso. Mesmo sob tais suposições
generosas, o edifício argumentativo dessa direita militante desaba diante de um
olhar atento.
Os discursos se repetem como se fossem retirados de uma
mesma cartilha, um conjunto rígido de palavras de ordem: anticomunistas,
moralistas e ressentidas, que funciona mais como catarse do que como pensamento
político. Ao serem confrontados com fatos ou incoerências, recorrem
imediatamente à velha estratégia descrita por Schopenhauer: insultar para
vencer o debate pela força do grito e não pela consistência da razão. Mas é
possível, e até necessário, observar as contradições internas desse pensamento
performático.
A primeira delas diz respeito ao mercado. O liberal
conservador afirma, com devoção, que o mercado se autorregula e que qualquer
interferência estatal é uma ameaça à liberdade. No entanto, quando crises,
desastres ambientais ou abusos corporativos se tornam incontornáveis, o apelo
pela “responsabilidade individual” do consumidor surge como salvo-conduto para
que empresas façam o que quiserem. Liberdade para os de cima; vigilância e
culpa para os de baixo.
Outra contradição aparece na defesa apaixonada de que
empresas são pessoas, desde que apenas para exercer poder político, financiar
campanhas e defender interesses próprios. Na hora de assumir responsabilidade
civil, criminal ou moral, a metáfora se esvai: corporações deixam de ser
pessoas e voltam a ser abstrações jurídicas.
A mesma lógica se manifesta quando o tema são direitos
trabalhistas e sindicatos. Organizar trabalhadores seria um atentado à ordem
econômica; exigir condições dignas é visto como privilégio. Paradoxalmente,
poucos desses críticos recusam os próprios direitos conquistados, e muitos
continuam a acalentar o sonho do cargo público estável, aquele mesmo que dizem
representar um Estado “inchado”.
No campo moral, a incoerência atinge o ápice. Celebridades
de esquerda são acusadas de oportunismo, enquanto figuras públicas de
comportamento abertamente antidemocrático são celebradas como patriotas. A
liberdade religiosa é defendida como princípio absoluto, contanto que se limite
às confissões que reforçam a ordem conservadora. Quando minorias religiosas
reivindicam os mesmos direitos, o discurso muda: “isso deveria ser proibido”.
No terreno econômico, o duplo padrão se torna ainda mais
evidente. Programas sociais voltados à população pobre são catalogados como
“socialismo destrutivo”, enquanto salvamentos bilionários de bancos são
descritos como “medidas responsáveis” para preservar a economia. O moralismo
vale, desde que não atrapalhe as prioridades do capital.
Por fim, o debate institucional. A crítica ao chamado
“ativismo judicial” é constante, mas apenas quando decisões judiciais
contrariam interesses específicos. Quando um juiz de instância inferior
extrapola seus limites constitucionais para atender a determinada agenda, ele é
celebrado como herói nacional. Não é o respeito às instituições que importa,
mas o alinhamento à narrativa do dia.
O que emerge dessas contradições não é um pensamento
conservador clássico, coerente, enraizado em tradições filosóficas e preocupado
com a preservação de instituições. O que temos é um fenômeno político
emocional, reativo, profundamente marcado pelo medo e pelo ressentimento. Não
se trata de conservar nada: trata-se de defender privilégios, atacar
adversários e manter intacto o mundo tal como ele é para alguns poucos.
A política, nesse registro, deixa de ser debate e se torna
performance. A razão dá lugar ao slogan; a reflexão cede ao automatismo; a
democracia se fragiliza diante do moralismo agressivo transformado em arma
retórica. Em vez de produzir soluções, produz culpados. Em vez de complexidade,
oferece caricaturas. Em vez de futuro, repete um passado idealizado que nunca
existiu.
O país, porém, precisa de algo maior do que cartilhas e
espantalhos. Precisa de coragem intelectual para reconhecer contradições,
revisar crenças, buscar diálogo e construir políticas que respondam às
desigualdades reais e não aos fantasmas produzidos pelo medo. Enquanto isso não
acontecer, seguiremos condenados a esse debate truncado, em que a retórica da
força substitui a força dos argumentos.
segunda-feira, 17 de novembro de 2025
Por que tem que ser Papuda?
Por Fernando Castilho
Foto: Reprodução
Nos últimos meses, a grande imprensa, sempre obediente ao
mercado financeiro, vem tentando naturalizar a corações e mentes de que Jair
Bolsonaro merece a suavidade de uma prisão domiciliar. Até setores ditos
“progressistas” já se renderam a essa cantilena em seus canais de YouTube.
Ora, a mera possibilidade (não o fato) de que o capitão
esteja com problemas de saúde não o torna automaticamente inapto a cumprir pena
em regime fechado na Papuda. Afinal, a penitenciária tem hospital próprio,
justamente porque o Estado é responsável pela saúde dos detentos. E não faltam
exemplos de presos com doenças graves que continuam atrás das grades, sem
direito a suíte VIP.
A menos que seu Jair esteja em estado terminal e precise ser
operado novamente no DF Star, hospital cinco estrelas para milionários, não há
justificativa para que não seja tratado na Papuda. Lá, ele terá atendimento
médico adequado. O resto é chororô.
E não, não vale alegar que o estresse exige que ele cumpra
pena na mansão de Angra, embalado pela brisa marítima e pela vista relaxante.
Se fosse assim, metade da população carcerária deveria estar em resorts.
Convém lembrar: Bolsonaro não foi condenado por uma
travessura qualquer, mas por um dos crimes mais graves previstos na
Constituição. Resultado? 27 anos de cadeia, uma pena à altura da gravidade do
ato. E cadeia é cadeia: deve ser tratado como qualquer outro preso, ainda que
os demais estejam lá por delitos bem menos monstruosos.
A lei garante segurança a ex-presidentes. Isso significa
cela especial, separada dos demais. Ponto. Mas não significa mordomias como TV,
ar-condicionado ou menu gourmet. A distinção é de segurança, não de conforto.
O problema é que nosso Judiciário tem histórico de aliviar
para os poderosos, como fez com Collor, e de aplicar mão de ferro contra os
pobres, pretos e vulneráveis, como acabou de fazer com os aposentados da
Revisão da Vida Toda. Assim, não seria surpresa se Bolsonaro recebesse
tratamento diferenciado. Um criminoso que, se tivesse tido sucesso em sua
tentativa de golpe, teria não apenas eliminado Alexandre de Moraes, mas fechado
o Supremo Tribunal e encarcerado seus ministros.
Em resumo: Papuda não é castigo extra. É apenas o lugar
certo para quem tentou rasgar a democracia e impor a volta dos anos de chumbo.
quarta-feira, 12 de novembro de 2025
Só mais 72 horas para Jair pra Papuda?
Por Fernando Castilho
Com o acórdão já publicado e o direito aos embargos
devidamente exercido (e exaurido), será decretado o trânsito em julgado.
Pelo menos pelo crime de tentativa de golpe de Estado, seu
Jair será recolhido à Papuda. Em cela especial, claro, porque a lei exige que
ex-presidentes cumpram pena em segurança. É dever do Estado garantir que ele
não seja assassinado por desafetos. Por isso, a cela será separada, com
ar-condicionado e televisão. Um mimo. Só que o espaço é minúsculo e tem
banheiro interno. Nada de varanda gourmet.
A defesa, então, entrará em ação com laudos médicos que
atestam a necessidade de seu Jair cumprir pena no conforto da residência de
luxo em Brasília, onde já cumpre prisão domiciliar preventiva. Um imóvel
alugado por uma fortuna, com piscina, churrasqueira e, veja só, pago com
dinheiro público.
Mas Moraes, que não é exatamente fã de quem tentou matá-lo,
não costuma fazer concessões. Vai submeter seu Jair ao crivo de uma junta
médica da própria penitenciária. Nada de pareceres encomendados. São os médicos
da Papuda que darão a palavra final.
Se precisa de acompanhamento médico, terá. Se precisa de
medicação, terá. Se precisa de exames, também. Assim como qualquer outro preso.
Ou será que esses direitos não valem para os demais?
Portanto, a menos que os médicos da Papuda confessem que não
têm condições de monitorá-lo, seu Jair ficará por lá mesmo, pois é plenamente
papudável. É o desejo de Moraes e de quem compreende que se trata de um bandido
da mais alta periculosidade que não hesitaria, caso o golpe tivesse sido bem
sucedido, em prender, torturar e matar milhares.
Aliás, ainda há outros crimes a serem enfrentados: o roubo
das joias e, o mais grave, os mais de 400 mil mortos pela recusa em comprar
vacinas durante a pandemia.
terça-feira, 11 de novembro de 2025
O aparecimento do Pceacea Comandus Vermelhatis em nossas águas e o projeto para combatê-lo
Por Fernando Castilho
Enquanto
estamos empenhados em encontrar vida em Marte, aqui mesmo, no fundo do mar,
quanto mais nos aprofundamos, mais formas de vida estranhas encontramos.
Recentemente foi descoberto um ser nas águas mais profundas do Brasil, ao qual
os cientistas deram o nome de Pceacea Comandus Vermelhatis. Trata-se de
uma criatura praticamente sem membros, arredondada, de aspecto gelatinoso e
repulsivo. Possui uma boca enorme, usada não apenas para se alimentar, mas
também para expelir milhares de outros seres pequeninos e venenosos, que mantém
sob seu controle, como se fosse um daqueles fungos que dominam a mente de
outros animais.
Esses
pequenos seres acabam envenenando a vida marinha, não só nas profundezas, mas
também próximas à superfície. Milhares de peixes, com a realidade distorcida
pelas toxinas, dirigem-se voluntariamente para a boca da criatura, que assim
não precisa se esforçar para caçar.
Preocupados
com isso, alguns notáveis da vida marinha, como as baleias, o peixe-espada, o
polvo e o atum, enviaram o tubarão para eliminar o problema. O tubarão atacou
com violência os pequenos seres do Pceacea Comandus Vermelhatis,
tingindo a água ao redor de sangue.
A
criatura percebeu, então, que o tubarão poderia ser perigoso. Chamou-o para uma
conversa e perguntou:
— E
aí? Está conseguindo se alimentar direito?
O
tubarão respondeu:
—
Que nada. Você sabe, tubarões comem o tempo todo. E quando não tem comida, a
coisa fica difícil.
—
Então, eu tenho uma proposta. Todo dia, depois que trouxerem os peixes para eu
comer, separo uma parte para você. Assim, terá comida fácil sem precisar caçar.
— Opa! Assim de graça?
—
Quase. Só um favorzinho. Coisa pequena. Não vai alterar nada do que você já
faz. Pode matar algumas das minhas criaturinhas, sem problema. Mas não mexa
comigo. Garanta o seu.
No
dia seguinte, a criatura expeliu mais uma centena de pequenos seres e tudo
recomeçou. O tubarão os eliminou violentamente. No terceiro dia, a mesma coisa.
Mas o problema continuava.
A
baleia, o peixe-espada, o polvo e o atum chamaram o tubarão e ordenaram que
descesse às profundezas para eliminar o Pceacea Comandus Vermelhatis de
vez.
O tubarão, então, disse:
—
Tenho uma ideia melhor: comprometo-me a matar cem criaturinhas por dia. Assim,
o Pceacea Comandus Vermelhatis vai se enfraquecer pela forme e nós o
venceremos.
Até
hoje, o Pceacea Comandus Vermelhatis continua a fazer vítimas,
alimentando-se muito bem e crescendo cada vez mais. Um dia, se tornará tão
grande que devorará a baleia, o peixe-espada, o polvo, o atum e todo o oceano.
Este
texto é uma paródia e a imagem foi gerada por IA.