Por Fernando Castilho
Todo
começo de ano é a mesma coisa: videntes e astrólogos se revezam em
adivinhações. A maioria prefere “arriscar” prevendo que um artista famoso vai
morrer. E, lógico, infelizmente temos um bom número de longevos candidatos a
nos deixar.
Mas,
longe de me arvorar em pitonisa, há no campo político possibilidades que
requerem análises sérias.
Em
2026, o Brasil voltará a viver um momento decisivo. A eleição presidencial não
será apenas uma disputa entre nomes, mas um pleito que colocará em jogo o
sentido do ciclo político iniciado com a redemocratização, interrompido em 2016
e reconfigurado após 2022. Lula, candidato à reeleição, estará no centro desse
processo, seja vencendo, seja perdendo.
Diante
disso, há três cenários possíveis: Lula perde a eleição, Lula vence a eleição e
Lula faz seu sucessor em 2030.
Se
Lula perder a eleição, o que ocorrerá com o país dependerá menos dele e mais de
quem o substituir. Uma derrota diante de um candidato da direita democrática
institucional representaria uma alternância de poder típica das democracias
liberais. Nesse cenário, o Brasil tenderia a manter a estabilidade
institucional, com respeito às regras do jogo, mas passaria por uma
reorientação econômica mais restritiva, marcada por ajuste fiscal, contenção de
políticas redistributivas e maior sintonia com o mercado financeiro. O conflito
social não desapareceria; ao contrário, sindicatos e movimentos populares
reagiriam a eventuais cortes, produzindo um ambiente de tensão controlada,
porém constante. Contudo, não se vê no horizonte esse candidato, que seria
chamado de terceira via.
Muito
mais preocupante seria a derrota de Lula para um campo político de viés
autoritário ou populista radical: o
bolsonarismo, mesmo que travestido de moderado para enganar mais uma vez os
incautos. Nesse caso, o país poderia voltar a conviver com ataques sistemáticos
às instituições, especialmente ao Supremo Tribunal Federal, à imprensa e aos
mecanismos de controle. A polarização entre quem defende a democracia e quem
quer destruí-la se intensificaria, e o Brasil correria novamente o risco de
isolamento internacional, sobretudo em temas ambientais e de direitos humanos.
O perigo maior, nesse cenário, não seria uma crise econômica imediata, mas a
corrosão progressiva da democracia liberal.
É
preciso considerar ainda que essa corrosão pode ocorrer como uma verdadeira
ruptura, ou seja, a continuidade da tentativa de golpe, agora legitimada pelas
urnas. Qualquer um que derrote Lula, dentro de um espectro que vai de Flávio
Bolsonaro a Tarcísio, Zema, Caiado ou Ratinho, se prestaria a esse papel. O
retrocesso, após quatro anos de recuperação do país frente aos estragos
causados por Jair Bolsonaro, seria inevitável. E, lógico, nesse combo ainda
estaria uma anistia ao genocida.
Em
qualquer hipótese de derrota, Lula não desapareceria da cena política.
Tornar-se-ia o principal líder da oposição, uma espécie de fiador simbólico da
ordem democrática, tentando preservar seu legado e, ao mesmo tempo, organizar o
campo progressista para o futuro. Ainda assim, uma derrota em 2026 marcaria o
início inequívoco do declínio do lulismo como liderança pessoal, mesmo que o
projeto político sobrevivesse.
Se,
por outro lado, Lula vencer a eleição de 2026, o significado político será
profundo. Ele consolidaria um ciclo histórico raro, tornando-se o presidente
mais longevo da República e uma figura comparável, em termos de duração e
influência, a Getúlio Vargas. Essa vitória representaria não apenas um triunfo
eleitoral, mas uma confirmação de que o campo democrático conseguiu resistir às
investidas autoritárias do período anterior.
Ainda
assim, um eventual quarto mandato não seria um governo de grandes rupturas. As
restrições fiscais, a fragmentação do Congresso e o desgaste natural do tempo
imporiam limites claros à ação governamental. Lula tenderia a governar
administrando o possível: aprofundando políticas sociais dentro das margens
disponíveis, reforçando o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, mas
evitando confrontos que pudessem gerar instabilidade. O fim da escala 6 x 1
seria a grande marca de um governo que a grande imprensa se esforça para
caracterizar como ausente de marcas. Do ponto de vista institucional, haveria
um ambiente de maior previsibilidade, com fortalecimento do STF e redução
significativa do risco de aventuras golpistas.
Uma
vitória em 2026 também abriria, de forma explícita, a questão da sucessão em
2030. Lula não poderá concorrer novamente, e o país entrará inevitavelmente no
debate sobre o pós-Lula. Nesse ponto, sua decisão será estratégica. Ele tenderá
a buscar um sucessor que combine lealdade política, capacidade de diálogo com o
centro e menor grau de polarização. A prevalecer esse cenário, surgem dois
nomes possíveis: Geraldo Alckmin e Simone Tebet. Se em 2026 Alckmin e Tebet
concorrerem e se elegerem governadores em seus estados, a depender do sucesso
de suas administrações, podem surgir fortalecidos para 2030. Pode-se incluir
nessa pequena lista Fernando Haddad, desde que ele comece a demonstrar maior
traquejo político. Um nome excessivamente ideológico poderia preservar a
identidade histórica do PT, mas teria mais dificuldade eleitoral. Um nome mais
moderado, técnico-político, poderia ampliar alianças e garantir
competitividade, ainda que ao custo de diluir parte do lulismo clássico. Há
também a possibilidade de Lula apoiar alguém da esquerda fora do PT, desde que
comprometido com uma frente ampla democrática e com a preservação de seu
legado. Nesse caso, pode surgir Guilherme Boulos, que, no cargo de ministro,
parece estar sendo preparado por Lula para obter experiência administrativa.
O
dilema é evidente: indicar alguém fraco pode levar à derrota; indicar alguém
forte demais pode significar perder o controle sobre o legado político; não
indicar claramente pode fragmentar o campo progressista. Historicamente, Lula
prefere controlar a sucessão, mas a história mostra que nenhuma sucessão é
plenamente controlável.
Em
síntese, 2026 será menos sobre Lula individualmente e mais sobre o destino do
ciclo político que ele simboliza. Se perder, o Brasil poderá voltar a viver
momentos tensos de ameaça institucional. Se vencer, o país tende a atravessar
um período de estabilidade democrática e transição, preparando-se para um
cenário inevitável: o fim do lulismo como liderança pessoal em 2030, ainda que
suas ideias continuem a disputar o futuro político do Brasil e o avanço nas
políticas que reduzirão a desigualdade e colocarão o país no grupo restrito das
maiores economias do mundo.