sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A cigana leu o destino do Brasil?

Por Fernando Castilho



Todo começo de ano é a mesma coisa: videntes e astrólogos se revezam em adivinhações. A maioria prefere “arriscar” prevendo que um artista famoso vai morrer. E, lógico, infelizmente temos um bom número de longevos candidatos a nos deixar.

Mas, longe de me arvorar em pitonisa, há no campo político possibilidades que requerem análises sérias.

Em 2026, o Brasil voltará a viver um momento decisivo. A eleição presidencial não será apenas uma disputa entre nomes, mas um pleito que colocará em jogo o sentido do ciclo político iniciado com a redemocratização, interrompido em 2016 e reconfigurado após 2022. Lula, candidato à reeleição, estará no centro desse processo, seja vencendo, seja perdendo.

Diante disso, há três cenários possíveis: Lula perde a eleição, Lula vence a eleição e Lula faz seu sucessor em 2030.

Se Lula perder a eleição, o que ocorrerá com o país dependerá menos dele e mais de quem o substituir. Uma derrota diante de um candidato da direita democrática institucional representaria uma alternância de poder típica das democracias liberais. Nesse cenário, o Brasil tenderia a manter a estabilidade institucional, com respeito às regras do jogo, mas passaria por uma reorientação econômica mais restritiva, marcada por ajuste fiscal, contenção de políticas redistributivas e maior sintonia com o mercado financeiro. O conflito social não desapareceria; ao contrário, sindicatos e movimentos populares reagiriam a eventuais cortes, produzindo um ambiente de tensão controlada, porém constante. Contudo, não se vê no horizonte esse candidato, que seria chamado de terceira via.

Muito mais preocupante seria a derrota de Lula para um campo político de viés autoritário ou populista radical:  o bolsonarismo, mesmo que travestido de moderado para enganar mais uma vez os incautos. Nesse caso, o país poderia voltar a conviver com ataques sistemáticos às instituições, especialmente ao Supremo Tribunal Federal, à imprensa e aos mecanismos de controle. A polarização entre quem defende a democracia e quem quer destruí-la se intensificaria, e o Brasil correria novamente o risco de isolamento internacional, sobretudo em temas ambientais e de direitos humanos. O perigo maior, nesse cenário, não seria uma crise econômica imediata, mas a corrosão progressiva da democracia liberal.

É preciso considerar ainda que essa corrosão pode ocorrer como uma verdadeira ruptura, ou seja, a continuidade da tentativa de golpe, agora legitimada pelas urnas. Qualquer um que derrote Lula, dentro de um espectro que vai de Flávio Bolsonaro a Tarcísio, Zema, Caiado ou Ratinho, se prestaria a esse papel. O retrocesso, após quatro anos de recuperação do país frente aos estragos causados por Jair Bolsonaro, seria inevitável. E, lógico, nesse combo ainda estaria uma anistia ao genocida.

Em qualquer hipótese de derrota, Lula não desapareceria da cena política. Tornar-se-ia o principal líder da oposição, uma espécie de fiador simbólico da ordem democrática, tentando preservar seu legado e, ao mesmo tempo, organizar o campo progressista para o futuro. Ainda assim, uma derrota em 2026 marcaria o início inequívoco do declínio do lulismo como liderança pessoal, mesmo que o projeto político sobrevivesse.

Se, por outro lado, Lula vencer a eleição de 2026, o significado político será profundo. Ele consolidaria um ciclo histórico raro, tornando-se o presidente mais longevo da República e uma figura comparável, em termos de duração e influência, a Getúlio Vargas. Essa vitória representaria não apenas um triunfo eleitoral, mas uma confirmação de que o campo democrático conseguiu resistir às investidas autoritárias do período anterior.

Ainda assim, um eventual quarto mandato não seria um governo de grandes rupturas. As restrições fiscais, a fragmentação do Congresso e o desgaste natural do tempo imporiam limites claros à ação governamental. Lula tenderia a governar administrando o possível: aprofundando políticas sociais dentro das margens disponíveis, reforçando o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, mas evitando confrontos que pudessem gerar instabilidade. O fim da escala 6 x 1 seria a grande marca de um governo que a grande imprensa se esforça para caracterizar como ausente de marcas. Do ponto de vista institucional, haveria um ambiente de maior previsibilidade, com fortalecimento do STF e redução significativa do risco de aventuras golpistas.

Uma vitória em 2026 também abriria, de forma explícita, a questão da sucessão em 2030. Lula não poderá concorrer novamente, e o país entrará inevitavelmente no debate sobre o pós-Lula. Nesse ponto, sua decisão será estratégica. Ele tenderá a buscar um sucessor que combine lealdade política, capacidade de diálogo com o centro e menor grau de polarização. A prevalecer esse cenário, surgem dois nomes possíveis: Geraldo Alckmin e Simone Tebet. Se em 2026 Alckmin e Tebet concorrerem e se elegerem governadores em seus estados, a depender do sucesso de suas administrações, podem surgir fortalecidos para 2030. Pode-se incluir nessa pequena lista Fernando Haddad, desde que ele comece a demonstrar maior traquejo político. Um nome excessivamente ideológico poderia preservar a identidade histórica do PT, mas teria mais dificuldade eleitoral. Um nome mais moderado, técnico-político, poderia ampliar alianças e garantir competitividade, ainda que ao custo de diluir parte do lulismo clássico. Há também a possibilidade de Lula apoiar alguém da esquerda fora do PT, desde que comprometido com uma frente ampla democrática e com a preservação de seu legado. Nesse caso, pode surgir Guilherme Boulos, que, no cargo de ministro, parece estar sendo preparado por Lula para obter experiência administrativa.

O dilema é evidente: indicar alguém fraco pode levar à derrota; indicar alguém forte demais pode significar perder o controle sobre o legado político; não indicar claramente pode fragmentar o campo progressista. Historicamente, Lula prefere controlar a sucessão, mas a história mostra que nenhuma sucessão é plenamente controlável.

Em síntese, 2026 será menos sobre Lula individualmente e mais sobre o destino do ciclo político que ele simboliza. Se perder, o Brasil poderá voltar a viver momentos tensos de ameaça institucional. Se vencer, o país tende a atravessar um período de estabilidade democrática e transição, preparando-se para um cenário inevitável: o fim do lulismo como liderança pessoal em 2030, ainda que suas ideias continuem a disputar o futuro político do Brasil e o avanço nas políticas que reduzirão a desigualdade e colocarão o país no grupo restrito das maiores economias do mundo.