sábado, 28 de fevereiro de 2026

A fraude dentro da fraude do INSS

Por Fernando Castilho



O que ocorreu na quinta-feira, 26, na CPMI do INSS na Câmara dos Deputados foi, sem rodeios, um crime.

Primeiro, vamos esclarecer: Lulinha já havia quebrado seus sigilos por conta própria. E a Polícia Federal já tem os resultados. Portanto, votar a quebra de sigilo só tem dois objetivos: lacrar nas redes sociais e tentar atingir Lula em uma campanha que nem começou. É puro espetáculo de gente desonesta.

Mas sigamos. O presidente da CPMI, senador Carlos Viana, bolsonarista raiz, decidiu colocar em votação o requerimento da quebra de sigilo. Cumprindo o regimento, fez a clássica votação simbólica: quem fosse a favor permanecia sentado, quem fosse contra se levantava. Até aí, tudo certo. Também acertou ao afirmar que suplentes não poderiam votar.

O problema veio na contagem. Havia 14 parlamentares em pé. Viana, num passe de mágica, contou apenas 7. Golpe explícito. Naturalmente, os governistas se insurgiram, gerando tumulto. Não vou aqui medir quem foi mais agressivo, mas a cena foi digna de circo.

Depois, os governistas apresentaram fotos comprovando que havia mesmo 14 votos contrários, não 7. Levaram o caso a Davi Alcolumbre, presidente do Congresso, para que ele atuasse como um “VAR” e anulasse a votação. Mas, como é comum nas instituições da República, decisões não são tomadas de bate-pronto. Pode ser que Alcolumbre determine uma investigação para um fato que, convenhamos, é simples e autoexplicativo. É pegar a foto e decidir.

Viana, tentando colar a vidraça quebrada com fita crepe, deu entrevistas afirmando que seriam necessários 16 votos. Uma pegadinha: esses 16 votos seriam para anular a votação fraudulenta anterior. Desonesto e criminoso. O que vale são os 14 votos na hora da votação. Ponto.

E o crime não parou aí. O mesmo Viana que foi zeloso em proibir votos de suplentes, permitiu que eles votassem a favor do requerimento. Resultado: havia apenas 7 parlamentares da oposição sentados e 3 suplentes. Ele somou 10 votos a favor, contra 7 contrários. Pronto, fabricou a “maioria”.

Se Alcolumbre não decidir a favor dos governistas, a questão será judicializada. A depender de onde cair, plenário ou turmas, o resultado muda. Se cair na Segunda Turma, pode ser que a fraude se oficialize.

Mas, independentemente da decisão, fica a pergunta: como fica a situação de Carlos Viana? Ele poderá continuar à frente da CPMI? E o relator, outro bolsonarista raiz, que comemorou o resultado fraudulento? Os nomes dos dois constam no documento escrito à mão por Flávio Bolsonaro, divulgado pela Folha. Ambos pleiteiam posições dentro do PL para se juntar à campanha de Flávio. Não deveriam ser declarados suspeitos ou impedidos? E, se isso acontecer, será que, no afã de agradar o mito, deram um tiro no pé?

De qualquer forma, o que vimos foi uma máscara cair. Por trás da imagem de impolutos deputados e senadores da oposição empenhados em descobrir quem foram os responsáveis pela fraude no INSS, há, pura e simplesmente, uma turba de gente buscando desesperadamente alguma forma de atingir Lula para que ele não vença as eleições. Vale, para isso, ressuscitar a velha Geni, o Lulinha que já foi acusado de ser dono da Friboi e de possui propriedades incompatíveis com seus rendimentos. Enquanto isso, a imprensa se cala diante do fato de Flávio Bolsonaro ser dono de uma mansão em Brasília que vale seguramente mais de 15 milhões de reais, valor totalmente incompatível com seu salário de senador.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

As doenças oportunistas que atacam um STF debilitado

Por Fernando Castilho



Quando surgiram os indícios da ligação de Dias Toffoli com o Banco Master, escrevi: “a única saída é a renúncia”. Mas, claro, muitos correram para defendê-lo, como se fosse um santo injustiçado. O problema é que Toffoli não é santo, é reincidente. Ao não largar a relatoria logo no início, deixou o STF tão vulnerável que virou praticamente um paciente imunossuprimido, pronto para ser atacado por qualquer “doença oportunista” que queira controlá-lo.

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro, ainda sem a faixa de candidato oficial, já dava spoiler do roteiro: quem concorrer terá que prometer anistiar o pai. E se o Supremo ousar dizer que não pode? Ora, simples: chama-se o Exército. Democracia, para eles, é como guarda-chuva: só serve quando não atrapalha.

A imprensa, por sua vez, tentou vender Tarcísio de Freitas como “bolsonarista moderado” — uma espécie de Bolsonaro que não faz sujeira quando come. Mas Tarcísio preferiu o conforto do governo estadual. Resultado: sobrou Flávio, o herdeiro das rachadinhas, das condecorações a milicianos e da genial ideia de privatizar praias, que o deixaria ainda mais rico do que já é.

Agora, como candidato, Flávio promete continuar o governo do pai e desmontar programas sociais. Se vier outra pandemia, já sabemos: cloroquina, rezas e “cada um por si”. Afinal, ele também não é coveiro. E se eleito, vai usar a força para tirar Jair da cadeia e colocá-lo como chefe de gabinete. Traduzindo: teremos Jair governando de novo, só que com ainda mais rancor acumulado.

O risco para a imprensa é gigantesco. Mas por que correr esse risco? Talvez porque o celular de Daniel Vorcaro esconda segredos que atingem caciques da mídia e políticos do centrão à extrema-direita. Um strike no STF poderia evitar que tudo isso viesse à tona. E flertar com Flávio, neste momento, faz parte do combo.

Importante destacar também como Alexandre de Moraes, antes celebrado como defensor da democracia, virou vilão corrupto da pior espécie. Tudo porque sua esposa teria fechado um contrato milionário com o Banco Master — ainda sem provas. E mesmo se provado, não havia escândalo: Moraes não tinha conflito de interesses com Vorcaro. Mas se conseguirem o impeachment, o caminho para a volta de Jair Bolsonaro estará escancarado.

O combo inclui ainda a cruzada da imprensa contra Lula. As armadilhas já começaram: na Índia, tentaram fazê-lo escorregar em perguntas sobre carnaval e sobre supostos acordos com Trump. Lula, irritado, respondeu com firmeza, mostrando que as cascas de banana precisam ser mais bem elaboradas. O jogo é claro: atacar Lula e atacar o STF, em duas frentes simultâneas.

E não pense que só a mídia hegemônica joga esse jogo. Parte da imprensa de esquerda também se presta ao papel de desestabilizar o Supremo, seja por vaidade, seja por conveniência. Como juristas renomados não embarcam na narrativa de “crime eleitoral” de Lula, recorrem a advogados de ocasião, ávidos por aparecer na tela.

Até outubro, a guerra será brutal. O que está em jogo é simples: ou a continuidade dos avanços sociais e da recuperação econômica, ou um golpe travestido de eleição. A grande arma de Lula é a comunicação — que ainda não achou o tom certo. Se conseguir, poderá expor a ausência de projetos do adversário, cujo telhado de vidro é tão fino que talvez nem aguente até o fim da campanha.

E aí, o consórcio grande imprensa–extrema-direita–Faria Lima–crime organizado poderá sofrer um revés que não estava nos planos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Areia movediça no sambódromo

Por Fernando Castilho




“É um terreno de areia movediça”, advertiu a presidente do TSE, Carmen Lúcia, sobre o desfile da escola de samba que pretende homenagear Lula no carnaval. Tradução livre: cuidado, porque basta um passista levantar o braço errado e pronto: crime eleitoral na avenida.

O ministro André Mendonça já anunciou seu papel: espectador de sofá, lupa em punho, pronto para transformar qualquer gesto em infração.

Até a quinta-feira, eu achava a homenagem inofensiva. Mas, convenhamos, Lula não pode nada. Não pode tomar uma cachaça, não pode viajar, não pode se hospedar em hotéis, não podia trocar avião presidencial (mesmo que o antigo fosse praticamente um caixão voador), não pôde comparecer ao velório do irmão. E, claro, não pode ser homenageado. No Brasil, Lula respirar já é ato político.

Se a oposição correu ao TSE antes do desfile para tentar criminalizá-lo, imaginem depois. A escola promete cuidados extremos: nada de “L” com as mãos, nada de número 13, nada de camiseta vermelha. Mas quem garante? Basta um passista afoito ou um infiltrado bolsonarista para transformar o carnaval em processo de inelegibilidade. Afinal, quem disse que todos os integrantes da escola são lulistas?

Lula lidera as pesquisas. Com o portfólio de feitos em três anos, comunicar bem o que já fez é praticamente sua única tarefa para se reeleger. Ninguém o alcança. Nem Flávio “Rachadinha”, que jura que seu programa de governo é dar continuidade à obra do pai. Sabemos bem qual foi a obra. A extrema-direita sabe que tem pouquíssimas chances. Por isso, só existem duas formas de derrotá-lo: ou ele morre, ou é declarado inelegível. E alguém duvida que vão investir pesado nessa segunda opção? Sem prejuízo da primeira, se o desespero falar mais alto?

E não esqueçamos: Janja. Muitos dizem que ela não tem cargo no governo, logo poderia desfilar livremente. Ingenuidade. Ela é o maior símbolo de Lula, justamente por ser sua esposa. E isso, claro, será judicializado. Afinal, estamos falando de uma corte que absolveu por unanimidade o senador Jorge Seif, mesmo diante de fotos, vídeos e e-mails trocados com Luciano Hang. O ministro Nunes Marques chegou a dizer que, mesmo com essas provas, não via “indícios de abuso econômico”. Que o digam os demais candidatos que não obtiveram a mesma ajuda. Pois é, indícios demais podem atrapalhar.

Alguns sugerem que Lula não compareça ao desfile. Ótimo, mas isso não resolve nada: a escola desfilará de qualquer forma. O correto seria cancelar o desfile. Mas já é tarde. Ele vai acontecer.

E acontecerá no contexto em que Lula, num discurso recente, afirmou que essa eleição será uma guerra. Pois bem, talvez ele devesse levar suas próprias palavras mais a sério.

Resta torcer para que o carnaval não vire tribunal. Porque, convenhamos, seria um tropeço tão previsível quanto evitável. E se acontecer, não será samba-enredo. Será marcha fúnebre da democracia, com direito a tamborim, mas sem alegria.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Golpista tentando golpe em golpista

Por Fernando Castilho



Flávio Rachadinha até que tentou.
O plano era simples, quase ingênuo: empurrar Nikolas Ferreira para uma candidatura ao governo de Minas Gerais. De quebra, todos já sabiam que ele não daria conta do recado, o que enterraria qualquer pretensão presidencial em 2030, abrindo espaço para alguém do clã. Provavelmente o próprio autor da ideia.

Nikolas, porém, não caiu no golpe. Não por sagacidade política ou visão estratégica. Declarou-se apenas “ainda inexperiente” para um cargo dessa envergadura. Prudente, sem dúvida. Afinal, assumir um estado falido, atolado em dívidas deixadas por Romeu Zema, um gestor tão brilhante que não conseguiria administrar nem um galinheiro, não é tarefa para principiantes. Minas tem obras paradas à espera de recursos, hospitais e escolas em crise, serviços públicos em frangalhos. Literalmente, os buracos são fundos. E, desta vez, não é metáfora.

Nada disso, claro, impede Nikolas de repetir, com convicção quase religiosa, que o governo Zema é um “modelo para o Brasil”. A mentira é grande, mas o espírito é esse mesmo.

Quando Lula assumiu a Presidência, encontrou um país igualmente devastado. Ministérios haviam sido entregues por Bolsonaro a figuras escolhidas não para governar, mas para sabotar. Educação, Saúde, Economia, Direitos Humanos, Meio Ambiente: nada escapou. A Cultura, então, foi tratada como inimiga de Estado.

Ainda assim, Lula encarou o desafio. Em pouco mais de três anos, o país é outro: inflação sob controle, desemprego no menor patamar da história, programas sociais retomados e funcionando e promessa de campanha cumprida: isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais. Coisas chatas, técnicas, que exigem trabalho. Muito trabalho, sobretudo quando se tem uma oposição desse nível.

Nikolas, por sua vez, nunca trabalhou nem administrou absolutamente nada. Ele sabe que não tem condições de enfrentar um desafio real. Sua atuação na Câmara resume-se a não trabalhar, não votar nada que beneficie o povo brasileiro e gravar vídeos aos montes para seus milhões de seguidores, atividade, diga-se, muito mais lucrativa do que governar.

É bem mais confortável permanecer onde está: espalhando fake news diariamente e monetizando a indignação alheia. Dá menos dor de cabeça e rende mais no fim do mês.

O plano, ao que tudo indica, é outro. Esperar completar 35 anos, idade mínima para disputar a Presidência, torcer para que um eventual segundo mandato de Lula eleve o Brasil a um novo patamar de desenvolvimento econômico e bem-estar social e, então, aparecer para “colher os frutos”.

Porque governar um país destruído exige trabalho.
Já governar um país arrumado permite outra coisa: aproveitar as oportunidades.
Especialmente quando se tem os amigos certos, os discursos certos
e um apetite já bem conhecido por transformar política em negócio.

Se é que me entendem.