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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Efeito imã: como Lula está redesenhando o mapa do poder

Por Fernando Castilho



Um dos movimentos mais sísmicos da política brasileira atual não vem de discursos inflamados, mas do som das canetas nas assinaturas em fichas de filiação. Nomes de peso, historicamente ancorados no centro e na direita, estão migrando para o campo progressista. Para uns, o movimento gera entusiasmo; para outros, desconfiança. Mas o fato é incontestável: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a ser o grande polo de gravidade da política nacional.

Na política, veteranos não mudam de lado por impulso. Eles farejam o vento e sentem o clima das ruas. O que estamos vendo é a percepção clara de que o eixo do poder está se deslocando.

Simone Tebet: Do Agro ao calor das ruas

Talvez não haja símbolo maior dessa transição do que Simone Tebet. Vinda do MDB e com raízes profundas no agronegócio, sua filiação ao PSB consolida uma metamorfose que começou no tenso segundo turno de 2022. O que era um apoio de risco tornou-se uma parceria de gestão no Ministério do Planejamento, onde Tebet trabalhou em sintonia fina com Fernando Haddad.

Mas há um fator invisível que pesa tanto quanto o tecnicismo de sua pasta: o fator humano. Assim como Geraldo Alckmin, o histórico adversário de Lula que hoje é seu vice e ministro, Tebet descobriu algo raro para quem sempre frequentou ambientes elitizados: o abraço do povo. Ver Alckmin e Tebet sendo aplaudidos por camadas populares é presenciar uma transformação de trajetórias que a frieza dos números não explica.

Rupturas e Pontes: Eliziane Gama e Kátia Abreu

A mudança da senadora Eliziane Gama foi um divórcio litigioso com a direita, gestado no calor da CPMI da Covid, da qual ela foi relatora. O resultado foi o indiciamento de Jair Bolsonaro. O empurrão final para que ela decidisse mudar de partido veio de Gilberto Kassab (PSD), ao sinalizar apoio à direita dura de Ronaldo Caiado. Sem espaço naquele palanque, Eliziane saltou para o PT.

No outro lado da ponte, surge Kátia Abreu. A ex-ministra, que nunca soltou a mão de Dilma Rousseff, agora oficializa sua entrada no PT. Mais do que um nome, ela representa um símbolo: o agronegócio começando a atravessar o rio. Com três recordes consecutivos no Plano Safra e crédito farto, o setor começa a notar que a retórica ideológica não paga as contas. No fim do dia, o resultado concreto (e o lucro) fala mais alto que o discurso de rede social. Esclarecer isso aos empresários deverá ser sua missão.

Minas Gerais e o Tabuleiro de Rodrigo Pacheco

O mapa ganha contornos decisivos com Rodrigo Pacheco. Agora no PSB e pré-candidato ao governo de Minas Gerais, Pacheco oferece a Lula o que todo presidente deseja: um palanque sólido no "estado-pêndulo". O ditado é velho, mas segue invicto: quem vence em Minas, vence o Brasil. Fortalecer essa aliança não é apenas política; é pura estratégia de sobrevivência e vitória.

Charutos, Fidel e a Estratégia de Longo Prazo

Engana-se quem pensa que esse movimento é improvisado. Lula tenta levar o PT para o centro-esquerda desde os anos 90. No livro Lula II, Fernando Morais revela conversas antigas com Tasso Jereissati (PSDB) que foram interrompidas pela ascensão de FHC.

Um detalhe curioso e quase desconhecido ilustra essa diplomacia de bastidor: este articulista presenciou o momento em que Lula revelou que os charutos cubanos que então fumava não vinham diretamente de Fidel Castro, mas sim de Jereissati. Fidel os enviava para Tasso que, por não fumar, repassava o presente ao petista.

O que vemos hoje com Alckmin e Tebet é a conclusão de um plano imaginado há décadas por um Lula notório conciliador.

O Próximo Nome e o Fator China

O processo de atração está apenas no começo. No radar, surge Soraya Thronicke (Podemos). Deslocada em um partido ligado ao bolsonarismo, Soraya não esconde a admiração pela serenidade de Lula, sentimento selado durante um voo turbulento ao México, onde o autocontrole do presidente a impressionou profundamente. Se não fosse Lula, ela teria entrado em desespero.

Não descartemos também a saída dos senadores Otto Alencar e Omar Azis do PSD. Políticos tradicionais de centro, mas apoiadores do governo Lula, já sinalizaram que não subirão no palanque de Caiado. Caberia a Alckimin iniciar conversações para levá-los ao PSB, quem sabe.

Enquanto Lula amplia sua frente, a oposição parece jogar contra o próprio patrimônio. As declarações recentes do senador Flávio Bolsonaro nos EUA, afirmando, caso eleito, ajuda ao país contra a China, acenderam o sinal vermelho no agronegócio. Colocar em risco o maior parceiro comercial do Brasil é um erro estratégico que Tebet, Kátia e talvez Soraya precisarão explicar aos produtores rurais.

O Barulho que Vem do Silêncio

Com esses novos aliados, Lula não apenas fortalece palanques; ele reposiciona as peças e isola os extremos. A eleição que se aproxima será difícil, disputada centímetro a centímetro. Nesse cenário, os nomes que vieram e vierem do centro e da direita não serão apenas coadjuvantes, eles serão os decisores.

O movimento começou silenciosamente nos bastidores. Agora, ele começa a fazer um barulho ensurdecedor para a oposição.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Caiado, a carta na manga de Kassab

Por Fernando Castilho



Quando Kassab anunciou Ronaldo Caiado como candidato à Presidência pelo PSD, a reação foi quase unânime: gargalhadas. Afinal, Caiado mal aparece nas pesquisas, e eu mesmo entrei na onda da chacota. Mas, pensando melhor, talvez não seja só isso. Talvez seja muito mais.

 Antes de tudo, convém lembrar quem é Kassab. O dono do PSD, maestro do centrão, conseguiu nas últimas eleições eleger o maior número de prefeitos do país. Não é pouca coisa. Isso significa que, mesmo sem ser candidato, estará presente em palanques Brasil afora, muitos deles ao lado de Lula. Kassab não dá ponto sem nó. Nunca deu.

 O plano original, claro, não era Caiado. O sonho era Tarcísio de Freitas, o privatista de estimação, a quem, durante três anos, serviu como secretário em seu governo. Mas Tarcísio pulou fora, e Kassab ficou com três opções: Ratinho Jr., Eduardo Leite e Ronaldo Caiado. Ratinho desistiu, Leite não tinha musculatura eleitoral, e sobrou Caiado, o extremista de direita mais longevo em atividade.

 Enquanto isso, o centrão, maior força do Congresso, não se engaja na candidatura do Rachadinha. Motivos não faltam: seu eventual governo é visto como um risco real para a economia e para a estabilidade institucional. Lula, com toda a sua previsibilidade, dá ao empresariado e ao centrão o que eles mais querem: tranquilidade para continuar enchendo os bolsos. Já o Rachadinha, com seus discursos inflamados, provoca calafrios, com ameaças de golpe que podem fazer o país regredir décadas.

 Aliás, depois de sua performance na convenção conservadora nos Estados Unidos, o agronegócio deve ter ficado em estado de choque. Ouvir que ele pretende dificultar relações com a China, principal compradora da nossa soja, apenas para agradar Donald Trump foi demais. O agro pode até não gostar de Lula, apesar do volume de dinheiro público que ele despeja no setor, mas dificilmente embarcará na aventura do Rachadinha. Caiado, por outro lado, soa bem mais palatável. Além disso, sai do governo de Goiás com invejável aprovação, enquanto a única produção do 01 em seu mandato como senador foi o criminoso projeto de privatização das praias.

 A jogada de Kassab, portanto, é simples: usar o capital político dos prefeitos do PSD para testar até onde o 01 consegue ir, minando sua candidatura enquanto fortalece Caiado. A campanha de verdade começa em abril, e o telhado de vidro do Rachadinha vai brilhar como nunca. Ele mesmo parece empenhado em acelerar o processo, tornando-o ainda mais frágil. Depois do discurso nos EUA, mais pedras já estão prontas para serem lançadas. Quando começar a rachar, Caiado pode subir nas pesquisas. E, dependendo do rumo da campanha, o Rachadinha pode até desistir, afinal, ficar quatro anos sem cargo público (ganhar dinheiro sem trabalhar) seria um pesadelo. Melhor continuar como senador.

quarta-feira, 18 de março de 2026

A imprensa que flerta com o demônio

Por Fernando Castilho



Primeiro, uma fábula

Havia um homem que, dominado pela ambição de enriquecer sem esforço, descobriu a existência de um demônio guardião de tesouros em uma caverna. Movido pela ganância, decidiu negociar com ele. Na primeira visita, o terror da criatura e o peso sombrio do lugar o fizeram fugir apavorado. “Esse demônio é perigoso”, pensou.

Mas a ganância é como uma coceira: quanto mais se tenta ignorá-la, mais ela incomoda. Uma semana depois, lá estava o homem novamente, desta vez levando queijo e vinho, esquecendo-se do terror e acreditando que poderia conquistar a confiança do demônio. A cada presente entregue, a criatura recuava mais fundo na escuridão, atraindo o homem para longe da luz. Convencido de estar prestes a receber sua fortuna, ele insistiu em continuar negociando.

Foi então que o demônio revelou seu verdadeiro desejo: não queria oferendas, mas sim a alma do homem. E, como todo tolo que acredita em acordos fáceis com o mal, ele foi arrastado para as trevas eternas, onde nenhum tesouro poderia salvá-lo.

 

Agora, a fábula aplicada à realidade

O atual morador da Papuda, quando era presidente, já mostrava que não suportava a imprensa. Tratava repórteres como se fossem mosquitos: incômodos, mas insistentes. A ironia é que a mesma imprensa, durante a campanha de 2018, abanava o rabo como um cãozinho fiel, preferindo-o a Haddad. O capitão chegou até a ameaçar a Rede Globo de perder sua concessão pública, porque ditadores, como sabemos, não gostam de holofotes que não controlam.

Quando tentou o golpe, ficou claro que queria se firmar como ditador. E ditadores fazem o quê? Quebram a espinha da imprensa, para que ela só publique o que lhes convém.

Agora, seu filho disputa eleições contra Lula. Apesar de se apresentar como moderado, não faz muito tempo declarou que o sucessor do pai deveria conceder anistia ao capitão e, se necessário, usar a força contra o STF. Traduzindo: golpe. Além disso, prometeu dar continuidade ao “trabalho” do pai. Ora, se um dos trabalhos do pai foi tentar um golpe, o filho não ficaria atrás. E, claro, a liberdade de imprensa seria a primeira a ser jogada no abismo.

Durante a internação do capitão na UTI, repórteres cumpriam seu papel: cobrir os fatos. Mas bastou Michelle postar um vídeo acusando jornalistas de desejar a morte do “mito” para que repórteres e suas famílias passassem a ser ameaçados de morte por fanáticos. Eis o apreço do clã pela liberdade de expressão: zero, ou melhor, negativo.

E, como na fábula, a imprensa parece não aprender. Hoje investe pesado na candidatura de Flávio Rachadinha, blindando-o mesmo diante de indícios comprometedores de ligações com Daniel Vorcaro e o Banco Master, enquanto lança suspeitas contra Lula e seu filho em casos onde só há políticos de direita envolvidos. É como oferecer queijo e vinho ao demônio, acreditando que ele vai se tornar vegetariano.

Pelo menos, Merval Pereira, crítico histórico do PT, percebeu o risco e afirmou: “A chance de Flávio Bolsonaro se eleger e dar um golpe existe. A de Lula, não.” Portanto, parte da imprensa sabe o que pode vir caso se negocie algo com Flávio.

 

Moral da história

Negociar com o demônio nunca termina bem. No começo ele aceita o queijo e o vinho, mas no fim arrasta quem confiou nele para o inferno. A imprensa, ao que parece, ainda acredita que pode domar o monstro com agrados para mais tarde conseguir, junto com a Faria Lima, tudo que desejam: nova reforma trabalhista aumentando a jornada diária e nova reforma da previdência acabando com os reajustes atrelados ao salário-mínimo. A ela, é preciso lembrar que monstros não se domesticam, pois eles devoram.

segunda-feira, 9 de março de 2026

Grande mídia e Faria Lima juntas: cabeça de Lula a prêmio

Por Fernando Castilho



Arthur Schopenhauer dizia que a maioria das pessoas prefere se acomodar em dogmas e “verdades” pré-estabelecidas a raciocinar e buscar a verdade dos fatos. É exatamente isso que vemos em manifestações bolsonaristas: quando perguntados sobre o que Flávio fez de bom para o povo, muitos se perdem e respondem apenas com slogans como “Deus, Pátria e Família” ou recorrem a xingamentos, chamando o entrevistador de “comunista”.

A imprensa brasileira compreendeu esse comportamento melhor do que ninguém. Ao estampar nas manchetes que “Lulinha movimentou 16,5 milhões”, entregou uma “verdade” incompleta a quem se contenta apenas com títulos e não se aprofunda no assunto. O que não se explica na manchete é essencial: movimentação significa entradas e saídas; ocorreu ao longo de quatro anos; trata-se de um empresário, não de alguém que vive às custas do governo; e, sobretudo, não há dinheiro do “careca do INSS”. Ainda assim, a imprensa alcançou seu objetivo: milhões de pessoas passaram a repetir que Lula é corrupto.

O propósito é evidente: impedir sua reeleição. Não há como provar, mas é plausível imaginar que emissários de Folha, Estadão e Rede Globo tenham se reunido com Flávio para oferecer apoio maciço à sua campanha contra Lula, em troca de compromissos claros. Entre eles: evitar comportamentos ridículos como os que seu pai protagonizou em público (espalhar farofa pelo chão enquanto come, imitar pessoas se asfixiando...), defender o aumento da jornada de trabalho para 12 horas, privatizar tudo o que for possível, inclusive a Petrobras, promover uma nova reforma da previdência que desvincule aposentadorias e benefícios do salário mínimo, e barrar novos programas sociais. Se possível, extinguir ou reduzir os já existentes. É esse o sonho da Faria Lima.

Hoje, a imprensa depende muito mais de investimentos e aplicações financeiras do que da venda de jornais. Por isso, sua prioridade é influenciar os rumos do país, não informar. Para quem conecta os pontos, fica evidente o apoio já explícito em conluio com a Faria Lima, na tentativa de associar Lula a Daniel Vorcaro e ao Banco Master.

Nesse esforço, não hesitam em tentar ligar o ministro Alexandre de Moraes a Lula, como se fosse parte do governo ou militante petista. Cada vez que atacam Moraes, reforçam no imaginário popular a ideia de que Lula estaria por trás de conversas não republicanas entre Moraes e Vorcaro e que, por isso, seria o “chefão corrupto”.

Talvez uma contrapartida que Flávio tenha exigido para participar desse consórcio seja um antigo sonho: enfraquecer o Supremo Tribunal Federal até que seja possível anistiar o pai, permitindo que ele se torne ministro e governe (ou desgoverne) de fato. Daí a bateria de ataques contra Moraes.

Para esse enfraquecimento, a Globo já recrutou seu soldado obediente: o jornalista Fernando Gabeira, ex-opositor da ditadura, afirmou no GloboNews que é preciso fechar o STF. Alguém deveria fazer uma representação contra ele por estar pregando, diante de milhões de brasileiros, um dos instrumentos clássicos de golpe.

Sempre fui um defensor das pesquisas eleitorais sérias, mesmo quando mostravam meu candidato em desvantagem. Mas, desta vez, algo parece realmente fora de lugar. Como pode um candidato que passou quatro anos no Senado apresentando apenas um projeto, o de privatizar as praias, e nenhum que beneficiasse o povo, estar empatado com Lula, que tantas entregas já fez em três anos de mandato?

Até uma semana atrás, parecia que a única responsável era a comunicação deficiente. Ela é, mas não está sozinha. A força da mídia está falseando as pesquisas, fazendo com que Flávio apareça artificialmente empatado com Lula no segundo turno. Ele não está. E, próximo ao final da campanha, veremos uma acomodação dos números, com Lula subindo cada vez mais e seu oponente caindo.

A menos que criem algum factoide capaz de desmontar Lula.

E aqui entra um ponto crucial: as redes sociais e os grupos de mensagens funcionam como multiplicadores dessa desinformação. Uma manchete distorcida ou uma pesquisa manipulada ganha proporções gigantescas quando replicada por milhares de perfis, muitas vezes automatizados, que espalham fake news em escala industrial. O que antes era apenas uma narrativa da imprensa, hoje se transforma em verdade “viral” para milhões de pessoas que não questionam, apenas compartilham. Esse ecossistema de desinformação é o que sustenta a ilusão de que Flávio está em pé de igualdade com Lula.

O Brasil já viveu momentos em que factóides, manchetes enviesadas e campanhas de desinformação moldaram o destino político da nação. Hoje, vemos a repetição desse roteiro, agora potencializado pelas redes sociais e pela força dos conglomerados financeiros que controlam a mídia. Mas há uma diferença crucial: o povo brasileiro já provou, em diversas ocasiões, que sabe distinguir entre propaganda e realidade quando chega a hora decisiva.

É por isso que, apesar da avalanche de ataques, manipulações e pesquisas artificiais, a verdade tende a prevalecer. A história mostra que nenhum factoide resiste ao confronto com a vida concreta das pessoas, com as políticas que melhoram o dia a dia e com a memória coletiva de quem já experimentou avanços sociais.

No fim, o que está em jogo não é apenas uma eleição, mas a capacidade de o Brasil escolher entre a manipulação e a razão, entre o retrocesso e a continuidade de conquistas e entre a democracia e a ditadura. A imprensa pode tentar fabricar narrativas, mas não pode apagar a realidade. E é essa realidade que, cedo ou tarde, se impõe.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Areia movediça no sambódromo

Por Fernando Castilho




“É um terreno de areia movediça”, advertiu a presidente do TSE, Carmen Lúcia, sobre o desfile da escola de samba que pretende homenagear Lula no carnaval. Tradução livre: cuidado, porque basta um passista levantar o braço errado e pronto: crime eleitoral na avenida.

O ministro André Mendonça já anunciou seu papel: espectador de sofá, lupa em punho, pronto para transformar qualquer gesto em infração.

Até a quinta-feira, eu achava a homenagem inofensiva. Mas, convenhamos, Lula não pode nada. Não pode tomar uma cachaça, não pode viajar, não pode se hospedar em hotéis, não podia trocar avião presidencial (mesmo que o antigo fosse praticamente um caixão voador), não pôde comparecer ao velório do irmão. E, claro, não pode ser homenageado. No Brasil, Lula respirar já é ato político.

Se a oposição correu ao TSE antes do desfile para tentar criminalizá-lo, imaginem depois. A escola promete cuidados extremos: nada de “L” com as mãos, nada de número 13, nada de camiseta vermelha. Mas quem garante? Basta um passista afoito ou um infiltrado bolsonarista para transformar o carnaval em processo de inelegibilidade. Afinal, quem disse que todos os integrantes da escola são lulistas?

Lula lidera as pesquisas. Com o portfólio de feitos em três anos, comunicar bem o que já fez é praticamente sua única tarefa para se reeleger. Ninguém o alcança. Nem Flávio “Rachadinha”, que jura que seu programa de governo é dar continuidade à obra do pai. Sabemos bem qual foi a obra. A extrema-direita sabe que tem pouquíssimas chances. Por isso, só existem duas formas de derrotá-lo: ou ele morre, ou é declarado inelegível. E alguém duvida que vão investir pesado nessa segunda opção? Sem prejuízo da primeira, se o desespero falar mais alto?

E não esqueçamos: Janja. Muitos dizem que ela não tem cargo no governo, logo poderia desfilar livremente. Ingenuidade. Ela é o maior símbolo de Lula, justamente por ser sua esposa. E isso, claro, será judicializado. Afinal, estamos falando de uma corte que absolveu por unanimidade o senador Jorge Seif, mesmo diante de fotos, vídeos e e-mails trocados com Luciano Hang. O ministro Nunes Marques chegou a dizer que, mesmo com essas provas, não via “indícios de abuso econômico”. Que o digam os demais candidatos que não obtiveram a mesma ajuda. Pois é, indícios demais podem atrapalhar.

Alguns sugerem que Lula não compareça ao desfile. Ótimo, mas isso não resolve nada: a escola desfilará de qualquer forma. O correto seria cancelar o desfile. Mas já é tarde. Ele vai acontecer.

E acontecerá no contexto em que Lula, num discurso recente, afirmou que essa eleição será uma guerra. Pois bem, talvez ele devesse levar suas próprias palavras mais a sério.

Resta torcer para que o carnaval não vire tribunal. Porque, convenhamos, seria um tropeço tão previsível quanto evitável. E se acontecer, não será samba-enredo. Será marcha fúnebre da democracia, com direito a tamborim, mas sem alegria.

sábado, 10 de janeiro de 2026

A roleta russa de Washington: o mundo na era da brutalidade

Por Fernando Castilho



O mundo que conhecíamos, aquele erguido sobre os escombros fumegantes de 1945, cimentado por tratados multilaterais e pela previsibilidade diplomática, foi oficialmente enterrado em 2025. Ao iniciarmos 2026, a “aventura” de Donald Trump na Casa Branca deixou de ser um slogan de campanha e se transformou em um terremoto geopolítico. Não estamos diante de uma simples troca de governo, mas da substituição da ordem jurídica internacional pela “Lei do Mais Forte”, uma doutrina que brinca perigosamente com fósforos em um barril de pólvora global.

Assistimos, assim, ao fim da “Polícia do Mundo” e ao início do “Dono do Bairro”.
Washington não mais se apresenta como xerife, mas como síndico autoritário de um condomínio hemisférico. A captura de Nicolás Maduro no início do ano, somada à disposição de anexar a Groenlândia e invadir o México por terra, desenha um mapa mental digno de um CEO delirante que confunde geopolítica com fusões e aquisições. A nova Estratégia de Segurança Nacional é cristalina: os EUA não vão mais bancar a segurança da Europa ou a estabilidade da Ásia sem receber dividendos imediatos. E não vão tentar enganar mais ninguém com o velho discurso de levar democracia a quem não tem.

Para os aliados da OTAN, o recado foi um banho de água gelada: “Paguem ou protejam-se sozinhos”. Ao esvaziar sua presença militar no Leste Europeu e concentrar forças no Hemisfério Ocidental, Trump abre um vácuo que Putin e Xi Jinping podem interpretar como um convite para redesenhar fronteiras. Nesse cenário, o estopim de uma Terceira Guerra Mundial não viria de uma invasão americana, mas da ausência da dissuasão americana.

E como se fosse um trailer antecipado do caos, em 8–9 de janeiro de 2026, as Forças Armadas russas lançaram um ataque de grande escala contra a Ucrânia, com drones, mísseis convencionais e o hipersônico Oreshnik. Foi apenas a segunda vez que esse míssil foi usado, depois de um teste com ogivas inertes em 2024. A mensagem é clara: Moscou quer encerrar de vez a novela ucraniana e guardar munição para o próximo ato, possivelmente um conflito mundial.

O perigo iminente reside na natureza errática do atual governo americano. A diplomacia foi substituída por grosseria institucionalizada. Quando o presidente usa tarifas de 60% como se fossem cupons de desconto e autoriza operações militares unilaterais contra alvos iranianos ou sul-americanos, ele arranca as válvulas de escape do motor diplomático. Resultado: qualquer faísca, um drone abatido no Estreito de Ormuz, uma disputa sobre semicondutores ou o sequestro de um submarino russo, pode virar incêndio em questão de horas.

Vivemos numa era de “geopolítica do compliance”: países e empresas não seguem a lei, apenas tentam adivinhar quem terá força para ditá-la amanhã. É como jogar xadrez em um tabuleiro onde as peças mudam de regra a cada rodada.

Para o Brasil e o Sul Global, o dilema é pragmatismo ou isolamento. O retorno da Doutrina Monroe transforma Brasília em refém de um jogo duplo: de um lado, a chance de ocupar espaços deixados por uma China acuada; de outro, o risco de sanções caso não se alinhe ao script de Washington em temas como migração e segurança. E, claro, esse risco se estende às eleições de 2026, quando a imprensa hegemônica já afia suas penas para pressionar o governo Lula. Afinal, nada como um empurrãozinho midiático para acelerar o fim de um mandato incômodo.

A aventura trumpista é uma aposta de alto risco: o prêmio seria a hegemonia americana renovada, mas o preço pode ser o caos sistêmico. O risco de uma Terceira Guerra Mundial não é mais uma abstração ideológica; é a consequência lógica de um mundo sem árbitros, onde cada potência joga sua própria roleta russa.

Se 2026 já nos ensinou algo, é que a estabilidade global era um luxo que tratávamos como banal, mas que era necessário. Agora, resta saber se as outras potências terão a sobriedade que falta ao Salão Oval, ou se todos aceitarão o convite para essa roleta russa geopolítica. E não, não é trocadilho: é diagnóstico.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A cigana leu o destino do Brasil?

Por Fernando Castilho



Todo começo de ano é a mesma coisa: videntes e astrólogos se revezam em adivinhações. A maioria prefere “arriscar” prevendo que um artista famoso vai morrer. E, lógico, infelizmente temos um bom número de longevos candidatos a nos deixar.

Mas, longe de me arvorar em pitonisa, há no campo político possibilidades que requerem análises sérias.

Em 2026, o Brasil voltará a viver um momento decisivo. A eleição presidencial não será apenas uma disputa entre nomes, mas um pleito que colocará em jogo o sentido do ciclo político iniciado com a redemocratização, interrompido em 2016 e reconfigurado após 2022. Lula, candidato à reeleição, estará no centro desse processo, seja vencendo, seja perdendo.

Diante disso, há três cenários possíveis: Lula perde a eleição, Lula vence a eleição e Lula faz seu sucessor em 2030.

Se Lula perder a eleição, o que ocorrerá com o país dependerá menos dele e mais de quem o substituir. Uma derrota diante de um candidato da direita democrática institucional representaria uma alternância de poder típica das democracias liberais. Nesse cenário, o Brasil tenderia a manter a estabilidade institucional, com respeito às regras do jogo, mas passaria por uma reorientação econômica mais restritiva, marcada por ajuste fiscal, contenção de políticas redistributivas e maior sintonia com o mercado financeiro. O conflito social não desapareceria; ao contrário, sindicatos e movimentos populares reagiriam a eventuais cortes, produzindo um ambiente de tensão controlada, porém constante. Contudo, não se vê no horizonte esse candidato, que seria chamado de terceira via.

Muito mais preocupante seria a derrota de Lula para um campo político de viés autoritário ou populista radical:  o bolsonarismo, mesmo que travestido de moderado para enganar mais uma vez os incautos. Nesse caso, o país poderia voltar a conviver com ataques sistemáticos às instituições, especialmente ao Supremo Tribunal Federal, à imprensa e aos mecanismos de controle. A polarização entre quem defende a democracia e quem quer destruí-la se intensificaria, e o Brasil correria novamente o risco de isolamento internacional, sobretudo em temas ambientais e de direitos humanos. O perigo maior, nesse cenário, não seria uma crise econômica imediata, mas a corrosão progressiva da democracia liberal.

É preciso considerar ainda que essa corrosão pode ocorrer como uma verdadeira ruptura, ou seja, a continuidade da tentativa de golpe, agora legitimada pelas urnas. Qualquer um que derrote Lula, dentro de um espectro que vai de Flávio Bolsonaro a Tarcísio, Zema, Caiado ou Ratinho, se prestaria a esse papel. O retrocesso, após quatro anos de recuperação do país frente aos estragos causados por Jair Bolsonaro, seria inevitável. E, lógico, nesse combo ainda estaria uma anistia ao genocida.

Em qualquer hipótese de derrota, Lula não desapareceria da cena política. Tornar-se-ia o principal líder da oposição, uma espécie de fiador simbólico da ordem democrática, tentando preservar seu legado e, ao mesmo tempo, organizar o campo progressista para o futuro. Ainda assim, uma derrota em 2026 marcaria o início inequívoco do declínio do lulismo como liderança pessoal, mesmo que o projeto político sobrevivesse.

Se, por outro lado, Lula vencer a eleição de 2026, o significado político será profundo. Ele consolidaria um ciclo histórico raro, tornando-se o presidente mais longevo da República e uma figura comparável, em termos de duração e influência, a Getúlio Vargas. Essa vitória representaria não apenas um triunfo eleitoral, mas uma confirmação de que o campo democrático conseguiu resistir às investidas autoritárias do período anterior.

Ainda assim, um eventual quarto mandato não seria um governo de grandes rupturas. As restrições fiscais, a fragmentação do Congresso e o desgaste natural do tempo imporiam limites claros à ação governamental. Lula tenderia a governar administrando o possível: aprofundando políticas sociais dentro das margens disponíveis, reforçando o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, mas evitando confrontos que pudessem gerar instabilidade. O fim da escala 6 x 1 seria a grande marca de um governo que a grande imprensa se esforça para caracterizar como ausente de marcas. Do ponto de vista institucional, haveria um ambiente de maior previsibilidade, com fortalecimento do STF e redução significativa do risco de aventuras golpistas.

Uma vitória em 2026 também abriria, de forma explícita, a questão da sucessão em 2030. Lula não poderá concorrer novamente, e o país entrará inevitavelmente no debate sobre o pós-Lula. Nesse ponto, sua decisão será estratégica. Ele tenderá a buscar um sucessor que combine lealdade política, capacidade de diálogo com o centro e menor grau de polarização. A prevalecer esse cenário, surgem dois nomes possíveis: Geraldo Alckmin e Simone Tebet. Se em 2026 Alckmin e Tebet concorrerem e se elegerem governadores em seus estados, a depender do sucesso de suas administrações, podem surgir fortalecidos para 2030. Pode-se incluir nessa pequena lista Fernando Haddad, desde que ele comece a demonstrar maior traquejo político. Um nome excessivamente ideológico poderia preservar a identidade histórica do PT, mas teria mais dificuldade eleitoral. Um nome mais moderado, técnico-político, poderia ampliar alianças e garantir competitividade, ainda que ao custo de diluir parte do lulismo clássico. Há também a possibilidade de Lula apoiar alguém da esquerda fora do PT, desde que comprometido com uma frente ampla democrática e com a preservação de seu legado. Nesse caso, pode surgir Guilherme Boulos, que, no cargo de ministro, parece estar sendo preparado por Lula para obter experiência administrativa.

O dilema é evidente: indicar alguém fraco pode levar à derrota; indicar alguém forte demais pode significar perder o controle sobre o legado político; não indicar claramente pode fragmentar o campo progressista. Historicamente, Lula prefere controlar a sucessão, mas a história mostra que nenhuma sucessão é plenamente controlável.

Em síntese, 2026 será menos sobre Lula individualmente e mais sobre o destino do ciclo político que ele simboliza. Se perder, o Brasil poderá voltar a viver momentos tensos de ameaça institucional. Se vencer, o país tende a atravessar um período de estabilidade democrática e transição, preparando-se para um cenário inevitável: o fim do lulismo como liderança pessoal em 2030, ainda que suas ideias continuem a disputar o futuro político do Brasil e o avanço nas políticas que reduzirão a desigualdade e colocarão o país no grupo restrito das maiores economias do mundo.

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Jaques Wagner: herói ou vilão?

Por Fernando Castilho



Antes de mais nada, convém baixar a guarda, como eu já fiz, para pensar racionalmente e evitar rachaduras desnecessárias dentro da esquerda.

O famigerado PL da Dosimetria, uma excrescência que jamais deveria ter visto a luz do dia e que Renan Calheiros batizou com precisão cirúrgica de “PL da Infâmia”, chegou à CCJ do Senado. Davi Alcolumbre, sempre diligente quando convém, não poupou esforços para aprová-lo antes do recesso. O projeto tinha toda a cara de rejeitado e parecia pronto para o cemitério legislativo. Mas eis que surge o imponderável: Sergio Moro, em sua costumeira criatividade, apresentou uma “emenda de redação”. Só que, na prática, não era redação coisa nenhuma. A alteração impedia que o PL beneficiasse autores de crimes sexuais e de corrupção. Em outras palavras, uma emenda de mérito travestida de retoque gramatical. Resultado: o projeto deveria voltar à Câmara, como manda a Constituição, depois retornar ao Senado, e não seria votado este ano.

Foi aí que Jaques Wagner, do PT, enxergou a oportunidade. A jogada era simples e engenhosa: condicionar a aprovação do PL à aprovação de outro projeto vital para o governo: o aumento da taxação das bets e das fintechs, capaz de render cerca de 20 bilhões de reais em 2026, ano eleitoral. Enquanto isso, Lindbergh Farias, indignado, entraria no STF com um mandado de segurança denunciando a “criatividade jurídica” de Moro. Se fazia parte do acordo com Wagner, ninguém sabe, ninguém viu. Mas acho que não.

O roteiro é quase previsível: o STF deve considerar a votação da CCJ inconstitucional, o projeto volta à Câmara, é aprovado novamente e retorna ao Senado. Mas isso só em 2026, depois do recesso. Desta vez, sem acordo algum, será rejeitado e arquivado. Lula não precisará nem gastar tinta com veto. Jogada de mestre, típica de quem coleciona décadas de política, embora bastante discutível do ponto de vista republicano e ético, e que pode causar ao senador sua destituição de líder do governo.

Nem todos aplaudiram. Renan Calheiros denunciou em plenário, sem papas na língua, a conversa reservada que teve com Wagner, e classificou o acordo como uma “farsa” da qual não participaria. Convenhamos, o termo cai como uma luva.

Nas redes, o resultado é uma esquerda dividida: uns se dizem traídos depois das manifestações de domingo, outros se esforçam para encontrar justificativas que isentem o governo de qualquer manobra.

No fim das contas, o pragmatismo frio de Jaques Wagner pode estar conduzindo ao enterro definitivo do infame PL da Dosimetria, enquanto garante a taxação das bets e das fintechs, uma vitória política e financeira para o governo.

 Ironias da política: às vezes, para enterrar uma infâmia, é preciso abraçar uma farsa. Ou criar outra infâmia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Jorge Messias virou a moeda de troca contra o PL da Dosimetria

Por Fernando Castilho


Não precisamos perder tempo relembrando os últimos espetáculos grotescos de Hugo Motta na Câmara dos Deputados. O que importa é ir direto ao ponto.

O famigerado PL da Dosimetria já passou pela Câmara e agora segue para o Senado. Lá, o presidente Davi Alcolumbre, sempre ávido por protagonismo, anunciou que pretende votar ainda este ano. O detalhe é que vários senadores como Renan Calheiros e Otto Alencar já se insurgiram de forma áspera contra o atropelo e disseram que não vão engolir a pressa. Veremos.

O relator escolhido é ninguém menos que Esperidião Amin, do PL. Um homem que guarda no coração sua velha paixão: a Arena, partido que sustentou a ditadura militar. Pois bem, Amin já avisou que vai “mexer” no projeto para incluir a anistia. Ou seja, o que será votado não é o PL original, mas um Frankenstein jurídico feito sob medida para reduzir as penas do totem Jair Bolsonaro e seus generais de estimação.

Vale lembrar: quando a PEC da Bandidagem chegou ao Senado, Alcolumbre correu para enterrá-la, tentando agradar Lula para emplacar Rodrigo Pacheco no STF. Ganhou pontos, mas não ganhou o prêmio. Agora, ressentido, decidiu se vingar. E a vingança vem embalada no PL da Dosimetria.

Se esse monstrengo passar no Senado, seguirá para sanção de Lula, que obviamente vetará. A Câmara, previsivelmente, derrubará o veto. E então algum partido baterá às portas do STF com uma ADI ou ADPF. É aí que mora o perigo. Explico.

Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli são simpáticos a Rodrigo Pacheco. Já Nunes Marques e André Mendonça preferem Jorge Messias, por afinidade evangélica. Lula sabe que o projeto tem chances reais de ser chancelado pelo Supremo. Bastam seis votos. E Alcolumbre também sabe. Portanto, há um conluio descarado entre parte dos ministros do STF e o presidente do Senado.

No meio disso tudo, Jorge Messias virou moeda de troca. O assalto é cristalino: “Lula, não indique Messias. Indique Pacheco e o PL da Dosimetria será enterrado no Senado.” É chantagem pura e simples. E, como toda chantagem, tende a funcionar. Lula será empurrado a indicar Rodrigo Pacheco.

Eis a atmosfera em que os poderes convivem “harmoniosamente” hoje: um teatro de pressões, vinganças e chantagens. Harmonia, aqui, é apenas o nome pomposo dado ao caos institucional.

domingo, 30 de novembro de 2025

A locomotiva Lula e o centrão descarrilado

Por Fernando Castilho



Antes de qualquer coisa, vamos aos números, pois eles têm o ótimo hábito de esmagar discursos inflamados:

  • Desemprego: 5,4%, a menor taxa desde 2012, lá no governo Dilma.
  • Inflação: 0,09%, a mais baixa desde 1998.
  • Bolsa: 159 mil pontos, recorde histórico.
  • Dólar: R$ 5,34, bem longe dos R$ 6,31 que já vimos.
  • Exportações do agro: US$ 15,5 bilhões, mesmo com tarifaço.
  • Renda média do trabalhador: R$ 3057,00, recorde histórico.

Ou seja, o cenário econômico está tão arrumadinho que desmonta qualquer narrativa oposicionista. E se isso não basta para o centrão largar o bolsonarismo e embarcar na locomotiva Lula 2026, tem mais: a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. O governo ainda não capitalizou isso, mas Lula vai anunciar em rede nacional (até que enfim). Resultado? No ano que vem, corações e mentes vão migrar rapidinho, porque não é todo dia que um presidente coloca mais de R$ 4 mil por ano no bolso do trabalhador, o suficiente para trocar de TV, geladeira ou máquina de lavar.

E aí fica a pergunta: quem vai querer se arriscar a não se reeleger ficando fora do palanque de Lula? Os novatos vão mesmo apostar suas fichas em um criminoso já preso? Ou em figuras tão inexpressivas que mal chegam a dois dígitos nas pesquisas? Convenhamos: é pedir para perder.

O agro, por exemplo, já começou a rir à toa. Cada plano safra bate recorde em relação ao anterior. Nunca ganharam tanto dinheiro. E já perceberam que foi Lula quem segurou a onda depois da “patriotada” de Eduardo Bolsonaro, que quase afundou o setor.

Lula está com a faca e o queijo na mão. Talvez por isso tenha bancado Jorge Messias no STF, mesmo comprando briga com o todo-poderoso Davi Alcolumbre. Mas se o mais lógico é embarcar na locomotiva de Lula, por que o centrão insiste em pressionar o governo e abraçar pautas que só prejudicam a população, a ponto de ganhar o título de “pior congresso da história” ou “congresso inimigo do povo”?

A resposta é simples: medo da prisão.
Quando Lula disse em 1993 que a Câmara tinha “mais de 300 picaretas com anel de doutor”, não imaginava que a frase atravessaria décadas com tanta precisão. Hoje, pelo menos três operações: Carbono Oculto, Banco Master e Poço de Lobato. Elas estão desmontando quadrilhas financeiras e prendendo gente graúda. E adivinha? Tem parlamentar do centrão e do bolsonarismo no meio. Muitos. Tem até governador. Sem falar nas emendas parlamentares, que já começam a pegar vários deles pelo colarinho.

No fim das contas, pressionar o governo virou a estratégia da sobrevivência: ou Lula os salva, ou a cadeia os espera. Eis o motivo da adesão tímida.

Se esse é mesmo o pior congresso da história, talvez a depuração em curso torne o de 2027 um pouco menos vergonhoso. Mas não se iluda: picareta com anel de doutor é espécie resistente.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Lula voando em céu de brigadeiro

Por Fernando Castilho



Durante a COP 30, em Belém, o ministro do Turismo, Celso Sabino, prestes a ser expulso do União Brasil por cometer o grave pecado de permanecer no governo, declarou, com ar messiânico: “Nenhum partido político, nenhum cargo ou ambição pessoal vai me afastar desse povo que eu amo.” E, num gesto digno de novela das seis, olhou nos olhos de Lula e disse: “Conte comigo, onde quer que eu esteja, para lhe apoiar, para segurar na sua mão.” Faltou só a trilha sonora e os créditos finais.

Outro que resolveu dar uma guinada retórica foi o deputado Otoni de Paula. Sim, ele mesmo, um dos mais fervorosos defensores de Jair Bolsonaro, agora faz críticas públicas a Silas Malafaia e à gestão desastrosa (eufemismo generoso) de Cláudio Castro no Rio de Janeiro. Aos poucos, o pastor Otoni vai se aproximando de Lula como quem muda de banco na igreja, discretamente, mas com fé renovada.

E tem mais: o senador Cleitinho, conhecido por suas falas inflamadas contra o presidente, declarou recentemente que votará a favor de todos os projetos do governo que beneficiem o povo, como a isenção do Imposto de Renda. Um gesto nobre, claro, mas que também soa como quem já está ensaiando o discurso para o novo palanque.

Já o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (também do União Brasil), resolveu mirar em Eduardo Bolsonaro. Criticou duramente o deputado por ter atuado junto a Donald Trump para impor tarifas de 50% ao Brasil. Aparentemente, o nacionalismo econômico bolsonarista tem seus limites, especialmente quando ameaça o agronegócio.

Cito esses quatro, todos da ala mais à direita do espectro político, para ilustrar uma tese simples: se até bolsonaristas já ensaiam passos de dança em direção a Lula, imagine o que os deputados do centrão não farão para garantir um espacinho no palanque presidencial em 2026.

É pura lógica de sobrevivência: os indicadores econômicos vão bem, Lula lidera todas as pesquisas, e, a partir do ano que vem, trabalhadores que ganham até R$ 5 mil mensais verão sua renda aumentar com o fim da mordida do Imposto de Renda. Subir no palanque com Caiado, Ratinho Jr., Zema ou até mesmo Tarcísio, nesse cenário, seria um ato de suicídio político, e sem bilhete de despedida.

Outro fator que acelera a debandada é a iminente prisão de Bolsonaro. Não deve acontecer logo após o julgamento dos embargos de declaração, pois Alexandre de Moraes — sempre adepto do xadrez em vez do pôquer — pode conceder mais um prazo. Curto. Mas, se a defesa não trouxer nada de novo, os embargos nem serão recepcionados, e o ex-presidente, alguns dias depois, será transferido para a Papuda. Hoje, em prisão domiciliar, Bolsonaro já caiu no esquecimento e, quando for para o regime fechado na Papuda, poucos darão falta. Nem os pombos da Praça dos Três Poderes.

Como disse Lula: rei morto, rei posto. E o novo rei, ao que tudo indica, está com a coroa bem ajustada.

Enquanto isso, a extrema-direita, órfã e desorientada, começa a disputar as roupas do defunto. Em Santa Catarina, a briga é de foice no escuro. A deputada Carol de Toni tinha a promessa do governador Jorginho Melo de que seria candidata ao Senado, ao lado de Espiridião Amin. Mas Jorginho, num gesto clássico do bolsonarismo raiz, rasgou o acordo para atender à exigência de Bolsonaro: emplacar Carluxo. Sim, ele mesmo, com seu inconfundível sotaque carioca, como candidato. Como a decisão não pode ser salomônica, Carol de Toni ameaça deixar o PL. Afinal, Jorginho jamais ousaria contrariar o clã.

Com o sucesso da COP 30 ofuscando a narrativa golpista que tentava colar em Lula o rótulo de “defensor de bandido”, restou à extrema-direita o desespero. Após o enterro do projeto de anistia, agora tentam aprovar uma aberração legislativa: obrigar meninas estupradas a levar a gravidez adiante.

Outro sintoma de desespero foi o relator do PL da Segurança Pública restringir a atuação da Polícia Federal no combate ao crime organizado, com o claro intuito de preservar seus líderes. Na cabeça desse pessoal, as polícias militares dos estados devem continuar a sacrificar rapazes de bermuda e chinelo, enquanto a diretoria segue intocada em mansões com garagens abarrotadas de carrões esportivos. Porém, há alguns meses, o povo saiu às ruas e conseguiu derrubar a PEC da Bandidagem. Talvez agora tenha que fazer o mesmo contra esse projeto absurdo.

Vencida mais essa tentativa de golpe no governo (e será), a menos que algo absolutamente imponderável aconteça, Lula seguirá até 2026 em céu de brigadeiro. E, pelo visto, com cada vez mais gente pedindo carona na cabine.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Bandido bom é parlamentar eleito?

Por Fernando Castilho



Há décadas, um grupo de políticos se alimenta da velha e falaciosa máxima: “bandido bom é bandido morto”. É a chamada bancada da bala na Câmara dos Deputados, sempre presente, eleição após eleição, vociferando que só a violência resolve o problema da segurança pública.

Nas duas últimas legislaturas, essa bancada ganhou reforço: uma cepa de deputados bolsonaristas como Paulo Bilinsly e o sargento Fahour, que se sentem em casa na Comissão de Segurança Pública. Até poucos meses atrás, suas únicas pautas eram a PEC da Bandidagem, para livrá-los dos próprios crimes, e o PL da Anistia, para salvar o chefe da quadrilha, Jair Bolsonaro, o mesmo que inundou o crime organizado com fuzis e armas de todos os calibres.

Mas o povo foi às ruas e enterrou essas pautas. Sobrou o quê? Apenas o apoio a Eduardo Bolsonaro, autoexilado nos Estados Unidos tentando impor sanções ao Brasil. Com a reunião entre Donald Trump e Lula caminhando bem, ficaram sem discurso. E, para piorar, assistem impotentes à escalada de Lula nas pesquisas para 2026. Estavam à deriva.

Foi então que o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, tirou essa turma da letargia. Recorreu à velha fórmula: mais uma chacina. Antes de se eleger em 2022, já havia promovido um massacre em nome da segurança. Agora, quer se tornar senador em 2026 e, quem sabe, intocável diante das acusações de corrupção que o cercam. “Já sei!”, pensou. “Preciso de outra operação sangrenta.”

E ela veio: a Operação Contenção, que deixou ao menos 121 mortos, sendo considerada a mais letal da história do Rio. Uma pesquisa revelou que 63% da população apoiou a ação. Com esse respaldo, a eleição de Castro ao Senado parece garantida, assim como foram as de figuras como Pazuello, que sabotou a vacinação, e Ricardo Salles, que passou a boiada no meio ambiente e tentou vender madeira ilegal para os EUA. Sim, boa parte da população apoia bandidos, desde que bem vestidos e com mandato.

Na esteira de Castro, os bolsonaristas se animaram. Haviam levado um baque com a Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que desmantelou o tráfico sem disparar um único tiro. A operação mostrou que é mais eficaz cortar as cabeças da hidra do que continuar a matar soldados substituíveis.

Quando a imprensa noticiou o sucesso da operação, os deputados se retraíram. Já estavam incomodados com a PEC da Segurança Pública, que propõe constitucionalizar o SUSP, ampliar o papel da PF e das guardas municipais, e fortalecer a atuação da União. O ministro da Justiça foi à Comissão diversas vezes, mas os deputados preferiram atacar Lula e gravar vídeos para suas redes, saindo do plenário sem ouvir uma palavra.

É claro que projetos como a PEC da Segurança e operações como a Carbono Oculto não interessam a eles. Se o crime organizado for desmantelado, vão viver de quê? Não sejamos ingênuos: boa parte, senão todos, são financiados pelo mesmo crime que dizem combater. Sim, o crime organizado está na Câmara.

Agora, em estado de estase, voltaram a ter uma pauta: acusar o governo federal de “defender bandidos”. E há mais um ponto a considerar. A operação de Castro ocorreu em áreas dominadas pelo Comando Vermelho. Muitos “bagrinhos” foram mortos. Essa desorganização momentânea pode abrir espaço para o PCC avançar e tomar território. É só uma hipótese, sem dados, sem análise. Mas quem sabe?

O governo federal, dentro da política republicana de Lula, se dispõe a ajudar o Rio. Cláudio Castro dará apoio total? Será?

"O Brasil não aguenta mais quatro anos com Lula!"

Por Fernando Castilho



Foi o que bradou o deputado Gustavo Gayer na tribuna da Câmara, ignorando solenemente todos os índices positivos do governo, inclusive o recorde histórico de 150 mil pontos alcançado ontem na Bolsa de Valores. No momento, confesso, fiquei indignado com o tamanho da mentira do deputado bolsonarista. Depois, respirei fundo e pus-me a pensar: qual é o Brasil de Gayer? O do povo, ou das elites?

Ora, Gayer é um dos lacaios que, ao longo da história, sempre estiveram a serviço das oligarquias e da elite que insiste em mandar no país, e que, claro, não admite perder um centímetro de seus privilégios. Foi essa mesma elite que, de mãos dadas com os militares, deu o golpe de 1964 e instaurou uma ditadura que durou 21 anos. Saudade, né?

A frase do deputado, aliás, me remeteu imediatamente ao código usado pelos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o famoso “apito de cachorro”, ou, para os íntimos, a “festa da Selma”. Explico.

Depois que o governo Lula desarmou, ao menos em parte, a bomba tarifária deixada pelo terrorista oficial de gravata vermelha, Donald Trump, que impunha tarifas de 50% aos produtos brasileiros, e o Congresso sepultou a PEC da Anistia e o PL da Dosimetria, que pretendiam livrar Jair Bolsonaro da cadeia, a extrema direita viu Lula subir mais uma vez nas pesquisas para 2026. E aí bateu o desespero.

Sem projeto, sem pauta, sem rumo, e ainda sendo fustigada por Flávio Dino, que vem apertando o torniquete para punir quem cometeu fraudes com emendas parlamentares, a extrema direita precisava de uma boia de salvação. E ela veio, pasme, na forma de uma chacina comandada pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Contra todas as expectativas do mundo civilizado, sua popularidade aumentou. Sim, matar dá voto. E isso pode garantir a ele uma vaga no Senado.

A direita, ou melhor, o centrão, aquele agrupamento que habita a Câmara apenas para fazer negócios lucrativos, ainda hesita em abandonar o barco bolsonarista e embarcar com Lula. Afinal, quem estiver no palanque ao lado do presidente terá o apoio do povo para se reeleger. Mas se ainda não mudaram totalmente de lado, é porque têm dúvidas quanto à manutenção do recebimento de emendas. Pragmáticos, sempre.

Já a extrema direita decidiu: se Lula não for contido, vence no primeiro turno. E o bolsonarismo sabe disso. A pergunta é: como conter?

As pesquisas indicam que a percepção popular do sucesso do governo está superando as avalanches de fake news que tentam pintar o país como um caos. Enquanto bolsonaristas como Gayer fazem vídeos jurando que o arroz está a mais de R$ 40, a realidade insiste em mostrar que o preço não passa de R$ 18. Se a estratégia continuar sendo apenas espalhar mentiras, Lula vence.

Por isso, é preciso criar factoides. Destruir a reputação de Lula e do governo virou prioridade. Um desses factoides foi justamente a chacina no Rio. A acusação é direta e rasteira: “Lula e a esquerda defendem bandido!”, ou seja, o velho calcanhar de Aquiles: segurança pública.

Mas de pouco adianta o governo estar lutando para aprovar a PEC da Segurança Pública, que ataca os líderes do crime organizado, asfixiando suas finanças e os prendendo, se isso não for amplamente divulgado. Afinal, manchete boa é só a que sangra.

A senha foi dada por Cláudio Castro: “Querem se eleger presidente? Façam como eu, matem.

Não me surpreenderia se Caiado, Zema, Ratinho Jr. e, principalmente, Tarcísio (que já tem uma chacina no currículo) começassem a competir em número de mortos em seus estados. Afinal, a extrema direita não vai assistir passivamente Lula vencer no primeiro turno.

E se não for possível subir nas pesquisas, o plano é simples: derrubar Lula. Ou acabar com ele.

Que Lula esteja com sua segurança bem reforçada.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Centrão: o grande camaleão da politica brasileira

Por Fernando Castilho



Nos últimos tempos, o Centrão, essa entidade política que sempre sabe onde fica a cozinha, esteve confortavelmente abraçado à extrema direita bolsonarista. A parceria, claro, não foi por afinidade ideológica, mas por conveniência. Prova disso foram os mimos trocados, como a PEC da Blindagem, uma tentativa quase poética de escapar das investigações sobre o destino das emendas parlamentares. Afinal, ninguém quer acabar atrás das grades por falta de zelo orçamentário.

Outro ponto de união foi a resistência à taxação dos super-ricos. Nada mais natural: muitos dos parlamentares do Centrão fazem parte desse seleto grupo e, como bons representantes (deles mesmos), defenderam com unhas e dentes seus próprios bolsos.

Mas eis que o roteiro saiu do controle. O povo, elemento imprevisível da democracia, resolveu sair às ruas contra os abusos. A mobilização popular pegou os parlamentares de surpresa. Com as eleições se aproximando, a má fama do Centrão começou a ameaçar a reeleição de seus membros, que até então acreditavam que bastava distribuir emendas e selfies para garantir votos.

A onda de protestos também deu um empurrãozinho nas pesquisas para o presidente. Lula foi beneficiado por episódios dignos de série. Eduardo Bolsonaro, ao agir contra os interesses nacionais, acabou presenteando Lula com o papel de defensor da soberania. É preciso lembrar que, uma vez iniciadas as campanhas eleitorais na TV, os vídeos em que Eduardo pede que os Estados Unidos imponham sanções ao Brasil, joguem uma bomba atômica ou enviem um porta-aviões para cá, serão enormemente explorados. Quem do Centrão, em juízo perfeito, vai querer ter seu nome ligado a alguém tão tóxico ao país?

Além do tiro no pé que Eduardo deu, Donald Trump, num giro inesperado, buscou diálogo com Lula para tentar consertar os estragos do tarifaço. Sim, até Trump percebeu que talvez seja melhor conversar com quem manda de verdade e não com dois patetas.

Outro dado importante é o destino de Jair Bolsonaro. Preso, ele iniciará uma nova trajetória rumo ao... ostracismo. Rei morto, rei posto. Adeus.

Enquanto o cenário se inverte, dois ministros de Lula, mesmo sob ameaças de expulsão partidária, ignoraram os caciques e permaneceram no governo. Um gesto raro de convicção política, ou talvez apenas de cálculo mais refinado.

Diante desse novo cenário, o Centrão, sempre com o dedo no vento, começa a recalibrar sua bússola. Alguns membros já se aproximam do governo, conscientes de que dividir o palanque com Lula, favorito em todos os cenários eleitorais, e não com um possível Tarcísio ou Ratinho Jr., pode render bons frutos. Afinal, quem quer ficar do lado que só oferece desgaste e memes ruins?

A debandada tem uma consequência direta: o isolamento dos bolsonaristas, agora desmascarados por seu apoio explícito aos bilionários, às casas de apostas e aos bancos. Nada como defender esse povo... rico. E há vídeos mais que suficientes de Sóstenes e outros, que serão explorados durante a campanha.

A aproximação do Centrão com Lula pode redesenhar completamente o jogo político. Governadores e prefeitos ligados ao grupo já ensaiam passos rumo ao governo federal, em busca de apoio, recursos e, claro, emendas. A dança das cadeiras começou, e os palanques bolsonaristas em estados-chave correm o risco de ficarem vazios ou, pior, com plateia hostil.

No Nordeste, onde Lula nada de braçada, a migração partidária deve ser ainda mais intensa. Não será surpresa se deputados e senadores trocarem de sigla como quem troca de gravata, buscando abrigo em partidos mais alinhados ao governo, como PSB, MDB ou até o próprio PT. Afinal, a coerência para eles é ditada pelo momento.

Essa disputa por espaço no campo governista pode gerar tensões internas. Partidos que sempre estiveram com Lula vão exigir contrapartidas: mais ministérios, mais apoio, mais tudo. E o bolsonarismo? Deve se restringir aos núcleos ideológicos mais radicais, com menos capilaridade eleitoral e orçamento digno de vaquinha online.

Com o Centrão recalculando sua rota, a dinâmica legislativa também muda. Lula pode conquistar uma base mais ampla e estável, suficiente para aprovar projetos estratégicos, especialmente nas áreas de economia, justiça tributária e reformas sociais e ambientais. O isolamento dos bolsonaristas, por sua vez, tende a reduzir a obstrução nas votações. O plenário, palco de gritaria e memes, pode finalmente virar espaço de debate (ou pelo menos de silêncio constrangedor). A negociação com o Centrão, embora pragmática e baseada em cargos e verbas, pode garantir avanços em pautas populares. Afinal, até o fisiologismo tem seu lado útil.

O Centrão, como sempre, não decepciona. Atento à direção dos ventos, recalculou sua rota com a precisão de um GPS político. A combinação entre pressão popular, desgaste bolsonarista e ascensão de Lula criou um novo campo gravitacional no Congresso. E como bons satélites da sobrevivência eleitoral, os parlamentares estão sendo atraídos para o lado do governo.

Se isso vai redefinir os rumos do país? Provavelmente. Se vai ser por convicção? Pouco provável. Mas no Brasil, até a conveniência pode ser revolucionária, desde que venha com cargo, verba e uma boa foto no palanque.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Apresento o Zé Ninguém para a vaga de Barroso no STF

Por Fernando Castilho




Com a saída de Luís Roberto Barroso do STF, Lula tem agora a chance de corrigir alguns erros do passado.

Comecemos por Barroso. Em 2021, ele declarou à Folha que Dilma Rousseff não caiu por crime de responsabilidade, mas por não saber fazer política. Traduzindo: foi deposta por falta de traquejo parlamentar, não por pedaladas. E Barroso, indicado por ela, diante dessa “injustiça”, fez o quê? Nada. Omitiu-se. Um silêncio que grita. Dilma errou ao escolhê-lo, e Lula, agora, pode consertar isso.

Aliás, Dilma também nos presenteou com Luiz Fux, grande professor e autor de importantes livros sobre direito processual que, vergonhosamente os rasgou para defender um golpista. Mais, sobre ele, prefiro não falar para poupar meus dedos e sua paciência.

Lula, por sua vez, teve seu momento de arrependimento com Dias Toffoli. Quando estava preso, foi impedido por Toffoli de comparecer ao velório do irmão. Só autorizou a ida quando faltavam 20 minutos para o enterro, e ainda sugeriu que o corpo fosse levado a um quartel para um velório improvisado. Lula, com razão, recusou. E essa mágoa, dizem, ainda ecoa no Planalto.

Agora, Lula tem uma nova lista de possíveis indicados: Jorge Messias, Rodrigo Pacheco, Bruno Dantas, Carol Proner... Nomes fortes. Mas vamos aos poréns.

Rodrigo Pacheco? Um político de direita que, de repente, virou um doce de pessoa, justo quando a vaga apareceu. Coincidência, claro. Já Bruno Dantas é cria de Gilmar Mendes. Precisa dizer mais?

— “Ah, Fernando, então você quer um ministro que diga amém a tudo que Lula fizer, como Nunes Marques e André Mendonça fazem com Bolsonaro?”

Não. A questão não é alinhamento cego. A verdadeira polarização não é entre esquerda e direita, mas entre quem defende a democracia e quem flerta com o autoritarismo; entre quem luta pelos vulneráveis e quem serve aos privilegiados; entre quem busca justiça e quem a transforma em privilégio.

Outros nomes correm por fora: Kakay, Lenio Streck, Pedro Serrano... Todos bons. Mas o que define um bom ministro do STF?

Além do tal “notório saber jurídico”, que, convenhamos, virou bordão, é preciso que o ministro saiba para que lado pender a balança: o lado dos que mais precisam de justiça. Hoje, ela pende para os patrões, os latifundiários, o INSS contra os aposentados. Gilmar, Toffoli, Fux, Barroso, Nunes Marques, Mendonça, Cármen Lúcia... todos muito comprometidos com a minoria abastada.

Por isso, minha aposta é Jorge Messias. Tem preparo, tem trajetória, tem compromisso. E Carol Proner, porque o STF precisa de mais mulheres, e porque ela é muito competente.

Mas, correndo totalmente por fora, e com chances rigorosamente nulas, apresento a candidatura do Zé Ninguém.

Sim, ele tem notório saber jurídico. Não no sentido tradicional, claro. Seu saber é notório justamente por ser... escasso. Mas ele conhece bem a lei da vida e da sobrevivência. E tem algo que falta a muitos togados: senso de justiça. Aquele impulso quase infantil de querer proteger os mais vulneráveis e punir quem os explora.

Portanto, se você acha que o mais importante para o STF é alguém que conheça leis, talvez o Zé Ninguém não seja o nome ideal. Mas se acredita que o essencial é ter compromisso com quem realmente precisa de justiça, então, quem sabe, ele mereça ao menos um voto de confiança. Ou um cafezinho no gabinete.

Mas, afinal, quem é o Zé Ninguém?

São milhões espalhados pelo Brasil. Gente que possui muito mais senso de justiça que a maioria dos ministros. Gente que não faz negócios com empresas por meio de escritórios de fachada. Gente que não organiza regabofes em Portugal. Gente que não acha que indígenas e aposentados sejam fardos para o país. Gente, enfim, que carrega nas costas, dia após dia, o peso de uma desigualdade de mais de quinhentos anos.