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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A cigana leu o destino do Brasil?

Por Fernando Castilho



Todo começo de ano é a mesma coisa: videntes e astrólogos se revezam em adivinhações. A maioria prefere “arriscar” prevendo que um artista famoso vai morrer. E, lógico, infelizmente temos um bom número de longevos candidatos a nos deixar.

Mas, longe de me arvorar em pitonisa, há no campo político possibilidades que requerem análises sérias.

Em 2026, o Brasil voltará a viver um momento decisivo. A eleição presidencial não será apenas uma disputa entre nomes, mas um pleito que colocará em jogo o sentido do ciclo político iniciado com a redemocratização, interrompido em 2016 e reconfigurado após 2022. Lula, candidato à reeleição, estará no centro desse processo, seja vencendo, seja perdendo.

Diante disso, há três cenários possíveis: Lula perde a eleição, Lula vence a eleição e Lula faz seu sucessor em 2030.

Se Lula perder a eleição, o que ocorrerá com o país dependerá menos dele e mais de quem o substituir. Uma derrota diante de um candidato da direita democrática institucional representaria uma alternância de poder típica das democracias liberais. Nesse cenário, o Brasil tenderia a manter a estabilidade institucional, com respeito às regras do jogo, mas passaria por uma reorientação econômica mais restritiva, marcada por ajuste fiscal, contenção de políticas redistributivas e maior sintonia com o mercado financeiro. O conflito social não desapareceria; ao contrário, sindicatos e movimentos populares reagiriam a eventuais cortes, produzindo um ambiente de tensão controlada, porém constante. Contudo, não se vê no horizonte esse candidato, que seria chamado de terceira via.

Muito mais preocupante seria a derrota de Lula para um campo político de viés autoritário ou populista radical:  o bolsonarismo, mesmo que travestido de moderado para enganar mais uma vez os incautos. Nesse caso, o país poderia voltar a conviver com ataques sistemáticos às instituições, especialmente ao Supremo Tribunal Federal, à imprensa e aos mecanismos de controle. A polarização entre quem defende a democracia e quem quer destruí-la se intensificaria, e o Brasil correria novamente o risco de isolamento internacional, sobretudo em temas ambientais e de direitos humanos. O perigo maior, nesse cenário, não seria uma crise econômica imediata, mas a corrosão progressiva da democracia liberal.

É preciso considerar ainda que essa corrosão pode ocorrer como uma verdadeira ruptura, ou seja, a continuidade da tentativa de golpe, agora legitimada pelas urnas. Qualquer um que derrote Lula, dentro de um espectro que vai de Flávio Bolsonaro a Tarcísio, Zema, Caiado ou Ratinho, se prestaria a esse papel. O retrocesso, após quatro anos de recuperação do país frente aos estragos causados por Jair Bolsonaro, seria inevitável. E, lógico, nesse combo ainda estaria uma anistia ao genocida.

Em qualquer hipótese de derrota, Lula não desapareceria da cena política. Tornar-se-ia o principal líder da oposição, uma espécie de fiador simbólico da ordem democrática, tentando preservar seu legado e, ao mesmo tempo, organizar o campo progressista para o futuro. Ainda assim, uma derrota em 2026 marcaria o início inequívoco do declínio do lulismo como liderança pessoal, mesmo que o projeto político sobrevivesse.

Se, por outro lado, Lula vencer a eleição de 2026, o significado político será profundo. Ele consolidaria um ciclo histórico raro, tornando-se o presidente mais longevo da República e uma figura comparável, em termos de duração e influência, a Getúlio Vargas. Essa vitória representaria não apenas um triunfo eleitoral, mas uma confirmação de que o campo democrático conseguiu resistir às investidas autoritárias do período anterior.

Ainda assim, um eventual quarto mandato não seria um governo de grandes rupturas. As restrições fiscais, a fragmentação do Congresso e o desgaste natural do tempo imporiam limites claros à ação governamental. Lula tenderia a governar administrando o possível: aprofundando políticas sociais dentro das margens disponíveis, reforçando o papel do Estado como indutor do desenvolvimento, mas evitando confrontos que pudessem gerar instabilidade. O fim da escala 6 x 1 seria a grande marca de um governo que a grande imprensa se esforça para caracterizar como ausente de marcas. Do ponto de vista institucional, haveria um ambiente de maior previsibilidade, com fortalecimento do STF e redução significativa do risco de aventuras golpistas.

Uma vitória em 2026 também abriria, de forma explícita, a questão da sucessão em 2030. Lula não poderá concorrer novamente, e o país entrará inevitavelmente no debate sobre o pós-Lula. Nesse ponto, sua decisão será estratégica. Ele tenderá a buscar um sucessor que combine lealdade política, capacidade de diálogo com o centro e menor grau de polarização. A prevalecer esse cenário, surgem dois nomes possíveis: Geraldo Alckmin e Simone Tebet. Se em 2026 Alckmin e Tebet concorrerem e se elegerem governadores em seus estados, a depender do sucesso de suas administrações, podem surgir fortalecidos para 2030. Pode-se incluir nessa pequena lista Fernando Haddad, desde que ele comece a demonstrar maior traquejo político. Um nome excessivamente ideológico poderia preservar a identidade histórica do PT, mas teria mais dificuldade eleitoral. Um nome mais moderado, técnico-político, poderia ampliar alianças e garantir competitividade, ainda que ao custo de diluir parte do lulismo clássico. Há também a possibilidade de Lula apoiar alguém da esquerda fora do PT, desde que comprometido com uma frente ampla democrática e com a preservação de seu legado. Nesse caso, pode surgir Guilherme Boulos, que, no cargo de ministro, parece estar sendo preparado por Lula para obter experiência administrativa.

O dilema é evidente: indicar alguém fraco pode levar à derrota; indicar alguém forte demais pode significar perder o controle sobre o legado político; não indicar claramente pode fragmentar o campo progressista. Historicamente, Lula prefere controlar a sucessão, mas a história mostra que nenhuma sucessão é plenamente controlável.

Em síntese, 2026 será menos sobre Lula individualmente e mais sobre o destino do ciclo político que ele simboliza. Se perder, o Brasil poderá voltar a viver momentos tensos de ameaça institucional. Se vencer, o país tende a atravessar um período de estabilidade democrática e transição, preparando-se para um cenário inevitável: o fim do lulismo como liderança pessoal em 2030, ainda que suas ideias continuem a disputar o futuro político do Brasil e o avanço nas políticas que reduzirão a desigualdade e colocarão o país no grupo restrito das maiores economias do mundo.

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Jaques Wagner: herói ou vilão?

Por Fernando Castilho



Antes de mais nada, convém baixar a guarda, como eu já fiz, para pensar racionalmente e evitar rachaduras desnecessárias dentro da esquerda.

O famigerado PL da Dosimetria, uma excrescência que jamais deveria ter visto a luz do dia e que Renan Calheiros batizou com precisão cirúrgica de “PL da Infâmia”, chegou à CCJ do Senado. Davi Alcolumbre, sempre diligente quando convém, não poupou esforços para aprová-lo antes do recesso. O projeto tinha toda a cara de rejeitado e parecia pronto para o cemitério legislativo. Mas eis que surge o imponderável: Sergio Moro, em sua costumeira criatividade, apresentou uma “emenda de redação”. Só que, na prática, não era redação coisa nenhuma. A alteração impedia que o PL beneficiasse autores de crimes sexuais e de corrupção. Em outras palavras, uma emenda de mérito travestida de retoque gramatical. Resultado: o projeto deveria voltar à Câmara, como manda a Constituição, depois retornar ao Senado, e não seria votado este ano.

Foi aí que Jaques Wagner, do PT, enxergou a oportunidade. A jogada era simples e engenhosa: condicionar a aprovação do PL à aprovação de outro projeto vital para o governo: o aumento da taxação das bets e das fintechs, capaz de render cerca de 20 bilhões de reais em 2026, ano eleitoral. Enquanto isso, Lindbergh Farias, indignado, entraria no STF com um mandado de segurança denunciando a “criatividade jurídica” de Moro. Se fazia parte do acordo com Wagner, ninguém sabe, ninguém viu. Mas acho que não.

O roteiro é quase previsível: o STF deve considerar a votação da CCJ inconstitucional, o projeto volta à Câmara, é aprovado novamente e retorna ao Senado. Mas isso só em 2026, depois do recesso. Desta vez, sem acordo algum, será rejeitado e arquivado. Lula não precisará nem gastar tinta com veto. Jogada de mestre, típica de quem coleciona décadas de política, embora bastante discutível do ponto de vista republicano e ético, e que pode causar ao senador sua destituição de líder do governo.

Nem todos aplaudiram. Renan Calheiros denunciou em plenário, sem papas na língua, a conversa reservada que teve com Wagner, e classificou o acordo como uma “farsa” da qual não participaria. Convenhamos, o termo cai como uma luva.

Nas redes, o resultado é uma esquerda dividida: uns se dizem traídos depois das manifestações de domingo, outros se esforçam para encontrar justificativas que isentem o governo de qualquer manobra.

No fim das contas, o pragmatismo frio de Jaques Wagner pode estar conduzindo ao enterro definitivo do infame PL da Dosimetria, enquanto garante a taxação das bets e das fintechs, uma vitória política e financeira para o governo.

 Ironias da política: às vezes, para enterrar uma infâmia, é preciso abraçar uma farsa. Ou criar outra infâmia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Jorge Messias virou a moeda de troca contra o PL da Dosimetria

Por Fernando Castilho


Não precisamos perder tempo relembrando os últimos espetáculos grotescos de Hugo Motta na Câmara dos Deputados. O que importa é ir direto ao ponto.

O famigerado PL da Dosimetria já passou pela Câmara e agora segue para o Senado. Lá, o presidente Davi Alcolumbre, sempre ávido por protagonismo, anunciou que pretende votar ainda este ano. O detalhe é que vários senadores como Renan Calheiros e Otto Alencar já se insurgiram de forma áspera contra o atropelo e disseram que não vão engolir a pressa. Veremos.

O relator escolhido é ninguém menos que Esperidião Amin, do PL. Um homem que guarda no coração sua velha paixão: a Arena, partido que sustentou a ditadura militar. Pois bem, Amin já avisou que vai “mexer” no projeto para incluir a anistia. Ou seja, o que será votado não é o PL original, mas um Frankenstein jurídico feito sob medida para reduzir as penas do totem Jair Bolsonaro e seus generais de estimação.

Vale lembrar: quando a PEC da Bandidagem chegou ao Senado, Alcolumbre correu para enterrá-la, tentando agradar Lula para emplacar Rodrigo Pacheco no STF. Ganhou pontos, mas não ganhou o prêmio. Agora, ressentido, decidiu se vingar. E a vingança vem embalada no PL da Dosimetria.

Se esse monstrengo passar no Senado, seguirá para sanção de Lula, que obviamente vetará. A Câmara, previsivelmente, derrubará o veto. E então algum partido baterá às portas do STF com uma ADI ou ADPF. É aí que mora o perigo. Explico.

Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli são simpáticos a Rodrigo Pacheco. Já Nunes Marques e André Mendonça preferem Jorge Messias, por afinidade evangélica. Lula sabe que o projeto tem chances reais de ser chancelado pelo Supremo. Bastam seis votos. E Alcolumbre também sabe. Portanto, há um conluio descarado entre parte dos ministros do STF e o presidente do Senado.

No meio disso tudo, Jorge Messias virou moeda de troca. O assalto é cristalino: “Lula, não indique Messias. Indique Pacheco e o PL da Dosimetria será enterrado no Senado.” É chantagem pura e simples. E, como toda chantagem, tende a funcionar. Lula será empurrado a indicar Rodrigo Pacheco.

Eis a atmosfera em que os poderes convivem “harmoniosamente” hoje: um teatro de pressões, vinganças e chantagens. Harmonia, aqui, é apenas o nome pomposo dado ao caos institucional.

domingo, 30 de novembro de 2025

A locomotiva Lula e o centrão descarrilado

Por Fernando Castilho



Antes de qualquer coisa, vamos aos números, pois eles têm o ótimo hábito de esmagar discursos inflamados:

  • Desemprego: 5,4%, a menor taxa desde 2012, lá no governo Dilma.
  • Inflação: 0,09%, a mais baixa desde 1998.
  • Bolsa: 159 mil pontos, recorde histórico.
  • Dólar: R$ 5,34, bem longe dos R$ 6,31 que já vimos.
  • Exportações do agro: US$ 15,5 bilhões, mesmo com tarifaço.
  • Renda média do trabalhador: R$ 3057,00, recorde histórico.

Ou seja, o cenário econômico está tão arrumadinho que desmonta qualquer narrativa oposicionista. E se isso não basta para o centrão largar o bolsonarismo e embarcar na locomotiva Lula 2026, tem mais: a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. O governo ainda não capitalizou isso, mas Lula vai anunciar em rede nacional (até que enfim). Resultado? No ano que vem, corações e mentes vão migrar rapidinho, porque não é todo dia que um presidente coloca mais de R$ 4 mil por ano no bolso do trabalhador, o suficiente para trocar de TV, geladeira ou máquina de lavar.

E aí fica a pergunta: quem vai querer se arriscar a não se reeleger ficando fora do palanque de Lula? Os novatos vão mesmo apostar suas fichas em um criminoso já preso? Ou em figuras tão inexpressivas que mal chegam a dois dígitos nas pesquisas? Convenhamos: é pedir para perder.

O agro, por exemplo, já começou a rir à toa. Cada plano safra bate recorde em relação ao anterior. Nunca ganharam tanto dinheiro. E já perceberam que foi Lula quem segurou a onda depois da “patriotada” de Eduardo Bolsonaro, que quase afundou o setor.

Lula está com a faca e o queijo na mão. Talvez por isso tenha bancado Jorge Messias no STF, mesmo comprando briga com o todo-poderoso Davi Alcolumbre. Mas se o mais lógico é embarcar na locomotiva de Lula, por que o centrão insiste em pressionar o governo e abraçar pautas que só prejudicam a população, a ponto de ganhar o título de “pior congresso da história” ou “congresso inimigo do povo”?

A resposta é simples: medo da prisão.
Quando Lula disse em 1993 que a Câmara tinha “mais de 300 picaretas com anel de doutor”, não imaginava que a frase atravessaria décadas com tanta precisão. Hoje, pelo menos três operações: Carbono Oculto, Banco Master e Poço de Lobato. Elas estão desmontando quadrilhas financeiras e prendendo gente graúda. E adivinha? Tem parlamentar do centrão e do bolsonarismo no meio. Muitos. Tem até governador. Sem falar nas emendas parlamentares, que já começam a pegar vários deles pelo colarinho.

No fim das contas, pressionar o governo virou a estratégia da sobrevivência: ou Lula os salva, ou a cadeia os espera. Eis o motivo da adesão tímida.

Se esse é mesmo o pior congresso da história, talvez a depuração em curso torne o de 2027 um pouco menos vergonhoso. Mas não se iluda: picareta com anel de doutor é espécie resistente.

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Lula voando em céu de brigadeiro

Por Fernando Castilho



Durante a COP 30, em Belém, o ministro do Turismo, Celso Sabino, prestes a ser expulso do União Brasil por cometer o grave pecado de permanecer no governo, declarou, com ar messiânico: “Nenhum partido político, nenhum cargo ou ambição pessoal vai me afastar desse povo que eu amo.” E, num gesto digno de novela das seis, olhou nos olhos de Lula e disse: “Conte comigo, onde quer que eu esteja, para lhe apoiar, para segurar na sua mão.” Faltou só a trilha sonora e os créditos finais.

Outro que resolveu dar uma guinada retórica foi o deputado Otoni de Paula. Sim, ele mesmo, um dos mais fervorosos defensores de Jair Bolsonaro, agora faz críticas públicas a Silas Malafaia e à gestão desastrosa (eufemismo generoso) de Cláudio Castro no Rio de Janeiro. Aos poucos, o pastor Otoni vai se aproximando de Lula como quem muda de banco na igreja, discretamente, mas com fé renovada.

E tem mais: o senador Cleitinho, conhecido por suas falas inflamadas contra o presidente, declarou recentemente que votará a favor de todos os projetos do governo que beneficiem o povo, como a isenção do Imposto de Renda. Um gesto nobre, claro, mas que também soa como quem já está ensaiando o discurso para o novo palanque.

Já o governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (também do União Brasil), resolveu mirar em Eduardo Bolsonaro. Criticou duramente o deputado por ter atuado junto a Donald Trump para impor tarifas de 50% ao Brasil. Aparentemente, o nacionalismo econômico bolsonarista tem seus limites, especialmente quando ameaça o agronegócio.

Cito esses quatro, todos da ala mais à direita do espectro político, para ilustrar uma tese simples: se até bolsonaristas já ensaiam passos de dança em direção a Lula, imagine o que os deputados do centrão não farão para garantir um espacinho no palanque presidencial em 2026.

É pura lógica de sobrevivência: os indicadores econômicos vão bem, Lula lidera todas as pesquisas, e, a partir do ano que vem, trabalhadores que ganham até R$ 5 mil mensais verão sua renda aumentar com o fim da mordida do Imposto de Renda. Subir no palanque com Caiado, Ratinho Jr., Zema ou até mesmo Tarcísio, nesse cenário, seria um ato de suicídio político, e sem bilhete de despedida.

Outro fator que acelera a debandada é a iminente prisão de Bolsonaro. Não deve acontecer logo após o julgamento dos embargos de declaração, pois Alexandre de Moraes — sempre adepto do xadrez em vez do pôquer — pode conceder mais um prazo. Curto. Mas, se a defesa não trouxer nada de novo, os embargos nem serão recepcionados, e o ex-presidente, alguns dias depois, será transferido para a Papuda. Hoje, em prisão domiciliar, Bolsonaro já caiu no esquecimento e, quando for para o regime fechado na Papuda, poucos darão falta. Nem os pombos da Praça dos Três Poderes.

Como disse Lula: rei morto, rei posto. E o novo rei, ao que tudo indica, está com a coroa bem ajustada.

Enquanto isso, a extrema-direita, órfã e desorientada, começa a disputar as roupas do defunto. Em Santa Catarina, a briga é de foice no escuro. A deputada Carol de Toni tinha a promessa do governador Jorginho Melo de que seria candidata ao Senado, ao lado de Espiridião Amin. Mas Jorginho, num gesto clássico do bolsonarismo raiz, rasgou o acordo para atender à exigência de Bolsonaro: emplacar Carluxo. Sim, ele mesmo, com seu inconfundível sotaque carioca, como candidato. Como a decisão não pode ser salomônica, Carol de Toni ameaça deixar o PL. Afinal, Jorginho jamais ousaria contrariar o clã.

Com o sucesso da COP 30 ofuscando a narrativa golpista que tentava colar em Lula o rótulo de “defensor de bandido”, restou à extrema-direita o desespero. Após o enterro do projeto de anistia, agora tentam aprovar uma aberração legislativa: obrigar meninas estupradas a levar a gravidez adiante.

Outro sintoma de desespero foi o relator do PL da Segurança Pública restringir a atuação da Polícia Federal no combate ao crime organizado, com o claro intuito de preservar seus líderes. Na cabeça desse pessoal, as polícias militares dos estados devem continuar a sacrificar rapazes de bermuda e chinelo, enquanto a diretoria segue intocada em mansões com garagens abarrotadas de carrões esportivos. Porém, há alguns meses, o povo saiu às ruas e conseguiu derrubar a PEC da Bandidagem. Talvez agora tenha que fazer o mesmo contra esse projeto absurdo.

Vencida mais essa tentativa de golpe no governo (e será), a menos que algo absolutamente imponderável aconteça, Lula seguirá até 2026 em céu de brigadeiro. E, pelo visto, com cada vez mais gente pedindo carona na cabine.

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Bandido bom é parlamentar eleito?

Por Fernando Castilho



Há décadas, um grupo de políticos se alimenta da velha e falaciosa máxima: “bandido bom é bandido morto”. É a chamada bancada da bala na Câmara dos Deputados, sempre presente, eleição após eleição, vociferando que só a violência resolve o problema da segurança pública.

Nas duas últimas legislaturas, essa bancada ganhou reforço: uma cepa de deputados bolsonaristas como Paulo Bilinsly e o sargento Fahour, que se sentem em casa na Comissão de Segurança Pública. Até poucos meses atrás, suas únicas pautas eram a PEC da Bandidagem, para livrá-los dos próprios crimes, e o PL da Anistia, para salvar o chefe da quadrilha, Jair Bolsonaro, o mesmo que inundou o crime organizado com fuzis e armas de todos os calibres.

Mas o povo foi às ruas e enterrou essas pautas. Sobrou o quê? Apenas o apoio a Eduardo Bolsonaro, autoexilado nos Estados Unidos tentando impor sanções ao Brasil. Com a reunião entre Donald Trump e Lula caminhando bem, ficaram sem discurso. E, para piorar, assistem impotentes à escalada de Lula nas pesquisas para 2026. Estavam à deriva.

Foi então que o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, tirou essa turma da letargia. Recorreu à velha fórmula: mais uma chacina. Antes de se eleger em 2022, já havia promovido um massacre em nome da segurança. Agora, quer se tornar senador em 2026 e, quem sabe, intocável diante das acusações de corrupção que o cercam. “Já sei!”, pensou. “Preciso de outra operação sangrenta.”

E ela veio: a Operação Contenção, que deixou ao menos 121 mortos, sendo considerada a mais letal da história do Rio. Uma pesquisa revelou que 63% da população apoiou a ação. Com esse respaldo, a eleição de Castro ao Senado parece garantida, assim como foram as de figuras como Pazuello, que sabotou a vacinação, e Ricardo Salles, que passou a boiada no meio ambiente e tentou vender madeira ilegal para os EUA. Sim, boa parte da população apoia bandidos, desde que bem vestidos e com mandato.

Na esteira de Castro, os bolsonaristas se animaram. Haviam levado um baque com a Operação Carbono Oculto, da Polícia Federal, que desmantelou o tráfico sem disparar um único tiro. A operação mostrou que é mais eficaz cortar as cabeças da hidra do que continuar a matar soldados substituíveis.

Quando a imprensa noticiou o sucesso da operação, os deputados se retraíram. Já estavam incomodados com a PEC da Segurança Pública, que propõe constitucionalizar o SUSP, ampliar o papel da PF e das guardas municipais, e fortalecer a atuação da União. O ministro da Justiça foi à Comissão diversas vezes, mas os deputados preferiram atacar Lula e gravar vídeos para suas redes, saindo do plenário sem ouvir uma palavra.

É claro que projetos como a PEC da Segurança e operações como a Carbono Oculto não interessam a eles. Se o crime organizado for desmantelado, vão viver de quê? Não sejamos ingênuos: boa parte, senão todos, são financiados pelo mesmo crime que dizem combater. Sim, o crime organizado está na Câmara.

Agora, em estado de estase, voltaram a ter uma pauta: acusar o governo federal de “defender bandidos”. E há mais um ponto a considerar. A operação de Castro ocorreu em áreas dominadas pelo Comando Vermelho. Muitos “bagrinhos” foram mortos. Essa desorganização momentânea pode abrir espaço para o PCC avançar e tomar território. É só uma hipótese, sem dados, sem análise. Mas quem sabe?

O governo federal, dentro da política republicana de Lula, se dispõe a ajudar o Rio. Cláudio Castro dará apoio total? Será?

"O Brasil não aguenta mais quatro anos com Lula!"

Por Fernando Castilho



Foi o que bradou o deputado Gustavo Gayer na tribuna da Câmara, ignorando solenemente todos os índices positivos do governo, inclusive o recorde histórico de 150 mil pontos alcançado ontem na Bolsa de Valores. No momento, confesso, fiquei indignado com o tamanho da mentira do deputado bolsonarista. Depois, respirei fundo e pus-me a pensar: qual é o Brasil de Gayer? O do povo, ou das elites?

Ora, Gayer é um dos lacaios que, ao longo da história, sempre estiveram a serviço das oligarquias e da elite que insiste em mandar no país, e que, claro, não admite perder um centímetro de seus privilégios. Foi essa mesma elite que, de mãos dadas com os militares, deu o golpe de 1964 e instaurou uma ditadura que durou 21 anos. Saudade, né?

A frase do deputado, aliás, me remeteu imediatamente ao código usado pelos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o famoso “apito de cachorro”, ou, para os íntimos, a “festa da Selma”. Explico.

Depois que o governo Lula desarmou, ao menos em parte, a bomba tarifária deixada pelo terrorista oficial de gravata vermelha, Donald Trump, que impunha tarifas de 50% aos produtos brasileiros, e o Congresso sepultou a PEC da Anistia e o PL da Dosimetria, que pretendiam livrar Jair Bolsonaro da cadeia, a extrema direita viu Lula subir mais uma vez nas pesquisas para 2026. E aí bateu o desespero.

Sem projeto, sem pauta, sem rumo, e ainda sendo fustigada por Flávio Dino, que vem apertando o torniquete para punir quem cometeu fraudes com emendas parlamentares, a extrema direita precisava de uma boia de salvação. E ela veio, pasme, na forma de uma chacina comandada pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Contra todas as expectativas do mundo civilizado, sua popularidade aumentou. Sim, matar dá voto. E isso pode garantir a ele uma vaga no Senado.

A direita, ou melhor, o centrão, aquele agrupamento que habita a Câmara apenas para fazer negócios lucrativos, ainda hesita em abandonar o barco bolsonarista e embarcar com Lula. Afinal, quem estiver no palanque ao lado do presidente terá o apoio do povo para se reeleger. Mas se ainda não mudaram totalmente de lado, é porque têm dúvidas quanto à manutenção do recebimento de emendas. Pragmáticos, sempre.

Já a extrema direita decidiu: se Lula não for contido, vence no primeiro turno. E o bolsonarismo sabe disso. A pergunta é: como conter?

As pesquisas indicam que a percepção popular do sucesso do governo está superando as avalanches de fake news que tentam pintar o país como um caos. Enquanto bolsonaristas como Gayer fazem vídeos jurando que o arroz está a mais de R$ 40, a realidade insiste em mostrar que o preço não passa de R$ 18. Se a estratégia continuar sendo apenas espalhar mentiras, Lula vence.

Por isso, é preciso criar factoides. Destruir a reputação de Lula e do governo virou prioridade. Um desses factoides foi justamente a chacina no Rio. A acusação é direta e rasteira: “Lula e a esquerda defendem bandido!”, ou seja, o velho calcanhar de Aquiles: segurança pública.

Mas de pouco adianta o governo estar lutando para aprovar a PEC da Segurança Pública, que ataca os líderes do crime organizado, asfixiando suas finanças e os prendendo, se isso não for amplamente divulgado. Afinal, manchete boa é só a que sangra.

A senha foi dada por Cláudio Castro: “Querem se eleger presidente? Façam como eu, matem.

Não me surpreenderia se Caiado, Zema, Ratinho Jr. e, principalmente, Tarcísio (que já tem uma chacina no currículo) começassem a competir em número de mortos em seus estados. Afinal, a extrema direita não vai assistir passivamente Lula vencer no primeiro turno.

E se não for possível subir nas pesquisas, o plano é simples: derrubar Lula. Ou acabar com ele.

Que Lula esteja com sua segurança bem reforçada.

segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Centrão: o grande camaleão da politica brasileira

Por Fernando Castilho



Nos últimos tempos, o Centrão, essa entidade política que sempre sabe onde fica a cozinha, esteve confortavelmente abraçado à extrema direita bolsonarista. A parceria, claro, não foi por afinidade ideológica, mas por conveniência. Prova disso foram os mimos trocados, como a PEC da Blindagem, uma tentativa quase poética de escapar das investigações sobre o destino das emendas parlamentares. Afinal, ninguém quer acabar atrás das grades por falta de zelo orçamentário.

Outro ponto de união foi a resistência à taxação dos super-ricos. Nada mais natural: muitos dos parlamentares do Centrão fazem parte desse seleto grupo e, como bons representantes (deles mesmos), defenderam com unhas e dentes seus próprios bolsos.

Mas eis que o roteiro saiu do controle. O povo, elemento imprevisível da democracia, resolveu sair às ruas contra os abusos. A mobilização popular pegou os parlamentares de surpresa. Com as eleições se aproximando, a má fama do Centrão começou a ameaçar a reeleição de seus membros, que até então acreditavam que bastava distribuir emendas e selfies para garantir votos.

A onda de protestos também deu um empurrãozinho nas pesquisas para o presidente. Lula foi beneficiado por episódios dignos de série. Eduardo Bolsonaro, ao agir contra os interesses nacionais, acabou presenteando Lula com o papel de defensor da soberania. É preciso lembrar que, uma vez iniciadas as campanhas eleitorais na TV, os vídeos em que Eduardo pede que os Estados Unidos imponham sanções ao Brasil, joguem uma bomba atômica ou enviem um porta-aviões para cá, serão enormemente explorados. Quem do Centrão, em juízo perfeito, vai querer ter seu nome ligado a alguém tão tóxico ao país?

Além do tiro no pé que Eduardo deu, Donald Trump, num giro inesperado, buscou diálogo com Lula para tentar consertar os estragos do tarifaço. Sim, até Trump percebeu que talvez seja melhor conversar com quem manda de verdade e não com dois patetas.

Outro dado importante é o destino de Jair Bolsonaro. Preso, ele iniciará uma nova trajetória rumo ao... ostracismo. Rei morto, rei posto. Adeus.

Enquanto o cenário se inverte, dois ministros de Lula, mesmo sob ameaças de expulsão partidária, ignoraram os caciques e permaneceram no governo. Um gesto raro de convicção política, ou talvez apenas de cálculo mais refinado.

Diante desse novo cenário, o Centrão, sempre com o dedo no vento, começa a recalibrar sua bússola. Alguns membros já se aproximam do governo, conscientes de que dividir o palanque com Lula, favorito em todos os cenários eleitorais, e não com um possível Tarcísio ou Ratinho Jr., pode render bons frutos. Afinal, quem quer ficar do lado que só oferece desgaste e memes ruins?

A debandada tem uma consequência direta: o isolamento dos bolsonaristas, agora desmascarados por seu apoio explícito aos bilionários, às casas de apostas e aos bancos. Nada como defender esse povo... rico. E há vídeos mais que suficientes de Sóstenes e outros, que serão explorados durante a campanha.

A aproximação do Centrão com Lula pode redesenhar completamente o jogo político. Governadores e prefeitos ligados ao grupo já ensaiam passos rumo ao governo federal, em busca de apoio, recursos e, claro, emendas. A dança das cadeiras começou, e os palanques bolsonaristas em estados-chave correm o risco de ficarem vazios ou, pior, com plateia hostil.

No Nordeste, onde Lula nada de braçada, a migração partidária deve ser ainda mais intensa. Não será surpresa se deputados e senadores trocarem de sigla como quem troca de gravata, buscando abrigo em partidos mais alinhados ao governo, como PSB, MDB ou até o próprio PT. Afinal, a coerência para eles é ditada pelo momento.

Essa disputa por espaço no campo governista pode gerar tensões internas. Partidos que sempre estiveram com Lula vão exigir contrapartidas: mais ministérios, mais apoio, mais tudo. E o bolsonarismo? Deve se restringir aos núcleos ideológicos mais radicais, com menos capilaridade eleitoral e orçamento digno de vaquinha online.

Com o Centrão recalculando sua rota, a dinâmica legislativa também muda. Lula pode conquistar uma base mais ampla e estável, suficiente para aprovar projetos estratégicos, especialmente nas áreas de economia, justiça tributária e reformas sociais e ambientais. O isolamento dos bolsonaristas, por sua vez, tende a reduzir a obstrução nas votações. O plenário, palco de gritaria e memes, pode finalmente virar espaço de debate (ou pelo menos de silêncio constrangedor). A negociação com o Centrão, embora pragmática e baseada em cargos e verbas, pode garantir avanços em pautas populares. Afinal, até o fisiologismo tem seu lado útil.

O Centrão, como sempre, não decepciona. Atento à direção dos ventos, recalculou sua rota com a precisão de um GPS político. A combinação entre pressão popular, desgaste bolsonarista e ascensão de Lula criou um novo campo gravitacional no Congresso. E como bons satélites da sobrevivência eleitoral, os parlamentares estão sendo atraídos para o lado do governo.

Se isso vai redefinir os rumos do país? Provavelmente. Se vai ser por convicção? Pouco provável. Mas no Brasil, até a conveniência pode ser revolucionária, desde que venha com cargo, verba e uma boa foto no palanque.

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

Apresento o Zé Ninguém para a vaga de Barroso no STF

Por Fernando Castilho




Com a saída de Luís Roberto Barroso do STF, Lula tem agora a chance de corrigir alguns erros do passado.

Comecemos por Barroso. Em 2021, ele declarou à Folha que Dilma Rousseff não caiu por crime de responsabilidade, mas por não saber fazer política. Traduzindo: foi deposta por falta de traquejo parlamentar, não por pedaladas. E Barroso, indicado por ela, diante dessa “injustiça”, fez o quê? Nada. Omitiu-se. Um silêncio que grita. Dilma errou ao escolhê-lo, e Lula, agora, pode consertar isso.

Aliás, Dilma também nos presenteou com Luiz Fux, grande professor e autor de importantes livros sobre direito processual que, vergonhosamente os rasgou para defender um golpista. Mais, sobre ele, prefiro não falar para poupar meus dedos e sua paciência.

Lula, por sua vez, teve seu momento de arrependimento com Dias Toffoli. Quando estava preso, foi impedido por Toffoli de comparecer ao velório do irmão. Só autorizou a ida quando faltavam 20 minutos para o enterro, e ainda sugeriu que o corpo fosse levado a um quartel para um velório improvisado. Lula, com razão, recusou. E essa mágoa, dizem, ainda ecoa no Planalto.

Agora, Lula tem uma nova lista de possíveis indicados: Jorge Messias, Rodrigo Pacheco, Bruno Dantas, Carol Proner... Nomes fortes. Mas vamos aos poréns.

Rodrigo Pacheco? Um político de direita que, de repente, virou um doce de pessoa, justo quando a vaga apareceu. Coincidência, claro. Já Bruno Dantas é cria de Gilmar Mendes. Precisa dizer mais?

— “Ah, Fernando, então você quer um ministro que diga amém a tudo que Lula fizer, como Nunes Marques e André Mendonça fazem com Bolsonaro?”

Não. A questão não é alinhamento cego. A verdadeira polarização não é entre esquerda e direita, mas entre quem defende a democracia e quem flerta com o autoritarismo; entre quem luta pelos vulneráveis e quem serve aos privilegiados; entre quem busca justiça e quem a transforma em privilégio.

Outros nomes correm por fora: Kakay, Lenio Streck, Pedro Serrano... Todos bons. Mas o que define um bom ministro do STF?

Além do tal “notório saber jurídico”, que, convenhamos, virou bordão, é preciso que o ministro saiba para que lado pender a balança: o lado dos que mais precisam de justiça. Hoje, ela pende para os patrões, os latifundiários, o INSS contra os aposentados. Gilmar, Toffoli, Fux, Barroso, Nunes Marques, Mendonça, Cármen Lúcia... todos muito comprometidos com a minoria abastada.

Por isso, minha aposta é Jorge Messias. Tem preparo, tem trajetória, tem compromisso. E Carol Proner, porque o STF precisa de mais mulheres, e porque ela é muito competente.

Mas, correndo totalmente por fora, e com chances rigorosamente nulas, apresento a candidatura do Zé Ninguém.

Sim, ele tem notório saber jurídico. Não no sentido tradicional, claro. Seu saber é notório justamente por ser... escasso. Mas ele conhece bem a lei da vida e da sobrevivência. E tem algo que falta a muitos togados: senso de justiça. Aquele impulso quase infantil de querer proteger os mais vulneráveis e punir quem os explora.

Portanto, se você acha que o mais importante para o STF é alguém que conheça leis, talvez o Zé Ninguém não seja o nome ideal. Mas se acredita que o essencial é ter compromisso com quem realmente precisa de justiça, então, quem sabe, ele mereça ao menos um voto de confiança. Ou um cafezinho no gabinete.

Mas, afinal, quem é o Zé Ninguém?

São milhões espalhados pelo Brasil. Gente que possui muito mais senso de justiça que a maioria dos ministros. Gente que não faz negócios com empresas por meio de escritórios de fachada. Gente que não organiza regabofes em Portugal. Gente que não acha que indígenas e aposentados sejam fardos para o país. Gente, enfim, que carrega nas costas, dia após dia, o peso de uma desigualdade de mais de quinhentos anos.

Lula, o Dom Juan da política brasileira

Por Fernando Castilho



Depois que ouvi Lula falar na então Rádio Bandeirantes, no programa O Trabuco do saudoso Vicente Leporace, acho que ainda nos anos 70, senti uma inquietação: quem era esse líder metalúrgico que ousava desafiar a ditadura em nome dos direitos de sua categoria? A curiosidade me levou à histórica assembleia no Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. E ali, no meio da massa operária, comecei a entender que aquele homem não era só barulho, mas também pura estratégia.

Mais tarde, estive por duas vezes em reuniões na casa emprestada pelo advogado Roberto Teixeira a Lula, no bairro de Ferrazópolis. Ainda estudante, me vi hipnotizado ao ouvi-lo falar sobre economia com uma lógica tão simples e intuitiva que faria muito doutor engasgar com a própria tese.

O tempo passou, e Lula foi colecionando aliados como quem coleciona figurinhas raras. Seu poder de sedução política é digno de estudo, ou de uma tese de doutorado com direito a banca rendida.

Por mais improvável que parecesse, lá estava ele como presidente, trocando confidências com George W. Bush e recebendo elogios rasgados de Barack Obama, que não economizou: “Esse é o cara!” Pois é. O cara.

Com Emmanuel Macron, presidente da França e da ala direita, não foi diferente. Foram filmados de mãos dadas na Floresta Amazônica, em Belém, como dois adolescentes em passeio escolar. Faltou só o piquenique e a trilha sonora.

O senador Ciro Nogueira, bolsonarista de carteirinha, chegou a declarar: “Ele é capaz de me seduzir em 15 minutos. É macio e jeitoso.” Um elogio que até hoje causa urticária na ala mais radical do Congresso.

Em 2022, Lula fez o impossível parecer trivial. Bastaram algumas conversas para transformar Geraldo Alckmin, aquele mesmo, seu adversário em outras épocas, em seu vice. A conciliação, afinal, é uma das marcas registradas do Barba. E ele assina com estilo.

E quem não lembra da prisão em Curitiba? Lula, enclausurado na sede da Polícia Federal, acabou conquistando justamente o carcereiro. Horas e horas de conversa e, no fim, mais um fã. Se tivesse mais tempo, talvez saíssem de lá com um podcast.

A mais recente conquista do Dom Juan da política parece ser ninguém menos que o presidente norte-americano Donald Trump. Em uma conversa telefônica de 30 minutos, Trump saiu encantado: “Gostei da ligação. Nossos países vão se sair muito bem juntos!” Prometeu mais encontros, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. Se isso não é charme, o que é então?

Nas entrevistas, seja com a imprensa progressista ou com os grandes veículos da mídia corporativa, o resultado é sempre o mesmo: entrevistadores saem satisfeitos, convencidos, quase convertidos. Lembro bem da entrevista com Reinaldo Azevedo durante a campanha de 2022. Justamente o cara que cunhou a expressão “petralha”. Tio Rei saiu de lá praticamente com uma estrela no peito.

Mas afinal, qual é o segredo desse poder de agregar?

Digo que é a verdade. A sinceridade no olhar. E uma biografia marcada pela coerência ou, no mínimo, pela habilidade de parecer coerente em qualquer cenário.

O poder do diálogo com Lula é tão surpreendente que os bolsonaristas evitam qualquer conversa com ele. E fazem bem. Porque se conversarem... é capaz que se apaixonem.

Pode ser até que Trump o traia. Afinal, isso não se descarta em nenhuma relação. Mas, por enquanto, parece que a coisa vai às mil maravilhas.

terça-feira, 1 de outubro de 2024

O que está faltando para Lula emplacar seus candidatos a prefeito?

Por Fernando Castilho

Imagem: reprodução redes sociais

O que Lula tem a aprender com López Obrador?


Deu na Folha: os candidatos a prefeito apoiados por Bolsonaro lideram as pesquisas em 23 municípios com mais de 200 mil habitantes e, em 11 deles podem vencer no primeiro turno. Os apoiados por Lula estão em primeiro lugar somente em 16 cidades e apenas 5 liquidariam a eleição em primeiro turno.

Apesar de estranha, a notícia é verdadeira, pelo menos antes do dia 6, quando o pleito é pra valer.

Mas, por que isto está acontecendo?

Sabemos que Bolsonaro fez o pior governo da história. Não há nenhuma obra de vulto, nenhuma universidade foi construída, nenhum grande hospital erguido. Além disso, ele foi responsável por pelo menos 400 mil mortes durante a epidemia e quase todo mundo teve uma vítima em sua família ou em seu rol de amizades.

O capitão enfrenta processos que vão desde falsificação de cartão de vacinas até tentativa de golpe de estado, passando pelo vergonhoso roubo de joias do Estado. É também o responsável pelo apetite insaciável por emendas do centrão, o que se constitui numa verdadeira sabotagem ao programa de governo de Lula.

Na contrapartida, Lula tem tido grandes êxitos. Alguns não são percebidos pela população, como o arcabouço fiscal e a reforma tributária, mas outros afetam de maneira muito positiva a vida dos brasileiros mais pobres como a enorme redução do desemprego, a inflação sob controle, o crescimento do PIB e a volta dos programas sociais.

Mas, então, por que os candidatos de Lula não decolam?

A explicação parece simples: o povo não sente a melhoria de vida. Ou, se sente, o outro lado desmente com fake news.

O fato inconteste é que não há comunicação. Não há ligação entre os feitos do governo Lula e o povo. Há uma desconexão.

O presidente do México, López Obrador, que deixa o cargo hoje, adotou em seu governo a estratégia de comunicação diária, através de lives, com o povo mexicano. Deve ser por isso que sua aprovação é de 68%. Essa aprovação lhe garantiu a eleição de sua sucessora, Claudia Sheinbaum.

Amanhã Lula estará na posse de Claudia. Espero que Obrador lhe dê alguns conselhos.


sábado, 14 de setembro de 2024

Pobreza política

Por Palas Atena

Retirantes, de Candido Portinari em livre leitura


A gente viveu a década de 80, com a redemocratização, a era sarney, collor. O PT atuando na defesa do trabalhador, da democracia. O império da glogolpe abortando toda tentativa de a esquerda (PT em específico) ganhar eleições.

Vivemos os anos 90 de domínio do tucanato no país, com fhc sucateando universidades, vendendo o patrimônio e sendo considerado o "príncipe" da Sociologia, mesmo depois de mandar esquecer o que ele tinha escrito. A política neoliberal posta em prática, com d. Ruth Cardoso tentando dar uma humanizada enquanto o pavão marido vivia romance com jornalista global e era incensado na mídia, nos meios acadêmicos, vendido como moderno.

Quem viveu essa época sabe o que foi Lula chegar ao poder. Passamos a viver o melhor dos mundos. Ali, havia um projeto de país menos desigual sendo gestado, com suas falhas, contradições, mas tinha um projeto de país mais inclusivo.

Penso que vocês não têm noção do que foi a miséria legada pela ditadura e mantida pelos governos sarney, collor e fhc. Não têm a ideia.

Me lembro de que, criança e adolescente, vi isso de muito perto. Minha mãe era da Pastoral na cidade onde nasci, interior do Norte de Minas. Era da Legião de Maria, ministra da eucaristia, superatuante na igreja. Além de atuar na igreja, minha mãe trabalhava na prefeitura dando assistência às escolas rurais e, também, na secretaria de uma escola estadual do bairro onde morávamos.

Nossa casa mais longe do centro (bairro dos ricos), era o bairro de classe média baixa, perto da periferia, onde a miséria grassava. Miséria, miséria mesmo. Na rua, a maioria das mulheres eram viúvas, todas amigas. Aquela coisa de bairro do interior.

Nossa casa era referência porque minha mãe era um elo entre o poder público, a igreja e o povo pobre. Todos os problemas possíveis e imagináveis passavam por essas instâncias de poder. E nossa casa era a dos "desvalidos".

Eles iam lá pedir comida, receber cesta básica que a Pastoral coletava (a atuação da igreja católica era intensa na população pobre). Para terem uma ideia, quando Betinho lançou a campanha Fome Zero, ele que é da minha cidade, lá em casa foi um dos pontos de distribuição dos donativos. O povo pobre, quando alguém estava à beira da morte, ia lá em casa atrás de minha mãe para fazer oração e até extrema-unção.

O que a gente vê hoje em relação aos pastores era feito pelas mulheres e homens que atuavam na igreja católica nas pastorais. Só que, naquela época, era acolhimento de verdade, era exercitar o princípio de que, sendo filhos de Deus, as pessoas precisavam ser amparadas.

Tinha uma lavadeira, que trabalhava lá para casa (a roupa mais bem lavada e passada da vida). Ela ia na semana pegar as trouxas de roupa para lavar e passar. Ela era alcoólatra. A nossa rua era o caminho para a casa dela.

Quando ela bebia à noite, estava às vezes tão ruim que, sabendo não conseguir chegar à casa dela, abria o portão de casa, entrava no alpendre onde ficavam as cadeiras para ver a vida passar na rua. Ela se deitava lá e dormia. Não batia na nossa porta porque já estava todo mundo dormindo e havia o respeito de não se mostrar naquele estado para pessoas de família. Quem é do interior sabe como funcionava essa ética das relações. Mas essa lavadeira se sentia confiante e segura o suficiente para dormir no alpendre.

De manhã, minha mãe ou outra pessoa de casa se levantava para sair para o trabalho ou buscar pão e ela estava lá no alpendre. Minha mãe a acordava. Dava o café da manhã, conversava com ela, dando os conselhos. Essa lavadeira me fascinava porque ela usava brincos de argola dourada, batom vermelhíssimo e fazia um pinta no rosto quando saía para os bares. Não tinha os dentes da frente, mas só saía nos "trinques", no que a pobreza lhe permitia.

Tinha outra figura lá, que era bipolar ou esquizofrênica. A mania dela era ir lá para os meios dos matos pegar lenha. Atravessava a cidade de uma ponta a outra para buscar essa lenha e levar para a casa dela. Passava na porta de casa de manhã indo para uma fazenda buscar a lenha e por volta do meio-dia, carregando a lenha.

Quando estava mais desequilibrada, ela falava palavrão, mas tanto palavrão hahaha. O povo a chamava só para vê-la responder com página inteira de xingamentos. Mas ela reconhecia nossa casa, minha mãe. Nunca a xingou.

Tinha vezes que entrava lá em casa para ganhar comida. É, gente, naquela época as pessoas pediam comida, roupa. Não tinha essa coisa de pedir dinheiro porque todo mundo era pobre (a gente era classe média baixa, passava muito aperto).

Quando vocês leem os contos de Guimarães Rosa, Vidas Secas de Graciliano Ramos, mas principalmente Guimarães, podem pensar que vivi e vi todo aquele sertão bruto e riquíssimo, demasiadamente humano. Aqueles personagens todos, com suas complexidades e fascínios, povoaram minha infância e adolescência.

Por que estou nesse relato de memória? Porque vi a vida das pessoas, a minha se transformarem com a chegada do PT à presidência. Porque acompanhei toda a trajetória de Lula, desde o sindicalista que era tratado como comunista, terrorista, povoando o imaginário do povo e aterrorizando a classe dominante por falar em nome do trabalhador.

Em minha cidade, conservadora, que tinha uma família se perpetuando no poder (direita), a miséria só começou a ser vencida quando o PT chegou à presidência, implantou as políticas de distribuição de renda, como o Bolsa Família.

Vocês não têm noção do que é miséria, pobreza, falta total de desenvolvimento, precariedade, falta de água de um Norte de Minas, irmanado com o Nordeste. Não têm noção.

E hoje vejo gerações que nasceram no pós-fhc ou eram crianças nessa época. Pegaram a bonança dos governos lulistas. Vejo essas gerações se dizendo de esquerda e progressistas, exercitando o mais ferrenho antipetismo, antilulismo. Uma geração, em geral urbana, que pegou um país institucionalmente mais organizado pela Constituição de 88, com seus avanços.

Vejo o desprezo e a arrogância como criticam Lula, como se fosse alguém ultrapassado, até de pelego o chamam porque ele faz conciliações. Eu fico por entender o porquê de tanto desprezo, travestido de suposta crítica. Vejo tudo isso e penso: vocês não estão entendendo nada, nada, nada.

Agora mesmo, estão batendo no governo e no PT porque supostamente não estão enfrentando arthur gângster lira para salvar a pele de glauber braga. A culpa é de Lula e do PT. Querem que o presidente assuma esse B.O. psolista. Só olho e penso: não estão entendendo nada, nada, nada.

A soberba é uma forma de húbris. Essas gerações tanto estão fazendo que vão conseguir minar o PT. Tanto desprezam Lula que ficarão no vazio quando não o tiverem mais para desprezar. De minha parte, vejo um grande vácuo quando Lula não mais estiver aqui, segurando todas essas pontas que impedem o país de sucumbir de vez a mais uma barbárie.

Aí essa gente toda, do alto do seu antipetismo, antilulismo, talvez saiba o que é pobreza, miséria, de fato.

 


sábado, 1 de junho de 2024

Governo precisa se livrar de um parasita chamado Congresso Nacional

Por Fernando Castilho

Foto: reprodução Internet

No parasitismo, apenas um dos organismos envolvidos é beneficiado e o outro é prejudicado. Sabemos quem está sendo beneficiado e quem, prejudicado.

Lula está fazendo um ótimo governo, pois os índices, todos positivos, falam por si, mas ainda não há uma clara percepção do povo sobre isso. Enquanto não há, a extrema-direita, agora engrossada pela direita que dizem ser civilizada e de diálogo, cresce assustadoramente no Congresso, impondo sua vitória em pautas que prejudicam o país, mas dão aquele gostinho de derrotar Lula. E fazem estardalhaço com isso.

Os fascistas explodem os vídeos nas redes sociais com seus vídeos feitos pra lacrar e faturar muito dinheiro (estima-se que só Nikolas Ferreira lucre mais de 200 mil reais em monetização) e a percepção do povo começa a ser de que o governo é um fracasso.

Há uma divisão de tarefas. Enquanto o Congresso tenta ferrar com o governo Lula, a mídia se encarrega de minar a confiança nele. Além disso, já começa a apresentar uma alternativa a ele, o Tarcísio. Ações combinadas.

Em 2002, a direita, o mercado e a grande mídia deixaram Lula se eleger porque apostaram em seu fracasso, já que o cara era um simples metalúrgico e não teria a capacidade de governar. Apostaram na queda de Lula e, após ser demonstrada a total incapacidade de o PT governar com um projeto de nação com viés socialista, seria, de uma vez por todas, enterrado de vez.

Mas aconteceu o contrário. Criaram a ficção do mensalão em 2005 para tentar derrubar Lula, mas não deu certo. Porém, a investida seguinte logrou êxito ao provocar um golpe em Dilma e afastar definitivamente a esquerda do poder.

Nesse processo, acabaram por criar o monstro Bolsonaro. Exageraram na dose e perceberam, já bem perto das eleições que poderiam terminar sendo comidos pelo monstro fascista que conduziria o Brasil a uma ditadura duradoura. Tentaram, então, uma terceira via, mas esta não vingou. A única saída foi fazer campanha contra a reeleição de Bolsonaro. Vejam que em nenhum momento fizeram campanha para eleger Lula. Este venceu por pouco.

A direita não vai querer correr o risco de ver o PT vencer novamente eleições seguidas. Desta vez, não. Vai tentar destruir Lula antes que ele consiga mais êxitos e consiga mostrar à população que o governo é ótimo.

Não tenho dúvidas de que a guerra contra ele será antecipada e violenta. E já começou. Percebam que toda a ajuda bilionária e inédita ao Rio Grande do Sul ainda não foi reconhecida devido ao trabalho incessante dos fascistas em propagar fake news. Lula, porém, não é neófito e já deve estar se preocupando com isso. O problema é que ele parece estar sozinho. Nenhum de seus ministros consegue acompanhar seu raciocínio e fazer uma análise de conjuntura afiada como ele. Principalmente os de direita que estão no governo, mas também Haddad, que parece preocupado em tentar agradar o mercado, esse mesmo que lhe dá índices pífios de aprovação em pesquisas.

Porém, algo me diz que Lula prepara alguma coisa para reagir. Uma boa ideia, creio que seria, chamar o Zé Dirceu para o governo. Para estar próximo de Lula. Para fazer articulações. Ele é o único que acompanharia o raciocínio de Lula.

Mas, seja isso ou não, é preciso uma reação forte do governo. E tem que ser rápida.



sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

O tapa que Quaquá deu em Donato

Por Fernando Castilho

Foto: reprodução

A CPMI do 8 de janeiro perdeu uma grande oportunidade de indiciar os deputados golpistas, talvez por receio de cortar na própria carne. Agora eles continuam a tentar o golpe.


Ficamos chocados com os deputados bolsonaristas que deram as costas para a bandeira do Brasil no plenário da Câmara durante a cerimônia de promulgação da emenda constitucional que reforma o sistema tributário do país? Por quê?

Era totalmente esperado que Lula seria vaiado pela extrema-direita, afinal, ele coroa a finalização de um ano de recuperação com um projeto que impactará economicamente a médio e a longo prazo a vida dos brasileiros. Vale ressaltar que a grande imprensa noticiou que o presidente recebeu aplausos e vaias, como se essas duas manifestações fossem geradas pelo mesmo número de pessoas, o que é totalmente falso, até porque foi a maioria dos parlamentares que votou a favor do projeto.

Já estava tardando uma reação mais violenta às provocações dos bolsonaristas e esta aconteceu pela palma da mão do deputado Washington Quaquá (PT-RJ) que foi parar no rosto do extremista de direita Messias Donato (Republicanos-ES).

Não, não se trata aqui de apoiar ou justificar a atitude de Quaquá, mas lembrar que Donato o provocou. E sabe-se lá o que foi falado.

No ensino fundamental II é muito comum um aluno de repente bater em outro, aparentemente sem motivo algum, mas quase sempre se trata de uma reação a uma grave ofensa. A diferença é que deputados não são pré-adolescentes, mas sim, pessoas eleitas para representar o povo no Congresso Nacional. Por isso, a atitude de Quaquá deve ser criticada.

Donato, mais tarde, foi chorando ao plenário fazer aquele discursinho de que é homem de bem, cristão de família. Aproveitou bem o incidente para se fazer de vítima ao dizer que agora sente muito medo.

No Instagram, Quaquá postou vídeo de Donato chorando e chamou o colega de "fascista chorão". "Adora xingar e agredir os outros, mas não aguenta uma porrada", afirmou.

Se não aprendermos com quem estamos lidando, não saberemos combatê-los. E essa gente só aprenderá debaixo da vara da Justiça.

Às vezes parece que esquecemos que deputados e senadores bolsonaristas foram influenciadores da tentativa de golpe de 8 de janeiro e que ainda estão tentando aglutinar forças para novas investidas.

A CPMI perdeu uma grande oportunidade de indiciar esse pessoal, talvez por receio de cortar na própria carne. Se fossem indiciados, talvez a esta altura se comportassem melhor.

Infelizmente, apesar de Lula ter durante este ano demonstrado a diferença entre os dois governos, Jair Bolsonaro, inacreditavelmente, ainda possui um grande número de apoiadores.

O fato é que os bolsonaristas estão perdidos em seus discursos que não contém propostas para o Brasil nem argumentos para contrapor as medidas que o governo Lula tem tomado. A todo momento só sabem falar de aborto, dama do tráfico e ida de Flávio Dino ao Complexo da Maré.

Nesta semana chegaram à ousadia de tentar encaminhar um processo de impeachment da ministra da saúde, Nísia Trindade por ela ter faltado a uma convocação na comissão de saúde da Câmara, plenamente justificada pela reunião ministerial do presidente Lula. Lembrando que ela já atendeu a inúmeras convocações para falar sobre aborto, drogas e consequências malignas da vacina da Covid. Jamais a questionam sobre a eficiência do SUS, da farmácia popular ou de outras políticas. E ela sempre repete as mesmas coisas. O objetivo é claro: fazer com que os ministros percam seu precioso tempo para boicotar o governo.

Foram contrários a reforma tributária, mas não disseram o que colocariam nela ou dela tirariam porque não têm, repito, propostas.

Esperemos que o novo Procurador Geral da República, Paulo Gonet, comece a aceitar denúncias contra os nomes mais ligados ao fundamentalismo, às fake-news e ao golpismo para que possamos em curto espaço de tempo ver essa gente ser cassada e pagar pelos seus crimes na Papuda, Bangu 8 ou Colmeia.

Parece que agora vai.

 


domingo, 17 de setembro de 2023

Ao lado das medalhas, uma mancha indelével nas fardas verde-oliva

Por Fernando Castilho

Foto: Fernando Souza/AFP

Por que e como os acampamentos dos golpistas em frente aos quartéis foram permitidos? Quem articulou?


Em meu texto anterior, O relatório da CPMI poupará os parlamentares golpistas?, defendi que o relatório da senadora Eliziane Gama na CPMI do 8 de janeiro incluísse, além do indiciamento dos militares envolvidos, uma moção de repúdio ao exército por dar apoio à súcia golpista, destacando que a democracia no Brasil só não foi destruída porque no momento mais crucial, naquele fio da navalha em que o novo governo se encontrava, Lula não solicitou a Garantia da Lei e da Ordem (GLO), que era somente o que as Forças Armadas estavam aguardando.

Por que essa punição, ainda que branda?

O exército, como instituição, não pode ser indiciado em sua totalidade. Somente aqueles militares que participaram direta ou indiretamente da intentona poderão ser condenados.

Porém, refletindo um pouco mais sobre como os acampamentos foram sendo montados em frente aos quartéis, podemos especular sobre como isso foi possível.

Todos sabemos – e isso foi explicado na última sessão da CPMI – que o exército não permite que nenhuma pessoa pare um carro ou permaneça por mais que alguns segundos em frente a um quartel porque o local é designado como área de segurança nacional. Se alguém ousar desobedecer, imediatamente soldados armados com fuzis poderão executar a prisão.

As pessoas inconformadas com a derrota de Jair Bolsonaro começaram aos poucos a montar acampamentos em frente aos quartéis, notadamente o de Brasília, sem que fossem incomodadas.  Pensando nisso, imagine a primeira pessoa que chegou com um carro para descarregar barracas e mantimentos. Ela deveria ter sido retirada dali no mesmo instante em que parou o carro, certo?

Mas, por que isso não aconteceu?

Só há uma possibilidade. Os soldados de plantão já tinham ordens para permitir a montagem dos acampamentos e os acampados já sabiam disso. Ou seja, já havia uma combinação prévia para que isso acontecesse.

Se essa suposição for verdadeira – e acredito que seja – os organizadores já tinham se reunido com o Alto Comando do Exército ou com o ministro da defesa, General Paulo Sérgio.

Quero dizer que essa combinação se deu entre o comando dos golpistas, muito provavelmente Jair Bolsonaro ou seus prepostos, generais Braga Netto e Augusto Heleno. Vale lembrar que os dois faziam parte do grupo que foi montado e que se reunia diariamente numa casa alugada para definir as estratégias após a vitória de Lula, enquanto Bolsonaro se refugiava nos Estados Unidos.

É a isso que a CPMI tem que chegar.

Uma vez permitidos os acampamentos, o exército forneceria água e energia elétrica e permitiria que empresas contribuíssem com alimentos, criando condições para que esses grupos fermentassem durante dois meses seu ódio e ousadia para que no dia 8 de janeiro agissem como ponta de lança do golpe, invadindo a Praça dos Três Poderes e implantando o terror.

Em seguida, num plano muito bem elaborado, diante da gravíssima situação, um presidente atônito e apavorado que havia tomado posse há somente 7 dias, não hesitaria em decretar a GLO.

Porém, o ministro Flávio Dino e Lula, escaldados que são, perceberam a armadilha.

Lula conclamou governadores e ministros do STF para se juntarem a ele para a defesa da democracia e nomeou um interventor para debelar os atos golpistas.

A essa altura, não foi possível mais insistir no golpe, já que as Forças Armadas como um todo a ele não aderiram, preferindo cumprir as novas ordens emanadas pelo interventor Capelli.

Lula parece ter hoje as forças sob seu comando, por isso, é fundamental que seja feita uma limpeza nelas.

Cabe à Polícia Federal indiciar militares golpistas como Braga Netto, Augusto Heleno e o general Dutra e cabe à CPMI indiciar todos e dar uma lição de moral que maculará para sempre a honra do exército através de uma moção de repúdio por ação e omissão por uma tentativa de golpe que colocaria de novo no poder um arruaceiro.

Ao lado das medalhas, uma mancha indelével nas fardas verde-oliva.