Nem de longe, a definição binária de esquerda e direita oferece caminho na busca de uma filiação ideológica.
Considerando que a interrogação se apresenta todos os dias, seguem as pistas.
Nosso
problema de grosso calibre é a referência da cartilha. Segundo ela,
a esquerda cerra fileiras com o trabalho; a direita, com o capital.
Nem
de longe, no entanto, essa definição binária oferece caminho na
busca de uma filiação ideológica.
Considerando
que a interrogação se apresenta todos os dias, seguem as pistas.
O
humano de esquerda busca a felicidade. Ponto! O humano de direita
também, mas pelo sucesso. E quase sempre o sucesso se mede pelo
patrimônio.
Não
bastou?!
Sigamos,
pois!
O
humano de esquerda busca o avanço. O humano de direita também, mas
não se importa de chegar sozinho (ou com poucos pares) ao destino.
Percebeu
agora a diferença? Não? Vamos em frente...
Durante
a caminhada, o humano de esquerda usa a mão como apoio. Ela
frequentemente está voltada para trás ou para baixo, para trazer ao
trajeto aquele que se atrasou ou caiu.
O
humano de direita também, mas sua mão busca a corda que o levará
antes ao outro lado do rio. É aquela que vai remar mais rapidamente.
E agarrará, ainda que solitária, a última passagem no trem que
atravessa a fronteira.
O
humano de esquerda tende a adorar sua família, aquela que começou
na África e que hoje habita todos os continentes. Ela se inaugura em
anônimos remotos e se resume em seus filhos.
O
humano de direita também adora sua família, mas é aquela de seu
núcleo particular e privado. Em defesa desta pequena célula social,
ele estabelece seu código particular de valores.
O
humano de esquerda busca a satisfação, é evidente. Porém, muito
mais satisfeito está quando seus semelhantes gozam do mesmo conforto
físico, mental e espiritual.
O
humano de direita igualmente busca a satisfação, mas contenta-se
com a própria ou aquela de seu clã.
O
humano de esquerda adora competir, mas consigo mesmo. Ele pretende
fazer melhor do que fez ontem e contribuir com seu coletivo. Quer dar
a ele de acordo com suas possibilidades.
O
humano de direita também compete, todos os dias, nas horas todas em
que permanece desperto. Mas assim o faz para superar seus
semelhantes. Quer dar a si mesmo todas as oportunidades.
O
humano de esquerda coopera, cultivando um sentimento de solidariedade
que atravessa as classes sociais. O humano de direita também
coopera, mas com suas corporações de ofício, na defesa de seus
interesses classistas.
O
humano de esquerda exercita dia e noite a projeção dialética. Ele
se sente também na pele dos famintos, dos desterrados, das vítimas
do preconceito, dos escravizados, dos injustiçados, de todos os
excluídos.
O
humano de direita também se projeta dialeticamente no outro. Ele se
mira nos que seguem no pelotão da frente. É essa conduta que
pretende emular. É este êxito que pretende reproduzir.
O
humano de esquerda ama as pessoas, especialmente quando elas se
chamam comunidade. O de direita também, especialmente quando elas se
chamam mercado.
O
humano de esquerda pensa em compartilhar seu excedente. O de direita
também, mas costuma cobrar juros altos pelo que entrega.
O
humano de esquerda, diante do colega sem merenda, é generoso e
divide parte da sua própria.
O
humano de direita também é generoso. Diante do famélico,
aconselha-o gentilmente a trabalhar mais.
O
humano de esquerda tende a compreender a causa da miséria. Associa-a
à exploração, à restrição de acessos e à negação de
direitos.
O
humano de direita também compreende bem a causa da miséria. Para
ele, é resultado da falta de esforço.
Nesse
sentido, o humano de esquerda valoriza demais o talento. Para isso,
luta para que todos desenvolvam suas potencialidades.
O
humano de direita também venera o talento, e lamenta que os pobres
tenham nascido sem essas qualidades especiais.
O
humano de esquerda pode ou não acreditar em Deus. Quando crê,
imagina que Ele instrua a mais perfeita comunhão. O humano de
direita também. Mas imagina que Ele defina e premie os escolhidos.
No
fundo, ninguém é 100% de esquerda ou 100% de direita, mas não é
tão difícil assim definir qual caminho desliza melhor sob nossos
pés.
E
você, viaja de que lado?
Walter Falceta é jornalista, pintor e músico
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